O MERCADO DO CRISTIANISMO por márcio salgues

 

 

Domingo é dia de marketing e proselitismo. Só em uma avenida próxima de onde moro há doze igrejas, entre católicas e evangélicas nas suas mais diversas ramificações, eu mesmo contei. Em outra das maiores avenidas do Recife há uma quantidade ainda maior de templos cristãos.

As faixas de pedestres se tornaram num palco ao ar livre a cada sinal vermelho, onde crianças carentes que fazem malabarismos com pedaços de cabos de vassouras – as mais experientes acendem as pontas desses paus fazendo as manobras com tochas – disputam espaço com religiosos imbuídos da tarefa de propagar o cristianismo. Em vários semáforos, duas pessoas estendem faixas com versículos bíblicos ou mensagens apocalípticas diante dos carros parados, enquanto o restante do grupelho segue distribuindo folhetos entre os motoristas e pessoas às janelas dos ônibus.O que não deixa de ser curioso sob a própria ótica cristã… Enquanto uns pedem comida, outros distribuem panfletos e lançam palavras ao vento, deixando de enxergar os mais necessitados bem ali ao seu lado.

A idéia básica é que todos pregam a mesma coisa: a salvação por meio de Jesus Cristo. Mas a prática mostra justamente, que predominam, em qualquer situação, as mesmas regras do neoliberalismo e da livre concorrência de mercado – no caso, o mercado de almas e contribuintes em potencial. Para tanto, qualquer diferencial é válido a fim de maximizar os benefícios oferecidos e minimizar as deficiências. Afinal, para que tantas denominações diferentes a poucos metros de distância se todos pregam a mesma coisa e tem o mesmo objetivo teoricamente?

Em um certo ponto existem três igrejas diferentes vizinhas. O “cliente-alma perdida” passa na frente, verifica as ofertas que variam de “loja” para “loja” – da simples hóstia aos mais mirabolantes milagres – é convidado a entrar, como numa grande feira livre, e seduzido – quando não induzido – a filiar-se àquela instituição. Algo como você entrar numa loja e o vendedor tentar lhe vender o produto a todo custo. Faz lembrar também a enorme campanha que o PT tem feito em busca de novos filiados, com bonitos outdoors, onde jovens exibem seu cartãozinho plástico do partido. O PT nasceu de pessoas que sofreram a repressão militar na própria pele. Hoje ser petista é moda; O PT virou uma mais uma grife para “patricinhas” e “mauricinhos”. Outros partidos, também tentando angariar neófitos, têm dado mostras de “indignação” com o governo na TV, como se com eles a coisa fosse diferente de “tudo isso que ainda continua aí”. Mas, voltando ao assunto, na disputa por neófitos cristãos, padres e pastores mais instruídos, aliás, fazem uso de técnicas de oratória e de persuasão impressionantes.

Até o Pop Marcelo Rossi… Digo, Padre Marcelo Rossi tem tido apoio da CNBB na sua megacruzada marqueteira cinematográfica em busca dos fiéis que debandaram para outros apriscos. No cristianismo como na política, está valendo de tudo. Na política já existem tucanos vermelhos e petistas com bico de tucano. Na igreja valem de danças aeróbicas a entrevistas com entidades espirituais umbandistas como uma certa “Pomba-gira” ou o um tal de “Tranca-rua”. Por que não tem nenhuma entidade com nome de “John” ou “Hans”? Como se não bastassem as mazelas deixadas por nossa colonização escravocrata, será que até as mazelas espirituais tem que vir dos cultos afro-brasileiros?

O cristianismo se dividiu tanto que se tornou um grande emaranhado de ramificações saídas da mesma raiz, a seita judaica formada pelos seguidores de Jesus após sua morte. Todas essas ramificações surgiram da “boa intenção” de seguir fielmente os ensinamentos de Jesus. Essa ânsia fervorosa foi tal que, deixou um rastro de sangue de milhões de vidas na nossa história, e ainda hoje alguns milhares de pessoas continuam morrendo brutalmente em nome do cristianismo. Basta dar um volta pelo mundo para ver. É um alívio ver que, pelo menos no Brasil e em boa parte do Ocidente a Igreja é um movimento pop e não provoca a morte de ninguém, exceto quando surge algum louco fanático.

O mundo seria muito melhor se não houvessem surgido as tantas religiões, clamando ser portadoras da verdade, que temos hoje, e fosse regido tão somente pela razão e por uma ética universal. É lógico que isso é um delírio assim como a “Utopia” de Thomas Morus, pois o homem se diversifica culturalmente de forma constante. No livro “Deus e os homens”, Voltaire, um dos maiores expoentes do iluminismo francês, nos diz que não houve idéia melhor que pudesse por um freio aos homens a fim de julgar seus sentimentos mais ocultos, do que a idéia de um deus que pune ou recompensa a cada indivíduo conforme seus atos.

Enquanto o cristianismo brasileiro se limitar à disputa por fiéis por meio do uso das técnicas de marketing e das Leis de Mercado tudo bem. Afinal o Mercado é quem dita as regras em tudo mesmo. Todavia, um trabalho que focasse mais os problemas sociais por parte das igrejas seria bem vindo, para que os nossos indigentes tivessem um pouco mais de dignidade humana no resto de existência que lhes sobra, e chegassem no céu um pouco mais nutridos.

“Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem! ”

 

 

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