Arquivos Diários: 18 abril, 2008

A GLOBALIZAÇÃO DAS MOSCAS-BRANCAS por maria regina vilarinho de oliveira

 

A sociedade moderna nunca teve tantas informações e tecnologias, facilidades e possibilidades como agora. O fluxo de pessoas e mercadorias, no mundo, aumentou tremendamente. Envolvidos nesses processos, os meios de comunicação, transporte e comércio tiveram o papel fundamental de ligar todos os recônditos deste planeta, transformando-o numa aldeia global.

Nesse cenário, um grupo de organismos, às vezes bastante discretos, contudo, bem sucedidos, tem sido caroneiro eficientes na disputa por melhores condições de sobrevivência: as moscas-brancas. Esses insetos passaram a ocupar posição de destaque. O fato estaria relacionado à movimentação do homem? Quais as influências dos novos rumos da sociedade humana nesses organismos? Existe alguma conexão entre moscas-brancas e os rumos agrícolas dados pelo homem? Podem esses indivíduos também estar tirando proveito dos reflexos da globalização mundial da economia?

As moscas-brancas, por serem insetos muito pequenos, a maioria com menos de 2 mm no tamanho, e por possuírem o hábito de permanecer em locais sombreados – debaixo das folhas das plantas – têm sido facilmente transportadas em plantas ornamentais para todas as regiões do planeta.

Recentemente, uma dessas espécies, a mosca-branca da batata-doce, do fumo e do algodão, Bemisia tabaci, mostrou à comunidade científica mundial e à sociedade em geral, como um inseto tão minúsculo pode acompanhar e adaptar-se facilmente às mudanças de hábito do homem. As práticas agrícolas e as tendências de mercado desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento de um complexo de populações dentro dessa espécie.

Podemos entender por práticas agrícolas aquelas que transformaram a agricultura de sobrevivência do passado em um engendrado mecanismo de sofisticação no presente, produzindo alimentos em abundância para uma população de aproximadamente seis bilhões de pessoas.

A mosca-branca, por sua vez, também desenvolveu um processo dinâmico de sobrevivência e reprodução da espécie por meio da transformação de açúcares alcóois, sorbitol para frutose e vice-versa, permitindo a sua ocupação em todos os nichos da Terra, com exceção da Antártida e dos ambientes salinos. A ocupação de diferentes nichos ecológicos associado à facilidade com que o inseto se adapta à alimentação de diferentes plantas hospedeiras, incorporando nos dias de hoje mais de 700 espécies de plantas em seu cardápio, transformou-a num dos insetos de maior impacto na entomologia agrícola, levando-a a ser chamada de a “praga do século XX”.

Nesta altura dos relatos, o leitor então pergunta – e daí? Será que isto não é mais uma estória de ficção científica? Infelizmente, a verdade é que, essa praga, ao desenvolver diferentes mecanismos de sobrevivência, formou até o momento, em diferentes regiões do mundo, mais de 20 biótipos distribuídos dentro dos seis grupos. O que seria um biótipo (ou uma raça)? São populações com potenciais de maximizar seus papéis e melhorar sua capacidade de virulência mais rápido que a capacidade das plantas hospedeiras de melhorarem seus sistemas de defesa, levando, de certo modo, a pequenas mutações entre os indivíduos, diferenciando-os e muitas vezes isolando-os geograficamente.

A expressão econômica dos diferentes biótipos de B. tabaci, frente a este quadro, vai desde uma extrema eficiência na transmissão de vírus de plantas (vetor – modo indireto de danos), até diretamente, no papel de praga, através da injeção de toxinas durante a alimentação (modo direto de danos).

Da metade da década de 1980 em diante, alguns países se defrontaram com nuvens do inseto em áreas agrícolas e grandes perdas em culturas do sistema produtivo. Nos Estados Unidos, apenas para citar um exemplo, as perdas causadas pelo inseto chegaram a cerca de US$ 500 milhões/ano. Esse impacto foi atribuído ao biótipo B de B. tabaci. Este mesmo biótipo entrou no Brasil por volta de 1991, também através de plantas ornamentais e já provocou perdas superiores a R$ 10 bilhões, em todo o país, tanto pela praga quanto pelo vetor. Sem contar os prejuízos causados na Ásia e Mediterrâneo.

O que chamou a atenção da comunidade científica internacional é o fato de que apenas um único biótipo desta espécie provocou a maioria dos danos relatados no mundo. Fez-se então a seguinte pergunta: se até o momento já foram detectados cerca de 20 biótipos desta espécie, o que esperar de alguns dos outros que possuem o hábito de polifagia (alimentação de muitas espécies de plantas de diferentes famílias)?

Como surgiu o biótipo B e por que ele passou a provocar danos extensivos a várias culturas, não se sabe ao certo, há apenas suposições. Também não se conhece ainda a origem e a relação entre os diferentes biótipos de Bemisia e qual o grau de risco que eles representam frente a novas introduções em diferentes áreas no mundo. Contudo, sabe-se que B. tabaci é termofílica, isto é, se adapta muito bem às regiões tropicais.

Dentro desta perspectiva, recentemente, um dos biótipos chamado de Q, até então inexpressivo, na região do Oriente Médio, passou a desempenhar um papel mais agressivo em países do Mediterrâneo, como Israel, Espanha, Itália, Portugal e Marrocos. Esse biótipo tem demonstrado ser mais eficiente (1) na transmissão de vírus, especialmente o “tomato yellow leaf curl vírus” (TYLCV) (vírus exótico para o Brasil), (2) durante a reprodução, (3) na alimentação e (4) no desenvolvimento de resistência aos inseticidas. As perdas provocadas por ele até o momento têm sido maiores que as do biótipo B, em algumas das regiões onde já foi introduzido, principalmente como vetor do TYLCV. Pelo que se sabe até o momento, a sua preferência alimentar recai sobre o melão, seguido pelo tomate.

Pelo próprio comportamento dos indivíduos deste biótipo, será uma questão de tempo, a sua presença ser detectada em outras regiões do mundo corroborado pela eficiência dos sistemas de transporte e de comércio. Por meio de plantas ornamentais, este biótipo foi introduzido, recentemente, nas casas-de-vegetação da Noruega, onde demonstrou o desenvolvimento de resistência a alguns inseticidas utilizados para o seu controle.

Dentro da complexidade desta espécie, outros biótipos também agressivos e exóticos ao Brasil, transmissores de viroses, devem ser vistos com cautela. São eles: o J, que é polífago, ocorre na Nigéria e é transmissor do vírus TYLCV, raça do Iêmem; o da mandioca, ocorre na Costa do Marfim, se alimenta de mandioca e berinjela e é transmissor do “african cassava mosaic vírus” (ACMV), entre vários outros biótipos.

O ACMV já provocou perdas superiores a US$ 2 bilhões e queda de 50% da produção da mandioca no continente africano. O principal país afetado é Uganda, porém, no momento o vírus se dispersa para vários outros países daquele continente. O vírus, exótico para a América Latina, foi eficientemente interceptado em um aeroporto brasileiro, proveniente do continente africano, em manivas de mandioca trazidas por um turista.

Outras culturas também têm sofrido perdas de produção, como o algodão, o tomate, o feijão, por causa de algum dos biótipos da mosca-branca. Vários países asiáticos têm sofrido profundos reveses na produção de algodão, pela transmissão de vírus por B. tabaci, nesta cultura. O TYLCV que afeta profundamente a cultura do tomate é facilmente adquirido pelo inseto, levando apenas dez minutos para ser adquirido durante a alimentação, contudo persistindo por toda a vida no organismo do inseto. O vírus apresenta também, por sua vez, várias raças.

Ficam então as seguintes perguntas: será que no Brasil a comunidade científica já está preparada para conviver com mais esta praga ou com outras que estão na iminência de ser introduzidas, ou ainda com a complexidade dos insetos? E o sistema de defesa agrícola, já se movimenta para adotar medidas fitossanitárias preventivas? Muito se cobra dos órgãos oficiais no sentido de tomar decisões de proteção fitossanitária, contudo, a sociedade civil, que tem papel fundamental nesse processo, como pode contribuir?

Nesse último caso, uma questão lógica de cooperação e de grande eficácia é não introduzir ou controlar o trânsito no país, de plantas ornamentais ou plântulas de culturas que podem ser hospedeiras do biótipo Q de Bemisia tabaci ou de outras pragas exóticas. Traçando um paralelo entre a área animal e vegetal, observamos que a aftosa desempenha o mesmo papel que a mosca-branca. O vírus da doença que afeta o rebanho bovino apresenta sete raças e sub-raças, em diversas regiões do globo, obrigando o desenvolvimento de vacinas específicas para cada uma delas. O consumo de carne bovina está ameaçado em praticamente todos os países, já que muitas sociedades não consomem a carne proveniente de rebanho vacinado. O mal da vaca-louca é outro problema grave, que se tornou intercontinental, a ser resolvido pelos órgãos sanitários internacionais.

Frente a esses desafios, o que nos reserva o futuro? Será que vamos passar novamente por problemas semelhantes ao que tivemos com o Canadá?

Outras espécies e complexos de espécies de moscas-brancas e/ou de outros organismos-pragas também poderão colocar em perigo a soberania agrícola do país. Portanto, é necessário adotar políticas públicas eficientes para que a agricultura se torne competitiva, de qualidade, mudando a “imagem Brasil”.

(*) Maria Regina Vilarinhos de Oliveira é Biológa,
Doutora, Pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos
e Biotecnologia (Cenargen), C.P. 02372, CEP 70.849-970,
Brasília, DF.

 

 

CADA GORILA TEM O EINSTEN QUE MERECE por paulo giardullo

Artigo sobre o livro “O Macaco e a Essência” de Aldous Huxley

O escritor inglês Aldous Huxley escreveu o romance O Macaco e a Essência em 1948, mesmo ano que a obra-prima de George Orwell, 1984. Huxley fez uma previsão sombria de um hipotético futuro da humanidade, em que a Terra estaria arrasada por explosões de bombas atômicas após a temida Terceira Guerra Mundial. Os sobreviventes teriam formado uma civilização vivendo em situação precária, entre os efeitos colaterais da radiação nos organismos que produziam deformações assustadoras e uma espécie de primitivismo urbano, nos escombros daquilo que teria sobrado do mundo civilizado. O nome do Demo seria mencionado e até referenciado freqüentemente por estes miseráveis semi-mutantes, numa alusão do autor ao fato de que O Mal presente na história da humanidade através das guerras, havia triunfado com o apocalipse atômico.

Pois, para fazer a abertura desse seu romance, o autor se utilizou de uma alegoria interessante: dois gorilas-chefes comandam cada, um grupo de milhares de gorilas em fileiras padronizadas. Um grupo com uniforme cáqui e o outro de verde oliva. Com os dois grupos posicionados frente a frente, os líderes bradavam gritos de guerra com teor étnico-nacionalista-religioso e eram acompanhados em coro pelos gorilas subordinados. Todos rangiam os dentes e expressavam ferocidade. Um detalhe importante: cada líder segurava um velho nu, de quatro como um cão, preso por uma coleira. Cada líder parecia ameaçar o outro com seu velho, querendo demonstrar ser o seu mais feroz que o do outro, como se fossem dois jovens musculosos que poriam seus cães Pit Bull para brigar. O velho parecia assustado e arrependido no meio daquela confusão. Ele parecia dizer: “Olha! Parem com isto, vocês não sabem que bobagem estão fazendo”. Mas, recuar nunca faria parte do vocabulário daqueles gorilas-chefes, cada um querendo o melhor para sua comunidade de obstinados gorilas. Depois houve uma grande explosão e na cena seguinte, o romance já retratava o planeta devastado.

Talvez seja uma alegoria meio surrealista e complicada de se entender. Mas, o que eu entendi foi que os dois exércitos de gorilas com os ânimos inflamados de guerreiros são uma representação de como os humanos perdem seu lado “civilizado” durante o clamor da guerra e deixam latente seu lado mais cruelmente animal e primitivo. Os gritos de ordem étnico-nacionalista-religiosos são os mecanismos de manipulação que levam grandes massas de humanos a se separarem em grupos com estas motivações particularizadas e se esquecerem do óbvio da sua essência comum, ou seja, que fazem parte de uma grande unidade humana e planetária. O velho que cada líder segura pela coleira, de modo ameaçador, representa Einsten, o criador das bases que tornaram possível a bomba atômica. Ou seja, cada líder ostenta o fruto da inteligência do velho cientista e ameaça com ele desequilibrar o conflito entre os dois grupos de gorilas e “aniquilar” o inimigo num passe de mágica. Mas se esquecem de que serão destruídos juntos.

Um dia, vi pela TV, a imagem de dois sentinelas, um da Índia e outro do Paquistão, em uma ponte na fronteira entre os dois países, que estão em clima de “quase” guerra. Esta imagem se encaixava muito na alegoria dos gorilas de Huxley. Ao assumir o posto do seu lado, ambos marchavam solenemente, pisando duro, até ficarem frente a frente e encaravam o outro, bem de perto, com um olhar feroz. Eles quase rosnavam num ritual sinistro. Depois se separavam e iam assumir tranqüilamente seus postos. Vale lembrar que ambos países possuem bomba atômica e estão em acirrada disputa… étnico-nacionalista-religiosa. Acho a alegoria de Huxley muito coerente e atual, mas questiono uma coisa: será que seres humanos com gestos e atitudes da mais estúpida barbárie lembram mesmo os gorilas com seu instinto animal ou pelo contrário, são atitudes exclusivamente humanas, mesmo? O mesmo Huxley nos dá a resposta em outra obra sua, em que diz que só o homem é capaz de maldades como a Inquisição ou o Holocausto Nazista, porque só ele possui o dom da palavra e é através dela que o mal toma forma, assim como as grandiosas realizações da humanidade.

ELOGIO DO LOUCO-BOM poema de jairo pereira

 

 

um louco brilhante é de ser sempre convicto firme nas intenções de aproveitamento semiótico fotóptico alterado

altivo no porte grandioso no gesto megalômano realizador na fúria da criação um louco um louco-bom crescer a voz no tempo no vento alardear significação às coisas mais desprestigiadas um louco

um louco-bom investir dinheiro na imaginação dar sempre bom dia ao bom-bugre um louco um louco-bom acreditar no inacreditável

não acredito na loucura dessacralizada na loucura que não espalha mudas frutíferas pelos quintais fermentos pólens flores polímeros hígidos grãos semeados em áridos terrenos um louco um louco-bom é de ser superior a tudo no entre-homens trocar carícias com as árvores-assassinadas da floresta acender luzes fluorescentes no interior das cavernas pescar com os dedos os peixes velozes fingir viver muitas vidas numa só :vida: um louco um louco-bom ter paixão por cavalos voar com os pássaros migratórios um louco-aéreo espantar as vespas límias do baixo-astral marcar a nathura que habita com seus passos gestos asas olhares de mil caminhos um louco um louco-bom legislar em causa própria mentir pra seu governo um louco um louco-bom alquimista prodigioso  misturar elementos contrários ao bel prazer adornar a caça abatida com os restos de suas próprias vestes um louco um louco-bom afirmativo anárquico em ato forjar mundos novos nas pupilas insones & ganhar a vida.

 

COMO SE ESTIVESSE APAIXONADO poema de fernando tavares rodrigues

Para quem não sabe como é
(como se escreve um poema de amor)
eu vou dizer.

Como se estivesse apaixonado
Falar desse teu corpo exagerado
Que apenas aos meus olhos ganha cor,
De um coração em mim ante estreado
Num palco onde jurei fazer-te amor.
Esculpir esses cabelos impossíveis
Que nunca mãos algumas alisaram,


Desflorar esses vales inacessíveis
Onde os outros de vésperas naufragaram.
Contar como se ardesse de desejo
As pernas de cetim que tu me abriste
E a boca que se derreteu num beijo,
Soluço de sorriso que desiste.


Dizer, porquê? Se todo o mundo sabe
Que quando se ama não se escreve
E que, então, o tempo todo cabe
Naquele instante breve que se teve.

Contar o resto seria apenas feio,
Sentir o que não foi, deselegante.
Falar do que te disse pelo meio
Só se não fosse homem, nem amante

 

 

 

SAUDADE poema de gilka machado

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

 

 

De quem é esta saudade,
de quem?
 

 

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo…
 

 

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo…
 

 

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?