A GLOBALIZAÇÃO DAS MOSCAS-BRANCAS por maria regina vilarinho de oliveira

 

A sociedade moderna nunca teve tantas informações e tecnologias, facilidades e possibilidades como agora. O fluxo de pessoas e mercadorias, no mundo, aumentou tremendamente. Envolvidos nesses processos, os meios de comunicação, transporte e comércio tiveram o papel fundamental de ligar todos os recônditos deste planeta, transformando-o numa aldeia global.

Nesse cenário, um grupo de organismos, às vezes bastante discretos, contudo, bem sucedidos, tem sido caroneiro eficientes na disputa por melhores condições de sobrevivência: as moscas-brancas. Esses insetos passaram a ocupar posição de destaque. O fato estaria relacionado à movimentação do homem? Quais as influências dos novos rumos da sociedade humana nesses organismos? Existe alguma conexão entre moscas-brancas e os rumos agrícolas dados pelo homem? Podem esses indivíduos também estar tirando proveito dos reflexos da globalização mundial da economia?

As moscas-brancas, por serem insetos muito pequenos, a maioria com menos de 2 mm no tamanho, e por possuírem o hábito de permanecer em locais sombreados – debaixo das folhas das plantas – têm sido facilmente transportadas em plantas ornamentais para todas as regiões do planeta.

Recentemente, uma dessas espécies, a mosca-branca da batata-doce, do fumo e do algodão, Bemisia tabaci, mostrou à comunidade científica mundial e à sociedade em geral, como um inseto tão minúsculo pode acompanhar e adaptar-se facilmente às mudanças de hábito do homem. As práticas agrícolas e as tendências de mercado desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento de um complexo de populações dentro dessa espécie.

Podemos entender por práticas agrícolas aquelas que transformaram a agricultura de sobrevivência do passado em um engendrado mecanismo de sofisticação no presente, produzindo alimentos em abundância para uma população de aproximadamente seis bilhões de pessoas.

A mosca-branca, por sua vez, também desenvolveu um processo dinâmico de sobrevivência e reprodução da espécie por meio da transformação de açúcares alcóois, sorbitol para frutose e vice-versa, permitindo a sua ocupação em todos os nichos da Terra, com exceção da Antártida e dos ambientes salinos. A ocupação de diferentes nichos ecológicos associado à facilidade com que o inseto se adapta à alimentação de diferentes plantas hospedeiras, incorporando nos dias de hoje mais de 700 espécies de plantas em seu cardápio, transformou-a num dos insetos de maior impacto na entomologia agrícola, levando-a a ser chamada de a “praga do século XX”.

Nesta altura dos relatos, o leitor então pergunta – e daí? Será que isto não é mais uma estória de ficção científica? Infelizmente, a verdade é que, essa praga, ao desenvolver diferentes mecanismos de sobrevivência, formou até o momento, em diferentes regiões do mundo, mais de 20 biótipos distribuídos dentro dos seis grupos. O que seria um biótipo (ou uma raça)? São populações com potenciais de maximizar seus papéis e melhorar sua capacidade de virulência mais rápido que a capacidade das plantas hospedeiras de melhorarem seus sistemas de defesa, levando, de certo modo, a pequenas mutações entre os indivíduos, diferenciando-os e muitas vezes isolando-os geograficamente.

A expressão econômica dos diferentes biótipos de B. tabaci, frente a este quadro, vai desde uma extrema eficiência na transmissão de vírus de plantas (vetor – modo indireto de danos), até diretamente, no papel de praga, através da injeção de toxinas durante a alimentação (modo direto de danos).

Da metade da década de 1980 em diante, alguns países se defrontaram com nuvens do inseto em áreas agrícolas e grandes perdas em culturas do sistema produtivo. Nos Estados Unidos, apenas para citar um exemplo, as perdas causadas pelo inseto chegaram a cerca de US$ 500 milhões/ano. Esse impacto foi atribuído ao biótipo B de B. tabaci. Este mesmo biótipo entrou no Brasil por volta de 1991, também através de plantas ornamentais e já provocou perdas superiores a R$ 10 bilhões, em todo o país, tanto pela praga quanto pelo vetor. Sem contar os prejuízos causados na Ásia e Mediterrâneo.

O que chamou a atenção da comunidade científica internacional é o fato de que apenas um único biótipo desta espécie provocou a maioria dos danos relatados no mundo. Fez-se então a seguinte pergunta: se até o momento já foram detectados cerca de 20 biótipos desta espécie, o que esperar de alguns dos outros que possuem o hábito de polifagia (alimentação de muitas espécies de plantas de diferentes famílias)?

Como surgiu o biótipo B e por que ele passou a provocar danos extensivos a várias culturas, não se sabe ao certo, há apenas suposições. Também não se conhece ainda a origem e a relação entre os diferentes biótipos de Bemisia e qual o grau de risco que eles representam frente a novas introduções em diferentes áreas no mundo. Contudo, sabe-se que B. tabaci é termofílica, isto é, se adapta muito bem às regiões tropicais.

Dentro desta perspectiva, recentemente, um dos biótipos chamado de Q, até então inexpressivo, na região do Oriente Médio, passou a desempenhar um papel mais agressivo em países do Mediterrâneo, como Israel, Espanha, Itália, Portugal e Marrocos. Esse biótipo tem demonstrado ser mais eficiente (1) na transmissão de vírus, especialmente o “tomato yellow leaf curl vírus” (TYLCV) (vírus exótico para o Brasil), (2) durante a reprodução, (3) na alimentação e (4) no desenvolvimento de resistência aos inseticidas. As perdas provocadas por ele até o momento têm sido maiores que as do biótipo B, em algumas das regiões onde já foi introduzido, principalmente como vetor do TYLCV. Pelo que se sabe até o momento, a sua preferência alimentar recai sobre o melão, seguido pelo tomate.

Pelo próprio comportamento dos indivíduos deste biótipo, será uma questão de tempo, a sua presença ser detectada em outras regiões do mundo corroborado pela eficiência dos sistemas de transporte e de comércio. Por meio de plantas ornamentais, este biótipo foi introduzido, recentemente, nas casas-de-vegetação da Noruega, onde demonstrou o desenvolvimento de resistência a alguns inseticidas utilizados para o seu controle.

Dentro da complexidade desta espécie, outros biótipos também agressivos e exóticos ao Brasil, transmissores de viroses, devem ser vistos com cautela. São eles: o J, que é polífago, ocorre na Nigéria e é transmissor do vírus TYLCV, raça do Iêmem; o da mandioca, ocorre na Costa do Marfim, se alimenta de mandioca e berinjela e é transmissor do “african cassava mosaic vírus” (ACMV), entre vários outros biótipos.

O ACMV já provocou perdas superiores a US$ 2 bilhões e queda de 50% da produção da mandioca no continente africano. O principal país afetado é Uganda, porém, no momento o vírus se dispersa para vários outros países daquele continente. O vírus, exótico para a América Latina, foi eficientemente interceptado em um aeroporto brasileiro, proveniente do continente africano, em manivas de mandioca trazidas por um turista.

Outras culturas também têm sofrido perdas de produção, como o algodão, o tomate, o feijão, por causa de algum dos biótipos da mosca-branca. Vários países asiáticos têm sofrido profundos reveses na produção de algodão, pela transmissão de vírus por B. tabaci, nesta cultura. O TYLCV que afeta profundamente a cultura do tomate é facilmente adquirido pelo inseto, levando apenas dez minutos para ser adquirido durante a alimentação, contudo persistindo por toda a vida no organismo do inseto. O vírus apresenta também, por sua vez, várias raças.

Ficam então as seguintes perguntas: será que no Brasil a comunidade científica já está preparada para conviver com mais esta praga ou com outras que estão na iminência de ser introduzidas, ou ainda com a complexidade dos insetos? E o sistema de defesa agrícola, já se movimenta para adotar medidas fitossanitárias preventivas? Muito se cobra dos órgãos oficiais no sentido de tomar decisões de proteção fitossanitária, contudo, a sociedade civil, que tem papel fundamental nesse processo, como pode contribuir?

Nesse último caso, uma questão lógica de cooperação e de grande eficácia é não introduzir ou controlar o trânsito no país, de plantas ornamentais ou plântulas de culturas que podem ser hospedeiras do biótipo Q de Bemisia tabaci ou de outras pragas exóticas. Traçando um paralelo entre a área animal e vegetal, observamos que a aftosa desempenha o mesmo papel que a mosca-branca. O vírus da doença que afeta o rebanho bovino apresenta sete raças e sub-raças, em diversas regiões do globo, obrigando o desenvolvimento de vacinas específicas para cada uma delas. O consumo de carne bovina está ameaçado em praticamente todos os países, já que muitas sociedades não consomem a carne proveniente de rebanho vacinado. O mal da vaca-louca é outro problema grave, que se tornou intercontinental, a ser resolvido pelos órgãos sanitários internacionais.

Frente a esses desafios, o que nos reserva o futuro? Será que vamos passar novamente por problemas semelhantes ao que tivemos com o Canadá?

Outras espécies e complexos de espécies de moscas-brancas e/ou de outros organismos-pragas também poderão colocar em perigo a soberania agrícola do país. Portanto, é necessário adotar políticas públicas eficientes para que a agricultura se torne competitiva, de qualidade, mudando a “imagem Brasil”.

(*) Maria Regina Vilarinhos de Oliveira é Biológa,
Doutora, Pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos
e Biotecnologia (Cenargen), C.P. 02372, CEP 70.849-970,
Brasília, DF.

 

 

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