CADA GORILA TEM O EINSTEN QUE MERECE por paulo giardullo

Artigo sobre o livro “O Macaco e a Essência” de Aldous Huxley

O escritor inglês Aldous Huxley escreveu o romance O Macaco e a Essência em 1948, mesmo ano que a obra-prima de George Orwell, 1984. Huxley fez uma previsão sombria de um hipotético futuro da humanidade, em que a Terra estaria arrasada por explosões de bombas atômicas após a temida Terceira Guerra Mundial. Os sobreviventes teriam formado uma civilização vivendo em situação precária, entre os efeitos colaterais da radiação nos organismos que produziam deformações assustadoras e uma espécie de primitivismo urbano, nos escombros daquilo que teria sobrado do mundo civilizado. O nome do Demo seria mencionado e até referenciado freqüentemente por estes miseráveis semi-mutantes, numa alusão do autor ao fato de que O Mal presente na história da humanidade através das guerras, havia triunfado com o apocalipse atômico.

Pois, para fazer a abertura desse seu romance, o autor se utilizou de uma alegoria interessante: dois gorilas-chefes comandam cada, um grupo de milhares de gorilas em fileiras padronizadas. Um grupo com uniforme cáqui e o outro de verde oliva. Com os dois grupos posicionados frente a frente, os líderes bradavam gritos de guerra com teor étnico-nacionalista-religioso e eram acompanhados em coro pelos gorilas subordinados. Todos rangiam os dentes e expressavam ferocidade. Um detalhe importante: cada líder segurava um velho nu, de quatro como um cão, preso por uma coleira. Cada líder parecia ameaçar o outro com seu velho, querendo demonstrar ser o seu mais feroz que o do outro, como se fossem dois jovens musculosos que poriam seus cães Pit Bull para brigar. O velho parecia assustado e arrependido no meio daquela confusão. Ele parecia dizer: “Olha! Parem com isto, vocês não sabem que bobagem estão fazendo”. Mas, recuar nunca faria parte do vocabulário daqueles gorilas-chefes, cada um querendo o melhor para sua comunidade de obstinados gorilas. Depois houve uma grande explosão e na cena seguinte, o romance já retratava o planeta devastado.

Talvez seja uma alegoria meio surrealista e complicada de se entender. Mas, o que eu entendi foi que os dois exércitos de gorilas com os ânimos inflamados de guerreiros são uma representação de como os humanos perdem seu lado “civilizado” durante o clamor da guerra e deixam latente seu lado mais cruelmente animal e primitivo. Os gritos de ordem étnico-nacionalista-religiosos são os mecanismos de manipulação que levam grandes massas de humanos a se separarem em grupos com estas motivações particularizadas e se esquecerem do óbvio da sua essência comum, ou seja, que fazem parte de uma grande unidade humana e planetária. O velho que cada líder segura pela coleira, de modo ameaçador, representa Einsten, o criador das bases que tornaram possível a bomba atômica. Ou seja, cada líder ostenta o fruto da inteligência do velho cientista e ameaça com ele desequilibrar o conflito entre os dois grupos de gorilas e “aniquilar” o inimigo num passe de mágica. Mas se esquecem de que serão destruídos juntos.

Um dia, vi pela TV, a imagem de dois sentinelas, um da Índia e outro do Paquistão, em uma ponte na fronteira entre os dois países, que estão em clima de “quase” guerra. Esta imagem se encaixava muito na alegoria dos gorilas de Huxley. Ao assumir o posto do seu lado, ambos marchavam solenemente, pisando duro, até ficarem frente a frente e encaravam o outro, bem de perto, com um olhar feroz. Eles quase rosnavam num ritual sinistro. Depois se separavam e iam assumir tranqüilamente seus postos. Vale lembrar que ambos países possuem bomba atômica e estão em acirrada disputa… étnico-nacionalista-religiosa. Acho a alegoria de Huxley muito coerente e atual, mas questiono uma coisa: será que seres humanos com gestos e atitudes da mais estúpida barbárie lembram mesmo os gorilas com seu instinto animal ou pelo contrário, são atitudes exclusivamente humanas, mesmo? O mesmo Huxley nos dá a resposta em outra obra sua, em que diz que só o homem é capaz de maldades como a Inquisição ou o Holocausto Nazista, porque só ele possui o dom da palavra e é através dela que o mal toma forma, assim como as grandiosas realizações da humanidade.

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