Arquivos Diários: 19 abril, 2008

A ESQUERDA QUE VIROU DIREITA VIA O POPULISMO por thiago de aragão


Existem algumas coisas que só ocorrem na América Latina. A terminologia “esquerda” e “direita” que insistem em utilizar no continente está cada vez mais confusa e defasada.Como latino-americanos, nunca soubemos definir propriamente os termos “esquerdista” e “direitista”. São termos que eram simplesmente atribuídos a um grupo e esse grupo o assumia ou não. Nunca houve a necessidade de se compreender o que os termos realmente significam.

Um caso bastante interessante é o caso do Partido Aprista Peruano, ou simplesmente A.P.R.A. Desde sua fundação por Haya de la Torre, o partido foi considerado um bastião da esquerda, não só peruana, mas latino-americana. Tido muitas vezes como o partido esquerdista mais bem estruturado da América Latina, o Apra serviu de exemplo para a formação do Partido dos Trabalhadores no Brasil e até do Movimiento al Socialismo na Venezuela e na Bolívia. No entanto, os tempos mudaram. Hoje o Apra é o partido do presidente peruano Alan Garcia, grande aliado continental de Álvaro Uribe, presidente colombiano. Seu modelo de governar (se é que há) é visto como opositor ao modo chavista de governar. Hugo Chávez, enxerga em Uribe um súdito do imperialismo americano na América do Sul. Sendo Garcia aliado de Uribe, a matemática é fácil.

Em outros tempos, Hugo Chávez e o Apra andariam de mãos dadas pela região. O que houve para que o principal partido esquerdista da América do Sul se tornasse o abrigo do “direitista” Alan Garcia?

Quando Alan Garcia foi presidente do Peru, entre 1985 e 1990, o seu governo foi caracterizado pelo fracasso econômico e pelo populismo latente.

Em seu retorno à presidência, o populismo permanece e a postura econômica ainda não pode ser avaliada. No entanto, hoje ele é visto como de direita, no entanto, em 1985, ele era visto como de esquerda.

Hoje, ele reconhece a necessidade de realizar um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, algo inconcebível para um esquerdista. Além disso, surgiu uma figura no país que representa fielmente o novo esquerdismo a lá Chávez no continente, o candidato derrotado na eleição peruana, Ollanta Humala.

Como Hugo Chávez é quem dá as cartas no continente, aqueles que são a seu favor tornaram-se “esquerdistas”. Logo, os que são contra são neoliberais de direita. Alan Garcia é um populista que não concorda com Chávez, assim ele se tornou um líder neoliberal no mais clássico partido de esquerda da América Latina.

Não demorará muito tempo para que alguém considere um líder vestido de militar, falando de nacionalismo e com medidas econômicas descabidas como sendo de direita. No fundo, o continente se divide entre o populismo e o não populismo.

 

O COLÉGIO e O GATO dois contos de raymundo rolim

O colégio

 

 

 

Um mais um, dois. Dois mais dois quatro. Quatro mais quatro dezesseis. A conta não fechava! Seria preciso papel e lápis, a cabeça não ajudava. Depois de muitos riscos e rabiscos, idas e vindas, raízes quadradas e equações de primeiro e segundo graus, descobriu pela primeira vez que também a questão não era essa! A conta dava certo, mas a conta não tinha razão! Não era um problema matemático, era de ordem semântica, talvez romântica, onde nem sempre a matemática ajuda. Teria de descobrir quando e onde é que a matemática fica muda e não conta de jeito nenhum! Uma nuvem carregada mais uma nuvem carregada não poderiam dar duas nuvens! Seria muita água!!! Aí estava um dos limites desta e doutras operações que não remetiam de maneira nenhuma aos números! Quantas células formavam o fígado? Oras, pra que diabos saber disso? Que ele, o fígado, agüentasse o rum, a feijoada, os amigos mal humorados e coisas do gênero, que já estava bom demais! A mochila pesava-lhe nas costas. Livros, canetas, cadernos, lápis coloridos; agenda cheia para aquela manhã de primeira aula no colégio emaranhado de corredores e salas. Guiou-se pelas setas numeradas e finalmente achou a sala. Olhou para a porta entreaberta, na tentativa de localizar um rabo de saia qualquer. Pronto, agora não tinha mais volta! Ali estava ele, e lá, na primeira fila, depois da mesa do professor, ela! Sentada, mãos repousadas sobre a carteira, distante dos livros e dos exercícios apostos no quadro negro. Uma única certeza: de que entraria por aquela porta e no momento seguinte a escola os uniria para o resto de suas vidas.

 

                 

 

O gato

 

Já eram horas de ir embora. A festa principiava aos finalmente. Os músicos haviam guardado os instrumentos. Um ou outro arrancava ainda umas poucas e tristes notas dos metais para “desligar” o instrumento. O álcool dentro de umas poucas garrafas esquecidas pela metade sobre as mesas. Ah! O maestro! Este não bebia mesmo! Os garçons tratavam de organizar o semicaos que normalmente se instala no avançado das horas. Vozes em tons altos, sonolentas, ébrias, se entremeavam no ar enfumaçado entre risos e risinhos de aconchego e sedução. A moça de cintura fina e mangas largas, abotoava-se ao homenzarrão feio e semiburro de juízo alterado, que empurrava a mesa a fim de alargar o espaço para tornar as bolinações um tanto mais acessíveis. Um outro magro e alto, com bigode e pele transparentes, olhava com insistência para aquela que já passara da idade e que certamente não pariria os filhos que o mesmo tanto queria, nem mais bordaria pacientemente os panos do enxoval. Ainda assim, e apesar do alto teor etílico do qual era possuído, procurava fixá-la com a dificuldade de um olho só, na esperança última do famoso – “vai tu mesma que já estás aí e certamente que não és u’moutra” -. O homem do primeiro trombone enxugava o rosto com um lenço de linho impecável, branquíssimo, que tirara do bolso do smoking cor de vinho, enquanto aguardava ordens para passar no caixa. O senhor que tocava violino, alisava com a flanela as quatro cordas, enquanto seu queixo duro e pontudo mexia-se impaciente contrastando com seus olhos brilhantes e redondos. O casal que ainda embalado pelos últimos acordes retidos em algum lugar das suas almas e que dançava mais pelo instinto de acasalamento que pela música, mantinha-se e conservava os olhos fechados pela emoção que necessitava sentir. No prato em cima da mesa oposta, um sanduíche apenas mordiscado era devorado às escondidas pelo gato que morava num dos cantos do telhado e que habituara-se a arranjar comida no local, quando percebia a música cessar ou diminuir de intensidade; ou então, guiava-se pela escuta das vozes e luzes que se iam dissipando uma a uma até sumirem por completo para novamente tudo voltar ao regaço do silêncio. Era essa a hora de se alimentar para as rondas noturnas, e ele, o gato, sabia disso muito bem. Nada estabelecido pensava o gato, nada estabelecido. É assim mesmo, é assim mesmo pensava o gato!

 

O CHEIRO DO RALO por flávia albuquerque

 

 

 

Algo em Lourenço falta dilaceradamente. Aliás, tudo em Lourenço é falta. Ele é o próprio resto. E por ser resto, sabe que todo objeto é de troca. Tudo tem valor de coisa… descartável. Ele sabe disso, sofre disso, goza com isso e, sobretudo, goza horrorizando o outro ao revelar esta falta constitutiva e destrutiva. Mas ele recusa saber. Ao oferecer maior valor para objetos que nada valem e recusar cada centavo para os objetos que estão erotizados pelos donos, ele demonstra a crueldade subentendida na relação interpessoal: um é sempre e necessariamente objeto na mão do outro. Reduz o valor dos objetinhos à miséria da sustentação dos vícios de cada um.

A transgressão maior fica em evidência quando, em ato de recusa desse saber da falta – se não pela falta do pai, mas mesmo assim falta veiculada pelo pai (que a estrutura perversa denuncia), elege uma parte de um todo – A bunda de um corpo qualquer – como objeto de fetiche. Algo que só faz ser possível gozar diante dele. E diante de quê o perverso goza se não da própria falta? Um objeto eleito como substituto expôe a própria falta do objeto substituido.

O olho é também uma parte de um todo e, solto, escancara o desnudamento de um sujeito que se vê olhado sem pudor. Este olho é o olho do ‘outro’, como bem declara Lourenço. E o que falta ao olho é exatamente o outro enquanto contorno e engodo do que ali é revelado sob as vestes de um horror. Lourenço faz uso deste olho para revelar o que o outro faz do que vê: um objeto de gozo puro. E cumprindo o par de opostos, o olho vira objeto de cena também, encenando o verdadeiro horror de se coisificar o ser humano.

A bunda ele poderia vê-la e tê-la de graça como a dona o confidenciou, mas isso não servia. Ele precisava pagar para reduzir a dona daquela bunda em puta, em mulher baixa… em resto, em sobra, porque só servia A bunda.

Lourenço ‘coleciona’ restos de histórias dos outros para garantir que a falta compareça principalmente do outro lado. Para que isso se sustente, ele paga um valor mais alto que o do dinheiro: vive numa espelunca, cheia de velharia, mofo, veste um casaco com cara de guardado com naftalina e come uma comida péssima só para poder estar diante do objeto de seu fetiche. Mas isso não o tira do lugar faltoso, de resto, de lixo, da própria merda que o cheiro do ralo o convoca a relembrar.

Uma coisa é certa: assistir ao Cheiro do Ralo é verdeiramente desconcertante. O personagem consegue atingir o objetivo no qual o perverso se engaja: revelar a nossa falta.

 

 

Flávia Albuquerque é psicanalista, pós-graduada em Clínica Psicanalítica.  (21) 9792-8326 fmaa@uol.com.br