A ESQUERDA QUE VIROU DIREITA VIA O POPULISMO por thiago de aragão


Existem algumas coisas que só ocorrem na América Latina. A terminologia “esquerda” e “direita” que insistem em utilizar no continente está cada vez mais confusa e defasada.Como latino-americanos, nunca soubemos definir propriamente os termos “esquerdista” e “direitista”. São termos que eram simplesmente atribuídos a um grupo e esse grupo o assumia ou não. Nunca houve a necessidade de se compreender o que os termos realmente significam.

Um caso bastante interessante é o caso do Partido Aprista Peruano, ou simplesmente A.P.R.A. Desde sua fundação por Haya de la Torre, o partido foi considerado um bastião da esquerda, não só peruana, mas latino-americana. Tido muitas vezes como o partido esquerdista mais bem estruturado da América Latina, o Apra serviu de exemplo para a formação do Partido dos Trabalhadores no Brasil e até do Movimiento al Socialismo na Venezuela e na Bolívia. No entanto, os tempos mudaram. Hoje o Apra é o partido do presidente peruano Alan Garcia, grande aliado continental de Álvaro Uribe, presidente colombiano. Seu modelo de governar (se é que há) é visto como opositor ao modo chavista de governar. Hugo Chávez, enxerga em Uribe um súdito do imperialismo americano na América do Sul. Sendo Garcia aliado de Uribe, a matemática é fácil.

Em outros tempos, Hugo Chávez e o Apra andariam de mãos dadas pela região. O que houve para que o principal partido esquerdista da América do Sul se tornasse o abrigo do “direitista” Alan Garcia?

Quando Alan Garcia foi presidente do Peru, entre 1985 e 1990, o seu governo foi caracterizado pelo fracasso econômico e pelo populismo latente.

Em seu retorno à presidência, o populismo permanece e a postura econômica ainda não pode ser avaliada. No entanto, hoje ele é visto como de direita, no entanto, em 1985, ele era visto como de esquerda.

Hoje, ele reconhece a necessidade de realizar um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, algo inconcebível para um esquerdista. Além disso, surgiu uma figura no país que representa fielmente o novo esquerdismo a lá Chávez no continente, o candidato derrotado na eleição peruana, Ollanta Humala.

Como Hugo Chávez é quem dá as cartas no continente, aqueles que são a seu favor tornaram-se “esquerdistas”. Logo, os que são contra são neoliberais de direita. Alan Garcia é um populista que não concorda com Chávez, assim ele se tornou um líder neoliberal no mais clássico partido de esquerda da América Latina.

Não demorará muito tempo para que alguém considere um líder vestido de militar, falando de nacionalismo e com medidas econômicas descabidas como sendo de direita. No fundo, o continente se divide entre o populismo e o não populismo.

 

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