O CHEIRO DO RALO por flávia albuquerque

 

 

 

Algo em Lourenço falta dilaceradamente. Aliás, tudo em Lourenço é falta. Ele é o próprio resto. E por ser resto, sabe que todo objeto é de troca. Tudo tem valor de coisa… descartável. Ele sabe disso, sofre disso, goza com isso e, sobretudo, goza horrorizando o outro ao revelar esta falta constitutiva e destrutiva. Mas ele recusa saber. Ao oferecer maior valor para objetos que nada valem e recusar cada centavo para os objetos que estão erotizados pelos donos, ele demonstra a crueldade subentendida na relação interpessoal: um é sempre e necessariamente objeto na mão do outro. Reduz o valor dos objetinhos à miséria da sustentação dos vícios de cada um.

A transgressão maior fica em evidência quando, em ato de recusa desse saber da falta – se não pela falta do pai, mas mesmo assim falta veiculada pelo pai (que a estrutura perversa denuncia), elege uma parte de um todo – A bunda de um corpo qualquer – como objeto de fetiche. Algo que só faz ser possível gozar diante dele. E diante de quê o perverso goza se não da própria falta? Um objeto eleito como substituto expôe a própria falta do objeto substituido.

O olho é também uma parte de um todo e, solto, escancara o desnudamento de um sujeito que se vê olhado sem pudor. Este olho é o olho do ‘outro’, como bem declara Lourenço. E o que falta ao olho é exatamente o outro enquanto contorno e engodo do que ali é revelado sob as vestes de um horror. Lourenço faz uso deste olho para revelar o que o outro faz do que vê: um objeto de gozo puro. E cumprindo o par de opostos, o olho vira objeto de cena também, encenando o verdadeiro horror de se coisificar o ser humano.

A bunda ele poderia vê-la e tê-la de graça como a dona o confidenciou, mas isso não servia. Ele precisava pagar para reduzir a dona daquela bunda em puta, em mulher baixa… em resto, em sobra, porque só servia A bunda.

Lourenço ‘coleciona’ restos de histórias dos outros para garantir que a falta compareça principalmente do outro lado. Para que isso se sustente, ele paga um valor mais alto que o do dinheiro: vive numa espelunca, cheia de velharia, mofo, veste um casaco com cara de guardado com naftalina e come uma comida péssima só para poder estar diante do objeto de seu fetiche. Mas isso não o tira do lugar faltoso, de resto, de lixo, da própria merda que o cheiro do ralo o convoca a relembrar.

Uma coisa é certa: assistir ao Cheiro do Ralo é verdeiramente desconcertante. O personagem consegue atingir o objetivo no qual o perverso se engaja: revelar a nossa falta.

 

 

Flávia Albuquerque é psicanalista, pós-graduada em Clínica Psicanalítica.  (21) 9792-8326 fmaa@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

Uma resposta

  1. Flávia a vida é dura…

    Ler o Cheiro do Ralo é desconcertante, a forma da escrita direta, os pensamentos retratados de formas minimalistas pórem tão completos…Um ótimo livro e um bom filme, Selton encarnou o personagem por inteiro. Se você ainda não assistiu veja, pois vale e muito a pena.

    Também publiquei sobre o livro em meu site.

    Abraços..

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