O COLÉGIO e O GATO dois contos de raymundo rolim

O colégio

 

 

 

Um mais um, dois. Dois mais dois quatro. Quatro mais quatro dezesseis. A conta não fechava! Seria preciso papel e lápis, a cabeça não ajudava. Depois de muitos riscos e rabiscos, idas e vindas, raízes quadradas e equações de primeiro e segundo graus, descobriu pela primeira vez que também a questão não era essa! A conta dava certo, mas a conta não tinha razão! Não era um problema matemático, era de ordem semântica, talvez romântica, onde nem sempre a matemática ajuda. Teria de descobrir quando e onde é que a matemática fica muda e não conta de jeito nenhum! Uma nuvem carregada mais uma nuvem carregada não poderiam dar duas nuvens! Seria muita água!!! Aí estava um dos limites desta e doutras operações que não remetiam de maneira nenhuma aos números! Quantas células formavam o fígado? Oras, pra que diabos saber disso? Que ele, o fígado, agüentasse o rum, a feijoada, os amigos mal humorados e coisas do gênero, que já estava bom demais! A mochila pesava-lhe nas costas. Livros, canetas, cadernos, lápis coloridos; agenda cheia para aquela manhã de primeira aula no colégio emaranhado de corredores e salas. Guiou-se pelas setas numeradas e finalmente achou a sala. Olhou para a porta entreaberta, na tentativa de localizar um rabo de saia qualquer. Pronto, agora não tinha mais volta! Ali estava ele, e lá, na primeira fila, depois da mesa do professor, ela! Sentada, mãos repousadas sobre a carteira, distante dos livros e dos exercícios apostos no quadro negro. Uma única certeza: de que entraria por aquela porta e no momento seguinte a escola os uniria para o resto de suas vidas.

 

                 

 

O gato

 

Já eram horas de ir embora. A festa principiava aos finalmente. Os músicos haviam guardado os instrumentos. Um ou outro arrancava ainda umas poucas e tristes notas dos metais para “desligar” o instrumento. O álcool dentro de umas poucas garrafas esquecidas pela metade sobre as mesas. Ah! O maestro! Este não bebia mesmo! Os garçons tratavam de organizar o semicaos que normalmente se instala no avançado das horas. Vozes em tons altos, sonolentas, ébrias, se entremeavam no ar enfumaçado entre risos e risinhos de aconchego e sedução. A moça de cintura fina e mangas largas, abotoava-se ao homenzarrão feio e semiburro de juízo alterado, que empurrava a mesa a fim de alargar o espaço para tornar as bolinações um tanto mais acessíveis. Um outro magro e alto, com bigode e pele transparentes, olhava com insistência para aquela que já passara da idade e que certamente não pariria os filhos que o mesmo tanto queria, nem mais bordaria pacientemente os panos do enxoval. Ainda assim, e apesar do alto teor etílico do qual era possuído, procurava fixá-la com a dificuldade de um olho só, na esperança última do famoso – “vai tu mesma que já estás aí e certamente que não és u’moutra” -. O homem do primeiro trombone enxugava o rosto com um lenço de linho impecável, branquíssimo, que tirara do bolso do smoking cor de vinho, enquanto aguardava ordens para passar no caixa. O senhor que tocava violino, alisava com a flanela as quatro cordas, enquanto seu queixo duro e pontudo mexia-se impaciente contrastando com seus olhos brilhantes e redondos. O casal que ainda embalado pelos últimos acordes retidos em algum lugar das suas almas e que dançava mais pelo instinto de acasalamento que pela música, mantinha-se e conservava os olhos fechados pela emoção que necessitava sentir. No prato em cima da mesa oposta, um sanduíche apenas mordiscado era devorado às escondidas pelo gato que morava num dos cantos do telhado e que habituara-se a arranjar comida no local, quando percebia a música cessar ou diminuir de intensidade; ou então, guiava-se pela escuta das vozes e luzes que se iam dissipando uma a uma até sumirem por completo para novamente tudo voltar ao regaço do silêncio. Era essa a hora de se alimentar para as rondas noturnas, e ele, o gato, sabia disso muito bem. Nada estabelecido pensava o gato, nada estabelecido. É assim mesmo, é assim mesmo pensava o gato!

 

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