Arquivos Diários: 21 abril, 2008

AURORA poema de manoel de andrade

Não direi que me encantas mais do que o silêncio

porque é assim que despertas as aves e os caminhos.

Meus olhos também nascem pelo parto da esperança

porque vivo na imortalidade

renascendo em cada dia.

 

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida

porque tua luz é sempre uma catarse.

Teu olhar estende as linhas do horizonte

e toda a paisagem é  então uma ventura

e já não és mais nada

porque desfaleces no seio da beleza.

 

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido

mas como é grande o que em mim te contempla.

Para renascer basta-me apenas teu momento

tua humilde majestade

tuas pétalas de fogo

e essa corola ardente

porque não  peço nada mais que a tua luz

inaugurando o mundo em cada alvorecer

e que nunca me encontres cego ou vencido.

 

                                                         Curitiba, abril de 2004

 

Extraído do livro “CANTARES”, publicado por ESCRITURAS

 

 

 

A POESIA e o POETA poema de manoel antonio bomfim

A poesia é um alimento
Que me nutre noite e dia
Enriquece meus sentimentos
Alaga os meus pensamentos
E me enche de alegria
 
É o melhor passatempo
Com ela eu chego ao céu
Dou cambalhota no tempo
Afasto qualquer tormento
Fico sorrindo ao léu 

Perdoem-me a pretensão
De achar que sou poeta
Escrevo com a emoção
Que vem do meu coração
De uma forma discreta 

O poeta é um sonhador
Grávido de esperança
Um peito cheio de amor
Que se afoga na dor
De uma simples criança 

É uma figura eterna
Uma mala de anseios
De atitude materna
Que até na seca hiberna
Escreve com ou sem rodeios 

O poeta vive de porre
Com tudo se embriaga
Nunca mata e nem morre
A todos ele socorre
Sua fé nunca se apaga

OBSERVANDO – I poema de eunice arruda

sim

as horas de trégua

Quando se afiam
               as facas

 

TRAPEZISTA poema de cecília meirelles

 

 

De que maneira chegaremos
às brancas portas da Via-láctea?

Será com asas ou com remos?
Será com os músculos com que saltas?

Leva-me agarrada aos teus ombros
como um cendal para agasalhar-te!

Seremos pássaros ou anjos
atravessando a sombra da tarde!

Deixaremos a terra juntos
e justapostos como metades,

sem o triste pó dos defuntos,
sem qualquer bruma que enlute os ares!

Sem nada de humanos assuntos:
muito mais puros, muito mais graves!