PALÁCIO VENÂNCIO LÓPEZ por ewaldo schleder

Achei na Internet o Asunción Palace Hotel, na capital paraguaia. A idéia era ficar ali hospedado uma semana. Escolha em função da localização, do preço e da pitoresca história do Palace. Porém, a hospitalidade da casa e o fascínio das horas seguintes me fizeram ficar, prazerosamente, por mais alguns dias nessa caliente cidade.

 

Pouco distante no tempo, há 10 anos, lá mesmo em Assunção conheci outro palácio; também hotel, luxuoso, com seus cristais, pratas e gesso polido. Ali morou madama Linch – a bela irlandesa que Francisco Solano López, apaixonado, trouxe de Paris. Uma grã-fina do Sena para rivalizar, mais tarde, com a nativa Pancha Garmendia, sua outra paixão. Sem dúvida, um duro teste para aquele coração napoleônico.         

 

De volta às surpreendentes colunatas dóricas e coríntias do Asunción Palace. A curiosidade é que na agonia da Guerra Grande (Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança, 1864-1870) o palacete teve a bandeira brasileira hasteada em suas cumeeiras. Na ocasião, o imponente palácio serviu de hospital aos feridos das tropas de Osório. Nos dias de hoje, a memória se fragmenta pelos corredores do hotel; nos quadros das paredes, na luz, na sombra, nos detalhes de um passado comum.

 

Construída pelos idos do governo (1844-1854) de Carlos Antonio López, a majestosa casa seria a morada do seu filho mais novo, Venâncio López. Carlos Antonio presidiu o Paraguai no auge do seu desenvolvimento, entre dois históricos ditadores: José Gaspar de Francia, el supremo, e seu outro filho, Francisco Solano, el generalito. A obra foi encomendada ao arquiteto italiano Alessandro Ravizza, que já assinara outras importantes construções na pujante Assunção daqueles anos – meados do século 19, antes da guerra.

 

A esperada inauguração foi em 1858, com um grande baile. O ritmo em voga era a polka, novidade musical recém-chegada da Europa. No aprazível local, em companhia de amigos – e amigas – Venâncio promovia o festejado happy-hour. Sentados na varanda que dá para a avenida Colón, os privilegiados comensais tagarelavam, se divertiam, estouravam champagne français e, extasiados, ficavam a admirar o pôr-do-sol no rio Paraguai, até chegar la noche tíbia.

 

De um palacete na esquina da Colón com Estrella, em Assunção, reminiscências românticas velam o drama da guerra. Ali já foi o Hotel Argentino e foi o Cosmos. Nesse local, em 1928, foi apresentada pela primeira vez em público – a um povo entristecido, desacostumado a espetáculos de tal natureza – a tradicional guarânia Jejui, na presença do então presidente da República, o liberal Eligio Ayala.

 

Em 1943, o Palácio Venancio López vem tornar-se o atual Asunción Palace Hotel. Parte viva do cenário urbano da Bacia do Prata. A estética do prédio revela o esplendor da arquitetura de um Paraguai que anseia renascer. O registro do inestimável patrimônio como Bien Cultural de la Nación vem garantir a sua preservação. Sua fachada: símbolo de resistência cultural da cidade e sua sofrida história. A dar boas-vindas aos visitantes de todas as partes. Para ser apreciada, em tempos da paz que se consagra.

 

 

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