Arquivos Diários: 23 abril, 2008

ANDORINHAS – por zé beto (o do blog)

Elas voavam naquela parede amarela da área. Sempre. Pregadas, mas voavam. Três. Do mesmo tamanho. Simétricas. Vôo em direção ao teto de madeira, pintado de verde. Eu olhava sempre porque achava que um dia furariam aquele teto, o telhado e se juntariam às companheiras que, às vezes, em revoada, transitavam naquele espaço de céu na vila suburbana. Passou pela cabeça um dia bater palmas e pedir para a vizinha de rua para tocá-las. Mas tão misterioso quanto aquele vôo dos três pássaros eram aqueles vizinhos. Sempre tem gente assim nas ruas onde só existem casas. Naquele tempo, nos 60, então… Rua de terra, terrenos descampados que eram imensos parques de diversão para nossa turma, a da Maria do Carmo, e também campos de batalha para os inimigos da “Central’. Até que a gente soube que ali chegou a segunda televisão do pedaço. A primeira foi do doutor Milton, que não era dentista, mas um protético que veio da Bahia e abriu consultório onde se especializou em arrancar qualquer dor com o boticão que era o pavor de todo o bairro. Nunca falou em escovação. Seria o fim do ganha-pão para a família. Mas aquela casa das andorinhas na parede da área recebeu uma televisão e ali não seria tão fácil entrar como na sala do “dentista”, que ficava ao lado do consultório e onde um dia todo mundo viu o Santos bater o Milan duas vezes no Maracanã e se sagrar campeão mundial de clubes. Neste dia o doutor ficou tão doido que explodiu um despertador no teto. O mistério da outra casa era tão grande quanto o daquelas andorinhas a voar eternamente no mesmo lugar. Num 31 de dezembro roubamos uma garrafa de vinho e fizemos uma competição para quem bebia mais e mais rápido. Logo depois a vontade de ver a corrida da São Silvestre na televisão tomou conta do meu mundo bêbado. E só havia a casa misteriosa disponível, pois o protético tinha viajado para sua Bahia. Foram  lá e pediram. Entrei cambaleando e antes de atravessar a soleira da porta vi que os pássaros eram de louça e bem encaixados presos à parede amarela. Vi a largada da corrida. Vomitei no meio da sala. Os donos da casa eram pacientes e atenciosos. Colocaram-me para dormir numa cama deliciosa, depois que me limparam e passaram perfume. No quarto, pintado de rosa, havia andorinhas na parede. Eu achei que as de fora tinham entrado ali para me proteger dos males do mundo.

 

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A LIBIDO por ricardo sehnem

A libido é um conceito muito trabalhado pela psicanálise que se constitui numa carga energética que tem origem na sexualidade. É importante ressaltar que a sexualidade não se localiza apenas no aparelho genital.A libido é uma energia humana que faz os indivíduos buscarem a realização de suas necessidades básicas, como a fome, por exemplo, e também as prazeirosas.

Parte da libido é reprimida a partir do complexo de Édipo, parte é deslocada para outros atos humanos como estudar, fazer arte, trabalhar e outras atividades que temos ao longo de nossas vidas, e uma última parte fica disponível para o prazer sexual.

A libido é a energia que move o homem a se relacionar com os objetos. Se não fosse pela libido o homem não iniciaria sua relação com o mundo. É esta energia que garante que as crianças comecem a brincar, locomoverem-se e explorar a realidade à sua volta.

A capacidade de canalizar a libido para o mundo exterior é fundamental para o equilíbrio do ser humano. Problemas nesta canalização podem ocasionar falhas na socialização, como o autismo, auto-agressão, masturbação compulsiva e outros distúrbios de comportamento. Na linguagem comum, a libido pode ser entendida como “vontade” e para entender melhor este conceito podemos nos remeter a nossas expressões quotidianas: “não estou com vontade”; “sem vontade não há solução”.

Estas formas de expressão sinalizam a importância da libido em todas as nossas ações. Libido é um termo que significa vontade e desejo. De um ponto de vista qualitativo, Freud definiu que a libido é irredutível a uma energia mental não especificada como propunha Jung. Para Freud a libido afirma-se sempre mais como um processo quantitativo, permitindo medir os processos e as transformações no domínio da excitação sexual.

 

 

SUSSURROS (da novela ULSISCOR) de walmor marcellino

 

 

Não desejo, não insisto que façam sempre silêncio; tantas vezes alteei a voz. Até gostaria que as artes e seu convencimento inundassem o universo. Iremos ao afogamento!

Todavia, há uma voz estrênua à distância, um canto esplendente, uma melodia estreme, que constituem nossa razão última, depois da qual nenhuma invocação ou grito deve perturbar. Viva-se essa acalmia enquanto se preparam os combates.

Se não conseguimos olho a olho, a voz semente, ouvido atento, na confabulação das pessoas provadamente reais, tudo o que nos afasta é ruído, é turvação do espírito, alienação do ser. Silêncio, por favor!

Por assim, eu imploro muito silêncio; para que se oiça esse monocórdio; para que se assuma a inquietação sem choros nem clangores. Para ouvir-se o sopro do espírito, a possível comunhão sincrônica, onde dissolvem as vontades desorientadas.

Porque eu sou materialista da antimatéria, atemporal na cronicidade estuante; um objeto circundado de elementos; que somente contradiz nas pulsões.

Tem um filho da puta tocando um disco enrolado na pélvis; tem uma fêmea clamando aos solavancos no celular: “ninguém compra minha bainha!”; tem uma televisão avisando o apocalipse de outrem; tem uma pessoa que me convida a esquecer que não vamos a parte alguma. Como já é sabido, as pessoas com seu eu.

Eles querem, na verdade exigem que você se suicide; porque à falta de notícia, a sensibilidade lhes vai esmaecendo para coisas triviais… Então, não lhes facilite a miserável existência. Grite bem alto: façam silêncio!”

Ficção não é alegria; é uma tristeza suspensa. Mas ficção é a porta de saída do inferno de nossas vidas. Bastaria bater a porta e dar por cerrada, nunca mais, a pugna sedenta; porém as sombras nos acompanham, começam onde inicia o eu, e se bifurcam profusas.

Daí a ficção ser profusa inelutavelmente. Portudo, ficção não se aliena delevelmente; é uma tentativa de liberdade em alguma direção inadvertida. O sujeito vai trocado, é verdade, como fosse um complemento; e o leitor, o prescindível agente, o abjeto figurante é desprezado como um comparsa da aventura possível. Sem os mistérios criados.

Você que é “temporão” como se fala para atenuar seus débitos; ou você “decadente” para acentuar-lhe o passado; ou simplesmente “peregrino” para caracterizar que expatriado não tem sombra, precisa convencer-se de que o rebanho precisa ser nutrido, curado, tosado e disposto. E desde então exsurge o livre arbítrio que o deus da fortuna lhe reserva. Pode escolher a sua vez!


ENTREMUNDOS DA CIA. de DANÇA por raíssa machado

O vazio pode ser como a palavra que se aprende.

Os sons que a gente escuta, a ferocidade das pessoas, as letras unificadas ainda mesmo quando pequenos, ou ainda nem nascidos.

O vazio deve ser mais explícito nos desejos, sonhos, ternura familiar e particular na vida de um escritor. A pessoa que escreve não tem outro recurso, a não ser o de criar com a beleza das suas palavras, o seu mundo, a sua história, ter as suas invenções, a sua fé, o seu estado de humor, de lógica, de simplicidade, de humanidade e de um pouco de inocência quando for falar da verdade na linguagem.

O homem que escreve precisa ser fiel aos caminhos da palavra, falo de não desistir, e de poder escrever coisas boas. De poder descrever os fatos com intensidade e não falsidade que faz os seus leitores não lerem mais, e não agradarem da leitura e da escrita e da não compreensão de uma opinião tão severa e sólida, sem nexo para o universo de escrever, ouvir e falar na existência e batalha atual.

O vazio tem suas especialidades com as pessoas, se você observar a vida de uma dona de casa, de classe média, o seu vazio é de um tipo, com um artista gravador, o seu vazio é outro, o do engraxate, do aposentado de conversa no “Café Nice”, do estudante, da professora, de uma dançarina… Enfim, cada sujeito tem as suas tendências em vista por uma cidade grande e inibida como Belo Horizonte.

Um crítico que diz que um trabalho de dança, que é um processo cristalizado na arte, foi como resultado “um passo para trás”, o que a arte deve fazer com este cenário então? Poluído, frio, deserto, incompreensível e alimentado.

A vida é imagem, transparência, corriqueira aos olhos do que é certo e errado bom e ruim.

A vida não é escrita, ainda… E talvez só as pessoas que se desenvolverem emocionalmente; venham ter capacidades de adquirir o mundo e a bela vista!

 

 

 

 

PARTO PREMATURO conto de otaciel de oliveira melo

 

Encontrava-me na casa de um amigo, no Recife, preparando-me para retornar na madrugada do dia seguinte para Fortaleza. Na noite da véspera da viagem ligo para uma cooperativa de taxistas e, à mulher que me atende, explico que preciso de um táxi por volta das três e meia da manhã, para me levar ao aeroporto dos Guararapes. Confirmo a corrida ao me acordar naquela madrugada, como ficou acertado, e trinta minutos depois me encontro defronte ao prédio da Rua da Hora, Espinheiro, onde me hospedara.

                    Aproxima-se um táxi, um Gol bege, dirigido por uma mulher, que pára e me pergunta:“Senhor Jaciel?”. Meu nome na realidade é OTACIEL, mas como ninguém nunca compreende este nome à primeira vez que o pronuncio, eu respondi “sim”.

                    Acomodei-me no banco traseiro com minha bagagem de mão e, a pedido da motorista, tracei o percurso a ser percorrido: “Estrada dos Remédios, Afogados, Avenida da Imbiribeira, Aeroporto”.

                    Mal tínhamos alcançado a Estrada dos Remédios quando a motorista virou-se para mim e disse que estava passando muito mal. Foi nesse momento que observei que ela estava com uma barriga enorme, e imediatamente perguntei:

– A senhora esta grávida?

– Sim, estou.

– De quantos meses?

– De oito, se não me falha a memória.

        Diante daquela declaração inesperada de aparente sofrimento, conjecturei que aquilo poderia ser um assalto programado e que a qualquer momento ela frearia o carro e apareceria um sujeito com uma arma apontada para minha cabeça, exigindo a entrega de todos os meus pertences, e me deixando, na melhor das hipóteses, numa esquina qualquer daquela estrada, sem remédio. Imediatamente ordenei àquela mulher que parasse o táxi, que me entregasse as chaves do carro e que passasse para o banco dianteiro de passageiros. Ela me obedeceu sem comentários, e seguiu-se o diálogo:

– E por que a senhora, grávida, dirige um táxi numa cidade violenta como Recife, e logo de madrugada?

– Porque o meu marido teve um AVC, está com o braço esquerdo imobilizado, e a única fonte de renda que temos é esse táxi, que é alugado durante o dia para outro motorista, conhecido nosso, por R$ 50,00 a diária; mas como as despesas de manutenção são por nossa conta (pneus, amortecedores, troca de óleo, etc.), sobra muito pouco e eu tenho que me virar à noite.

– Mas por que então a senhora não dirige durante o dia, que é mais seguro?

– Bem, o problema é o calor, já que este carro não tem ar-condicionado, e, além disso, eu NÃO tenho carteira de motorista. Depois das 22 horas é muito mais difícil ser parada por uma blitz.

– A senhora não tem carteira de motorista?

– Não, não tenho.

– E quem lhe ensinou a dirigir?

– A necessidade de sobrevivência.

– Eu nunca ouvi falar dessa auto-escola. Onde a senhora mora?

– Eu me escondo em Prazeres, numa rua que fica aproximadamente a 4 km depois do aeroporto. Não foi à toa que eu peguei esta corrida para um local bem perto da minha casa. Eu já estava me sentindo mal desde uma hora da manhã, mas me agüentei por causa desta corrida.

– Este é o seu primeiro filho?

– É. Apesar de já ter 32 anos, este é o meu primeiro filho.

– Já sabe o sexo da criança?

– Menino.

– E o que a senhora está exatamente sentindo, agora?

– Sinto que vou parir a qualquer momento, e por isso eu peço ao senhor que me deixe ligar do meu celular para o da minha cunhada, para ela colocar numa sacola plástica as coisas que eu preciso pra ficar um ou dois dias na maternidade, que fica próxima da minha residência.

        Ao ouvir tal frase eu fiquei tão nervoso que mal conseguia manter o pé fixo no acelerador do veículo, de maneira a desenvolver uma velocidade aproximadamente constante. Meus pés tremiam mais do que um martelete desses de quebrar asfalto, eu suava mais do que um tirador de espírito (hoje chamado eufemisticamente de exorcista), e, com um misto de pavor e humor, me escapou o seguinte comentário:

– Minha senhora, pelo amor de Deus, não dê à luz esta criança dentro desta viatura. Eu juro pela hóstia consagrada que eu nunca fiz um parto em toda a minha vida. Olhe, eu não tenho nesta bolsa de viagem sequer um cortador de unhas. Como eu poderei então cortar o cordão umbilical? Com os dentes?

        Rindo, ela entrou em contato com a cunhada, esclarecendo a situação. Continuei a dirigir o táxi até Prazeres, e naquele bairro do município de Jaboatão dos Guararapes, depois de circularmos por um labirinto de ruas e vielas apertadas, chegamos finalmente à casa da taxista: uma residência simples, em construção, com tijolos desnudos e piso de barro batido. Cunhada e marido estavam a postos e era notória a dificuldade de mobilização do braço esquerdo deste último.

        Os dois irmãos entraram no carro e eu continuei dirigindo até a maternidade. Lá chegando, eu perguntei quanto era a corrida. Eles não queriam cobrar nada e só depois de explicar que aquele era o meu

primeiro presente para o garoto que nasceria em alguns minutos, resolveram receber os R$ 35,00 registrados no taxímetro. Solicitei à cunhada o número do seu celular e prometi telefonar na tarde daquele mesmo dia, quando chegasse a Fortaleza, para saber das novidades. Peguei um táxi, dos que estavam parados defronte à maternidade, desta vez observando melhor quem o dirigia, e solicitei ao motorista pressa em direção ao aeroporto. Ali cheguei por volta das 4:30 h, mas como carregava apenas uma bagagem de mão, consegui embarcar no vôo programado.

       Na tarde daquele mesmo dia telefono para a cunhada da “minha passageira”:

– E então: como está a nossa mamãe?

– Deu tudo certo: o parto foi prematuro, porém mãe e filho estão passando bem. O menino pesa 3 quilos e seiscentos gramas e tem a cara do pai. A propósito, ela quer saber o seu nome para colocar no garoto.

– Sério?

– É mesmo.

– Meu nome é Otaciel.

– Como?

– O-ta-ci-el.

– Vote (ô), é muito feio! Acho que ela não vai colocar esse nome no meu sobrinho, não.

 

 

 

O DIA DO OUTRO por darlan cunha

Hoje não é dia de se comemorar nada com o Outro, mas farei com que seja, embora não me apeteça agradar por agradar, ou agarrar oportunidades reais e fictícias que me atravessem o caminho. Vivo de mim, e não longe de mim vive o mundo com a sua cabala, seus meandros, suas roupas de baixo.

Fui a um circo, onde fiquei mais tempo do que pode sugerir a simples ida a um divertimento; mas é que em tudo há mais de uma face (ou disfarce), e então entrei de naquele ambiente, arriscando-me talvez a pegar a alegria de algum animal, ou de levar uma mordida, mas

é torrando farinha que se aprende o pão; é fuçando nas latas de lixo que a gente começa a entender de luxo e luxúria, não é mesmo ?

O dia do Outro talvez não se mantenha como uma data a ser repetida por mim, mas não vejo porque não possa fazê-lo quem queira experimentar, e então sair dele com algum novo sestro, nova visão da Vida, do Outro.