ANDORINHAS – por zé beto (o do blog)

Elas voavam naquela parede amarela da área. Sempre. Pregadas, mas voavam. Três. Do mesmo tamanho. Simétricas. Vôo em direção ao teto de madeira, pintado de verde. Eu olhava sempre porque achava que um dia furariam aquele teto, o telhado e se juntariam às companheiras que, às vezes, em revoada, transitavam naquele espaço de céu na vila suburbana. Passou pela cabeça um dia bater palmas e pedir para a vizinha de rua para tocá-las. Mas tão misterioso quanto aquele vôo dos três pássaros eram aqueles vizinhos. Sempre tem gente assim nas ruas onde só existem casas. Naquele tempo, nos 60, então… Rua de terra, terrenos descampados que eram imensos parques de diversão para nossa turma, a da Maria do Carmo, e também campos de batalha para os inimigos da “Central’. Até que a gente soube que ali chegou a segunda televisão do pedaço. A primeira foi do doutor Milton, que não era dentista, mas um protético que veio da Bahia e abriu consultório onde se especializou em arrancar qualquer dor com o boticão que era o pavor de todo o bairro. Nunca falou em escovação. Seria o fim do ganha-pão para a família. Mas aquela casa das andorinhas na parede da área recebeu uma televisão e ali não seria tão fácil entrar como na sala do “dentista”, que ficava ao lado do consultório e onde um dia todo mundo viu o Santos bater o Milan duas vezes no Maracanã e se sagrar campeão mundial de clubes. Neste dia o doutor ficou tão doido que explodiu um despertador no teto. O mistério da outra casa era tão grande quanto o daquelas andorinhas a voar eternamente no mesmo lugar. Num 31 de dezembro roubamos uma garrafa de vinho e fizemos uma competição para quem bebia mais e mais rápido. Logo depois a vontade de ver a corrida da São Silvestre na televisão tomou conta do meu mundo bêbado. E só havia a casa misteriosa disponível, pois o protético tinha viajado para sua Bahia. Foram  lá e pediram. Entrei cambaleando e antes de atravessar a soleira da porta vi que os pássaros eram de louça e bem encaixados presos à parede amarela. Vi a largada da corrida. Vomitei no meio da sala. Os donos da casa eram pacientes e atenciosos. Colocaram-me para dormir numa cama deliciosa, depois que me limparam e passaram perfume. No quarto, pintado de rosa, havia andorinhas na parede. Eu achei que as de fora tinham entrado ali para me proteger dos males do mundo.

 

http://jornale.com.br/zebeto/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: