PARTO PREMATURO conto de otaciel de oliveira melo

 

Encontrava-me na casa de um amigo, no Recife, preparando-me para retornar na madrugada do dia seguinte para Fortaleza. Na noite da véspera da viagem ligo para uma cooperativa de taxistas e, à mulher que me atende, explico que preciso de um táxi por volta das três e meia da manhã, para me levar ao aeroporto dos Guararapes. Confirmo a corrida ao me acordar naquela madrugada, como ficou acertado, e trinta minutos depois me encontro defronte ao prédio da Rua da Hora, Espinheiro, onde me hospedara.

                    Aproxima-se um táxi, um Gol bege, dirigido por uma mulher, que pára e me pergunta:“Senhor Jaciel?”. Meu nome na realidade é OTACIEL, mas como ninguém nunca compreende este nome à primeira vez que o pronuncio, eu respondi “sim”.

                    Acomodei-me no banco traseiro com minha bagagem de mão e, a pedido da motorista, tracei o percurso a ser percorrido: “Estrada dos Remédios, Afogados, Avenida da Imbiribeira, Aeroporto”.

                    Mal tínhamos alcançado a Estrada dos Remédios quando a motorista virou-se para mim e disse que estava passando muito mal. Foi nesse momento que observei que ela estava com uma barriga enorme, e imediatamente perguntei:

– A senhora esta grávida?

– Sim, estou.

– De quantos meses?

– De oito, se não me falha a memória.

        Diante daquela declaração inesperada de aparente sofrimento, conjecturei que aquilo poderia ser um assalto programado e que a qualquer momento ela frearia o carro e apareceria um sujeito com uma arma apontada para minha cabeça, exigindo a entrega de todos os meus pertences, e me deixando, na melhor das hipóteses, numa esquina qualquer daquela estrada, sem remédio. Imediatamente ordenei àquela mulher que parasse o táxi, que me entregasse as chaves do carro e que passasse para o banco dianteiro de passageiros. Ela me obedeceu sem comentários, e seguiu-se o diálogo:

– E por que a senhora, grávida, dirige um táxi numa cidade violenta como Recife, e logo de madrugada?

– Porque o meu marido teve um AVC, está com o braço esquerdo imobilizado, e a única fonte de renda que temos é esse táxi, que é alugado durante o dia para outro motorista, conhecido nosso, por R$ 50,00 a diária; mas como as despesas de manutenção são por nossa conta (pneus, amortecedores, troca de óleo, etc.), sobra muito pouco e eu tenho que me virar à noite.

– Mas por que então a senhora não dirige durante o dia, que é mais seguro?

– Bem, o problema é o calor, já que este carro não tem ar-condicionado, e, além disso, eu NÃO tenho carteira de motorista. Depois das 22 horas é muito mais difícil ser parada por uma blitz.

– A senhora não tem carteira de motorista?

– Não, não tenho.

– E quem lhe ensinou a dirigir?

– A necessidade de sobrevivência.

– Eu nunca ouvi falar dessa auto-escola. Onde a senhora mora?

– Eu me escondo em Prazeres, numa rua que fica aproximadamente a 4 km depois do aeroporto. Não foi à toa que eu peguei esta corrida para um local bem perto da minha casa. Eu já estava me sentindo mal desde uma hora da manhã, mas me agüentei por causa desta corrida.

– Este é o seu primeiro filho?

– É. Apesar de já ter 32 anos, este é o meu primeiro filho.

– Já sabe o sexo da criança?

– Menino.

– E o que a senhora está exatamente sentindo, agora?

– Sinto que vou parir a qualquer momento, e por isso eu peço ao senhor que me deixe ligar do meu celular para o da minha cunhada, para ela colocar numa sacola plástica as coisas que eu preciso pra ficar um ou dois dias na maternidade, que fica próxima da minha residência.

        Ao ouvir tal frase eu fiquei tão nervoso que mal conseguia manter o pé fixo no acelerador do veículo, de maneira a desenvolver uma velocidade aproximadamente constante. Meus pés tremiam mais do que um martelete desses de quebrar asfalto, eu suava mais do que um tirador de espírito (hoje chamado eufemisticamente de exorcista), e, com um misto de pavor e humor, me escapou o seguinte comentário:

– Minha senhora, pelo amor de Deus, não dê à luz esta criança dentro desta viatura. Eu juro pela hóstia consagrada que eu nunca fiz um parto em toda a minha vida. Olhe, eu não tenho nesta bolsa de viagem sequer um cortador de unhas. Como eu poderei então cortar o cordão umbilical? Com os dentes?

        Rindo, ela entrou em contato com a cunhada, esclarecendo a situação. Continuei a dirigir o táxi até Prazeres, e naquele bairro do município de Jaboatão dos Guararapes, depois de circularmos por um labirinto de ruas e vielas apertadas, chegamos finalmente à casa da taxista: uma residência simples, em construção, com tijolos desnudos e piso de barro batido. Cunhada e marido estavam a postos e era notória a dificuldade de mobilização do braço esquerdo deste último.

        Os dois irmãos entraram no carro e eu continuei dirigindo até a maternidade. Lá chegando, eu perguntei quanto era a corrida. Eles não queriam cobrar nada e só depois de explicar que aquele era o meu

primeiro presente para o garoto que nasceria em alguns minutos, resolveram receber os R$ 35,00 registrados no taxímetro. Solicitei à cunhada o número do seu celular e prometi telefonar na tarde daquele mesmo dia, quando chegasse a Fortaleza, para saber das novidades. Peguei um táxi, dos que estavam parados defronte à maternidade, desta vez observando melhor quem o dirigia, e solicitei ao motorista pressa em direção ao aeroporto. Ali cheguei por volta das 4:30 h, mas como carregava apenas uma bagagem de mão, consegui embarcar no vôo programado.

       Na tarde daquele mesmo dia telefono para a cunhada da “minha passageira”:

– E então: como está a nossa mamãe?

– Deu tudo certo: o parto foi prematuro, porém mãe e filho estão passando bem. O menino pesa 3 quilos e seiscentos gramas e tem a cara do pai. A propósito, ela quer saber o seu nome para colocar no garoto.

– Sério?

– É mesmo.

– Meu nome é Otaciel.

– Como?

– O-ta-ci-el.

– Vote (ô), é muito feio! Acho que ela não vai colocar esse nome no meu sobrinho, não.

 

 

 

3 Respostas

  1. Esse cara é um grande tutor e amigo meu, podem crer esta história ouvi de sua própria boca!

  2. história veridica mesmo.
    rsrsrsrs.
    abraços.

  3. Muito boa a história… mas o final é de rachar. Também tenho um nome um tanto quanto incomum (digamos assim) e constantemente ouço alguns gracejos ou confusões (trocadilhos)…

    Abraços!

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