SUSSURROS (da novela ULSISCOR) de walmor marcellino

 

 

Não desejo, não insisto que façam sempre silêncio; tantas vezes alteei a voz. Até gostaria que as artes e seu convencimento inundassem o universo. Iremos ao afogamento!

Todavia, há uma voz estrênua à distância, um canto esplendente, uma melodia estreme, que constituem nossa razão última, depois da qual nenhuma invocação ou grito deve perturbar. Viva-se essa acalmia enquanto se preparam os combates.

Se não conseguimos olho a olho, a voz semente, ouvido atento, na confabulação das pessoas provadamente reais, tudo o que nos afasta é ruído, é turvação do espírito, alienação do ser. Silêncio, por favor!

Por assim, eu imploro muito silêncio; para que se oiça esse monocórdio; para que se assuma a inquietação sem choros nem clangores. Para ouvir-se o sopro do espírito, a possível comunhão sincrônica, onde dissolvem as vontades desorientadas.

Porque eu sou materialista da antimatéria, atemporal na cronicidade estuante; um objeto circundado de elementos; que somente contradiz nas pulsões.

Tem um filho da puta tocando um disco enrolado na pélvis; tem uma fêmea clamando aos solavancos no celular: “ninguém compra minha bainha!”; tem uma televisão avisando o apocalipse de outrem; tem uma pessoa que me convida a esquecer que não vamos a parte alguma. Como já é sabido, as pessoas com seu eu.

Eles querem, na verdade exigem que você se suicide; porque à falta de notícia, a sensibilidade lhes vai esmaecendo para coisas triviais… Então, não lhes facilite a miserável existência. Grite bem alto: façam silêncio!”

Ficção não é alegria; é uma tristeza suspensa. Mas ficção é a porta de saída do inferno de nossas vidas. Bastaria bater a porta e dar por cerrada, nunca mais, a pugna sedenta; porém as sombras nos acompanham, começam onde inicia o eu, e se bifurcam profusas.

Daí a ficção ser profusa inelutavelmente. Portudo, ficção não se aliena delevelmente; é uma tentativa de liberdade em alguma direção inadvertida. O sujeito vai trocado, é verdade, como fosse um complemento; e o leitor, o prescindível agente, o abjeto figurante é desprezado como um comparsa da aventura possível. Sem os mistérios criados.

Você que é “temporão” como se fala para atenuar seus débitos; ou você “decadente” para acentuar-lhe o passado; ou simplesmente “peregrino” para caracterizar que expatriado não tem sombra, precisa convencer-se de que o rebanho precisa ser nutrido, curado, tosado e disposto. E desde então exsurge o livre arbítrio que o deus da fortuna lhe reserva. Pode escolher a sua vez!


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