Arquivos Diários: 24 abril, 2008

AMNÉSIA poema de jb vidal

saio

carros em velocidade

 

freadas atropelos

salto para trás

 

sinal amarelo

e tudo passa

verde e tudo passa

tudo passa no vermelho

 

merda

 

a guerra está declarada

homens e máquinas

em estranhos carinhos

 

trombadas

carnes e ferros retorcidos

num abraço inseparável

entre emoções e o nada

 

nas calçadas

passa a multidão

e não me vê

 

 

 

atiram-me

de um lado para outro

me equilibro e sigo

vacilante

 

com mais ou menos

oito anos de idade

uma fome corre

mãos ágeis

levam minha passagem da volta

 

as lágrimas brotam

de raiva e poluição

chaminés malditas

conjuntivite crônica

pulmões pretos

ar  ar

onde estás

 

a praça

sim na praça

talvez eu possa

repousar este corpo

ferido na alma

 

seringas quebradas

latas vazias

restos humanos

jogados nos bancos

o chão

cheira mijo e merda seca

o sol escaldante

faz ferver o asfalto

fumaça óleo queimado

suor

asfixia

 

as árvores

pedem sombra

procuro com os olhos

encontro o inferno

 

mudaram tudo

 

a praça

já não é mais

 

haja alma

ali

com os pensamentos

reagindo às marteladas

do bate-estacas

a noite

me abraça

 

atento perscruto

famintos pixotes

prostitutas

homicidas

cafetões

bêbados

drogas

mendigos

 

por todo lado

o éter exala forte

 

 

sirenas

corre-corre

gritos

estampidos

junto à mim

um corpo cai

 

seguramente terá

as homenagens das manchetes

 

 

entro num bar

sento à um canto

 

não bebo

 

a fome de oito anos

levou a passagem

que poderia transformar-se

num gole ardente e cremoso

 

observo que ali estão

cantadores violeiros poetas

 

vou sorvendo

um pouco da vida

de cada um

me animo

questiono

reflito

sorrio

percebo que na arte

a vida sofre, suavemente

 

 

saõ paulo 1976.

DOS DEUSES NATHIVOS poema de jairo pereira

o deus menor faz pássaros cantar à força

o deus crescido derruba árvores na floresta dos nossos sonhos

o deus supervivido banha-se no rio de águas limpas

antropomística minha veia artística

antropocênica autoral e desmedida

cresci com os entes iletrados da mata dancei a dança dos ventos sofri as marcas do tempo tangi sons diferenciados nos poemas pendurados nos galhos

sou eu que amo este verde este cheiro de seiva fresca sou eu no interior das madeiras podres

cresço com os deuses de       barro enfibrados de cipós silentes nas tocas escuras.

 

 

 

O FIM DO HOMEM poema de joão batista do lago

 

Finda o Homem!

E finda na sua essencialidade

Quando atinge a capacidade

Do excesso…

E quando atinge a incapacidade

Da falta…

Finda pois, assim,

O Homem.

Nada mais há por Ser

Já que tudo existe no não-Ser.

 

ESSE TREM LOCO poema de gustavo soares de lima

eu zarpei de banda
fui indo, pezando pesado sujo
zoro de tanto espicha
mas que vida tosca essa
que me enrosca pros lados de lá
de tanto guspir forte pro céu
que um dia eu ei de pegá
esse trem loco
buzina um som estranhio
que pega a xente e entrépi os dedo
os dedo que nem tenho mais
perdi na máquina de fazer fóvora
só pra vós me oiár.

 

A ROSA DESMORONADA por bárbara lia

Escrito após assistir ao documentário – Escritores sem fronteira

 

“Potência não é direito”  (Breyten Breytenbach)

“A Palestina é uma zona de linguagem desmoronada”
(José Saramago)

 

As luzes marcam os caminhos que levam à Jerusalém, do alto de um monte em Ramallah, Mahmoud Darwish aponta Jerusalém, e meio a escuridão uma estrada de luzes separa Palestina e Israel.

O poeta ouve as palavras de sol dos amigos que romperam distâncias para abraçá-lo em Ramallah.

Saramago coloca em um mural, na universidade de Bir Zeit, o seu recado. Um a um os escritores deixam uma mensagem ao povo, registro de sua passagem. Escritores de oito paises foram abraçar Mahmoud Darwish, que não pode deixar sua terra para encontrá-los. Todos com o mesmo assombro diante de um país desmoronado. Esta é a palavra, e o mundo só sabe de explosões de homens bombas. Não sabem dos tratados que tornam o dia a dia inviável. Não sabem das pressões, das máculas que impõem a um povo como decisão sem volta, um rastrear sem fim de um território, uma posse sem direito, um ultraje. Saramago desenha uma flor, escreve abaixo o nome Palestina e a frase “Falta água a esta flor”. Falta água, falta abrigo, falta até mesmo o olhar de Deus para secar o pranto do homem que chora, enquanto o soldado de Israel com uma serra elétrica nas mãos corta as oliveiras, uma a uma, com uma tenacidade fria. Entre arbustos tudo chora. O outro soldado vem e encobre a lente que mostra o que ninguém no mundo vê – a dominação que chega e tira a humanidade de um povo.

Saramago, em uma cena do documentário, fala para a câmera dentro de um ônibus. Ele tenta explicar o significado de suas palavras, que correram o mundo, quando, no início dessa viagem, comparou campos de refugiados palestinos com Auschwitz. Saramago diz que não poderia calar sobre o que viu, e o desespero do escritor ao saber que sua declaração poderia gerar um ataque à Ramallah.


Em outra cena, o escritor chinês Bei Dao conta que, quando se apresentou ao consulado israelense, em San Francisco, onde mora, para pedir um visto para viajar para a Palestina, o funcionário disse com um ar “blasé”: “Esse país não existe”.


Dois deles ganharam o prêmio máximo da literatura – Saramago e o nigeriano Wole Soyinko. Os outros são Cristian Salmon, da França, o sul-africano Breyten Breytenbach, o chinês Bei Dao, o norte-americano Russell Banks,o italiano Vincenzo Consolo e o espanhol Juan Goytisolo.

Sabreen é a palavra que ele aprendeu, diz o francês à platéia de um teatro “sabreen – paciência” A primeira palavra que ele aprendeu enfrentando algumas das 763 barreiras que existem na Palestina. O teatro demolido por tanques, dois dias depois de ter recebido os intelectuais do mundo que vieram abraçar Darwish.

Dois escritores à beira do Mediterrâneo e a frase de perplexidade:

– Temos mais de cinqüenta anos de experiências, percorremos todos os paises do mundo. A África, a América Latina, e nunca nos deparamos com um ultraje tão grande contra um povo.

Água de um azul belíssimo, ondas de um branco resoluto, cabelos brancos poucos, as vozes que tentam entender e articular o que nem a palavra, arte tão bem manejada, lapidada, esculpida, consegue. Atordoados diante deste mundo de casas desmoronadas, de estradas esburacadas, dois universos contidos em um espaço, um de caminhos de poeira, pedra e angústia; outro de estradas asfaltadas, de soldados com olhar de pedra. E diante da retaliação, opressão, demolição, e toda ofensa contra um povo inteiro, eles criam kamikazes, e depois apenas os kamikazes surgem como notícia de fogo e explosão e morte. Ninguém mostra a criança morta antes de chegar ao hospital barrada em um posto por militares. Ninguém vê os estudantes que precisam percorrer a pé quilômetros para contornar o muro e chegar à escola, as mães que vendem batata nas feiras para criar os filhos, o homem que trabalhou a terra a vida inteira e vê chegar o exército e derrubar suas oliveiras, símbolo de sua pátria. Ninguém vê um bairro inteiro com as paredes formando um túnel que um tanque ultrapassou lado a lado, tornando impossível a privacidade entre os que ali vivem, e ninguém vê que quando matam um homem bomba, matam também quinze vizinhos de cada lado, e demolem bairros, cidades, escolas…