A ROSA DESMORONADA por bárbara lia

Escrito após assistir ao documentário – Escritores sem fronteira

 

“Potência não é direito”  (Breyten Breytenbach)

“A Palestina é uma zona de linguagem desmoronada”
(José Saramago)

 

As luzes marcam os caminhos que levam à Jerusalém, do alto de um monte em Ramallah, Mahmoud Darwish aponta Jerusalém, e meio a escuridão uma estrada de luzes separa Palestina e Israel.

O poeta ouve as palavras de sol dos amigos que romperam distâncias para abraçá-lo em Ramallah.

Saramago coloca em um mural, na universidade de Bir Zeit, o seu recado. Um a um os escritores deixam uma mensagem ao povo, registro de sua passagem. Escritores de oito paises foram abraçar Mahmoud Darwish, que não pode deixar sua terra para encontrá-los. Todos com o mesmo assombro diante de um país desmoronado. Esta é a palavra, e o mundo só sabe de explosões de homens bombas. Não sabem dos tratados que tornam o dia a dia inviável. Não sabem das pressões, das máculas que impõem a um povo como decisão sem volta, um rastrear sem fim de um território, uma posse sem direito, um ultraje. Saramago desenha uma flor, escreve abaixo o nome Palestina e a frase “Falta água a esta flor”. Falta água, falta abrigo, falta até mesmo o olhar de Deus para secar o pranto do homem que chora, enquanto o soldado de Israel com uma serra elétrica nas mãos corta as oliveiras, uma a uma, com uma tenacidade fria. Entre arbustos tudo chora. O outro soldado vem e encobre a lente que mostra o que ninguém no mundo vê – a dominação que chega e tira a humanidade de um povo.

Saramago, em uma cena do documentário, fala para a câmera dentro de um ônibus. Ele tenta explicar o significado de suas palavras, que correram o mundo, quando, no início dessa viagem, comparou campos de refugiados palestinos com Auschwitz. Saramago diz que não poderia calar sobre o que viu, e o desespero do escritor ao saber que sua declaração poderia gerar um ataque à Ramallah.


Em outra cena, o escritor chinês Bei Dao conta que, quando se apresentou ao consulado israelense, em San Francisco, onde mora, para pedir um visto para viajar para a Palestina, o funcionário disse com um ar “blasé”: “Esse país não existe”.


Dois deles ganharam o prêmio máximo da literatura – Saramago e o nigeriano Wole Soyinko. Os outros são Cristian Salmon, da França, o sul-africano Breyten Breytenbach, o chinês Bei Dao, o norte-americano Russell Banks,o italiano Vincenzo Consolo e o espanhol Juan Goytisolo.

Sabreen é a palavra que ele aprendeu, diz o francês à platéia de um teatro “sabreen – paciência” A primeira palavra que ele aprendeu enfrentando algumas das 763 barreiras que existem na Palestina. O teatro demolido por tanques, dois dias depois de ter recebido os intelectuais do mundo que vieram abraçar Darwish.

Dois escritores à beira do Mediterrâneo e a frase de perplexidade:

– Temos mais de cinqüenta anos de experiências, percorremos todos os paises do mundo. A África, a América Latina, e nunca nos deparamos com um ultraje tão grande contra um povo.

Água de um azul belíssimo, ondas de um branco resoluto, cabelos brancos poucos, as vozes que tentam entender e articular o que nem a palavra, arte tão bem manejada, lapidada, esculpida, consegue. Atordoados diante deste mundo de casas desmoronadas, de estradas esburacadas, dois universos contidos em um espaço, um de caminhos de poeira, pedra e angústia; outro de estradas asfaltadas, de soldados com olhar de pedra. E diante da retaliação, opressão, demolição, e toda ofensa contra um povo inteiro, eles criam kamikazes, e depois apenas os kamikazes surgem como notícia de fogo e explosão e morte. Ninguém mostra a criança morta antes de chegar ao hospital barrada em um posto por militares. Ninguém vê os estudantes que precisam percorrer a pé quilômetros para contornar o muro e chegar à escola, as mães que vendem batata nas feiras para criar os filhos, o homem que trabalhou a terra a vida inteira e vê chegar o exército e derrubar suas oliveiras, símbolo de sua pátria. Ninguém vê um bairro inteiro com as paredes formando um túnel que um tanque ultrapassou lado a lado, tornando impossível a privacidade entre os que ali vivem, e ninguém vê que quando matam um homem bomba, matam também quinze vizinhos de cada lado, e demolem bairros, cidades, escolas…

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