AS ORIGENS DA ESPANHA MODERNA por luiz parellada ruiz

 

 

 

A Península Ibérica, por sua localização geográfica e clima ameno em relação ao norte da Europa, foi habitada desde o início da ocupação deste continente pelo gênero Homo. O fóssil humano mais antigo da Europa, com datação de 800.000 anos, foi encontrado recentemente no norte da Espanha e classificado como Homo antecessor.

Avançando no tempo chegamos ao Homo sapiens e ao período glacial quando é possível que populações centro-européias tenham migrado para o sul em busca de melhor clima. Na região banhada pelo mar Cantábrico povos caçadores Cro-Magnon nos deixaram as maravilhosas pinturas rupestres da arte franco-cantábrica que na Espanha atingem seu ápice na gruta de Altamira e na França na de Lascaux. Autores bascos afirmam  baseados na língua da região, sem muita relação com os idiomas atuais, que os bascos modernos seriam os descendentes desses povos.

No Neolítico o clima melhora, os homens se tornam agricultores sedentários e isto se reflete num incremento da população. A laboriosidade destes povos vai originar a grande riqueza de restos arqueológicos que fazem a alegria dos estudiosos modernos, hoje que felizmente há dinheiro para custear estas pesquisas. Há túmulos megalíticos que lembram a arquitetura do Egeu, mas muito anteriores a estes; há indícios de atividades que indicam um alto grau de organização social, como a mineração em túneis; há enterramentos luxuosos com jóias sofisticadas, e há uma grande variedade de culturas relacionadas à técnica de fundição do bronze. Estes povos, muito numerosos, são chamados iberos.

No início do primeiro milênio AC tribos indo-européias (celtas) entram na península e em parte se integram aos iberos dando origem aos celtiberos. Quase imediatamente chegam por mar os comerciantes fenícios fundando colônias principalmente na atual Andaluzia. Traziam produtos manufaturados que trocavam por minérios. Introduziram o alfabeto e a tecnologia do ferro. Possivelmente são eles que dão origem ao nome Hispânia, que significaria “costa de coelhos”.

No séc. VI AC os gregos fundam colônias no litoral norte, na atual Catalunha. A mais importante, Emporion, serviu mais tarde de ponto de desembarque para as legiões romanas.

Cartago, uma colônia fenícia no norte da África (atual Tunis), se transforma na potência comercial do Mediterrâneo ocidental e entra em choque com Roma na ilha de Sicília. Ao fim de três guerras Cartago será destruída. É na Segunda Guerra Púnica, em 218 AC que os romanos desembarcam na península ibérica onde os cartagineses tinham criado fortes raízes e dispunham dum excelente porto chamado Cartago Nova (atual Cartagena). A romanização da Hispânia, como passou a ser chamada a península, leva dois séculos, mas é completa. O nome Espanha, como passaremos a chamá-la agora, compreende toda a península, inclusive a Lusitânia, atual Portugal e, posteriormente, uma parte do atual Marrocos. Grandes imperadores: Trajano, Adriano e Teodósio o Grande, filósofos, como Sêneca, e literatos, como Lucano, nascem na Espanha. E o latim será a base para o desenvolvimento de línguas importantíssimas.

 

 

2

 

 

A partir do séc. III povos germânicos invadem o Império e no séc. V os visigodos se instalam no território tentando revitalizar a Espanha romana após o chefe godo Ataulfo ter-se casado com Gala Placídia, irmã do imperador Honório. Os visigodos fazem de Toledo sua capital e durante dois séculos a cultura romana é mantida na península. O rei Recaredo se converte ao catolicismo, a Igreja se torna muito poderosa e o latim absorve e modifica a língua germânica dos invasores, prenunciando as futuras línguas peninsulares.

Em 711 guerreiros norte-africanos, os mouros como serão denominados, são convidados por nobres visigodos descontentes e sob liderança árabe derrotam o rei Roderic ou Rodrigo. A seguir conquistam toda a península, que eles denominam Al Andalus, e invadem o sul da França até serem contidos por Carlos Martell na batalha de Poitiers. Os invasores, apesar de contar com uma arma poderosíssima, o cavalo árabe, tinham deixado sua linha de apoio vulnerável demais e desistem de expandir seu território.

A Reconquista cristã começa imediatamente no norte da península a partir dos mesmos grupos montanheses que anteriormente tinham criado problemas para os romanos, e ao leste, no Mediterrâneo, com a criação da Marca Hispânica, atual Catalunha, por Carlomagno. Muitos casamentos, traições e lutas serão necessários até a completa expulsão dos mouros da região carolíngia, que se transformará num foco de cultura cristã. A piedosa crença de que o apóstolo Santiago estaria enterrado na Galiza leva milhares de peregrinos, principalmente da França, a cruzarem o norte da Espanha de leste a oeste seguindo a Via Láctea, espalhando seus conhecimentos e sua língua que vai influenciar o galaico-português. (Hoje, graças ao Paulo Coelho, milhares de turistas brasileiros alegram o Caminho de Santiago.) Mais tarde os frades cistercienses encheriam a Catalunha de mosteiros góticos sem saber que estavam gestando um outro roteiro turístico, que eu pessoalmente recomendo.

De novo, casamentos, traições e batalhas moldam a nova geografia peninsular. Todo o mundo quer conseguir um pedaço de terreno e ser nobre ou, melhor ainda, rei. O rei das Astúrias funda o Condado Portucalense, mais tarde o seu reino desaparecerá e Portugal se transformará em reino. Catalunha se funde com Aragão e se transforma no estado mais poderoso do Mediterrâneo, dominando as principais ilhas deste mar, o leste da península ibérica, Nápoles e parte da Grécia. Castela vai crescendo e brigando com Portugal. E todos aproveitam as horas vagas para guerrear os infiéis e ganhar o céu.

Os mouros no séc. X representavam a máxima expressão cultural da Europa. Córdoba era um modelo de higiene, civilização e arquitetura avançada. Matemáticos, médicos, filósofos e poetas se movimentavam numa cidade que tinha calçamento e iluminação pública. As mulheres tinham bastante liberdade. Os judeus e os árabes se davam muito bem. O palácio do Califa deslumbrava os embaixadores estrangeiros. Os nobres cristãos acostumados a partilhar seus aposentos com o cavalo, enviavam os filhos para que apreendessem boas maneiras naquela corte de sonho, onde o titular tinha um harém que podia acolher seis mil mulheres. Súditos invejosos, inimigos mais invejosos ainda e clérigos raivosos colaboraram para volatilizar tudo isso, e no séc. XV o domínio árabe tinha se reduzido ao pequeno reino de Granada, pequeno, mas organizado, produtivo, e lindo como podem verificar hoje os visitantes da “La Alhambra”.

 

 

 

3

 

 

Chegamos assim aos Reis Católicos: Fernando, rei de Aragão e Isabel, rainha de Castela. Fernando estadista, diplomata e guerreiro, muito admirado por Maquiavel; Isabel, bondosa e amável com todos, mas dura e cruel para combater a heresia. O título de Reis Católicos, dado pelo papa espanhol Alexandre VI, vai marcar o futuro do país que eles estão querendo fundar. Seu casamento junta as duas maiores forças políticas da península. Fora de suas mãos está Granada que eles conquistam em 1492, o mesmo ano em que Colombo sob suas ordens chega a América; Navarra, que Fernando invade e anexa ao novo reino, e Portugal que deveria ser incorporado por vias matrimoniais – projeto que a prematura morte dos futuros nubentes frustra. O objetivo era a unidade peninsular, ou seja, a Espanha do tempo dos romanos.

Para o pensamento dos Reis a unidade inclui uma só religião e em 1478 é restaurada a Inquisição na Espanha. Logo mais, um fanático sincero e incorruptível, Tomás de Torquemada assume sua chefia e deixa um rastro de sofrimento humano como poucas vezes se viu na história da humanidade. Os judeus são expulsos em 1492 e os mouros não convertidos em 1499.

Possivelmente como fruto de séculos de lutas contra os mouros, cada cidade tinha um conselho e todas eram muito ciosas de seus privilégios. Poderíamos falar de um verdadeiro “patriotismo municipal” – anos antes da Carta Magna inglesa, cidades da península já tinham documentos semelhantes. Todos os privilégios vão se perdendo durante consecutivos reinados absolutistas, resultando num centralismo castelhano extremado – até a hierarquia eclesiástica os reis controlam, e produzindo mágoas profundas presentes até hoje.

Por enquanto Portugal tinha ficado fora da unificação, mas os Reis Católicos mudam o foco e passam a intervir na política européia. Começam pela Itália, onde Fernando tinha interesses em Nápoles e Sicília, e casam a filha Joana com Felipe de Habsburgo, cujo filho Carlos será Imperador do Sacro Império Romano Germânico.

Para o historiador francês Fernand Braudel, que na década de 1930 foi professor na USP, a intervenção na política européia foi um grande erro. Para ele Espanha deveria ter-se voltado para a África. O desinteresse dos Reis Católicos pela África cria por primeira vez na história uma fronteira no Estreito de Gibraltar. Dom Sebastião tentará consertar isto.

Como resumo deste período podemos citar as palavras do historiador e filósofo americano Will Durant: ”A Espanha perdeu um tesouro incalculável com o êxodo dos comerciantes, artesãos, sábios, médicos e cientistas judeus e muçulmanos, e as nações que os receberam lucraram econômica e intelectualmente. Conhecendo dali em diante apenas uma religião, o povo espanhol submeteu-se completamente ao seu clero, e desistiu de todo o direito de pensar a não ser dentro dos limites da fé tradicional. Com ou sem razão, a Espanha resolveu permanecer medieval, enquanto a Europa, pelas revoluções comercial, tipográfica, intelectual e protestante, corria para a modernidade.” Resta saber se foi evitada uma outra Bósnia no século XX.

Mas a Espanha está crescendo e o neto dos Reis Católicos, Felipe II, será o homem mais poderoso de seu tempo. Simultaneamente estão lançadas as sementes da decadência e dos problemas, fanatismo, perseguições, centralismo e exploração, que criando ódios seculares impedirão aos futuros espanhóis se integrarem na unidade almejada.

 

 

 

4

 

 

Carlos V da Alemanha e I da Espanha foi um homem esmagado por seu tempo. Ele teve que enfrentar a Reforma, o papado, os turcos e Francisco I da França. Os recursos humanos e materiais necessários eram demais para a Espanha. Já no início de seu reinado enfrentou uma guerra de classes, a Revolta dos ”Comuneros”, ou seja, dos membros das comunas. Estes plebeus, como habitualmente acontece, foram esmagados pelos nobres e pelas dissensões entre eles, com o resultado de que ambas as partes, nobres e plebeus, ficaram enfraquecidas, o que aumentou o poder real e diminuiu ainda  mais o poder dos municípios.

Carlos V conseguiu devastar a Itália, instalar um feudalismo anacrônico na Alemanha, reforçar a Inquisição na Espanha e enfraquecer o Sacro Império. Morreu retirado num mosteiro na Espanha, não sem antes confirmar a pena capital para uns protestantes espanhóis dizendo que os arrependidos deviam ser decapitados e os que não se mostrassem arrependidos, queimados.

Felipe II filho do Imperador e de Isabel de Portugal realizou o sonho da unidade peninsular. D. Sebastião pediu sua ajuda para conquistar o Marrocos; ele lhe fez ver que Espanha já tinha muitos problemas para resolver e Portugal não dispunha de recursos suficientes. Como D. Sebastião insistisse, Felipe declarou ao seu Conselho: “Se ele ganhar teremos um bom genro; se perder teremos um bom reino”. Perdeu e Felipe se transformou num dos homens mais poderosos de todos os tempos. No centro geográfico da Península existia uma vila chamada Madri, Felipe a fez capital do reino por fim unificado. Fernand Braudel considera isto um erro estratégico, pois Lisboa era a cidade mais importante da Península e deveria ter sido escolhida para capital. Isto diminuiria o espírito separatista português, sempre estimulado pela Inglaterra.

Felipe, avesso a luxos cortesãos e a multidões, edifica perto de Madri o “Mosteiro do Escorial”, onde passa a ocupar o quarto mais modesto do edifício, tão pobre como a cela de um ermitão. Segundo Will Durant o edifício, majestoso – sua fachada tem 226 m, simbolizava o poder de Felipe; o quarto exprimia seu caráter. Para governar o mundo desde seu retiro desenvolveu uma burocracia que até hoje nos atormenta.

Embora respeitando a Igreja, mantinha a religião sujeita ao Estado espanhol. Achava a unidade religiosa fundamental e dizia preferir não governar a ser príncipe de hereges.

Assim proibiu todos os costumes mouriscos, o uso da língua árabe e a posse de livros nesse idioma. Isto originou muitas revoltas e atrocidades de ambas as partes. Seu sucessor, Felipe III, por solicitação do arcebispo de Valência, expulsou os mouriscos cristianizados do leste da Espanha, repetindo as cenas desumanas de um século antes.

No reinado de Felipe IV seu competente ministro conde-duque de Olivares trava uma luta de titãs com o não menos competente cardeal Richelieu, ministro de Luis XIII da França. Ganha Richelieu; se completa a destruição da marinha espanhola pelos ingleses e holandeses; acaba a invencibilidade dos exércitos espanhóis que, mantendo frentes em uma dúzia de lugares diferentes da Europa, consumiam mais ouro do que chegava de América; Portugal declara sua independência e no mesmo ano (1640) também Catalunha se separa e durante 19 anos, ajudada, primeiro pela França e depois pela Inglaterra, fica guerreando com Castela.

Carlos II, doentio filho de Felipe IV, morre sem sucessor e dá origem à Guerra de Sucessão Espanhola, na realidade guerra européia, pois durante dez anos a Europa se envolve num morticínio exemplar. Ganha a parada o neto de Luis XIV, que inaugura a

 

 

5

 

 

dinastia Bourbon na Espanha como Felipe V, mas a Espanha perde suas possessões européias e, vergonha das vergonhas, o rochedo de Gibraltar. O empobrecimento do país continua. O novo rei ocupa a Catalunha e proíbe o uso oficial do catalão.

Um dado curioso: Charles Castel, abade de Saint Pierre, da delegação francesa que negocia a paz de Utrecht (1713), para pôr fim à Guerra de Sucessão, apresenta um “Projeto para perpetuar a paz” que recomenda que os países da Europa se unam numa “Liga de Nações” com um congresso de representantes permanente, uma força militar combinada, e medidas e moedas uniformes para toda Europa. Os congressistas devem ter disfarçado o riso, mas a bomba atômica  conseguirá tudo isto no séc. XX.

Os monarcas subseqüentes continuam o centralismo exacerbado e aí chegam as guerras napoleônicas. Em 1808 Napoleão decreta uma nova constituição para a Espanha, a Inquisição é abolida, o poder da Igreja é cortado drasticamente e as alfândegas interprovinciais são suprimidas. Num gesto simpático à Catalunha, em 1810 lhe concede autonomia e dá caráter oficial à língua catalã. Na queda de Napoleão torna a monarquia absoluta e volta tudo ao normal, ou seja, o atraso e a intolerância continuam.

O séc. XIX é marcado por brigas sucessórias, as Guerras Carlistas, e revoltas de toda ordem que espelham o tripé da tragédia espanhola: conflitos de classe, autoritarismo versus liberdade e centralismo contra regionalismo.

A Espanha, num clima de corrupção e de injustiça social incrível, perde suas últimas colônias numa guerra com os Estados Unidos no fim do séc. XIX e se envolve junto com a França numa intervenção no Marrocos, no início do séc. XX. Esta intervenção vai produzir alguns desastres militares com graves repercussões internas.

Em 1931 se instala a II República. É um período de grande agitação social. São discutidas as autonomias de diversas regiões, mas a demora nas discussões e a brevidade da República, onde parece que ninguém se entende, farão que nada seja resolvido. O assassinato do líder da oposição, o monarquista Calvo Sotelo, por forças de segurança fornece o pretexto para o início da Guerra Civil de 1936, na verdade o clímax de um século e meio de guerra civil não declarada.

O que era para ser um golpe militar, por falta de organização, excesso de otimismo, ou sinistros interesses externos, se transforma numa guerra de três anos e um milhão de mortos, muitos assassinados na retaguarda e outros no pós-guerra – parece que todo o ódio acumulado por séculos vem à tona. É uma guerra civil com grande intervenção estrangeira, principalmente da Alemanha, Itália, França e Rússia. É um conflito onde são testadas armas e estratégias para uso na briga de grandes proporções que será travada a seguir. Ganha a parte que apresenta maior organização e coesão das forças que a compõem. Perde a República, fragmentada em numerosas correntes políticas aparentemente incompatíveis e fragilizada pela perseguição dos estalinistas (donos das armas) a troksquistas, anarquistas e voluntários internacionais idealistas, entre eles intelectuais como Saint Exupéry e George Orwell, visionários que queriam ajudar a Espanha a sair de seu marasmo medieval.

O líder dos vencedores, general Francisco Franco, adota a postura de católico fervoroso, e retoma o ideal dos Reis Católicos: a Espanha só pode ter uma religião e uma língua e deverá ser uma monarquia. Mesmo sendo galego abraça o centralismo castelhano com o maior entusiasmo e como qualquer monarca absoluto não abre mão de nomear os bispos nem de punir exemplarmente qualquer ameaça à sua autoridade.

Mas desta vez a Espanha tem sorte: a guerra fria a transforma numa peça essencial na

 

6

 

 

política dos Estados Unidos, que cedem a todas as exigências do General; a Europa Ocidental tem uma recuperação acelerada e a Alemanha absorve levas de humildes trabalhadores espanhóis transformando-os em consumidores; o país  é pacificado após séculos de conflitos; são criadas leis trabalhistas que valorizam o trabalho – tão desprezado pelas classes altas espanholas; a alfabetização dá um pulo significativo, assim como a higiene; ministros competentes – diziam que a metade dos ministros de Franco eram de botas (militares) e a outra metade “devotos” (da Opus Dei), criam uma base energética que fará possível a industrialização e preparam o caminho que transformará a Espanha numa potência turística. Isto último me parece ser a porta que fez entrar a Espanha no mundo moderno.

Em 1975 morre o ditador. Dois anos depois 17 regiões espanholas são declaradas autônomas, cada uma podendo falar a língua que quiser. A boa sorte do país, que está numa situação difícil, continua: a Europa cresce a pesar da primeira crise do petróleo; a democracia se afirma: o rei Juan Carlos em quem poucos faziam fé é um bastião da monarquia parlamentarista; em 1986 Espanha e Portugal entram na Comunidade Econômica Européia (incrível! Parece que Portugal e Espanha por fim estão em paz); governos excelentes fazem da Espanha um país rico com índices de desenvolvimento humano similares aos da Suécia; as vias romanas se transformam em autopistas e trens excelentes, e a Espanha é o segundo país do mundo que mais recebe turistas, com o intercambio de idéias que isto representa.

Tentei mostrar os principais surtos de fanatismo e intolerância que, querendo conseguir a unidade, transformaram-na num sonho irrealizável. Ao contrário, 30 anos de tolerância e compreensão – o exemplo são os “Pactos de La Moncloa”, criaram uma nova sociedade aberta para o mundo.

A história poderia ser diferente? Com certeza. Seria melhor? Não podemos saber, mas qualquer mudança seria desagradável para nós, pois não teríamos nascido. Assim, devemos ser compreensivos com nossos ancestrais.

Mas nem tudo são rosas: há problemas nas duas regiões mais industrializadas do país: no País Basco, uma minoria radical que despertou simpatias apelando ao terrorismo para lutar pela liberdade no tempo da ditadura, o continua usando, sem nenhuma explicação, para tentar impor o desejo de independência de uma minoria; a Catalunha também quer ser independente, mas usando meios políticos. O comportamento diferente dos separatismos basco e catalão os geógrafos o explicariam por serem os bascos montanheses e os catalães habitantes da planície; os etnógrafos, pelo isolamento dos bascos e a miscigenação dos catalães com todos os povos que por ali passaram, criando uma base cultural completamente diferente. Hoje, na era das autonomias e da União Européia, separatismos são difíceis de entender. Por que sair de uma sociedade que garante inequívocas vantagens? Por que deixar de usar uma língua falada por apreciável parte da humanidade? O “patriotismo municipal” é indomável? Ou a desconfiança do centralismo castelhano, decorrente de séculos de opressão é poderosa demais? A última hipótese me parece muito forte.

Saí da Espanha há 50 anos, deixando um país pobre onde a vida do indivíduo parecia ter sentido somente se sua crença fosse a única verdadeira. Hoje as pessoas respeitam e defendem as idéias diferentes dos vizinhos e consideram isso mais importante que a riqueza material que conseguiram. Essa mudança me deixa otimista: se aconteceu lá pode suceder em outros lugares. Afinal, todos nós vivemos sob as mesmas estrelas, por que não admirá-las juntos?

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: