PRECONCEITO LINGUÍSTICO por leonardo meimes

 

Sabemos que hoje, se repudia qualquer tipo de preconceito como sendo uma atitude imoral e desumana. As comunidades, etnias, culturas, religiões têm sua liberdade acima de tudo. Agora é a hora de colocar mais um preconceito em cheque. Você já ouviu falar sobre o PRECONCEITO LINGÜÍSTICO?

Quantas vezes você foi já foi corrigido enquanto falava ou corrigiu a fala de alguém? Pois saiba que na maioria dos contextos corrigir a fala de uma pessoa e julga-la por este “erro” pode ser considerado um preconceito. A língua portuguesa, como todas as línguas, é heterogênea e intrinsecamente variável. Isso quer dizer que nenhuma língua é estática, pelo simples fato de que ela é um “organismo em constante evolução”. Os conceitos de variação, variante e mudança, foram introduzidos pela lingüística para abarcar as diferentes formas de se dizer uma mesma coisa, formas que ocorrem em todos os idiomas existentes e que são sim uma grande qualidade das línguas. Se as línguas não se adaptassem constantemente se tornariam inúteis a cada instante que algo fosse criado ou modificado no mundo social ou real. Para diferentes realidades existem diferentes formas de se comunicar e isto fica evidente se pensarmos na extensão do Brasil e na quantidade de dialetos regionais que temos. Mesmo assim dentro destes dialetos existem variações, nem todo gaúcho diz “Bá”. Então devemos pensar muitas vezes antes de corrigir a fala de alguém, pois ela pode estar apenas usando uma variedade não padrão da língua, ou até mesmo uma variedade padrão com um nível de formalidade diferente. O que é importante frisar e destacar é:

 

NENHUMA VARIEDADE, OU LÍNGUA, É MELHOR, MAIS CORRETA, MAIS BONITA OU MAIS RICA, DO QUE AS OUTRAS

 

A noção de “ERRO” está sendo revista pela lingüística à algum tempo. Dizer que uma pessoa está errada quando fala algo como “bicicreta” e “os home”, prevê uma noção de língua sendo empregada (no caso a noção de língua como código), e só se faz este julgamento quando se considera uma das variedades como sendo “melhor’ ou mais “correta”. É o que acontece quanto se coloca a gramática normativa como a única variedade certa do português. Esta variedade foi, por fatos econômicos e históricos, escolhida para ser a base comum do ensino de língua em nosso país, isto não quer dizer que ela está certa (podem-se encontrar inúmeras incoerências em suas definições) e as outras erradas. Elevar a gramática a este estatus de “correta” cria vários problemas de ordem social que poderiam ser evitados se fosse explanado dês do começo do ensino da língua que existem variedades e que elas coexistem e são todas apropriadas para seu contexto. Um “erro” na verdade pode não passar de uma inadequação de estilo ou gênero, ou apenas de uma variação de dialeto falado pelo interlocutor. Se um interlocutor diz “os home”, não se considera um erro, pois na comunidade em que ele vive esta é a gramática internalizada dos moradores e a variedade comum, não adianta você impor sua variedade que ele vai voltar a anterior quando entrar em contato com um parente, por exemplo.

A gramática normativa já não é mais a única sendo estudada atualmente, existem pelo menos três gramáticas em uso em nosso país. A normativa ou padrão, que é subjetiva e arbitrária (pois tenta congelar o sistema lingüístico e em uma variedade que não existe mais em uso); a gramática descritiva, que não prescreve nem normatiza, apenas descreve o que é visto na língua; a última e mais difícil de ser estudada é a gramática internalizada, a que cada falante tem em seu cérebro e que nos permite adquirir a língua antes mesmo de ter aulas sobre ela. A gramática normativa (norma padrão) é a mais distante da realidade, pois congelou no tempo uma variedade, como dito, inexistente e passada, que não corresponde as necessidades de hoje. Ela ainda tenta fazer o que os filósofos tentaram ao criar uma gramática para o latim, congelar a língua, porém como vimos o latim evoluiu para as línguas românticas (português, italiano, francês, etc.) e agora não passa de uma língua morta.

 

A GRAMÀTICA NORMATIVA ESTÀ EM PRINCÍPIO ERRADA, POIS TENTA CRIAR REGRAS PARA UM SISTEMA QUE MUDA CONSTANTEMENTE

 

Sendo assim, deixemos de lado nossas diferenças lingüísticas, todos nós brasileiros falamos português, certo e rico, e “arretado” de bonito, não existe diferença entre nós ao que cabe a língua, pois todos a usamos da melhor forma, respeitando as necessidades de nossa realidade e adaptando-a ao que é necessário. Se você entendeu o que o outro falou, estão falando a mesma língua, ninguém é melhor do que ninguém, nem mais “burro” por falar diferente. Deixe este preconceito desaparecer, como todos os outros.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: