XALE por jorge lescano

É sempre longe em minha alma,

 porque estás como ausente y mi voz no te toca

 Este es un puerto: aqui te amo

– escreveu no xale de Maryeva e assinou:

 Fernando Pablo Pessoa Neruda

 

 

a moça ocupava na mesa o mesmo lugar que ocupavas há exatamente duas semanas, e ignorava a leitura que eu fazia do seu xale

 

 na rua, ininterrupta, continua a chuva oblíqua

 

como naquele anoitecer de há duas semanas, cheguei com os cabelos úmidos, as calças coladas às pernas, nos olhos uma distância turva

 

sentei-me no fundo do salão. Sabes que aqui me escondo quando espero que não venhas. Cá ninguém pode ficar às minhas costas como eu estou em relação à desconhecida do xale cinza, em cuja simétrica urdidura vou descobrindo a tua ausência

 

corpo de mulher que amo: país de ásperos perfumes

 

no porto silencioso onde eu só faço sentido para mim, como se este canto existisse apenas para a espera – minha – de quem não chegará até a figura solitária à beira do cais, pois nada a mim te prende

 

no desenho regular de vaga geometria esboçava escorços de tua figura  

 

quando ávida a minha língua busca a vida em tuas entranhas

 

na penumbra do motel não esperávamos nenhum trem para partirmos juntos rumo a destinos diferentes, embora, nos momentos do descanso necessário em nosso  encontro, eu fosse  passageiro ocasional de uma estação ferroviária inominável

 

mulher minha passageira do trem invisível que de mim te afasta e não deixa que te entregues ao furor do vento que por dentro te sacode

 

do outro lado da névoa, além das vagas, fico a ver-te, pequena, surgindo da espessura da neblina, teu sorriso vindo para mim como vinhas a este, meu acanhado porto, e tua voz, deste lado, não me aquece

 

e a espera é minha apenas, pois que a mim nada te prende

 

naquele fim de tarde em que te lembro, assim deverias ter ficado para um outro que não eu, a quem esperavas com o sorriso ainda no estojo dos teus dentes

 

os lábios vermelhos destacam o negrume dos teus olhos quando o sorriso aflora para envolver meus ombros

 

menina, se  te escondes fechando os olhos para não ser vista brincando de mulher

 

não sei se é a postura da cabeça, uma sutil inclinação do busto, o livro nas mãos, abandonado, ou o irrequieto diagrama do xale o que me diz que a moça agasalhada em brumas

 

de tremores de urgências genitais e gemidos e sussurros e gritos presos

 

 

 espera alguém, como naquele anoitecer chuvoso me esperavas

 

tua voz me chama

 

no curto espaço entre as duas mesas, flutuavas na indecisa luz do quarto invadido pelo dia vagaroso fundindo em sépia tuas fronteiras

 

vou ao encontro ansioso e breve

 

no outro lado do planeta reconheces a floresta que guarda a tua casa, e as palavras, não mais estranhas: teus ouvidos já não sentem a neve do outro idioma

 

teu sorriso acende minhas veias

 

um suave movimento desloca o friso de diagonais quebradas sobre o espaldar da cadeira e o calor de tua nudez, a maciez das coxas, o morno aroma do teu hálito e o penetrante perfume do pescoço, a brisa do teu silêncio, o sotaque de distância – parada obrigatória ou fim do itinerário daquele trem que não deixo de esperar-, são a urdidura do xale

 

e tua voz é mais uma no coral de vozes que não ouço

 

         teus olhos decoraram paisagens onde nunca estive – assim, não estou em tuas lembranças quando delas lembras -, paisagens que nunca virei a ver/?

 

Não rodeia a doce curva dos teus ombros e no entanto minhas mãos náufragas se abrem para sentirem as tuas, que não mais estão onde as deixara naquele oblíquo fim de tarde. Além da cadeira que comigo se defronta, as pregas assimétricas agasalham um perfume que permanecerá secreto, porém, eu sei, não provocaria lembranças de ribeiros, nem de selvas penumbrosas, nem de flores negras, tampouco risos abafados ou murmúrios antes da fúria genital e do cansaço      que   fecha teus   olhos   e faz  com  que reclines a cabeça e abandones teu perfil ao meu olhar; mergulhas com placidez na urdidura do sonho, libertando entre os lábios um som indefinido que ilumina teus dentes e que eu, para meu prazer enquanto dormes, quero interpretar como algo próximo à felicidade, como aquilo que poderias sentir se eu te presenteasse com um xale

 

anoitece em teu país de sombras, dispões o jantar na mesa, uma criança fala em torno de tua saia. Ignoro se ainda está nevando em tua cidade – minúscula, automática – ou se um raio deste  sol que a mim me cega, aquece alguma aresta de tua sala ou brilha tenuemente sobre tuas mãos de cobre antigo

 

do meu refúgio brinco de adivinhar o nome. Embaralho possibilidades. Ensaio nomes para fugir do teu – Fairuz? Kelly? Sebastiana? Quem eras naquele entardecer? -; talvez seja tão somente Maria, como o tango 

 

como em nossa primeira noite, antes  que os passos no corredor – mensageiros de uma culpa? – fixassem teu olhar no espaço e fizessem teu corpo congelar minhas carícias

 

sorris ao ler meu xale, ou recolhes a mirada pensativa para me enxergar melhor em  tua lembrança?

 

2 Respostas

  1. Xale tecido para Maryeva, desde sempre para sempre tecido, na beleza que não morre.

  2. Mulheres, mulheres e onde está o HOMEM?????????????????

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