O ESTUPRO por zuleika dos reis

                                          Paisagens de um pós-ser, de um vir-a-pó, de comércio entre ambos. Signos de vidro, papéis e passos perdidos. Signos de espelhos vislumbrados sempre de passagem. As arestas das mesas. As partilhas impossíveis. As paredes. Os segredos. Os presentes passados futuros virtuais. As baratas e o pó. A ferrugem. Os brilhos repentinos e inúteis. As cirandas sem saída. Mover-se por ele até amá-lo, que amar não é coisa espontânea tal o mar ou uma nuvem. Andar como turista por seus esconderijos percorridos à exaustão. Percorrê-lo como espiã de si mesma. Assaltá-lo sem estardalhaço para que os vizinhos não percebam, invadir-lhe as entranhas, encharcar-se de gozo, sair de dentro dele, erguer-se, vestir-se rápido, abrir a porta do apartamento cheio de digitais em cada canto, as marcas de outros assassinatos cometidos por descuido. Andar pelos corredores em silêncio carregando, na bolsa, as nódoas das feridas dele. Atingir a rua onde a aguarda a primeira punhalada da manhã.

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