O MAL-ESTAR no VISUAL por flávia albuquerque

Na atual sociedade em que vivemos, com o subentendido lema de ‘seja belo e consuma’, o corpo se insere no mercado primordialmente como capacidade de consumir e ser consumido. Vivemos em um crítico momento em que vigora a padronização de comportamentos onde o corpo se encontra como máquina de dor e prazer para responder à exigência maciça de permanecer jovem e belo.Tal promessa de juventude eterna acaba por nos reduzir aos quilos de nossos corpos e às curvas de nossas silhuetas. Os que não respondem ao modelo atual ‘sarado’, seios siliconados, ‘barriga tábua’, quilos abaixo da média estão desabrigados na ‘sociedade do espetáculo’ em que só desfilam os que ostentam imagem de sucesso.

A televisão é um desfile de corpos ditos perfeitos com peças de roupas ditadas pela moda tendo um apelo estético fora do alcance dos pobres mortais: meninas cada vez mais jovens nos afrontam com sua magreza indecente desafiando a morte. O que se consegue, por exemplo, ao ler uma revista de beleza é sentir-se feio, tamanha a diversidade de propostas de mudança corporal que ali se encontram. Em virtude desse ideal estético, muitos se submetem a inúmeras plásticas, cirurgias de redução de estômago, se entregam às anfetaminas ou desencadeiam distúrbios alimentares causando uma verdadeira mutilação no próprio corpo, tornando-os masoquistas por imposição. Tamanha maratona tem um único objetivo: ser aceito por uma sociedade atual, portadora de olhares exigentes, que vive no engodo excessivo, para além da ilusão fundamental que uma imagem qualquer já transmite.

É notória a ‘conspiração’ da indústria da beleza aliada aos meios de comunicação de massa em busca de cifras a serem gastas com cosméticos, plásticas, vestuário e academias de ginástica. A mídia banalizou valores e sexualidade usando imagens ideativas alimentando um falso ideal de completude num verdadeiro culto ao corpo. Essa reivindicação normativa oferece uma crença, uma ilusão de uma felicidade inexistente transformando o homem de hoje no contrário de um sujeito. Quanto mais a sociedade se encerra na lógica narcísica, em que transforma os homens em objeto, mais foge da idéia de subjetividade. Afinal, em que momento o desejo poderá emergir no meio de tanto tempo gasto para satisfazer a demanda alheia deveras exigente?

Como um simples objeto de consumo na sociedade contemporânea, o sujeito é visto apenas como um corpo que existe somente para consumir e ser consumido. Afinal, o voyeur é também um exibicionista, como bem especificou Freud: na satisfação que se tem de olhar, ele também se colocará na posição de ser olhado.

Muitas vezes o sujeito reconhece sua alimentação incorreta e vive num ciclo vicioso de culpa, raiva e depressão. Não é à toa que uma bulimia consiste em comer o que se tem vontade e depois eliminar tudo o que foi ingerido, experimentando uma verdadeira ressaca moral.

A maior doença do ser humano é querer ser amado, o que, no contexto social em que vivemos, infelizmente significa, para muitas pessoas, aderir a padrões de beleza utópicos. Essa necessidade de ser aceito faz com que o sujeito coloque seu ideal acima do respeito a si mesmo, ao seu próprio corpo, sob o risco de ser condenado a sentir-se deficiente ou deformado. Quanto mais a sociedade apregoa a padronização, a igualdade de todos, mais ela acentua as diferenças. Condenado ao esgotamento pela falta de uma aceitação, o sujeito busca no ‘culto ao corpo’ o ideal de uma felicidade impossível.

As anfetaminas não fazem nada além de suspender sintomas de obesidade ou sedentarismo. Elas fabricam um novo homem que coloca de lado seus desejos, se sente envergonhado por não corresponder ao ideal imposto e passa a viver alienado à cura da própria essência da condição humana. Quanto mais se objetiva o fim do sofrimento psíquico através da ingestão de remédios, mais o sujeito decepcionado com as ‘soluções’ apenas momentâneas, volta-se para os consultórios analíticos.

Se hoje a psicanálise concorre com essas promessas de ideal é porque os próprios pacientes percebem que o orgânico é, muitas vezes, causado pelos sintomas psíquicos e passam a preferir falar de seus sofrimentos a se entregar a tal exigência de padronização sem se questionar o que está em jogo. Verbalizam o sofrimento para, ao menos, procurar saber de sua origem.

O que não faltam são orientações de médicos e especialistas na área nutricional e esportiva a respeito de uma melhor qualidade de vida em termos de saúde. Mas não há regra para melhor qualidade de vida psíquica. E ignorar que a saúde mental tenha interferência na saúde corporal é, no mínimo, preocupante. Hoje em dia, viver o melhor possível, significa sobreviver o menos pior possível. A psicanálise, após mais de 1 século de sua invenção, permanece em vigor, numa insistência de que o sujeito viva num constante questionamento contra uma alienação devastadora. 

 

 Flávia Albuquerque é Psicanalista, pós-graduada em Teorias da Clínica Psicanalítica. (21) 9792-8326 fmaa@uol.com.br

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