Arquivos Diários: 29 abril, 2008

1968, A SEXTA-FEIRA SANGRENTA – por manoel de andrade

esta é a 1ª das 4 partes da matéria onde o poeta manoel de andrade relata, 40 anos depois, os fatos mais relevantes de 1968, no Brasil e no mundo. na época, estudante de história, e com sua poesia sendo reconhecida nacionalmente, ele foi um observador atento dos graves acontecimentos que marcaram todo aquele ano, e que terminou, em 13 de dezembro, com a edição do sinistro AI-5, oficializando o pânico e a brutal repressão política, lotando as prisões do regime  e obrigando milhares de brasileiros a entrar na clandestinidade ou a fugir do país, como ele mesmo teve que fazer, em conseqüência da panfletagem dos seus poemas contra a ditadura.

 

o editor.

 

1968- Uma revisão

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta

 

          O ano chegava ao seu último quartel respirando o pressentimento de uma surda e sinistra ameaça por trás dos biombos do poder. O País, desde o golpe militar de 64, seguia sua trajetória nebulosa e imprevisível. Sentiam-se os  agudos sintomas sociais de uma crise potencial que, dia a dia, ia cavando suas imperceptíveis  trincheiras e radicalizando suas posições para o enfrentamento. As palavras, no plano político, haviam perdido a sua opção pelo diálogo e os atos e os fatos iam desfigurando sempre mais a face institucional da Nação. Sob o pano de fundo deste cenário inquietante, um fenômeno social surge desafiante na ribalta nacional. O movimento estudantil que a partir de 1964 fora sistematicamente reprimido, com a própria sede da União Nacional dos Estudantes saqueada e incendiada no mesmo dia do golpe, retoma gradativamente o seu espaço político.

          A UNE, a partir de 1966, desafiando proibições e ameaças, passa a realizar clandestinamente seus congressos e, a partir de 1968,  integrando-se a uma onda mundial de protestos estudantis, ocupa no Brasil o principal papel no palco das grandes manifestações populares contra a Ditadura Militar.

     O ano de 1968 foi um marco indelével em minha vida e creio que na vida de qualquer cidadão consciente, no Brasil e no Mundo. Eu terminara o curso de Direito em 66 e cursava o segundo ano de História na Universidade Federal do Paraná. Nosso calendário estudantil iniciara o ano letivo marcado pelo luto nacional. Ele tinha apenas 17 anos e seu sangue de infante tingiu, indelevelmente, nossas vidas. Edson Luis de Lima Souto foi morto em março, no Rio de Janeiro, marcando o início de uma movimentação estudantil que envolveria, ao longo do ano, toda a vida nacional e que culminaria com a invasão e ocupação militar da Universidade de Brasília, em setembro e, em outubro, com a prisão de 920 estudantes no Congresso da UNE, em Ibiúna.

          Na sexta-feira, 29 de março a cerimônia do seu sepultamento  partiu da Cinelândia  com um acompanhamento calculado em 50 mil pessoas. A vanguarda do cortejo ostentava uma faixa onde se lia: “Os velhos no poder, os jovens no caixão”.O país estava perplexo. Como que acordava de um longo pesadelo. Parecia que aquela revolta, por tudo o que estava acontecendo no Brasil desde 64, fora preguiçosamente protelada, que cochilara por quatro anos e que agora finalmente despertava.                                                

          No dia 4 de abril, muitos de nós, estudantes e intelectuais, aqui em Curitiba, aguardávamos, apreensivos, o desfecho do que seria a tão anunciada missa de sétimo dia pela alma de Edson Luiz, na Igreja da Candelária.. Às 18 horas, a Praça  Pio X estava totalmente tomada pelos cavalarianos  da P.M. e por fuzileiros navais, somando cerca de 2.000 soldados e mais os agentes do DOPS, todos em volta da Igreja sitiada.

          A celebração começou tranqüila com um estudante lendo o segundo versículo do capítulo 12, da Carta de Paulo de Tarso aos Romanos:

 

E não vos conformeis com este tempo, mas transformai-vos moralmente, renovando     vosso espírito para compreender a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita.

 

          Se estas recomendações evangélicas  tiveram alguma importância para um ateu como Otto Maria Carpeaux, para um trotskista como  Mário Pedrosa, para um comunista como Oscar Niemeyer ou para os incrédulos, agnósticos, e esquerdistas de tantas dissidências ali presentes, é apenas uma singela ilação e, por isso mesmo, sem nenhuma relevância. Contudo é relevante afirmar que todos estavam ali reunidos num gesto grandioso de solidariedade, acima de qualquer confissão religiosa ou ideologia política. Ali entraram, arriscando a própria pele, para prestar a última homenagem ao primeiro jovem mártir da Ditadura que, uma semana atrás,  lutando contra o fechamento do restaurante Calabouço, tombara com o peito perfurado pela bala de um PM.

          Dentro da igreja se comprimiam 600 pessoas amedrontadas, divididas entre as que confiavam no amparo divino, no bom senso da polícia ou magnetizadas por maus pressentimentos. Quando a missa chegava ao fim, os ruídos dos cascos dos cavalos e o ronco de um avião se ouviam entre as altas naves do templo, como  se ouvia também um surdo murmúrio  prenunciando o angustiante calvário da saída. Na cabeça de muitos ali presentes, pairava a lembrança da missa daquela mesma manhã, encomendada pela Assembléia Legislativa em memória de Edson Luis, e cuja saída, calmamente iniciada, foi subitamente cercada pela Cavalaria, numa sinistra e calculada operação de encurralamento ante as portas já fechadas da Igreja. Foi uma pancadaria ou um massacre, segundo os jornais da época.

          Agora, ao anoitecer, se redesenhava uma nova via crucis. Os portões da igreja são novamente bloqueados pela Cavalaria da Polícia Militar. Na saída o bispo auxiliar da cidade pede calma e os quinze padres  de mãos dadas, formam dois cordões  por onde a multidão começa a sair espremida.  As pessoas deixam a igreja com os olhares fixos nos cavalos e nos cavaleiros. Há em toda praça uma tensão insuportável, alimentada pelo  pânico das “vítimas” e a impaciência dos “algozes”. E eis que surge o impasse, uma fronteira intransponível. Um limite para todos os passos. Ouve-se a ordem:

          Desembainhar! 

          Em seguida os gritos ordenam:

          Recuem, recuem…! Aqui ninguém passa…!

          Diante da massa humana acuada, os padres, num gesto de imensa coragem, levantaram os braços e, em nome de Deus, se dirigem ao major dizendo que aquela manifestação não era uma passeata, que todos queriam apenas voltar para suas casas. Foram minutos intermináveis entre virtuais ofensores e ofendidos. Ninguém mais ousou intermediar o diálogo. Havia ali dezenas de intelectuais ilustres, políticos, líderes estudantis, professores universitários. Todos estavam paralisados. Finalmente, ante a iminência de um massacre, ouviu-se uma frase que soou como uma graça recebida, como uma resposta a tantas preces, explícitas ou inconfessáveis, mas que por certo foram  ali silenciosamente pronunciadas, no imperscrutável sacrário da alma:

          Dispersar, dispersar… A ordem é dispersar.

          Os sacerdotes, como que assistidos por uma força invisível, coordenaram a saída disciplinada e silenciosa pela calçada. Postados num cruzamento da Avenida Rio Branco,  todos paramentados, ali permaneceram até que passassem, sãos e salvos, todos os “sobreviventes” do ato religioso. Por certo, em suas orações, daquela esquina pra frente entregavam a sorte daqueles rapazes e moças, nas próprias mãos de Deus, sem imaginar que mais adiante muitos deles seriam brutalmente espancados e presos.

            

          A classe estudantil em 68, simbolizava o mais belo estandarte de luta que se empunhava contra a Ditadura Militar. No embalo dos acontecimentos de maio, em Paris, que acendeu o pavio da revolta estudantil no mundo inteiro, aqui também tivemos, em junho daquele ano, no Rio de Janeiro, as nossas barricadas de Nanterre, levantadas na  Avenida Rio Branco e nas ruas México e Graça Aranha.

           Os protestos contra a repressão começaram no dia 19, e chegaram ao auge do enfretamento no dia 21, que ficou conhecido como a “sexta-feira sangrenta”.

          Logo depois das 13 horas os fatos se precipitaram num desesperante torvelinho de violência. Os ânimos, sobrecarregados pela repressão oficial de três dias, uniram populares e estudantes que avançaram contra os batalhões da polícia. O centro do Rio se transformou num original cenário de batalha, com gente correndo em todas as direções. Em dado momento surge a Cavalaria e depois os batalhões de choque que, que pari passo, vão ocupando a Avenida Rio Branco até encontrar as barricadas.  A polícia, sob a chuva dos mais variados objetos atirados do alto dos edifícios, avança abrindo fogo e ultrapassa a primeira barricada. Os agentes do DOPS chegam atirando contra os manifestantes, em disparada pela rua, e contra os que se postam nas janelas dos prédios. Zuenir Ventura, numa das mais dramáticas referências que se escreveu sobre aquele ano, ao registrar a memória daquele dia, no seu livro “1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU”, relata que:

 

Ao contrário do movimento francês, não se lutava no Brasil contra abstrações como    a

“sociedade de opulência ou a “unidimensionalidade da sociedade burguesa”, mas contra uma ditadura de carne, osso e muita disposição para reagir. As barricadas de Paris talvez não tenham causado  tantos feridos quanto a “sexta-feira sangrenta” do Rio, para citar apenas um dia de uma semana que ainda teve uma quinta e uma quarta quase tão violentas.(…)  Durante quase dez horas, o povo lutou contra a polícia nas ruas, com paus e pedras, e do alto dos edifícios, jogando garrafas, cinzeiros, cadeiras, vasos de flores e até uma maquina de escrever.

 

          O saldo doloroso dos fatos ocorridos na “sexta-feira sangrenta” deixou uma declarada indignação entre estudantes,  intelectuais e  em muitas categorias profissionais da população carioca. Como conter tanta revolta? Aquilo não poderia ficar por isso mesmo. Artistas, jornalistas, escritores, professores começaram a articular alguma forma de manifestação que lavasse a alma de tantos ofendidos. Naquela mesma noite algumas reuniões paralelas foram feitas e nelas protagonizaram as idéias de Ferreira Gullar, Gláuber Rocha, Arnaldo Jabor, Hélio Pellegrino, Cacá Diegues, Luís Carlos Barreto, Ziraldo  e outros.

          Na manhã seguinte, no Salão Nobre do Palácio Guanabara, o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, a frente de 300 intelectuais, entre os quais Oscar  Niemeyer, Clarice Lispector, Paulo Autran, Tônia Carrero, Milton Nascimento, Nara Leão, etc., solicitava ao Governador Negrão de Lima a autorização oficial para realizar uma passeata pacífica, no centro do Rio, sem a presença dos policiais na rua. Depois de uma longa e difícil negociação, em que foi exigida, também, a libertação de presos políticos  — numa referência ao diretor de teatro Flávio Rangel e ao arquiteto Bernardo Figueiredo – o Governador, esmagado pela argumentação  de Pellegrino, concordou em liberar a passeata. Na quarta-feira, 26 de junho de 1968, depois de três dias de tensas negociações com  autoridades municipais e federais pela segurança do trajeto, o Rio de Janeiro iria assistir  uma das maiores, senão a maior, manifestação popular de sua história: A Passeata dos Cem Mil.  ( Segue na segunda parte a ser publicada).

 

estudantes velam o corpo de EDSON LUIS SOUTO. foto sem crédito. ilustração do site.

 

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil – publicada aqui:  

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/05/1968-a-passeata-dos-cem-mil-por-manoel-de-andrade/

 

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/12/1968-partidao-versus-foquismo-por-manoel-de-andrade/

 

1968: Uma Revisão  – 4ª Parte:

 

 

 

 https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

A VERGONHA por eugenio mussak

Eu tenho um filho já adulto, engenheiro. É homem feito, mas vai morrer de vergonha ao ler este texto (desculpe, filhão, mas não encontrei história melhor para ilustrar este artigo). Quando ele tinha uns 3 anos de idade, seu pediatra, o doutor Nelson, recomendou que o menino fizesse uma postectomia – uma rápida cirurgia para retirar o excesso de pele que envolve a glande peniana, procedimento que facilita a higiene. E lá foi o pequeno.

 

Como costuma acontecer com as crianças, sua recuperação foi rapidíssima e, alguns dias depois, ele estava totalmente bem e feliz com seu “novo pipi”. Foi quando encontramos o doutor Nelson numa festa de aniversário. Ao vê-lo, o menino correu em sua direção, abraçou-o e, sem a menor cerimônia, baixou as calças e mostrou seu troféu, todo orgulhoso, provocando espanto e riso entre as pessoas, encantadas com a maravilhosa espontaneidade infantil.

 

Então – não poderia faltar –, um adulto qualquer, provavelmente uma avó, lhe disse: “Menino, você não tem vergonha?” Não, ele não tinha vergonha. Ele estava feliz com sua conquista, satisfeito com seu corpinho perfeito, alegre com os amiguinhos da festa, seguro com a companhia de sua família. Ele estava vivendo intensamente, e ninguém, ninguém mesmo, deve envergonhar-se de viver e ser feliz. Mas o mundo que construímos, infelizmente, não é bem assim. Sempre tem alguém nos perguntando se não temos vergonha de alguma coisa, nem que seja de sermos nós mesmos.

A expressão “força de ego” é bastante utilizada em psicologia. Referese a uma noção freudiana clássica em que o bom funcionamento psicológico das pessoas pode ser avaliado de acordo com a maneira como elas lidam com o conjunto de fatores controladores do meio onde vivem – os códigos sociais e culturais, as regras sociais. Controles sempre existem, e é bom que existam, pois o equilíbrio das relações depende, em grande parte, deles. Se cada um fizesse o que lhe dá na telha, viveríamos em anarquia, o que contraria o princípio da civilização.

 

Até aí, tudo bem. Eu preciso entender meus limites e respeitar os ditames do bom convívio com os demais. Caso contrário, posso ser acusado de ser anti- social, egoísta, desagradável. Um verdadeiro sem-vergonha. Por isso, na educação de uma criança, faz parte ensinar- lhe os limites, até onde se pode avançar sem ferir o espaço dos outros, seja o espaço físico, seja o moral.
A noção da força do ego está atrelada ao equilíbrio entre o primitivismo dos desejos humanos e a sofisticação das regras sociais. Só que esse equilíbrio é o que, em física, poderia ser chamado de equilíbrio instável. Qualquer esforço ligeiramente maior, de um lado ou do outro, gera o desequilíbrio, a ruptura psicológica, o sofrimento emocional.

 

A espontaneidade de um menino que mostra seu “pipi” para o médico em uma festa pode se transformar em um trauma com repercussões sexuais se ele for severamente repreendido. E, se não o for, pode colaborar para um comportamento irresponsável no futuro. Mas há outra possibilidade.

Um fato como esse também pode ser utilizado como um momento pedagógico sobre normas de conduta, desde que a comunicação usada pela pessoa em que a criança confia seja natural e clara, como a educação em geral deve ser.


O psicólogo alemão Erik Erikson, uma referência quando o tema é infância, adolescência e os reflexos dessas fases na idade adulta, dizia: “Na vida social, a pessoa está completamente exposta e está consciente de que está sendo vista. A vergonha surge quando a pessoa ainda não se sente pronta para ser vista”. Como a cobrança social é cada vez maior – em termos de sucesso, realização, estética e posses –, é muito difícil alguém se considerar totalmente pronto para ser visto. E dálhe vergonha. Por outro lado, se alguém não demonstra vergonha jamais, pode ser acusado de ser alienado.


Não há vergonha em sentir vergonha. A questão central não é essa, pois a vergonha é normal. O importante é a análise da relação entre a vergonha que sentimos e o motivo que a fez aparecer. Às vezes, a vergonha é desproporcional e pode provocar traumas. O menino que mostra o “pipi” e é repreendido ou humilhado não entende o que há de errado em seu ato. E, pior, poderá envergonhar- se de seu corpo para sempre.

Se um garoto sente vergonha de fazer uma pergunta ao professor durante a aula, pois tem medo da violência do controle do meio – no caso, as gozações dos colegas –, pode ser um sinal de que ele se sente inadequado no meio em que está inserido. Ele não se sente pronto para ser visto. Por outro lado, o garoto que desrespeita o professor e os colegas com atitudes de indisciplina constante pode estar no extremo oposto. É arrogante porque nega o controle social e faz questão de explicitar sua revolta com a autoridade. Ele poderia ser chamado, facilmente, de sem-vergonha. Mais uma vez, estamos lidando com o equilíbrio instável da força do ego.

 

O tema da vergonha normalmente é analisando sob a ótica da psicologia ou da sociologia, entretanto ele também pode ser visto por outras lentes, como a da biologia. Em seu livro ‘A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais’, Charles Darwin afirma: “Enrubescer é a mais especial e a mais humana de todas as emoções”. E conclui dizendo que sua causa, a vergonha, é a peça-chave para a vida em sociedade.

 

Enquanto as sociedades de animais são regidas pelos instintos, a sociedade humana é regida por regras construídas intencionalmente. Darwin explica que o rubor é uma conseqüência fisiológica causada pela preocupação com o que os outros pensam de nós mesmos. A função do rubor é embaraçar quem ruboresce e constranger quem observa. E, assim, seguimos na vida, dançando a valsa da humanidade em um salão decorado com as regras da sociedade.


Em seu estado natural, o homem não se envergonha de nada, mas ele só está nesse estado na infância. Na própria infância da humanidade, metaforicamente descrita nas escrituras bíblicas, o homem não se envergonhava de andar nu. Foi só quando se viu expulso do paraíso que ele tratou de esconder seus genitais, “suas vergonhas”. Talvez isso seja apenas um símbolo da vergonha de ter traído a confiança do criador e comido o fruto proibido. A partir de então, teve início a humanidade controlada pela vergonha. Hoje, as religiões e o Estado valem-se do sentimento da vergonha para controlar as pessoas e manter o mínimo de equilíbrio social.

 

Portanto, a vergonha tem lá sua importância. Está ligada ao equilíbrio social e ao convívio humano. Sendo assim, estamos falando de algo humano, tanto do ponto de vista psicológico, quanto social e até biológico, como vimos. O problema está na vergonha desproporcional, tóxica, descabida, paralisante. Esta pode precisar de apoio profissional, mas pode também ser controlada à medida que o ego vai ganhando força, encontrando seus alicerces na maturidade, no autoconhecimento, na auto-aceitação.


Eu, por exemplo, que sou professor, perdi a conta das vezes que senti vergonha diante de meus alunos. Hoje, me parece ridículo, mas, no início da carreira, a insegurança era o precursor de fatos que me envergonhavam. Meu grande medo era que um aluno me fizesse uma pergunta para a qual eu não tivesse resposta. Já pensou na vergonha? Para controlar isso, eu falava sem parar, praticamente eliminando a chance de os alunos se manifestarem. Terminava a aula e saía quase correndo em direção ao porto seguro da sala dos professores.


Com o tempo, veio a segurança. Com ela, desapareceu o temor das perguntas e, mais, o temor de não ter uma resposta. Entendi que dizer que eu não sabia, mas que iria pesquisar e responderia na próxima aula, só aumentava a confiança que meus alunos tinham em mim. A vergonha sumiu. Foi substituída pela auto-suficiência.

 

Talvez você não acredite, mas devo ao fato de sentir vergonha de uma possível falha a qualidade pedagógica que desenvolvi e que me transformou em bom professor. Se eu não estivesse nem aí para a opinião de meus alunos e colegas, provavelmente não teria buscado o aprimoramento e a superação. A vergonha me salvou. Hoje eu me envergonharia de ter construído uma carreira sem compromisso, sem responsabilidade, sem excelência.

Que bom seria se a vergonha se fizesse mais presente em algumas esferas de nossa sociedade. Teríamos políticos mais responsáveis, profissionais mais ciosos, pais mais cuidadosos, cidadãos mais respeitadores. Quando assisto constrangido a um ato de vandalismo – como lixo jogado na rua, muros pichados, motoristas inconseqüentes e autoridades displicentes –, lembro-me de Rui Barbosa, que alegou, ironicamente, sentir vergonha de ser honesto, por tanto ver triunfar as nulidades, crescer a injustiça e prosperar a desonra.


Vamos concordar que a vida tem de ser vivida intensamente, mas não irresponsavelmente. Tentar ser feliz não é vergonha, a não ser que com sua felicidade você provoque a infelicidade de alguém mais. Mas isso, acredite, não é necessário, absolutamente.


Lembremos nosso grande Gonzaguinha, que cantou “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser um eterno aprendiz/ Ah, meu Deus, eu sei, eu sei/ Que a vida devia ser bem melhor e será/ Mas isso não impede que eu repita/ é bonita, é bonita e é bonita”.