Arquivos Diários: 2 maio, 2008

VIDA: O JOGO poema de jairo pereira

Jogas paciência

no computador

zelas a casa reges o tricô

as agulhas os novelos recém-

abertos

faço poesia tiro signos

inusitados do criatório

faço poesia preciso disso

vivo disso

teus tricôs em mim

sempre inéditos em composição

faço poesia por ofício de quando

nada o que fazer faço poesia

tiras pontos entreteces significas

teus tricôs no espaço contingente

que habitamos

faço poesia só poesia

isolas minhas canções

que não sei tocar violão

faço poesia sempre perdi

a maratona de final de ano

teus tricôs policrômicos

terços rezados pra dentro

fluem belos textos sígnicos

faço poesia não explico

faço poesia leio invento

tiranizo

faço poesia no vento no tempo

tranço cestos de taquaras na fala

meus tricôs invisíveis terços rezados

pra dentro faço poesia

expando (acho!) linguagem

consciência

conheço calo admito

pontos errados meu tricô

desfigurado faço poesia

acredito universos na língua

faço poesia configuro formas

inusitadas faço poesia

protopia poesia entropia

enredo linhas contrárias

faço poesia

tricoto significantes/

significados faço poesia

ardo na fogueira acesa

                                               da fala.

 

SILÊNCIOS poema de julio almada

“Há silêncios bem vindos,

outros indecifráveis,

alguns polidos e esperados,

Há os indesejáveis.

Há silêncios de hora inteira,

outros de uma vida a devorá-la.

Há os de esperar-lhe. Há os de desprezar-lhe.

E se tanto silêncio há…Há o de silenciar-me…

Para escutar o que seu silêncio diz,

além das palavras silenciadas.”

O FOTÓGRAFO NANI GÓIS EXPÕE e convida (hoje 02/05/08 as 19:00hs)

 

O fotógrafo Nani Góis comemora 35 anos de carreira com grande exposição nesta sexta-feira no restaurante O Portuga, que fica no Centro Cívico. As fotos de Nani destacam lugares e pessoas do Paraná e algumas das principais personalidades do Estado, como Paulo Leminski, Roberto Requião, Álvaro Dias, Rafael Greca, Jaime Lerner, José Richa, entre outros.
Não deixe de visitar a mostra!

FECUNDAÇÃO poema de gilka machado

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente…
de dentro deles teu amor me espia.

 

 

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura 

 

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão. 

 

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão. 

 

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma. 

 

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
 

 

(in Sublimação, 1928)
 

FOI DEUS QUE ASSIM QUIZ conto de lázaro parellada

              

             Foi durante minhas férias de verão, após a conclusão do terceiro ano de engenharia, quando aquele grande empresário, e grande fazendeiro também, apareceu em casa procurando meu pai. Precisava urgentemente retificar a divisa de umas terras, lá na beira do Paranapanema.

 

            Eu já havia cursado a cadeira de topografia, pois era disciplina dada no segundo ano e isto me dava direito, pela legislação em vigor à época, de tirar uma carteira provisória de topógrafo. Com tal documento poderia assinar os trabalhos realizados pelo meu pai, o que nos economizaria os pagamentos que tínhamos de fazer aos profissionais que os assinavam – os tais “calígrafos” como depreciativamente eram apelidados. Para melhor esclarecer cabe colocar que nos serviços de agrimensura haviam os “diplomados”, categoria que em geral não trabalhava no campo, pois isto era muito pesado, mas que por possuírem habilitação a lei lhes facultava fazer tais trabalhos, e os “práticos” que a baixo preço faziam os levantamentos que esses primeiros lhes assinavam. Nesta última classificação a competência era extremamente variável, desde aqueles “cursados” que como meu pai tinham um diploma estrangeiro, mas que a burocracia não lhes permitia reconhecer, até os “curiosos” que muitas vezes não entendiam direito o porquê técnico do que estavam fazendo…

 

Pois bem, anteriormente meu pai havia feito os trabalhos de levantamento e demarcação de tal propriedade. E, ele até o comentara comigo. Mais, as plantas correspondentes fora eu quem as desenhara. Agora surgira um acerto de limites com o vizinho, e ele tinha ‘precisão’ de apartar em certa baixada úmida, uma determinada área para permuta. Assim trazia num papel as referências dos marcos próximos, aqueles deixados lá por meu pai, e um par de ripas pregadas conforme os rumos combinados com o vizinho, e de acordo à nova cerca erguida separando esse local. Queria deixar o assunto resolvido rapidamente, e ao saber que meu pai estava viajando apelou para mim:

 

– “Você não poderia fazer esse serviço para mim?

 

Mais do que perguntar, ordenava… Eu até podia, mas não tinha equipamento. Todavia pois ele insistia, e era um bom, ótimo, cliente, acabei concordando.

 

            Casualmente pouco depois um “prático”, conhecido por sua esperteza, apareceu lá em casa pedindo-me serviço. Comentei o caso com ele. Ele me informou de um engenheiro que tinha um aparelho disponível. Trabalhava na Prefeitura de Ibiporã. Peguei um ônibus e me dirigi para lá. Apresentei-me a ele. Pessoa acessível e simpática não criou obstáculos e o emprestou em confiança: “que eu o devolvesse quando pudesse, de momento não o estava utilizando”. Todavia impunha: “que eu mesmo o usasse, pois ele não aceitaria que o repassasse para um prático”. O que fazer? Assumi o compromisso. Me passou o instrumento, era um Vasconcellos, nacional. 

 

            O serviço duraria um dia, afora a viagem. Exigia um certo tempo, não apenas lançar o rumo, mas acompanhar a ‘picada’ até o ponto atingido na divisa e confirmar o lugar alcançado.  Puseram à minha disposição um jipe com motorista, aproveitando para lotá-lo, e bem, de mantimentos. Levei o “prático” como ‘baliza’, pois ele o pedira. Queria ganhar uns trocados. Quando chegamos na fazenda já pelo fim da tarde, encontramos nos esperando o tal empresário.  Ao nos sentir surpresos, nos explicou que decidira vir também e chegara de avião algumas horas atrás. E lá estava o bichão, quase novo, brilhando à luz do poente. E um cidadão de botas pretas, que nos apresentou como piloto e que sem ter o que fazer, ficava aguardando, à sua disposição.

 

 

            Enquanto conversávamos chegou-se até nós um senhor forte, de faces curtidas. Usava bigode, aparentava uns quarenta e poucos anos, e tinha o jeito de falar característico das boas gentes do interior paulista. Notei que parecia pesaroso, quase que a ponto de chorar. Ele nos foi apresentado como sendo o responsável pela fazenda:

 

            – “É o Fulano (esqueci-lhe o nome). É o nosso capataz. Muito competente. Ele cuida da fazenda e a mulher dele, a Sicrana, da sede, da casa. Minha mulher gosta muito da Sicrana. Estamos muito satisfeitos com eles. Vocês vão ver no jantar como ela cozinha bem!”.

 

            Mais tarde dirigindo-se a ele, perguntou:

 

            – “E a criança, como está?”

 

– “Está piorando, doutor!…  Está piorando!”, foi a condensada resposta.

 

            Quando nos separamos soube através dos rapazes que descarregavam o veículo que a criança estava doente havia alguns dias. Começara com vômitos, hoje amanhecera com febre… E a explicação caipira: “não se acostumara com o leite de vaca”. É que como secara o leite da mãe, davam-lhe deste. Um par de horas atrás havia piorado. Justo quando o proprietário aterrissara. O sangue me subiu à cabeça: “E o que esse avião está fazendo parado aqui? Por que não levaram essa criança para Londrina?”

 

O ‘prático’ e eu fomos ver a criança. Era uma menina pequenina, magrinha. Estava num bercinho rústico, num quartinho escuro de uma casa de colônia, ambiente quente que mais se assemelhava a um forno… O choro nem se ouvia, ficara quase que um suspirar… Pensei que aquela criatura nem mais forças tinha para chorar… Para mim estava claro que a criança ficara subnutrida, e provavelmente acabara desidratada com aquele calorão. Coloquei minha mão, ou o que dela cabia sobre a testa daquele ser tão miúdo. Ardia em febre, devia estar acima de 40o C! E minha revolta não só continuava, como que aumentava. A avó, que cuidava dela enquanto a mãe preparava nossa janta, me olhava desconcertada. O bom ‘prático’ me segurava:

 

– “Fica quieto, você não tem nada com isso!”

 

E eu jovem, universitário, vocação de salvador, mas inexperiente do mundo:

 

“Mas nós todos temos! É cedo! Ainda está claro! Se colocar no avião dá tempo de chegar em Londrina! Essa criança pode ser salva, sim!”

 

            À noite enquanto jantávamos sob uma fraca luz, via através da pequena passagem que na parede permitia passar os pratos, aquela senhora silenciosa, que com uma criança gravemente doente tão boa e farta comida nos preparara. Observava de relance sua filha mais velha nos servindo, uma criança ainda… E o pai, o capataz, tudo fazendo para nos agradar. Ele nem à mesa sentou, ficou distante, embalando a filhinha, apreciando-nos comer gulosamente.

 

            Levantamos com o raiar do sol, tomamos como é costume entre os trabalhadores que no interior se distanciam muito das cozinhas durante os serviços, mais do que um café com pão, uma primeira refeição completa: arroz, feijão, frango, ovos fritos, mandioquinha cozida…

 

Saímos ainda cedo para o local de trabalho, levados pelo jipe. Lá, dispomos o aparelho, lançamos os rumos, acompanhamos o ‘picadeiro’ abrir as trilhas, verificamos que alcançáramos os pontos desejados e retornamos. A claridade declinava. Seriam umas cinco e meia da tarde.

 

                   Quando chegamos à sede percebemos a tristeza. Na sala se acendiam velas, a criança recém havia falecido. Pensei: “quase dezoito horas, está no horário do Angelus…”

 

O avião e o seu piloto continuavam à espera da decisão do fazendeiro-proprietário para voltar a Londrina.

 

– “Foi Deus que assim quis!” comentou o pai desolado…

 

– “Paciência, Fulano. Foi Deus que assim quis.” confirmou o fazendeiro.

 

Indignado, quase estourando, virei-me para meu companheiro, o ‘prático’, e lhe disse:

 

– “Vamos embora!”

 

E, despedindo-me rapidamente, subi de novo no jipe.