Arquivos Diários: 5 maio, 2008

ARROZ, FEIJÃO & PHILOSOFIA (completo) – por jairo pereira

 

 

 

 

 

Filósofo  é aquele cara que tem mania de criar conceitos. Gilles Deleuze e Félix Guattari, no livro O que é a filosofia? mostram que filósofo é o amigo do conceito, ou melhor, ele o próprio filósofo é o conceito em potência. Li pouco de história da filosofia. Lia os filósofos que iam aparecendo em minha vida, acidentalmente. Outros, de meu interesse, corria atrás até encontrar. Embora entenda ser importante a visão orgânica da filosofia, fixei-me com obsessão na teoria do conhecimento, aliás, utilíssima pra quem faz arte e literatura. O estalo, o lux, taí, na relação cognitiva: sujeito x objeto x prisma de análise, os condicionamentos do sujeito cognoscente, etc. Depois de tanto debater-me no processo do conhecimento, acabei pai de filosofia. Modestíssima a minha, só para o gasto, construída no quintal da casa, a protonathural, que carrego comigo sempre para onde vou e que apesar de séria, é motivo de riso para os outros. Li e confundi vários filósofos ao mesmo tempo. Pegava a monada no ar, e póft, a abatia a tiro, como um verdadeiro tiro ao pombo, ou tiro ao prato. Uma coisa sobre filosofia aprendi e isso digo de boca cheia: tem tudo a ver com samba e poesia. Não se aprende estudando sua história. Não se aprende nos templos afamados do saber. Não se aprende nos grandes museus e cemitérios de livros. Filósofo, é de nascer pronto. Ou mais certeiro: filósofo já nasce filósofo. Tem tino. Alto poder de abstração. Aquele olhar grave que estraga qualquer festa, como expressou Erasmo de Roterdã, no seu O elogio da loucura. Filósofo é deslocado. Distraidão. Só pega no tranco. Na fase oral, tem a estranha mania de morder os bicos dos seios da mãe e cuspir fora a chupeta de borracha.

 

Além, muito além de criar conceitos, ou sê-los, os conceitos em potência, filósofo é aquele cara que desde menino, não sabe brincar com as outras crianças. Tudo que faz dá errado. Não sabe ganhar dinheiro, namorar, atleticar. Filósofo, é acima de tudo indolente e reparador. Vejam que em reparador está praticamente a potência máxima do protofilósofo. Reparar é observar, criticando silenciosamente. Observar a vida. Observar as pessoas. Observar a nathureza. Observar, observar e observar. Contrastar, projetar, refazer in spiritus o contorno das coisas, seus núcleos complexos, entroplexos.

O olhar rastreador de quem repara as mínimas coisas, situações, projeções do outro no tempo, no espaço das mais diversas nathuras. A exemplo o filósofo que visita alguém e mede a condição social da família, se os filhos estudam, trabalham, o grau de conhecimento dos mesmos, as possibilidades reais do núcleo se expandir no tempo naquele contexto onde vivem, se há, haverão problemas familiares explícitos ou implícitos, tudo é medido milimetricamente pelo espírito invicto e silencioso do philósopho, como um aparelhinho positrônico que não foi inventado ainda, vocacionado ao registro minucioso da vida alheia de seu tempo e de seu espaço, além da própria (vida) em todas suas mazelas. Filósofo já sai pronto de forma. A ninguém se deu ou se dará o poder de fabricar filósofos. Convive o triste, com o são desequilíbrio construtivo, oscilando entre imanência e transcendência. Não adianta subir o longo calvário do conhecer histórico e canônico da velha filosofia, especialmente a ocidental, que é criação humana, racional e cerebrina, para tornar-se um dia filósofo, se não se detém o dom inato, de profunda observação dos fenômenos. Criar conceitos é apenas uma das faculdades com as quais os filósofos se armam. Além dessa muitas outras espocam, como estrelas, no céu da vida daquele pobre coitado que nasce com o mal grave da Triphistophilosophia. Primeiro: filósofo que é filósofo deve saber situar-se no tempo e no espaço. Impor-se pelo pensamento. Pensamento que deve trazer no mínimo, algo do seu próprio pensar. Pensar que não pode ser mera revista do que lera de outros filósofos ou veio a aprender em escola. Para tanto, filósofo deve trazer sempre sob as vestes, o opúsculo extraordinário de sua lavra. Um livreto qualquer de no mínimo vinte ou trinta laudas de um só-pensar-particular,  legítimo, autêntico, nem que seja no próprio equívoco desse seu detido pensar. Equívoco que poucos terão coragem de um dia em vida acusar ao nosso amigo filósofo. Lembrando que muitas grandes filosofias viveram apenas de uns poucos conceitos, não é preciso escrever muito para se conceber uma filosofia original. A obra realmente é de fundamental importância na vida do filósofo que se habilita. É de se compor o filósofo convicto, o seu pequeno livro, aberto aos espíritos, o livro que revele o pensar singularíssimo, de ser e estar no mundo entre as coisas. Tudo isso, que é quase-nada, fazer, sob pena de passar em branco, como uma traça tonta, a vagar, nas páginas do processo filosófico, sobre as sentenças (conceitos) dos outros.  Afluir, entre as antinomias: identidade e contradição, ser x não-ser, causa e efeito, sujeito x objeto, transcendência e imanência, presença x não-presença, essência e aparência, etc. Segundo: filósofo é de trazer claro no espírito sua visão do mundo e da nathureza como um todo, eis que como sujeito é objeto no social e como objeto é também sujeito que conhece e como pensador, é capaz de interferir na natura das relações, fixando em ato seu pensar das coisas, que não pode ficar meramente no plano do pensamento pelo pensamento, mas traduzir-se em ação, interferência transformadora. Pensar é revolucionar. O pensamento sim, aplicado em ato, um fazer sobre todas as coisas, subverte o real. Filósofo é de ter também finalidade. A mínima possível, por exemplo: mudar o mundo. Filósofo que é filósofo sabe disso. Mudar o mundo é fácil e deve ser feito no todo dia, no almoço com a família. No sofá, quando todos dormem, depois da meia-noite. Nesse horário é melhor, porque pessoas, ah pessoas, essas sempre vão querer evitá-lo nas suas longas preleções. Outra coisa: nunca participar de ideologias coletivas. Ter falsa consciência da realidade, em deliberando sozinho sobre o assento do vaso sanitário. Filósofo é de estar na rua, informadão. Transar com a semiótica. Antropologia. Arte. Poesia. Estar com canais de comunicação abertos. Holístico. Filósofo é de ser fogo. Filósofo é de ser gelo. Tudo deve saber. Com tudo deve interagir. E com nada ao mesmo tempo, retornando à origem, ao instinto primário de contemplação das estrelas. O ímpeto selvagem é que deve levar o filósofo em sua caminhada rumo a alguma coisa que pode ser a revelação da cósmica razão do existir. O conhecimento é um reflexo da nathureza no ser. A voz de Hegel, soando baixinho entre as árvores. A voz sisuda, autoritária, que ante todo o metafisismo, alerta sobre o não afastamento demasiado do filósofo da nathureza, onde encontram-se os objetos mais importantes da filosofia. Não adianta procurar lá longe o que está aqui tão perto de ti filósofo. O problema é você, a nathureza (objetos) e o conhecimento que se tira dali, das coisas mortas, das coisas vivas, das coisas que causam, das coisas que implicam, das coisas que serenam, do tempo, da história e do vento. Filósofo é mesmo conceituador. Mania de verbo ser, o é pra tudo quanto é coisa. Poesia é produto fenomênico do pensamento. Poesia é… O tempo é cíclico. A história é repetitiva. Tudo é e deve ser  para o filósofo impetuoso, aquele que arrisca tudo no saber, como os suicidas no morrer. Sofro delírios de silogismos no de vezenquando, o que revela em mim índole conceituadora, coisa de filósofo, além do que recebo estrelas no sótão depois da meia-noite, não namoro, perco botões das camisas à toa, metafisico (do recém-criado verbo metafisicar) sob as tempestades, peripatético, com conta estourada no banco. De quebra, ainda sou fanático por linguagem. Outra afecção má do espírito, já convulso de filosofia. Imaginar na hora do lanche,  a composição de obras futuras, almejadas, tais como: A razão absolutória dos males do espírito ou Da atração da inteligência pelo mórbido. Boa parte da vida entregue às conjeturas, o quem sou? de onde venho? para onde vou? por quê? pra quem? como? Sempre um fio invisível enredando teu corpo, teu espírito de filósofo na hermética teia da aranha absoluta. Enredando. Desafiando. Que é pra se perquirir. Que é pra se engendrar pelo cognocer elevado. Que é pra repercutir verdades transfinitas. Que é pra subverter o real e o certo. Que é pra… Arroz, feijão e filosofia, é de se pôr na mesa todo dia. Filosofia a louca preciosa. A  insubordinada que atenta contra as profissões contemporâneas, eis que convida ao ócio criativo e resgata a reflexão questionadora. Filosofia a desordeira. A santa. A obstinada. A traiçoeira, que mata de mentirinha a vida, antes da vida nascer. A que das perguntas faz respostas e das respostas, faz propriamente filosofia.

 

Antes que me caia uma tartaruga na cabeça, derrubada por alguma águia distraída. Antes que me caia um balde de tinta de cima da escada de frente à loja. Antes de tudo, que o filósofo que é filósofo se perca e se reencontre na vida e no pensamento, a fim de haurir do nada que é tudo uma razão feliz, de muito amor e elocubração para a vida presente e futura.

 

 

 

 

 

 

 

iAiRo pEreIrA

 

Autor de O antilugar de poesia, O abduzido

e outros.

1968 – A PASSEATA DOS CEM MIL – por manoel de andrade

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil   

 

           

A estratégica aparição daquele estudante de 23 anos provocou uma apoteose de gritos e palmas na imensa multidão que, por volta do meio-dia, ocupava inteiramente a Praça Floriano Peixoto, na Cinelândia.. O presidente da UME, Vladimir Palmeira, disfarçado pelo penteado, barba feita, terno e gravata,  subiu as escadarias da Assembléia Legislativa,  e com alguns gestos interrompeu as palmas, pediu silêncio e que todos se sentassem e,  em seguida, começou o seu primeiro discurso do dia dizendo:

 

Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a Policia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a policia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo.

 

          Enquanto os discursos se sucederam mais e mais populares iam se juntando à concentração. De todas as partes chegavam comitivas de estudantes com faixas e bandeiras. Emissários e “batedores” saíam e chegavam com notícias sobre a segurança do percurso da passeata prestes a começar. Por trás de toda essa organização estavam os estudantes Franklin Martins e Marcos Medeiros, comandando outras  lideranças estudantis encarregadas de controlar todos que participavam do ato, evitando, com isso, qualquer incidente com pessoas infiltradas. No final dos discursos Vladimir Palmeira tira o paletó, afrouxa a gravata e retoma a palavra para dizer:

 

Nós queremos os cadáveres dos estudantes que foram mortos durante as últimas manifestações. Todos viram seus corpos, ao vivo e nos jornais, e não é possível que o governador e as outras forças repressivas continuem a esconder os seus corpos para iludir a população.

 

          Seu discurso foi interrompido pelo ronco ensurdecedor dos aviões da FAB que  passavam em vôo rasante em franca provocação. Com isso terminaram os discursos e começou a passeata. A multidão comandada pelos estudantes e de mãos dadas, seguiu ordeira e alegre para a Avenida Rio Branco, cujo trânsito havia sido interditado pelas autoridades. As grandes lideranças estudantis do país estavam ali representadas por Luís Travassos, e José Roberto Arantes, respectivamente presidente e vice-presidente  da UNE.

          Pela grande avenida desfilava uma massa humana sempre mais engrossada pelo imenso fluxo de pessoas que vinham da Cinelândia. Como ao longo de todo percurso houve provocações de agentes do DOPS e de policiais, os líderes estudantis tiveram o cuidado de reiterar aos manifestantes que mantivessem a calma e a vigilância. Aquela inacreditável massa humana penetrou pela tarde atravessando o centro do Rio num gesto grandioso de indignação, mas sobretudo  de esperança no retorno ao estado democrático de direito.

          Quando chegou à Candelária, Vladimir subiu na capota de um carro e disse:

 

Este lugar tem um significado muito grande para nós. Na missa de Édson, foi aqui que fomos violentamente reprimidos. Hoje o panorama é diferente. Prova de que a potencialidade de luta popular é maior do que as forças da repressão. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retomar a praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam.

 

          Naquele longo percurso que se entende desde a Candelária até à  Rua Uruguaiana,  toda a Avenida Presidente Vargas  foi ocupada  pela imensa multidão em movimento.

Elio Gaspari, referindo-se ao fato na sua  “Ditadura Envergonhada”, descreve:

 

Olhada, a passeata era uma festa. Manifestação de gente alegre, mulheres bonitas com pernas de fora, juventude e poesia. Caminhava em cordões. Havia nela a ala dos artistas, o bloco dos padres (150), a linha dos deputados. Ia abençoada pelo cardeal do Rio de Janeiro, o arquiconservador D. Jaime Câmara, que em abril de 1964 benzera a Marcha da Vitória. Muitas pessoas andavam de mãos dadas. Todo o Rio de Janeiro parecia estar na avenida. A serena figura da escritora Clarice Lispector e Norma Bengell, a desesperada de Terra em Transe;  Nara Leão, Vinicius de Moraes e Chico Buarque de Hollanda, que com a poesia “Carolina”, e seus olhos verdes, encantava toda uma geração. Personagens saídos da crônica social misturavam-se com estudantes saídos do DOPS. Do alto das janelas a cidade jogava papel picado.(…) a Passeata dos Cem Mil saiu da Cinelândia, jovem, bela e poderosa. (…) Depois de parar gloriosamente na Presidente Vargas, vagou emagrecida até os pés da estátua de Tiradentes, em frente ao prédio da Câmara dos Deputados. Lá Vladimir Palmeira, o mais popular dos dirigentes estudantis, ameaçou: A partir de hoje, para cada estudante preso, as entidades estudantis promoverão o encarceramento de um policial.

 

          Depois de passar pela Sete de Setembro e o Largo da Misericórdia a passeata chegou à Praça Tiradentes onde se seguiram uma dezena de discursos das lideranças estudantis, sindicais e intelectuais. Ali mesmo foi proposta e criada uma comissão com representação dos intelectuais, dos professores, do clero, dos estudantes e das mães para intervir junto às autoridades pela libertação dos estudantes presos nas recentes manifestações.                                  

          Passavam das cinco da tarde quando os estudantes queimaram uma bandeira americana em frente do Palácio Tiradentes. Ali mesmo Vladimir retomou a palavra para encerrar a manifestação num tom de advertência, dizendo:

 

 Voltaremos sempre para exigir nossos direitos. Pacificamente, se não formos reprimidos pela Polícia. Agressivamente, se tentarem nos agredir, como fizeram algumas vezes.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

 

          Neste ano de 2008, há quarenta anos da Passeata dos 100 Mil, podemos ter uma clara perspectiva dos fatos e analisar aquele acontecimento como um dos mais belos e corajosos gestos políticos da cidadania recrutando os  mais lúcidos representantes da intelectualidade brasileira que marcaram, com a sua presença, as mais variadas tendências da esquerda nacional. Este fato por si só nos convida a tirar algumas ilações sobre a importância do debate político daquela época em que os termos “revolucionário” e “reformista” eram usados com ironia nos nossos bancos acadêmicos. Neste mesmo enfoque, não se podia confundir “revolucionário” com “rebelde sem causa” sem reconhecê-los, respectivamente, pela legítima contradição dialética  e pela mera formalidade das idéias. Ainda nesse contexto é pertinente relembrar que, na célebre  Passeata do Rio de Janeiro, havia uma aberta disputa programática entre os cartazes e slogans  das dissidências da esquerda, e quando  os radicais gritavam: “Só a luta armada derruba a ditadura”,  os militantes do Partidão respondiam: “Só o povo organizado  conquista o poder”.Isto vale dizer que cada grupo disputava no grito a hegemonia daquele extraordinário acontecimento político. Eram já os efeitos das grandes cisões que estavam acontecendo no Partido Comunista. Os primeiros representavam os estudantes que já tinham feito sua opção pelo enfrentamento direto com o regime e sonhavam com uma pátria socialista dirigida pela classe operária. Os segundos encaravam o fenômeno revolucionário como um processo lento onde a ruptura com o sistema e a conseqüente transformação estrutural da sociedade ocorreria como resultado da organização das próprias forças sociais. Uns seguiam a orientação de Cuba e outros, a de Moscou.

          Para quem foi um estudante na década de 60 é estimulante recordar que ninguém queria ficar à margem do engajamento político, e era uma ofensa esmagadora ser chamado de “reacionário”, ou seja, ser de direita. Na verdade todo aquele saudável “romantismo” deixou, no que tange à mera postura intelectual, uma imensa saudade. Quem não tinha na parede do seu quarto uma gravura do Che, de Mao ou de Ho Chi Minh?  Como ser um autêntico radical de esquerda sem conhecer a “teoria do foco” de Régis Débray, sem conhecer a história da Revolução Russa, sem ter lido os patriarcas do pensamento revolucionário, sem ter compulsado Marcuse, Lukács, Gramsci. Como criticar um reformista sem conhecer os insuperáveis argumentos de Rosa Luxembrugo. Era tudo isso e muito…, muito mais, porque a bibliografia revolucionária era enorme e também não se podia deixar de ler a nossa brilhante “prata de casa” como Caio Prado Junior, Celso Furtado e  Nelson Werneck Sodré.

          E eis porque hoje, nesse imenso distanciamento, ao relembrarmos aquele 26 de junho de 68, relembramos também que todos os estudantes brasileiros marcharam, em espírito, com os estudantes cariocas e a Passeata dos 100 Mil ficou na história como uma referência indelével do poder de mobilização dos estudantes e da força que o pacifismo pode ter quando uma ampla frente popular pode ser bem organizada e bem representada. Naquele momento o Movimento Estudantil atuou como o mais legítimo porta-voz da sociedade contra a Ditadura. Ele representava, por um lado, a radicalização de um conflito expresso pelas contradições contidas nas frustrações da classe média emergente em sua busca de um lugar ao sol. Por outro lado representava as tensões crescentes que essa mesma classe média  — que em parte apoiou o golpe militar  — e a classe operária passam a ter com o poder, cada vez mais agravadas pelo estado de exceção e pelo apoio dos segmentos mais conservadores das classes dominantes. (leia-se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apoiando, em 64, o golpe militar)

Embutida neste amplo questionamento estudantil estava também a velha estratégia do capitalismo moreno, sempre empenhado em manter uma política educacional dependente, promovendo uma educação acadêmica alienante ao limitar a capacidade crítica do indivíduo para questionar o mundo em suas contradições sócio-políticas e ideológicas e, conseqüentemente, formar profissionais que se amoldem culturalmente ao sistema.

          Por trás dessa invisível feição sociológica o movimento queria, na verdade, mostrar, explicitamente, a sua mais bela imagem: a face despojada do idealismo empunhando pacificamente o lábaro da justiça e da liberdade.

          Contudo seus sonhos, legitimados por essa fé e esse compromisso, não puderam se realizar. À medida que o ano chegava ao seu final iam-se esgotando as esperanças de se reconquistar o estado de direito por meios democráticos. O nosso drama político representava as ultimas cenas do seu primeiro ato e a decretação do AI-5 baixou as negras cortinas ante uma platéia assustada. Os espectadores mais atentos não esperaram para ver como seria o segundo ato. Sabiam que ali se apagavam as últimas luzes da ribalta e somente as sombras iriam invadir o palco da tragédia. Foi a gota dágua para que muitas organizações de esquerda se decidissem pela luta armada. A partir daí a repressão caiu como uma rede sobre a classe estudantil e suas principais lideranças não encontraram outro caminho para a sua militância política fora da clandestinidade. Seus sonhos de mudar o mundo começaram muito antes, quando em 1961 a UNE fundou o Centro Popular de Cultura (CPC) cujo propósito era despertar pacificamente, com a arte, a consciência política do povo. Sob a direção do dramaturgo Oduvaldo Viana Filho foram encenadas dezenas de peças, publicados livros, produzidos filmes e discos e promovidos shows, cursos e debates. Nesta saga cultural sem precedentes da nossa historia se engajaram, ao lado de estudantes, artistas e intelectuais, figuras emblemáticas do teatro brasileiro como Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. Quando as sementes dessa utopia começavam a abrir suas flores e a colher seus frutos com a presença cada vez mais contagiante da população em seus espetáculos, o golpe militar de 64 colocou a UNE na ilegalidade e toda esta fogueira de sonhos e esperanças, cujo imenso clarão iluminou a geração de nossos anos dourados, foi abafada bruscamente pelo manto tenebroso da opressão. Quando no fim de 68 arrancaram das mãos do Movimento Estudantil as suas últimas bandeiras democráticas, não restou a eles outra expressão de bom combate que não fosse a luta armada. O que aconteceu depois todos nós sabemos. Centenas deles foram presos, barbaramente torturados e mortos nas prisões do Regime Militar. Deram a vida para que sobrevivesse um sonho e para que continuassem abertas as trincheiras de luta que  escavaram em nome de um homem novo e de um mundo melhor. Esta é a triste memória que a história recente do país tenta resgatar pelos depoimentos dos que sobreviveram, pela escavação dos cemitérios clandestinos e na voz silenciosa dos desaparecidos. Eu bem quisera enumerar aqui os nomes da bravura. Dos que resistiram até o último golpe e caíram aureolados com a coroa do martírio. Mas todos os seus nomes somente podem ser escritos com a dimensão da palavra: legião.  Porque sempre faltaria ainda um nome ou um codinome de alguém cujo coração materno poderia  derramar a derradeira lágrima, motivada pelo meu esquecimento.

 

a passeata dos cem mil no Rio de Janeiro/1968. foto sem crédito ilustração do site.

 

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/04/29/1968-a-sexta-feira-sangrenta-por-manoel-de-andrade/

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/12/1968-partidao-versus-foquismo-por-manoel-de-andrade/

4ª/4ª parte:  As barricadas que abalaram o Mundo

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

 

FOTOGRAFIA DA ALMA HUMANA (primeira) por jairo gonzales

Uma operação cirúrgica que se complica uma paciente morta e uma foto misteriosa que oferece uma versão surpreendente do que sucedeu na sala de operações. De fato, pela primeira vez na história se consegue plasmar no papel a imagem da alma humana. Um acontecimento fora do normal revolucionou o mundo médico e científico, reformulando uma vez mais a possibilidade da vida depois da morte.

 

Tudo começou com uma intervenção cirúrgica num hospital de Frankfurt Alemanha. A paciente faleceu sobre uma mesa de operações, mas o insólito do caso viria dias mais tarde, quando uma das fotos tomadas durante a operação revelou a existência do espírito da mulher. Tudo isto, pegou por surpresa a pesquisadores e céticos, já que a foto existe e muitos puderam vê-la.

 

Uma operação sem riscos

 

Quando Karin Fischer, uma dona de casa alemã de 32 anos, foi internada no hospital Frankfurt para submeter-se a uma operação, estava muito longe de imaginar a surpresa e as conseqüências que traria sua estadia na sala de operações. De fato, também não suspeitava que fossem seus últimos momentos de vida. A intervenção a que ia submeter-se, ainda que não fosse simples, também não era de alto risco; iam corrigir-lhe umas válvulas defeituosas que tinha implantada no coração. Mas algo saiu mal e uma série de complicações fez com que seu coração deixasse de bater depois de quarenta e cinco minutos do início da operação. Nos controles, o monitor cardíaco assinalava o estado de morte com uma linha reta que percorria a tela. Nenhuma das doze pessoas da equipe viu nada do que revelava a fotografia.

 

A fotografia surpresa

 

No momento de seu falecimento, Karin se encontrava rodeada de doze pessoas, todos eles membros da equipe de cardiologia: médicos, técnicos e enfermeiras comprovaram como todos os esforços para tentar reavivá-la eram inúteis. O professor Peter Valentín, diretor do Departamento de Divulgação Didática do hospital também estava na sala de operações. Naquela ocasião sua tarefa consistia em manejar uma câmara de fotos. É muito freqüente que, durante as intervenções, que se fotografe, ou se filme o trabalho dos cirurgiões; a fotografia ou filme é utilizado depois, para a divulgação científica, os arquivos médicos e, sobretudo, para as classes universitárias na faculdade de Medicina. Também foi o professor Valentín quem, poucos dias depois, depois de recolher o carretel do filme no laboratório e ver as cópias, não pôde conter sua surpresa. Uma das fotografias mostrava, com toda clareza, como uma forma humana, difusa e transparente, elevava-se para o teto com os braços abertos. Era a foto de um espírito e além disso, estava saindo do corpo da falecida!

 

O Papa João Paulo II recebeu uma cópia e os pesquisadores do Vaticano a estão analisando. Peter Valentín não saía de seu assombro enquanto escutava as palavras do técnico em fotografia. A foto era autêntica! Um estudo mais profundo e detalhado levava à mesma conclusão: não existia montagem, não existia truque algum. Ademais, como se fosse uma ironia, na imagem podia ver-se claramente a tela do monitor no momento em que a paciente expirava, coincidindo com o momento em que o espírito saía de seu corpo. Ninguém tinha visto nada; a alma é invisível aos olhos humanos. O professor Valentín decidiu comentar o caso com o pároco do hospital, um padre bastante lúcido e pouco amante de perder o tempo com trivialidades. Sua primeira reação foi a de exclamar: ‘Céu Santo, é um alma humana!’. O padre fez questão de divulgar a notícia: pela primeira vez alguém conseguia fotografar uma alma. Remeteram-se cópias a muitos centros religiosos de toda Europa, bem como aos maiores estudiosos do tema.

 

A resposta da Igreja foi imediata: o Papa João Paulo II pediu que se lhe enviasse uma foto para estudá-la nos laboratórios do Vaticano. Não existe ainda uma resposta oficial da Santa Sé; mas a foto já foi recebida e os técnicos de Roma continuam pesquisando. Suas primeiras impressões são positivas: tudo parece indicar que não há truque e que a foto revela a verdade: um espírito humano saindo de um corpo que acaba de falecer.

 

A Ciência se pronuncia

 

Um dos estudiosos da matéria que recebeu a fotografia é o doutor Frank Müller, cientista alemão que se dedicou a pesquisar exaustivamente o insólito documento. É a primeira vez que se obtém a imagem, da alma humana. Sua conclusão foi definitiva: é a prova que faltava, o que muitos têm procurado desde sempre. Segundo ele, a alma das pessoas tem uma vida eterna depois de deixar o corpo físico. A seu entender, isto é uma confirmação do que é narrado pela Bíblia, e sem truque possível, já que os melhores técnicos estudaram a foto durante várias semanas, com os aparelhos mais sofisticados e o maior interesse. Para o Doutor Müller, está claro que sempre terá gente cética que se negue a acreditar na evidência, mas também, eles não têm uma resposta convincente, que explique a presença da imagem sobre o papel. É uma questão de extremos onde, uma vez mais, o inexplicável, tem um papel relevante. Não cabe lugar a mais estudos; a ciência demonstrou que é uma fotografia autêntica, sem truques ou montagens de nenhuma espécie. Agora só resta, aceitar as coisas como são sem maiores discussões. Enquanto isso, muitos sugeriram que poderia tratar-se da foto mais importante obtida, em todos os tempos. Outra prova da imortalidade da alma.

ABORTO CONSCIENTE por mônica caetano

Ouso falar do lugar crítico do Ser que percorre o caminho que constrói, vezes consciente, outras inconsciente quanto às possíveis conseqüências.

Enquanto convivo e participo das relações que estabeleço ou apenas aceito o convite a participar por alguns momentos, reflito sobre a conseqüência das existências presentes.

Percebo a diversidade de atitudes frente à vida; vezes a própria, outras a alheia; porém sempre possível de leitura, a atitude frente a vida.

Há os que se preocupam demasiadamente com a própria, fazendo para isso atrocidades que a si próprios atingem, mas que, no ímpeto de se livrarem de qualquer responsabilidade ou possíveis impedimentos, optam sem refletir. Não importa; a conseqüência destas ações são permanentes no caminho seqüencial de suas vidas, quer  queiram  ou não.

Há os que se responsabilizam demasiadamente por tudo e por todos, esquecendo, por sempre, de permitirem-se um olhar todo especial a si próprios, e que logicamente trazem também as conseqüências no caminho construído, quer queiram ou não.

Há os  ponderados, que tentam equacionar suas atenções a si e aos outros, mas que vez ou outra, deslizam mais a um do que a outro, e novamente, no caminho seqüencial, vivem as conseqüências. 

Há as conseqüências…

Não sabem, ao agir, que cada escolha advém de uma conseqüência longínqua, já definida a muito, por outrem, que lá, optou também por uma escolha e graças à esta conseqüência, agora este, faz a sua opção.

Cada vez que se aborta uma ação, não é mera criação própria, mas antes, uma repetição inconsciente daquilo que reconhecemos como nosso lugar.

Ah! este lugar!!!

 Lugar desejado, muito antes de se pensar em existir, por alguém que é o maior responsável, mesmo que inconsciente, deste pulsar a se expandir!!!

Fosse possível tomar consciência da grandeza deste desejo, ainda no ventre, quão mais rica poderiam ser as escolhas!!!

Escolhas por melhorar a cada minuto da construção que se realizará.

E, novamente, as conseqüências.

Aqueles que não passam da existência, por pequeno momento, no ventre daquelas que agem de forma impulsiva e coercitiva no ímpeto de se eximirem de responsabilidades, livram-se de piores conseqüências que poderiam respingar em suas construções futuras, e fatalmente marcar uma construção para sempre.

Estes são poupados pela conseqüência!!!

Mas, a grande maioria, ultrapassa a barreira do nascer e coexistem mergulhados no emaranhado dos desejos que os circundam. É neste emaranhado que todos, sem exceção, perpassam grande parte de suas existências.

Grande parte porque, são minoria os que se encontram desligados a um determinado tempo, deste emaranhado que os permeou, mas que, como conseqüência, oportunizou Ser.

Estes vivem e constroem perpetuamente.

Mas, o que dizer dos que permanecem agindo e construindo emaranhados nos desejos inconscientes que os envolvem sem que tomem consciência de sua influência?

Ah !  Esse universo sem fim…

Ali, os abortos, muitas vezes, são permanentes!!! Abortos de afetos, de atitudes, de acolhimento, de presença, de respeito para com o outro. Atitudes atrozes e frias são comuns e cotidianas para muitos dos que permanecem na obscuridade do que pensam ser “o Existir”.

Nesse universo, sem mensuração, encontramos a triste existência de tantos que se dizem donos de si e defendem vorazmente a liberdade de suas escolhas!

Sobrevivem ao engodo de si próprios, em função das conseqüências daqueles que, por vezes, se pudessem, exterminariam da face da Terra, sem ter consciência, que este desejo, na verdade foi o primeiro que permeou a sua própria existência.   

Ah!  Esse engano…

Quando penso sobre Ser quem sou, me surpreendo com a ação de muitos frente ao ato de abortar.

Descubro que, por vezes, a arte de muitos existe apenas em conjugá-lo diuturnamente, na construção de seu caminho.

Mas há uma seleta parcela que o conjuga apenas em situações necessárias e que são, na verdade, aquelas que possibilitam construir reais espaços e lugares para a preservação de si e de outrem. Muitas vezes, enquanto se constroem as escolhas conjugadas às conseqüências permanentes, é necessário abortar abruptamente, existências nefastas das relações que nos permeiam, a fim de permitir que o Ser, em construção, flua através de desejos sadios e perpétuos.

Este abortar, a meu ver, é verdadeiramente consciente!

OS AFORISMOS por agustina bessa-luís

 

 

 

Com os costumes andam os aforismos. Assim, eis que eles tomam um caráter mais criticador e vibrante, isto na linguagem de Karl Kraus, homem sagaz e ventríloquo de certas causas que a sociedade não confia à voz pública. Ele diz, por exemplo: «As mulheres, no Oriente, têm maior liberdade. Podem ser amadas».

Ou então: «A vida de família é um ataque à vida privada». Ou ainda: «A democracia divide os homens em trabalhadores e preguiçosos. Não está destinada para aqueles que não têm tempo para trabalhar».

Tudo isto, como axioma, lembra Bernard Shaw, esse inglês azedo e endiabrado cujo Manual do Revolucionário fez o encanto da nossa adolescência. Todavia, o aforismo do homem de letras, se impressiona, quase nunca comove ninguém.

 

O autêntico aforismo não é uma arte – é uma espécie de pastorícia cultural. Não está destinado a divertir nem a chocar as pessoas, mas, acima de tudo, propõe-se transmitir uma orientação. É uma lição, e não o pretexto para uma pirueta.


Os aforismos e paradoxos de Karl Kraus têm esse sabor irreverente que se diferencia da sabedoria, porque há algo de precipitado na sua confissão. Precisam de ser situados num estado de espírito, para serem aceites e compreendidos; enquanto que os verdadeiros aforismos quadram sempre à natureza das coisas e das pessoas, qualquer que seja a era em que se pronunciam e a civilização em que se repercutem.

 

O aforismo deve ser a última colheita do uso da vida, e não uma impertinência ou uma afronta. Mas acontece que um coração novo encontra na rebelião uma força que se assemelha à sabedoria e que provém do desprendimento das coisas que ele não amou ainda; enquanto que aquele que muito conheceu o mundo, uma vez liberto, encontra-se, além de desamarrado das suas paixões, menos apressado no julgamento.

 

O sábio é o homem que amou tanto a casa em festa como a casa em luto, e o fim e o princípio de todas as coisas. No momento da reflexão, ele pensa que o melhor da terra é não sabermos o futuro que nos está destinado; e, no dia alegre, goza de alegria. Esta condição da alegria não produzirá nunca o falso aforismo, que é apenas um excitante e um divertimento. Goza de alegria o que não encontra no mundo atrativo maior do que a virtude desconhecida.

Assim, lendo os aforismos de Karl Kraus, tomei-os como impróprios dum espírito profundo e sabedor. Como acontece decerto a muita gente inclinada à observação, ele conhece no seu íntimo aquele aforismo magistral: «Mais vale a sabedoria do que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e as suas palavras não são escutadas». Esse sentimento de indigência que se apodera do indivíduo que pensa com justiça no meio duma turba indiferente, é o que prevalece no repentista dos aforismos.

 

Ele sabe que um improviso veemente e a pedra de escândalo atirada com habilidade podem tirá-lo da sombra e levá-lo a abrir os ouvidos fechados. É por isso que os momentos de maior convulsão da história aparecem prodigiosamente povoados de oradores e de pensadores. Eles são os sábios pobres, aquele que em época discreta e burocrática não chegariam a pronunciar uma só palavra ou não seriam escutados.

 

FERRADURA DE ESTRADA por walmor marcellino

 

 

Pobres campônios, assim vivemos no entorno da dialética: um dia decepcionados com o projeto capitalista da transposição do Rio São Francisco, outro entusiasmados com a viagem política de Lula da Silva à Bolívia, num apoio oportuno ao governo democrático-nacionalista de Evo Morales. Um dia irritados com as manicurvas etanólicas do proletcult  ao imperial George W. Bush, noutro satisfeitos pelas conversas com Hugo Chavez sobre as complementaridades energéticas no Continente. Num dia apostrofamos as vacilações cavilosas de Marina Silva e Luiz Inácio no arrendamento da Amazônia aos inventados “empresários ecológicos”; depois tomamos conhecimento de que o Exército está construindo rede de quartéis para defendê-la (ao custo de R$ 20 milhões a unidade, embora falte o dinheiro do superávit secundário), aos quais se somem instalações e unidades de aeronáutica e marinha.

 

De repente, reles republicanos, nos entusiasmamos com a possibilidade de construção de uma política de informação e educação públicas através de redes públicas de comunicação e educação sociais; e a seguir sabemos que os Hélios Costas sobremandam os Franklins Martins, e o que é público permanece restritamente estatal; e o que é decodificador de digital para pobre é uma porcaria para manter o público cativo da Rede Globo, Bandeirantes, Record e similares (pois não é que um decodificador independente custa oito vezes mais?). E quando sabemos que a iniciativa privada democrática (Sesc/Senac) avança na popularização e socialização de estudos e debates, as redes estatais e estaduais trepidam confundindo uma linha estatal-governamental com uma linhagem pública. E para alçar essa área pública, vibramos ademais com a iniciativa (privada) de convergência com o que existe no mundo (ainda Sesc e Senac) nos sistemas, formas e métodos de educação, para nosso uso; enquanto tropicamos (e entropicamos debilmente) em discursos autógenos de inteligência governativa; e então, como uma vanguarda política, a iniciativa das entidades econômicas é oferecida para a pauta e as decisões nacionais do Partido dos Trabalhadores.

 

Uma no cravo, outra na ferradura e alfafa para o cavalo, que o caminho é comprido.

 

Pobres eleitores e ineptos cidadãos, quando nos abalançamos à investigação de causas e efeitos, quando cursamos o esforço crítico para discernir as coisas, um alegado cientista de plantão, na realidade algum fiscal de boatos, nos acusa de inimigos da Humanidade, da Pátria estremecida e do bom-senso no mercado venerável.

 

Um amplexo no gaiteiro, ou saudações socialistas?