OS AFORISMOS por agustina bessa-luís

 

 

 

Com os costumes andam os aforismos. Assim, eis que eles tomam um caráter mais criticador e vibrante, isto na linguagem de Karl Kraus, homem sagaz e ventríloquo de certas causas que a sociedade não confia à voz pública. Ele diz, por exemplo: «As mulheres, no Oriente, têm maior liberdade. Podem ser amadas».

Ou então: «A vida de família é um ataque à vida privada». Ou ainda: «A democracia divide os homens em trabalhadores e preguiçosos. Não está destinada para aqueles que não têm tempo para trabalhar».

Tudo isto, como axioma, lembra Bernard Shaw, esse inglês azedo e endiabrado cujo Manual do Revolucionário fez o encanto da nossa adolescência. Todavia, o aforismo do homem de letras, se impressiona, quase nunca comove ninguém.

 

O autêntico aforismo não é uma arte – é uma espécie de pastorícia cultural. Não está destinado a divertir nem a chocar as pessoas, mas, acima de tudo, propõe-se transmitir uma orientação. É uma lição, e não o pretexto para uma pirueta.


Os aforismos e paradoxos de Karl Kraus têm esse sabor irreverente que se diferencia da sabedoria, porque há algo de precipitado na sua confissão. Precisam de ser situados num estado de espírito, para serem aceites e compreendidos; enquanto que os verdadeiros aforismos quadram sempre à natureza das coisas e das pessoas, qualquer que seja a era em que se pronunciam e a civilização em que se repercutem.

 

O aforismo deve ser a última colheita do uso da vida, e não uma impertinência ou uma afronta. Mas acontece que um coração novo encontra na rebelião uma força que se assemelha à sabedoria e que provém do desprendimento das coisas que ele não amou ainda; enquanto que aquele que muito conheceu o mundo, uma vez liberto, encontra-se, além de desamarrado das suas paixões, menos apressado no julgamento.

 

O sábio é o homem que amou tanto a casa em festa como a casa em luto, e o fim e o princípio de todas as coisas. No momento da reflexão, ele pensa que o melhor da terra é não sabermos o futuro que nos está destinado; e, no dia alegre, goza de alegria. Esta condição da alegria não produzirá nunca o falso aforismo, que é apenas um excitante e um divertimento. Goza de alegria o que não encontra no mundo atrativo maior do que a virtude desconhecida.

Assim, lendo os aforismos de Karl Kraus, tomei-os como impróprios dum espírito profundo e sabedor. Como acontece decerto a muita gente inclinada à observação, ele conhece no seu íntimo aquele aforismo magistral: «Mais vale a sabedoria do que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e as suas palavras não são escutadas». Esse sentimento de indigência que se apodera do indivíduo que pensa com justiça no meio duma turba indiferente, é o que prevalece no repentista dos aforismos.

 

Ele sabe que um improviso veemente e a pedra de escândalo atirada com habilidade podem tirá-lo da sombra e levá-lo a abrir os ouvidos fechados. É por isso que os momentos de maior convulsão da história aparecem prodigiosamente povoados de oradores e de pensadores. Eles são os sábios pobres, aquele que em época discreta e burocrática não chegariam a pronunciar uma só palavra ou não seriam escutados.

 

Uma resposta

  1. A PROPÓSITO:

    * * * * *

    NIILISMO 17/08/2006 22:47

    Em “Vontade de Potência” (1887), no Aforismo 2, Nietzsche se pergunta: “O que significa niilismo?” E ele responde: “que os valores supremos, os mais altos, se desvalorizaram”. Mais adiante, ele usará o termo “decomposição” ou “putrefação” dos valores. No mesmo “Vontade de Potência”, na parte relativa aos fragmentos recolhidos entre 1884 e 1888, ele dirá que “o niilismo está às portas” e indaga de onde vem esse “mais sinistro e mais inquietante de todos os hóspedes”. Continua dizendo que seria um erro atribuir aos estados de indigência social, de degeneração fisiológica, ou de corrupção, a causa do niilismo, compreendido (também) como uma recusa em atribuir e reconhecer valores, sentido na vida, e baseando-se numa vontade de nada. Sua causa residiria na visão cristã do mundo. Mas não só, acredito eu. Ele próprio, no texto, deixa que o termo grego septikós (que causa putrefação, decomposição) se embaralhe com skeptikós (cético), numa busca certeira, ao meu ver, de dar origem para esta desvalorização-decomposição no ceticismo, como pensamento ou atitude onde fica recusada a certeza sobre qualquer conhecimento, como ponto máximo de petrificação da racionalidade que se iniciou com Sócrates e Platão, constituindo no final um mundo de pura descrença. Aliando-se só então, como numa somação de forças, ao poder da interpretação cristã do mundo.
    Em “A palavra de Nietzsche” – Deus está morto”, Heidegger acrescenta, respondendo a Nietzsche, que pertence ao caráter inquietante deste mais “sinistro de todos os hóspedes” o fato dele não poder nomear sua própria origem. Lembro Derrida quando este diz que a hospitalidade absoluta dada por um anfitrião requer que sua casa seja aberta tanto para o estrangeiro com nome e origem quanto para o outro absoluto, desconhecido, anônimo, ao qual não é pedida reciprocidade, nem mesmo o seu nome. Portanto, de acordo com as leis da hospitalidade incondicional seria possível receber aqui o outro absoluto – o niilismo como o mais sinistro dos hóspedes – num encontro onde o que se afirma é o seu oposto, à vontade de potência como vontade de criação sempre por-vir. Lembro apenas que ela pressupõe uma ruptura com a hospitalidade do senso comum, condicional, do “pacto” da hospitalidade. Considero importante dar este destaque à hospitalidade incondicional, uma vez que ela ameaça as sociedades (inclusive as psicanalíticas) que fizeram da quietude dos pactos, da conspiração do silêncio, um modo de totalizar o poder, fragmentando as responsabilidades. Ainda neste belo texto, Derrida nos lembra que “hostis” é, em latim, hóspede e inimigo, e responde à hospitalidade que lhe damos a modo de um espectro, que não admite ser esquecido. Resta nos perguntar quem estaria sendo esquecido.
    Em “O insensato”, aforismo 125 de “A Gaia Ciência” (publicada em 1882, um ano antes de “Zaratustra”), Nietzsche se refere pela primeira vez à morte de Deus, como a constatação do niilismo na Modernidade, proveniente da já comentada desvalorização dos fundamentos que outrora sustentavam o projeto ocidental. A fé no Deus cristão e toda crença no supra-sensível deixaram de ser plausível na medida em que se constatou a impossibilidade de realização desse mundo ideal. A efetividade desses valores tornou-se incerta, até que acabaram por se mostrar como valores sem eficácia, já que não garantem as vias e os meios de realizar os fins por eles propostos. Isto entra em rota de colisão com a essência da metafísica, que é, segundo Heidegger, uma vontade de poder que procura se afirmar pelas certezas e garantias, e onde residiria à essência do niilismo, diferentemente do que propõe Nietzsche (o que certamente daria sentido a uma substituição dos valores do mundo supra-sensível pela “civilização” tecnológica da contemporaneidade, no ápice da sua vontade de controlar a vida pela técnica).

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