Arquivos Diários: 7 maio, 2008

“O VAMPIRO” e “A SURPRESA” mini contos de raimundo rolim

O vampiro

 

O vampiro do arraial era esquisito o suficiente para não ser levado muito a sério. Todos os habitantes o sabiam propenso ao sanguessuguismo deslavado e desmedido. Ao menos achavam que era isso. Ele o era, porém não!  Alguns o justificavam mais por pena que por precisão. Dizia-se à boca miúda, que ele, o vampiro, vivia ali há séculos e mais alguns anos e que simplesmente recusava-se a abandonar a – digamos – “casca” – que escondia com altivez sombria sob um puidíssimo e paupérrimo manto negro. Um dente em cima, o outro ficava em baixo, de lado, quase atrás. Era cômico e algo idiota. Corcunda. O peso da idade o deixara com seqüelas seriíssimas. Arrastava-se inteiro para andar e embora ainda o fizesse na vertical, ia assim, meio adernado para um lado. Era corajoso, isso ninguém o negava. Cabelos ele ainda os possuía, aos tufos, longos e amassados; jamais o vento bulia-os, (imexíveis que eram). Os olhos de um vermelho azinavrado, dependuravam-se nas órbitas desmesuradas e escuras. As mãos eram indecifráveis posto que translúcidas e esqueléticas. Não sabiam ao certo como vivia aquele homem, já que nunca o viram mastigar ou ruminar, nem pensamentos.  Alguns disputavam que o mesmo vivia de ar. Outros que não; que os o espíritos dos antepassados vampiros o alimentava. Havia total desconhecimento. Com ninguém ele falava e nem coisa com coisa. Lendas diziam que lá, naquele lugar, habitavam outros iguais a ele e que eram invisíveis e eram esses tais que o encorajava a continuar, transferindo-lhe todo o know-how de que carecia para sobreviver séculos seculorum. Oras! Como aquele pobre diabo poderia ser um vampiro? O habitante mais antigo já lhe sabia as façanhas e que a tal criatura lá existia desde sempre, quando chegaram as primeiras caravanas a tomar posse de terras. Por mais que o seguissem, jamais descobriram onde o mesmo morava. Pois em dado momento, ele desaparecia e no outro canto do arraial, lá estava ele, sem nunca se cansar! Nem arfar! Mas, por que então o chamavam vampiro? Ninguém o sabia, assim chamavam e assim ficou! Mesmo com sol a pino ele perambulava e isto o diferenciava muito mais, até em demasia! Dizia-se que um marceneiro havia confeccionado ardilosos crucifixos e afiadas estacas de madeira e os deitava ao longo do caminho, mas que na hora agá, o vampiro desviava-se como que teleguiado. As crianças tinham certo cuidado e recomendações paternas especiais, para que jamais se deixassem ficar em rota de colisão com aquele azarento, que a bem da verdade, a ninguém incomodava, (o que tirava das autoridades o direito de perturbá-lo ou exigir-lhe pagamento de impostos ou coisas do gênero). Aquilo tudo seguiria sem fim, não fosse um belo dia, o gaguinho local, entre um soluço e outro, ter conseguido finalmente articular palavras (e falava num e só fôlego para não patinar nas letras) e disse que vira finalmente a criatura extrair de um frasco, uma substância que carregava num alforje dependurado na altura das costas e que levara a mão à boca e que engolira sem mastigar. E que o odor característico que sentira, assemelhava-se a um tempero bem conhecido. Alho, alho, alho, (repetia sôfrego e sem parar o gaguinho), alho puro! O vampiro encara alho ! Disse esta última lasca de frase e voltou a gaguejar imediatamente. Oras! E daí? Era a sua única ração (do vampiro)! A sua última razão (do vampiro). Era ele um vampiro à moda da casa! E daí? O vampiro encara alho! E daí?

 

 

 

A surpresa

 

A noiva da cidade, já entrada em anos, era das cercanias o folclore. Excursões eram organizadas para que conhecessem a dita cuja. Fugira-lhe de há muito a beleza, assim como todo e qualquer atrativo que fizesse homem com pingo de juízo, se aproximar. Não mais existia a graça, o esplendor. Sepultados estavam o brilho e os traços de delicadeza. Não havia expressão naquele corpo por baixo do eterno vestido (da qual a mesma não se livrava nem para os banhos, e havia muitos que apostavam que ela nunca mais os tomara), desde que fora deixada na porta da capela pelo noivo – um vaqueiro desalmado – num domingo de sol, sem piedade nem consideração. O véu, a grinalda, a guirlanda… (como ela chamava aquilo), enfeitada de flores de plástico, tão antinaturais que já beiravam a comicidade pura e simples. De algumas das flores, restavam apenas a haste torta e pardacenta, com o arame à mostra. Ainda assim, ela os acomodava com certa vaidade, no alto da cabeça, bem como todo o seu vestuário, transformado em andrajos, que a rigor, já nem trajava nem desnudava. Era um misto de ser e não ser, o princípio da contradição estabelecido numa única e singular pessoa. Um mistério, um milagre! O pároco local já tentara com água benta e modos medievos exorcizar o que quer que fosse que tomava o lugar daquele cérebro, e óbvio, nada acontecia! Era ela inexpugnável ! Carregava ainda nas mãos sempre trêmulas, o mesmo buquê que não jogara para trás, por cima da cabeça, para que outras casadoiras o pegassem. Era tudo dela. Vivia assim, sem denodo nem pecado. Juravam que ela não mais tinha alma, nem espírito nem sangue, nem princípio e nem fim. E claro, era um desafio para a inteligência mais aguçada e a ciência da psicologia e parapsicologia se desfiguraria nos seus postulados mais elementares se tentasse se inclinar sobre tudo aquilo do que se dizia sobre a noiva da cidade. Uns tinham vontade de jogar pedra, outros faziam o sinal da cruz à sua passagem. Risinhos e lágrimas se confundiam no rosto das pessoas que achavam ter o privilégio de vê-la passar pelas manhãs, aos domingos, como que a procura de algo que jamais se soube o que era. Ela, a noiva, a danada e sem banho, o sabia. Só ela. Ninguém a cumprimentava, mesmo porque, não havia retorno. Um dia, ela apareceu nua. Isto, nuazinha. Em pelo! Deslindara-se dos andrajos de nubente que a acompanhara desde o dia fatídico. Aí sim, o motivo de tanta estranheza fora imediatamente compreendido, e toda a cidade, toda, fez vários e muitos ohs !!! A noiva da cidade apiedara-se finalmente da curiosidade e angústia alheias e resolveu num último lampejo de serenidade dar-se a conhecer. Com um pequeníssimo pênis à mostra, que quase desaparecia entre tufos de pelos descolorados e ralos, desatou-se a rir. E riu-se, riu-se tanto que toda a cidade se pôs a rir. Até o sacristão, por não mais agüentar de tanto rir, foi tocar os sinos para aumentar o alarido. Era veramente ela, a noiva desapiedada, um “fofo” de colhões e espada. E assim cruzou a rua principal (sua via menos crucis) na mais espetacular procissão de uma só pessoa. Embrenhou-se na estrada de pó, assim, daquele jeito, puro e casto, a rir-se. Da cidade. De si !

 

CANÇÃO DA PRAIA poema de nelson padrella

Abertos os braços da alma, recebo-te em júbilo.

Somos um os dois, amante e noivo.

Ao teu encontro vou como à rocha o mar.

Espuma e véu e sal, azul e ar.

 

Correm cristais de luz por teus cabelos.

Voam em bandos sutis borboletas.

A solidão é assim o mar que bate

e regressa vencido para marrar outra vez.

 

Fecho os braços da alma em torno de mim.

Caem nuvens fechadas sobre o mar escuro.

Somos dois, agora, amante e noivo,

que se separam como o oceano inventa marés.

 

Na amplidão o gozo de saber-te luz,

os prazerosos ontens sepultados.

Cai uma chuva de pétalas de rosas

e eu mergulho no poço de rãs e musgos.

 

Há um prego na memória enferrujando datas.

Tesouros de desejos entre paixes náufragos.

Nada resta agora se é tudo só espaço,

apenas o espaço de uma praia esquecida.

PONTO DE VISTA por mônica caetano

SER. Sujeito da ação?
Homens.
Mulheres.
PESSOAS.

SOMOS SERES SOCIAIS DOTADOS DE SUBJETIVIDADE.
TEMOS, NO COTIDIANO, A EXPRESSÃO PLURAL DA SUBJETIVIDADE HUMANA.
SOMOS SERES SOCIAIS!!

A Lei coexiste na subjetividade.
As leis precisam acolher àqueles aos quais limitam.
São necessárias ao indivíduo enquanto norteadoras, mas, jamais podem levar à exclusão do SER!!

Povo Brasileiro,
a realidade vivida,
a expressão da verdade,
a manipulação instituída,
Angústia diária.
À margem da escolha alheia,
inexiste o Sujeito da Ação!!!
Carência de oportunidade em assumir-se a própria escolha.

“Não é preciso encontrar outros caminhos; precisa-se, sim, descobrir a nova forma de caminhar!
Aquela que ,efetivamente, realiza a mudança.”
Mudança,
Mudança de postura,
Mudança de compreensão e de dimensão na análise,
Mudança de “lugar”.
Posicionamento ativo, dinâmico, conjunto, participativo, engajador e construtivo para a evolução ,
abandonando definitivamente a mera repetição.

Precisamos assumir a fala original , abandonando as expressões segundas.
Resgatar a Fala autêntica!!!

A Democracia precisa que a autorizemos vir à Luz.
Nós, mães desta filha que não consegue nascer e agoniza já hoje dentro do ventre destes brasileiros que não encontram em si a possibilidade de autorizarem-se a dar à luz a esta filha singular e especial que é parte de seus pais e que não deve ocupar apenas uma lembrança de Desejo de existir!!!
Somos gestantes da FILHA Democracia, mas,

 precisamos autorizar-nos a deixá-la existir!

Permitamos que no resgate da fala autêntica coexistam o gênero, um ao outro complementariamente, sendo assim plenos de compreensão enquanto necessários a existência da Democracia!!!

 

MICHAEL LÖWI entrevistado por sandra silva

“Enterrar o marxismo é prematuro”

 

O cientista social Michael Löwy, que vive em Paris há 30 anos, veio ao Brasil para o lançamento de O Marxismo na América Latina, que foi organizado por ele. A publicação é da Editora Fundação Perseu Abramo. Mais do que um conjunto de textos com a antologia dessa corrente de pensamento desde 1909 até os dias atuais, Löwy quer mostrar que nem a Teologia da Libertação, nem o marxismo morreram na América Latina, apesar de o socialista lamentar a migração de marxistas para o neoliberalismo, como o ilustre presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que Löwy fez questão de citar.

 

A fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) por exemplo, teve alguma inspiração marxista, segundo o cientista social. O Movimento dos Sem Terra (MST), que surgiu a partir das Pastorais da Terra – ligadas à Igreja Católica – também tem forte cunho socialista, por conta da influência da Teologia da Libertação, ou do cristianismo de libertação, como Löwy gosta de chamar o movimento.

 

O cientista recebeu o JORNAL DO BRASIL na casa de seus tios, que o hospedam em São Paulo. Apesar do frio, o cientista fez questão de sentar na varanda para aproveitar o sol da manhã de outono. Ele tem 61 anos, nasceu em São Paulo, e formou-se em Ciências Sociais na USP. Participou da fundação da organização Política Operária (Polop) e fez doutorado na Sorbonne, defendendo tese sobre o jovem Marx.

 

Löwy é autor de livros e artigos traduzidos em 22 idiomas. Atualmente, trabalha como diretor de pesquisas no Centre national de la Recherche Scientifique, em Paris, onde também faz parte do PT.

 

O senhor indentificou três fases do marxismo na América Latina. A revolucionária, a com fortes tendências stalinistas e uma terceira, também com vocação revolucionária. Pode-se afirmar que a última etapa é a de maior amadurecimento?
O primeiro período é o mais fértil, do ponto de vista intelectual. Porque nessa época é que aparece José Carlos Mariátegui, o pensador mais criativo do marxismo, mas que é pouco conhecido no Brasil. O último período não pode ser considerado como o mais maduro, porque havia uma espécie de ilusão na estratégia guerrilheira de que bastava simplesmente imitar os cubanos na revolução. Quase todos os países da América Latina fizeram isso, a própria tentativa de Che Guevara, na Bolívia, foi inspirada por essa idéia. Mas a revolução só deu certo em países com estrutura social semelhante a de Cuba, como a Nicarágua, com a revolução sandinista.

 

Por que a insurreição salvadorenha, em 1932, foi a única conduzida por comunistas na América Latina?
Nos anos 20, os partidos revolucionários ainda eram fracos, não tinham conseguido se desenvolver na maior parte dos países. Então, não havia condições para que um deles tivesse um papel dirigente em larga escala. A exceção mesmo foi em El Salvador, onde embora o partido também fosse recente, conseguiu ganhar uma base social ampla. O que ocorreu foi um verdadeiro levante de massas. Outra particularidade é que a Internacional Comunista não participou desse levante. Isso garantia maior liberdade às ações do partido comunista em El Salvador. Já quando Stalin assumiu o poder, houve a busca da aliança com a burguesia nacional, o que paralisou os partidos e burocratizou-os. A partir daí, nos anos 30, cada vez mais os partidos perderam seu papel revolucionário e começaram a fazer greves e a lutar por melhores condições de trabalho.

 

Durante a era stalinista houve a revolta dos militares em 1935, no Brasil. Como o senhor analisa isso?
O levante de 1935 foi um caso especial porque foi ambivalente, já que não havia uma base de massas populares. Uma das ilusões era a de que a burguesia apoiaria o movimento, que era centrado nos militares, com Carlos Prestes. Só no Nordeste, em Natal, houve participação popular, mas nada comparado com o que houve em El Salvador. Mas depois disso, não houve mais nada parecido porque o stalinismo realmente enquadrou os partidos.

 

O que faltou para que acontecesse uma revolução socialista mais amadurecida na América Latina?
Depois da revolução cubana houve uma efervescência social e política, mas a maior parte dos países não conseguiu organizar as classes subalternas. A militância ficou apenas entre intelectuais, estudantes e camponeses. Quem conseguiu realmente organizar os pobres foram os cristãos. A insurreição em El Salvador só deu certo porque havia o apoio cristão. Na Guatemala por exemplo, era o partido comunista quem dirigia a revolução, mas havia confiança total nas Forças Armadas. O PC achava que o exército daria as armas ao povo, mas os militares acabaram traindo a confiança dos comunistas, com a justificativa de que, na verdade, deveriam defender a pátria. Foi um erro trágico.

 

Pode-se falar na morte da Teologia da Libertação na América Latina, com o atual resgate do evangelismo e crescimento de igrejas pentecostais?
São prematuros os anúncios da morte da Teologia da Libertação, porque a terceira e quarta gerações que tiveram essa formação não vão recuar. A Teologia da Libertação continua para os cristãos, porque o muro da pobreza não caiu. Nos últimos 10 anos, cada vez que há um movimento social ou político na América Latina, você encontra forte presença da Teologia da Libertação, como no MST por exemplo. Seus dirigente vieram das comunidades de base, de pastorais da terra. Apesar disso, quiseram criar uma autonomia em relação à Igreja Católica. O movimento Zapatista, em Chiapas, também vem da conscientização das comunidades indígenas, que foi feita por Dom Samuel Ruiz. Os surtos evangélicos pentecostais que existem atualmente são apenas resultado da orientação conservadora do Vaticano, que combateu as comunidades de base e deu espaço para os carismáticos. Da mesma forma, é outro enterro prematuro o do marxismo. Quando houve a queda do muro de Berlim, muitos acharam que significaria também a queda do marxismo. Mas os sistemas em vigor na Tchecoslováquia e na URSS já eram uma caricatura burocrática do regime. A impulsão do marxismo não vinha daí há muito tempo. Mas quem se formou pelo modelo soviético ficou muito abalado. O que sobrou do Partido Comunista no Brasil não é muito brilhante. A queda do muro ocorreu bem em cima dos comunistas brasileiros. Quem conseguiu se desvincular e não tinha a China, nem a Albânia ou a URSS como modelo, continua ativo. Eu acho que o marxismo vai desenvolver-se, libertado do peso da história que foi o stanilismo. A própria fundação do PT teve alguma inspiração marxista.

 

O MST no Brasil tem vocação revolucionária?
Sua vocação revolucionária é a de realizar a reforma agrária. O que, no Brasil, é quase uma revolução, porque a classe dos latinfundiários controla há muitos séculos a terra. O MST é a ponta avançada de um movimento social contra o neoliberalismo.

 

E como o senhor analisa a situação do movimento sindical brasileiro, que tem sofrido com o desemprego e com a crise econômica?
É um momento muito difícil para o movimento sindical mundial, porque essa ofensiva neoliberal não é fácil de ser enfrentada. Mas é difícil separar a luta pelo emprego da batalha pelas outras conquistas trabalhistas. Na Europa está ficando cada vez mais claro que a manutenção do emprego passa pela redução da jornada. O próprio governo francês reduziu a jornada semanal para 35 horas. A lógica do desenvolvimento do capitalismo cada vez marginaliza a força de trabalho. Quanto mais o empresário elimina empregados, mais as cotações da empresa na bolsa sobem. O capitalismo acha que não precisa de mão-de-obra, algum dia a mão-de-obra vai chegar à conclusão de que não precisará do capitalismo. E não tem 35 saídas, a saída é o socialismo.

 

O que mudou em Cuba, desde a palavra de ordem “Wall Street dever ser destruída”, de Julio Antonio Mella, passando pela Revolução Cubana, até os dias de hoje?
Julio Antonio foi fundador do partido comunista. Mas com o stalinismo, o partido comunista cubano foi degradando-se. E não foi à toa que a Revolução Cubana não foi feita pelo partido, mas pelo movimento 26 de Julho. A Revolução Cubana foi a virada na história na América Latina. Até 1968, a revolução representou uma tentativa original de busca ao socialismo, com críticas ao modelo soviético. Mas a partir de 1968 houve uma adesão ao socialismo soviético, o que custou muito caro. Porque ocorreu a perda de autenticidade e substância democrática. Houve um processo de dependência político-ideológica e econômica muito grande da URSS. Hoje, lógico, há uma crise. Mas diferentemente do que aconteceu na Romênia, que caiu como um castelo de cartas quando o muro caiu, existe em Cuba um apoio da população. Cuba não quer voltar a ser um prostíbulo dos Estados Unidos, uma colônia americana. Hoje Fidel Castro tem uma saúde frágil, mas essa dependência excessiva de um líder é perigosa, tem de haver a substituição desse caudilho revolucionário por uma democracia socialista.

 

O POETA poema de mario oliveira

O Poeta.

O Poeta é um ser diferente,

O mundo do poeta é diferente do mundo da gente,

O poeta idealiza um mundo, venturoso e fecundo,

E vive lá para sempre.

 

Em versos forma palavra, em cada fala uma rima,

O Poeta sente o sabor em cada verso de amor.

Somente o poeta interpreta o esplendor da alma feminina,

 

O poeta é um criador, que sabe transformar em verso,

Das belezas do universo, faz um paraíso em flor,

O poeta anda sozinho recitando pelos caminhos,

Seus poemas de amor.

 

O Poeta é um construtor,

 De versos de amor e palavras bonitas,

Só ele no seu repente alegra a alma da gente,

Com palavras que nunca antes foram ditas.

 

 O Poeta dribla a tristeza em seu jeito de viver.

O poeta contempla a beleza onde outro olho não vê.

Somente o Poeta sabe o que lhe vai pela mente,

O Poeta sente saudade mesmo estando presente.

 

O homem necessita um castelo para sua propriedade,

Precisa muito poder para afagar sua vaidade

Para o Poeta o mundo é belo, tendo saúde e amizade,

Se contenta com os farelos da esperança e da saudade.

 

O Poeta mente para o seu coração,

Dizendo em sua imaginação, que todas as mulheres são suas,

Embora nem uma possa tê-la,

O poeta é apenas amigo da lua e namorado das estrelas.

 

 

TAUTOLOGIA, VOCÊ SABE O QUE É? por mari frança

Você sabe o que  é tautologia?É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.

O exemplo clássico é o famoso ‘subir para cima’ ou o ‘descer para baixo’. Mas há outros, como você poderá ver na lista a seguir:

– elo de ligação
– acabamento final
– certeza absoluta
– quantia exata
– nos dias 8, 9 e 10, inclusive
– juntamente com
expressamente  proibido
– em duas metades iguais
– sintomas indicativos
– há anos atrás
– vereador da cidade
outra alternativa
– detalhes minuciosos
– a razão é porque
– anexo junto à carta
– de sua livre escolha
– superávit positivo
todos foram unânimes
– conviver junto
– fato real
– encarar de frente
– multidão de pessoas
– amanhecer o dia
– criação nova
– retornar de novo
– empréstimo temporário
– surpresa inesperada
– escolha opcional
– planejar antecipadamente
– abertura inaugural
continua a permanecer
– a última versão definitiva
possivelmente poderá ocorrer
– comparecer em pessoa
– gritar bem alto
– propriedade característica
demasiadamente excessivo
– a seu critério pessoal
– exceder em muito

Note que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo: ‘surpresa inesperada’.  Existe alguma surpresa esperada?
É óbvio que não. Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.
Verifique se não está caindo nesta armadilha.

Gostou?

Repasse para os amigos amantes da língua portuguesa.

 

 

abraços,

Mari

 

ESCOMBROS poema de jorge barbosa filho

derrubo as paredes das palavras

para beber o ar e o sol

e tomar um porre com o tempo

sendo a fala a ginga

o vento olhar de farol

eu trago o sotaque

de todos os lugares

e de lugar nenhum

eu fumo os horizontes

e bato as cinzas

na língua das nuvens.

 

eu chovo, eu relampejo

inundo e fulmino

precipito rumo ao abismo

e meu verso é um risco

não começo, não acabo

desabo acima de tudo e de todos

se no meu verbo eu não caibo

não espero, não paro

meu poema é um grito

veloz de meus  remorsos

e para o nosso assombro

encontrei seus olhos perdidos

nestes escombros.

Pífio – monólogos dos psicotrópicos que não fazem mais efeito – por luiz felipe leprevost

Eu amava uma guria. Amava tanto que queria chegar na alma dela. Eu queria tocar a alma dela, apertar assim que nem as crianças fazem com os cãezinhos que ainda são filhotes. Eu queria pra mim aquela alma. Queria por na boca e deixar derreter que nem chocolate. Queria sentir o bafio de cada poro da sua pele. Acontece que a guria tava um pouco suja. Tinha que limpar ela. Então peguei minha escova de dente. E comecei a escovar a sujeira. Braços, costas, coxas, ventre, tudo. Até que ela ficou bem lisinha. Só que naquela lisura de mulher depilada pela Depil House não econtrei a alma dela. Continuei esfregando, sabia que a alma podia estar na pele, já que dali exalava um cheiro tão bom. Tão bom que só podia mesmo ser uma fragrância almal, que nem aquela perseguida pelo botânico de O Perfume. Mas acabou que constatei que não, a alma não estava em sua pele. Aquela menina já sem pêlo, aquela que não precisaria mais se depilar. Então continuei esfregando, esfregando, esfregando, até que cheguei na carne. Sim, ela estava em carne-viva. Aí achei que tava bom, porque todo  mundo sabe que o amor deixa a gente em carne viva. E que é deveras provável que a alma das mulheres se revele ali no sangue, na chaga, no fogo, na queimadura. Mas não era nada disso, droga, pura ilusão de românticos bobalhões. Por isso continuei esfregando, agora com mais afinco, ainda mais, digamos, obsessivo. Se até então não tinha encontrado a alma da minha guriazinha era porque a lazarenta se esconde lá no lugar mais entranhado do ser humano. E já que era daquele jeito, então que fosse daquele jeito. Que jeito? De jeito nenhum. Pois bem, vamos cair fundo, baibe, pensei. Foi o que pensei, embora já com poucas forças me restando. Eis que súbito me dei conta que só havia osso. (Sombrio) Osso, osso, osso e mais nada. Lá estava eu polindo a caveira da minha amada. E nem mesmo ali, nem na medula, nem nas costelas que outrora foram, talvez, as próprias costelas de Adão. Nem ali havia alma. O que fazer? Não havia outra alternativa, restava-me apenas prosseguir. E eu prossegui. Eu tinha que achar o que procurava. Então continuei obstinado a esfregar a escovinha de dente. Esfreguei, esfreguei, esfreguei, Deus sabe o quanto esfreguei. Até que os ossos foram ficando lisinhos, fininhos, foram se rompendo, quebrando, virando poeira… Poeira na brisa que parecia soprar: Nada… nada… naadaa… naaaad…

 

 

ENGANO, HORA POÉTICA, ERRO e OUTRA DÚVIDA poemas de eunice arruda

ENGANO

Não
isto ainda
não
é a
paz

É o silêncio da vida

 

 

 

 

HORA POÉTICA

Para esquecer esta
dor

– transformá-la em poesia

Para eternizar esta
dor

– transformá-la em poesia

 

 

 

 

 

ERRO

Edifiquei minha
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço

 

 

 

 

OUTRA DÚVIDA

Não sei se é
amor

ou

minha vida que pede
socorro

 

SEGREDOS OCULTOS por elisa bastos

O homem ali parado observava o céu, a terra e o mar; queria saber onde eles se encontravam; percebeu que se uniam no horizonte do horizonte. È muito além do que os olhos humanos podem enxergar… ele, porém, era especial! não era um extraterrestre nem um anjo, era um ser humano normal apenas com uma deficiência visual.

 Desde pequeno não podia enxergar nada, por causa disso era excluído das brincadeiras, das conversas e não tinha amigos. Passaram-se os anos, ele tornou-se um homem esbelto e charmoso, muitas mulheres viviam a sonhar com ele.

 Apesar de não poder enxergar, podia ver com as mãos as curvas do corpo e do rosto das mulheres com as quais namorava, podia sentir o cheiro dos perfumes mais discretos, podia ouvir as vozes aveludadas e belas que as mulheres tinham, podia sentir o gosto da comida por mais fraca que fosse.

 Comigo não foi diferente  e acabei me apaixonando por ele; vivi muito tempo na ilusão de poder tê-lo, até que um dia essa ilusão se tornou realidade. Como muitos esperavam não vivemos felizes para sempre e sim o que tinha que durar, durante esse tempo fomos felizes.

 Ele morreu envenenado no dia 25/05/1935, foi horrível para mim e para todos que dele gostavam. Ninguém nunca descobriu quem o matou.