MICHAEL LÖWI entrevistado por sandra silva

“Enterrar o marxismo é prematuro”

 

O cientista social Michael Löwy, que vive em Paris há 30 anos, veio ao Brasil para o lançamento de O Marxismo na América Latina, que foi organizado por ele. A publicação é da Editora Fundação Perseu Abramo. Mais do que um conjunto de textos com a antologia dessa corrente de pensamento desde 1909 até os dias atuais, Löwy quer mostrar que nem a Teologia da Libertação, nem o marxismo morreram na América Latina, apesar de o socialista lamentar a migração de marxistas para o neoliberalismo, como o ilustre presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que Löwy fez questão de citar.

 

A fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) por exemplo, teve alguma inspiração marxista, segundo o cientista social. O Movimento dos Sem Terra (MST), que surgiu a partir das Pastorais da Terra – ligadas à Igreja Católica – também tem forte cunho socialista, por conta da influência da Teologia da Libertação, ou do cristianismo de libertação, como Löwy gosta de chamar o movimento.

 

O cientista recebeu o JORNAL DO BRASIL na casa de seus tios, que o hospedam em São Paulo. Apesar do frio, o cientista fez questão de sentar na varanda para aproveitar o sol da manhã de outono. Ele tem 61 anos, nasceu em São Paulo, e formou-se em Ciências Sociais na USP. Participou da fundação da organização Política Operária (Polop) e fez doutorado na Sorbonne, defendendo tese sobre o jovem Marx.

 

Löwy é autor de livros e artigos traduzidos em 22 idiomas. Atualmente, trabalha como diretor de pesquisas no Centre national de la Recherche Scientifique, em Paris, onde também faz parte do PT.

 

O senhor indentificou três fases do marxismo na América Latina. A revolucionária, a com fortes tendências stalinistas e uma terceira, também com vocação revolucionária. Pode-se afirmar que a última etapa é a de maior amadurecimento?
O primeiro período é o mais fértil, do ponto de vista intelectual. Porque nessa época é que aparece José Carlos Mariátegui, o pensador mais criativo do marxismo, mas que é pouco conhecido no Brasil. O último período não pode ser considerado como o mais maduro, porque havia uma espécie de ilusão na estratégia guerrilheira de que bastava simplesmente imitar os cubanos na revolução. Quase todos os países da América Latina fizeram isso, a própria tentativa de Che Guevara, na Bolívia, foi inspirada por essa idéia. Mas a revolução só deu certo em países com estrutura social semelhante a de Cuba, como a Nicarágua, com a revolução sandinista.

 

Por que a insurreição salvadorenha, em 1932, foi a única conduzida por comunistas na América Latina?
Nos anos 20, os partidos revolucionários ainda eram fracos, não tinham conseguido se desenvolver na maior parte dos países. Então, não havia condições para que um deles tivesse um papel dirigente em larga escala. A exceção mesmo foi em El Salvador, onde embora o partido também fosse recente, conseguiu ganhar uma base social ampla. O que ocorreu foi um verdadeiro levante de massas. Outra particularidade é que a Internacional Comunista não participou desse levante. Isso garantia maior liberdade às ações do partido comunista em El Salvador. Já quando Stalin assumiu o poder, houve a busca da aliança com a burguesia nacional, o que paralisou os partidos e burocratizou-os. A partir daí, nos anos 30, cada vez mais os partidos perderam seu papel revolucionário e começaram a fazer greves e a lutar por melhores condições de trabalho.

 

Durante a era stalinista houve a revolta dos militares em 1935, no Brasil. Como o senhor analisa isso?
O levante de 1935 foi um caso especial porque foi ambivalente, já que não havia uma base de massas populares. Uma das ilusões era a de que a burguesia apoiaria o movimento, que era centrado nos militares, com Carlos Prestes. Só no Nordeste, em Natal, houve participação popular, mas nada comparado com o que houve em El Salvador. Mas depois disso, não houve mais nada parecido porque o stalinismo realmente enquadrou os partidos.

 

O que faltou para que acontecesse uma revolução socialista mais amadurecida na América Latina?
Depois da revolução cubana houve uma efervescência social e política, mas a maior parte dos países não conseguiu organizar as classes subalternas. A militância ficou apenas entre intelectuais, estudantes e camponeses. Quem conseguiu realmente organizar os pobres foram os cristãos. A insurreição em El Salvador só deu certo porque havia o apoio cristão. Na Guatemala por exemplo, era o partido comunista quem dirigia a revolução, mas havia confiança total nas Forças Armadas. O PC achava que o exército daria as armas ao povo, mas os militares acabaram traindo a confiança dos comunistas, com a justificativa de que, na verdade, deveriam defender a pátria. Foi um erro trágico.

 

Pode-se falar na morte da Teologia da Libertação na América Latina, com o atual resgate do evangelismo e crescimento de igrejas pentecostais?
São prematuros os anúncios da morte da Teologia da Libertação, porque a terceira e quarta gerações que tiveram essa formação não vão recuar. A Teologia da Libertação continua para os cristãos, porque o muro da pobreza não caiu. Nos últimos 10 anos, cada vez que há um movimento social ou político na América Latina, você encontra forte presença da Teologia da Libertação, como no MST por exemplo. Seus dirigente vieram das comunidades de base, de pastorais da terra. Apesar disso, quiseram criar uma autonomia em relação à Igreja Católica. O movimento Zapatista, em Chiapas, também vem da conscientização das comunidades indígenas, que foi feita por Dom Samuel Ruiz. Os surtos evangélicos pentecostais que existem atualmente são apenas resultado da orientação conservadora do Vaticano, que combateu as comunidades de base e deu espaço para os carismáticos. Da mesma forma, é outro enterro prematuro o do marxismo. Quando houve a queda do muro de Berlim, muitos acharam que significaria também a queda do marxismo. Mas os sistemas em vigor na Tchecoslováquia e na URSS já eram uma caricatura burocrática do regime. A impulsão do marxismo não vinha daí há muito tempo. Mas quem se formou pelo modelo soviético ficou muito abalado. O que sobrou do Partido Comunista no Brasil não é muito brilhante. A queda do muro ocorreu bem em cima dos comunistas brasileiros. Quem conseguiu se desvincular e não tinha a China, nem a Albânia ou a URSS como modelo, continua ativo. Eu acho que o marxismo vai desenvolver-se, libertado do peso da história que foi o stanilismo. A própria fundação do PT teve alguma inspiração marxista.

 

O MST no Brasil tem vocação revolucionária?
Sua vocação revolucionária é a de realizar a reforma agrária. O que, no Brasil, é quase uma revolução, porque a classe dos latinfundiários controla há muitos séculos a terra. O MST é a ponta avançada de um movimento social contra o neoliberalismo.

 

E como o senhor analisa a situação do movimento sindical brasileiro, que tem sofrido com o desemprego e com a crise econômica?
É um momento muito difícil para o movimento sindical mundial, porque essa ofensiva neoliberal não é fácil de ser enfrentada. Mas é difícil separar a luta pelo emprego da batalha pelas outras conquistas trabalhistas. Na Europa está ficando cada vez mais claro que a manutenção do emprego passa pela redução da jornada. O próprio governo francês reduziu a jornada semanal para 35 horas. A lógica do desenvolvimento do capitalismo cada vez marginaliza a força de trabalho. Quanto mais o empresário elimina empregados, mais as cotações da empresa na bolsa sobem. O capitalismo acha que não precisa de mão-de-obra, algum dia a mão-de-obra vai chegar à conclusão de que não precisará do capitalismo. E não tem 35 saídas, a saída é o socialismo.

 

O que mudou em Cuba, desde a palavra de ordem “Wall Street dever ser destruída”, de Julio Antonio Mella, passando pela Revolução Cubana, até os dias de hoje?
Julio Antonio foi fundador do partido comunista. Mas com o stalinismo, o partido comunista cubano foi degradando-se. E não foi à toa que a Revolução Cubana não foi feita pelo partido, mas pelo movimento 26 de Julho. A Revolução Cubana foi a virada na história na América Latina. Até 1968, a revolução representou uma tentativa original de busca ao socialismo, com críticas ao modelo soviético. Mas a partir de 1968 houve uma adesão ao socialismo soviético, o que custou muito caro. Porque ocorreu a perda de autenticidade e substância democrática. Houve um processo de dependência político-ideológica e econômica muito grande da URSS. Hoje, lógico, há uma crise. Mas diferentemente do que aconteceu na Romênia, que caiu como um castelo de cartas quando o muro caiu, existe em Cuba um apoio da população. Cuba não quer voltar a ser um prostíbulo dos Estados Unidos, uma colônia americana. Hoje Fidel Castro tem uma saúde frágil, mas essa dependência excessiva de um líder é perigosa, tem de haver a substituição desse caudilho revolucionário por uma democracia socialista.

 

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