“O VAMPIRO” e “A SURPRESA” mini contos de raimundo rolim

O vampiro

 

O vampiro do arraial era esquisito o suficiente para não ser levado muito a sério. Todos os habitantes o sabiam propenso ao sanguessuguismo deslavado e desmedido. Ao menos achavam que era isso. Ele o era, porém não!  Alguns o justificavam mais por pena que por precisão. Dizia-se à boca miúda, que ele, o vampiro, vivia ali há séculos e mais alguns anos e que simplesmente recusava-se a abandonar a – digamos – “casca” – que escondia com altivez sombria sob um puidíssimo e paupérrimo manto negro. Um dente em cima, o outro ficava em baixo, de lado, quase atrás. Era cômico e algo idiota. Corcunda. O peso da idade o deixara com seqüelas seriíssimas. Arrastava-se inteiro para andar e embora ainda o fizesse na vertical, ia assim, meio adernado para um lado. Era corajoso, isso ninguém o negava. Cabelos ele ainda os possuía, aos tufos, longos e amassados; jamais o vento bulia-os, (imexíveis que eram). Os olhos de um vermelho azinavrado, dependuravam-se nas órbitas desmesuradas e escuras. As mãos eram indecifráveis posto que translúcidas e esqueléticas. Não sabiam ao certo como vivia aquele homem, já que nunca o viram mastigar ou ruminar, nem pensamentos.  Alguns disputavam que o mesmo vivia de ar. Outros que não; que os o espíritos dos antepassados vampiros o alimentava. Havia total desconhecimento. Com ninguém ele falava e nem coisa com coisa. Lendas diziam que lá, naquele lugar, habitavam outros iguais a ele e que eram invisíveis e eram esses tais que o encorajava a continuar, transferindo-lhe todo o know-how de que carecia para sobreviver séculos seculorum. Oras! Como aquele pobre diabo poderia ser um vampiro? O habitante mais antigo já lhe sabia as façanhas e que a tal criatura lá existia desde sempre, quando chegaram as primeiras caravanas a tomar posse de terras. Por mais que o seguissem, jamais descobriram onde o mesmo morava. Pois em dado momento, ele desaparecia e no outro canto do arraial, lá estava ele, sem nunca se cansar! Nem arfar! Mas, por que então o chamavam vampiro? Ninguém o sabia, assim chamavam e assim ficou! Mesmo com sol a pino ele perambulava e isto o diferenciava muito mais, até em demasia! Dizia-se que um marceneiro havia confeccionado ardilosos crucifixos e afiadas estacas de madeira e os deitava ao longo do caminho, mas que na hora agá, o vampiro desviava-se como que teleguiado. As crianças tinham certo cuidado e recomendações paternas especiais, para que jamais se deixassem ficar em rota de colisão com aquele azarento, que a bem da verdade, a ninguém incomodava, (o que tirava das autoridades o direito de perturbá-lo ou exigir-lhe pagamento de impostos ou coisas do gênero). Aquilo tudo seguiria sem fim, não fosse um belo dia, o gaguinho local, entre um soluço e outro, ter conseguido finalmente articular palavras (e falava num e só fôlego para não patinar nas letras) e disse que vira finalmente a criatura extrair de um frasco, uma substância que carregava num alforje dependurado na altura das costas e que levara a mão à boca e que engolira sem mastigar. E que o odor característico que sentira, assemelhava-se a um tempero bem conhecido. Alho, alho, alho, (repetia sôfrego e sem parar o gaguinho), alho puro! O vampiro encara alho ! Disse esta última lasca de frase e voltou a gaguejar imediatamente. Oras! E daí? Era a sua única ração (do vampiro)! A sua última razão (do vampiro). Era ele um vampiro à moda da casa! E daí? O vampiro encara alho! E daí?

 

 

 

A surpresa

 

A noiva da cidade, já entrada em anos, era das cercanias o folclore. Excursões eram organizadas para que conhecessem a dita cuja. Fugira-lhe de há muito a beleza, assim como todo e qualquer atrativo que fizesse homem com pingo de juízo, se aproximar. Não mais existia a graça, o esplendor. Sepultados estavam o brilho e os traços de delicadeza. Não havia expressão naquele corpo por baixo do eterno vestido (da qual a mesma não se livrava nem para os banhos, e havia muitos que apostavam que ela nunca mais os tomara), desde que fora deixada na porta da capela pelo noivo – um vaqueiro desalmado – num domingo de sol, sem piedade nem consideração. O véu, a grinalda, a guirlanda… (como ela chamava aquilo), enfeitada de flores de plástico, tão antinaturais que já beiravam a comicidade pura e simples. De algumas das flores, restavam apenas a haste torta e pardacenta, com o arame à mostra. Ainda assim, ela os acomodava com certa vaidade, no alto da cabeça, bem como todo o seu vestuário, transformado em andrajos, que a rigor, já nem trajava nem desnudava. Era um misto de ser e não ser, o princípio da contradição estabelecido numa única e singular pessoa. Um mistério, um milagre! O pároco local já tentara com água benta e modos medievos exorcizar o que quer que fosse que tomava o lugar daquele cérebro, e óbvio, nada acontecia! Era ela inexpugnável ! Carregava ainda nas mãos sempre trêmulas, o mesmo buquê que não jogara para trás, por cima da cabeça, para que outras casadoiras o pegassem. Era tudo dela. Vivia assim, sem denodo nem pecado. Juravam que ela não mais tinha alma, nem espírito nem sangue, nem princípio e nem fim. E claro, era um desafio para a inteligência mais aguçada e a ciência da psicologia e parapsicologia se desfiguraria nos seus postulados mais elementares se tentasse se inclinar sobre tudo aquilo do que se dizia sobre a noiva da cidade. Uns tinham vontade de jogar pedra, outros faziam o sinal da cruz à sua passagem. Risinhos e lágrimas se confundiam no rosto das pessoas que achavam ter o privilégio de vê-la passar pelas manhãs, aos domingos, como que a procura de algo que jamais se soube o que era. Ela, a noiva, a danada e sem banho, o sabia. Só ela. Ninguém a cumprimentava, mesmo porque, não havia retorno. Um dia, ela apareceu nua. Isto, nuazinha. Em pelo! Deslindara-se dos andrajos de nubente que a acompanhara desde o dia fatídico. Aí sim, o motivo de tanta estranheza fora imediatamente compreendido, e toda a cidade, toda, fez vários e muitos ohs !!! A noiva da cidade apiedara-se finalmente da curiosidade e angústia alheias e resolveu num último lampejo de serenidade dar-se a conhecer. Com um pequeníssimo pênis à mostra, que quase desaparecia entre tufos de pelos descolorados e ralos, desatou-se a rir. E riu-se, riu-se tanto que toda a cidade se pôs a rir. Até o sacristão, por não mais agüentar de tanto rir, foi tocar os sinos para aumentar o alarido. Era veramente ela, a noiva desapiedada, um “fofo” de colhões e espada. E assim cruzou a rua principal (sua via menos crucis) na mais espetacular procissão de uma só pessoa. Embrenhou-se na estrada de pó, assim, daquele jeito, puro e casto, a rir-se. Da cidade. De si !

 

Uma resposta

  1. eu quero clip de vampiro de quilimane quero acistir agora

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