Pífio – monólogos dos psicotrópicos que não fazem mais efeito – por luiz felipe leprevost

Eu amava uma guria. Amava tanto que queria chegar na alma dela. Eu queria tocar a alma dela, apertar assim que nem as crianças fazem com os cãezinhos que ainda são filhotes. Eu queria pra mim aquela alma. Queria por na boca e deixar derreter que nem chocolate. Queria sentir o bafio de cada poro da sua pele. Acontece que a guria tava um pouco suja. Tinha que limpar ela. Então peguei minha escova de dente. E comecei a escovar a sujeira. Braços, costas, coxas, ventre, tudo. Até que ela ficou bem lisinha. Só que naquela lisura de mulher depilada pela Depil House não econtrei a alma dela. Continuei esfregando, sabia que a alma podia estar na pele, já que dali exalava um cheiro tão bom. Tão bom que só podia mesmo ser uma fragrância almal, que nem aquela perseguida pelo botânico de O Perfume. Mas acabou que constatei que não, a alma não estava em sua pele. Aquela menina já sem pêlo, aquela que não precisaria mais se depilar. Então continuei esfregando, esfregando, esfregando, até que cheguei na carne. Sim, ela estava em carne-viva. Aí achei que tava bom, porque todo  mundo sabe que o amor deixa a gente em carne viva. E que é deveras provável que a alma das mulheres se revele ali no sangue, na chaga, no fogo, na queimadura. Mas não era nada disso, droga, pura ilusão de românticos bobalhões. Por isso continuei esfregando, agora com mais afinco, ainda mais, digamos, obsessivo. Se até então não tinha encontrado a alma da minha guriazinha era porque a lazarenta se esconde lá no lugar mais entranhado do ser humano. E já que era daquele jeito, então que fosse daquele jeito. Que jeito? De jeito nenhum. Pois bem, vamos cair fundo, baibe, pensei. Foi o que pensei, embora já com poucas forças me restando. Eis que súbito me dei conta que só havia osso. (Sombrio) Osso, osso, osso e mais nada. Lá estava eu polindo a caveira da minha amada. E nem mesmo ali, nem na medula, nem nas costelas que outrora foram, talvez, as próprias costelas de Adão. Nem ali havia alma. O que fazer? Não havia outra alternativa, restava-me apenas prosseguir. E eu prossegui. Eu tinha que achar o que procurava. Então continuei obstinado a esfregar a escovinha de dente. Esfreguei, esfreguei, esfreguei, Deus sabe o quanto esfreguei. Até que os ossos foram ficando lisinhos, fininhos, foram se rompendo, quebrando, virando poeira… Poeira na brisa que parecia soprar: Nada… nada… naadaa… naaaad…

 

 

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