FUGA PICTÓRICA OPUS 2002 – 2 / poema de tonicato miranda

para Guilherme Magalhães Vaz

14 de Março de 2002

 

 

Coltrane, sempre ele, pinga notas na minha alma

você não conhece Curitiba, nem eu tão pouco

a cidade já me habitou como caranguejo na lama

da mesma forma como Brasília, quando era só poeira

quando a solidão das pessoas, nadava no jazz e na beira

das janelas, onde jovens de apartamento bebiam Coltrane

 

elas bebiam e cresciam em John, lançando-se à calma

janelas afora, no tapete voador da pauta do músico rouco

Brasília era assim, mais perplexidade do que trauma

cidade onde o pontilhado de um Equinox era mugido de boi

ruminante longe do sertão, próximo do que para Picasso foi

o touro, os chifres, os seios e para mim os acordes do Coltrane

 

o fraseado deixa-me triste, preso às linhas da mão na palma

solto num sertão de recordações, nas tardes de ventos loucos

onde acordes como pulsos, salpicavam-me como napalm

enquanto Vietnams sangravam pessoas, florestas e fogueiras

A morte e as guerras, tão distantes estavam das mangueiras

o último acorde do sax, mais do que música era puro Coltrane

 

morrer na lembrança todos morrem um pouco, que nos diga a Salma

vizinha do paraíso plantado no solo de um terreno, de pouco em pouco,

frases musicais volteiam-me, apalpam a alma, viram-na e salgam-na

Lembranças do Lago Norte, daquela casa, do pé de Guabirovu

das árvores plantadas no pé da minha janela e do meu olho nu

e My favourite things trina no sax passarinho, do bico de Coltrane.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: