Arquivos Diários: 10 maio, 2008

AH! SE EU PUDESSE… autor não identificado

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido;
na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da sua vida.
Claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feito a vida:
só de momentos – não perca-os agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro, uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos
e sei que estou morrendo.


A VERDADEIRA HISTÓRIA DO HOMEM PÚBICO – por alceu sperança

Havia um país em que as pessoas eram inocentes. Não havia maldade. Inexistia a aids e ninguém sabia para que serviam as partes. Os homens púbicos andavam sempre à vontade, pois não precisavam de roupas. Não esfriava, o El Niño era só o nenê de um vizinho paraguaio e assim os homens púbicos podiam passear inocentes por onde bem entendessem.

Mas sobreveio uma granizada ventosa e todo mundo sentiu aquilo ficar roxo de frio e os homens púbicos pela primeira vez sentiram vergonha. O vendaval traria a notícia de que no dia 3 ou 4 de outubro viriam as ereções. As ereções serviriam para que os homens púbicos subissem na sociedade.

Daí que depois das ereções os homens púbicos se tornariam só homens. E aqueles homens púbicos que desprezavam as ereções e só começaram a pensar em eleições se tornaram homens públicos e não pararam mais de infernizar a vida da gente até hoje.

Daí porque a bruxa Roxa, a suposta autora dessa história, filosofa com seus caldeirões e suas poções:

– Essa modernidade toda que taí só deu em mutretas e auditorias. Nós precisamos, mesmo, é de mais ereções.

 

CINCO HAICAIS de leonardo meimes

O Bêbado

 

Puro o alambique,

Trança as pernas e diz feliz:

Sabe que te amo, né?

 

 

O Marido (2)

 

A dúvida cruel é:

Fartura, ou qualidade?

Amante ou esposa?

 

O Aluno Realizado

 

Tinha vinte piá lá

Na sala e só euzinho vi

A calcinha dela…

 

O Sortudo

 

No aniversário da

Maria além de beijo, ganhou

O primeiro bolo.

 

O Íntimo

 

A plumagem macia e

O curvilíneo sabor da

Fruta da época

 

TERCETOS, NADA MAIS QUE TERCETOS por joão batista do lago

Aviso aos “haicaístas” de plantão: os versos abaixo não são, em hipóteses quaisquer, Haicai. Segundo a minha concepção são (e nada mais do que isso são) tercetos que fazem parte de um estudo poético que desenvolvo. Nestes tercetos introduzo práxis técnica e metodológica “metricamente” diferentes e contrários àqueles que são utilizados pelo haicai, ou seja, a construção do haicai compõe-se de três versos de dezessete sílabas: o primeiro e o terceiro versos são de cinco sílabas; o segundo de sete. Já nos tercetos que componho o primeiro e o terceiro versos são de sete sílabas e o segundo de cinco sílabas.

Outro aspecto que considero relevante destacar, para delimitar definitivamente a diferença dos tercetos que construo, reside no seguinte fato: o haicai, genericamente, deve concentrar pensamento poético e/ou filosófico inspirado nas mudanças que o ciclo das estações provoca no mundo concreto. Já os “meus” tercetos concentram pensamentos variados (p. ex.: filosofia, economia, sociologia, sociedade e comportamento social, religião, etc.) oriundos da concretitude do concreto da realidade, do real, da infra-estrutura (a partir de conceito filosófico marxista oriundo do “new criticism” da Escola de Frankfurt).

Para, além disso, devo destacar outro ponto que me distancia definitivamente da corrente haicaísta vernacular (até porque só entendo o haicai estruturado a partir da essencialidade vernáculo-epigramático japonês): cada vez mais a minha poética torna-se ôntico-ontológica e caminha no, assim, sentido de se amalgamar no conceito do Surracionalismo bachelardiano, sobretudo quando infere: “O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas” – Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, pp. 215 e 216.

 

* * * * *

 

I

 

Como macho repetem

Elas são assim:

Feministas, competem.

 

II

 

O capital confesso:

Homem é peça.

O mercado professa.

 

III

 

Amor só é ilusão

Reduz todo ser

À miserável prisão

 

IV

 

O cigarro vem antes

O uísque depois

Amor de um não é dois

 

V

 

A vida: só um sonho

Simples ilusão

Espera nela ponho

 

VI

 

No amor a dominação

Plena sujeição!

No processo: produção

 

VII

 

Cantai à felicidade

Diz o profeta

Imita assim ao poeta

 

VIII

 

A palavra na arte

Lavra amor e dor

Colhe o fruto sofredor

 

IX

 

Fé remove montanha

Demove do homem

Fortaleza tamanha

 

X

 

Quem canta, males espanta!

Cantai aos prantos

Desespero vos encanta

 

XI

 

A paz da guerra salva

A guerra acalma

Todo poder sem alma

 

XII

 

Visitai sempre a alma

Ela é só calma

Na diversa confusão

 

XII

 

Corpo reflexo: tempo.

Mente reflete

Toda morte presente

 

REFLEXO poema de deborah o’lins de barros

Ninguém gosta do espelho.

Em frente a eles nos vemos…

 

É na frente do espelho que

A mulher quase magra

Admira tristemente

As celulites não admitidas

E as insulta,

Como se a própria mulher

Não tivesse parte nisso.

 

É na frente do espelho que

O velho quase brocha

Raciocina friamente

Que a gostosa com quem dorme

É uma prostituta,

E não são seus lindos olhos azuis

Que a mantém perto dele.

 

É na frente do espelho que

O juiz quase honesto

Se envergonha inconscientemente

Das atrocidades absolvidas

E as ignora,

Se enganando que no juízo final

Outro juiz o julgará inocente.

 

Ninguém gosta do espelho…

Em frente a eles nos vemos.

E quando vemos que estamos com defeito

Fechamos os olhos imediatamente.

Nos envergonhamos,

Nos insultamos,

Nos avacalhamos,

Depois esquecemos, abrimos os olhos

E seguimos em frente.

 

SOBRE A POESIA – poema de marilda confortin

Mandado de busca e apreensão contra a Poesia.

Procurem nos seguintes locais:

 

No calo dos dedos dos músicos,

No quadro negro das escolas,

No fascínio quântico dos físicos,

Na placa do cego que esmola.

 

Procurem nos diários e discos rígidos,

Nos papiros, nas lápides dos túmulos,

Nas paredes dos banheiros públicos,

Nas gavetas e nos grafites dos muros.

 

Procurem nas pedras das cavernas,

Nos evangelhos apócrifos e escrituras,

Nos templos, conventos e tabernas,

Nas democracias e nas ditaduras

 

Procurem nas ruas e nos parreirais,

Nos campos de girassóis maduros,

Nos tercetos modernos e haicais,

No passado, presente e no futuro.

 

Procurem nos álbuns de fotografias,

Nos bares, museus, sebos e alcorões,

E por último, revirem todas as livrarias,

Costumam escondê-la nos porões.

ZERO OITOCENTOS (CENÁRIO DO ABSURDO) por helena sut

“Transação não autorizada.”

“Como? Tenta de novo.”

A caixa passou novamente o cartão, fitou a compradora com um olhar perdido entre o cansaço e a desconfiança, e repetiu: “Não autorizada”.

“A senhora pagou o cartão? Extrapolou o limite? Tem certeza de que a fatura…?”

A compradora pediu um telefone para entrar em contato com a central de atendimentos do banco. Apesar de todas as perguntas e dos olhares, ela estava calma, pensando que poderia se tratar de uma forma de segurança, um mal-entendido, uma poeira na tarja do cartão…

Depois de muitos dígitos, um atendente informou que a transação havia sido autorizada às 17:42:29 e que já iria constar da próxima fatura. A informação foi repassada para o vendedor, a caixa e o gerente, mas não tinha como superar o “não autorizado” do visor e a ausência de qualquer documento que assegurasse a compra. Ainda calma, a compradora pediu que fosse estornado o valor de sua fatura, mas o atendente falou que só seria possível com uma declaração, em papel timbrado da sede da loja no interior de São Paulo, com firma reconhecida, carimbos e outras formalidades, atestando que a venda fora cancelada.

“Impossível! Como cancelar uma compra que não foi realizada.” O gerente descartou a possibilidade, o vendedor repetiu, a caixa bocejou entediada…

Mas o atendente da central continuava com a voz equilibrada e com a posição firme “transação autorizada, já debitada na próxima fatura”. Não mostrou cansaço, mas jogou a bola pra frente quando forneceu outros zero oitocentos. O gerente e o vendedor se reuniram e ligaram para o telefone da central do cartão. Durante a ligação olharam para a compradora que se agitava em movimentos ansiosos. Desligaram com a afirmação: “Não foi autorizada pela instituição financeira. Motivo 5. A senhora está com problemas com o cartão.”

Se havia algum problema, era evidente que estava entre o banco e a administradora do cartão de crédito. A compradora ainda tentou mais uma vez falar com a central de atendimentos do banco, mas foi nocauteada pelas afirmações pausadas do atendente.

“Transação autorizada. Constará da próxima fatura. A senhora retira a mercadoria.”

A situação já havia perdido os limites com a razão. Como um processo kafkaniano,desdobrava-se em afirmações absurdas, olhares acusatórios e silêncios sentenciosos. O vendedor, o gerente e a caixa estavam impacientes. Já estavam cerrando as portas da loja, a venda não estava efetuada e a mulher ainda queria sobrecarregá-los com seus problemas.

“É só pegar a mercadoria. A transação foi autorizada…”

A compradora, com os olhos arregalados e a voz inconstante, mostrava sinais de estar perdendo o controle.

“Como? No tapa? Não há documento algum de compra… Eu vi no visor que a transação não fora autorizada!”

O atendente não perdeu a calma.

“A senhora que sabe como vai pegar a mercadoria… Se o estabelecimento continuar se recusando, entre no PROCON para ir atrás dos seus direitos.”

Outras ligações se sucederam e as informações contraditórias inflamavam os olhares desconfiados dos lojistas. Sem tempo para reverter a situação, com o horário comercial dos bancos e da loja expirado, a suposta compradora se rendeu ao absurdo. Saiu das lojas com as mãos vazias e com os pensamentos carregados com uma dívida que se tornou realidade na virtualidade dos sistemas. Deixou para o dia seguinte a continuidade das ligações sem solução.

Por quantos zero oitocentos deveria passar até ver o seu constrangimento sanado?