ZERO OITOCENTOS (CENÁRIO DO ABSURDO) por helena sut

“Transação não autorizada.”

“Como? Tenta de novo.”

A caixa passou novamente o cartão, fitou a compradora com um olhar perdido entre o cansaço e a desconfiança, e repetiu: “Não autorizada”.

“A senhora pagou o cartão? Extrapolou o limite? Tem certeza de que a fatura…?”

A compradora pediu um telefone para entrar em contato com a central de atendimentos do banco. Apesar de todas as perguntas e dos olhares, ela estava calma, pensando que poderia se tratar de uma forma de segurança, um mal-entendido, uma poeira na tarja do cartão…

Depois de muitos dígitos, um atendente informou que a transação havia sido autorizada às 17:42:29 e que já iria constar da próxima fatura. A informação foi repassada para o vendedor, a caixa e o gerente, mas não tinha como superar o “não autorizado” do visor e a ausência de qualquer documento que assegurasse a compra. Ainda calma, a compradora pediu que fosse estornado o valor de sua fatura, mas o atendente falou que só seria possível com uma declaração, em papel timbrado da sede da loja no interior de São Paulo, com firma reconhecida, carimbos e outras formalidades, atestando que a venda fora cancelada.

“Impossível! Como cancelar uma compra que não foi realizada.” O gerente descartou a possibilidade, o vendedor repetiu, a caixa bocejou entediada…

Mas o atendente da central continuava com a voz equilibrada e com a posição firme “transação autorizada, já debitada na próxima fatura”. Não mostrou cansaço, mas jogou a bola pra frente quando forneceu outros zero oitocentos. O gerente e o vendedor se reuniram e ligaram para o telefone da central do cartão. Durante a ligação olharam para a compradora que se agitava em movimentos ansiosos. Desligaram com a afirmação: “Não foi autorizada pela instituição financeira. Motivo 5. A senhora está com problemas com o cartão.”

Se havia algum problema, era evidente que estava entre o banco e a administradora do cartão de crédito. A compradora ainda tentou mais uma vez falar com a central de atendimentos do banco, mas foi nocauteada pelas afirmações pausadas do atendente.

“Transação autorizada. Constará da próxima fatura. A senhora retira a mercadoria.”

A situação já havia perdido os limites com a razão. Como um processo kafkaniano,desdobrava-se em afirmações absurdas, olhares acusatórios e silêncios sentenciosos. O vendedor, o gerente e a caixa estavam impacientes. Já estavam cerrando as portas da loja, a venda não estava efetuada e a mulher ainda queria sobrecarregá-los com seus problemas.

“É só pegar a mercadoria. A transação foi autorizada…”

A compradora, com os olhos arregalados e a voz inconstante, mostrava sinais de estar perdendo o controle.

“Como? No tapa? Não há documento algum de compra… Eu vi no visor que a transação não fora autorizada!”

O atendente não perdeu a calma.

“A senhora que sabe como vai pegar a mercadoria… Se o estabelecimento continuar se recusando, entre no PROCON para ir atrás dos seus direitos.”

Outras ligações se sucederam e as informações contraditórias inflamavam os olhares desconfiados dos lojistas. Sem tempo para reverter a situação, com o horário comercial dos bancos e da loja expirado, a suposta compradora se rendeu ao absurdo. Saiu das lojas com as mãos vazias e com os pensamentos carregados com uma dívida que se tornou realidade na virtualidade dos sistemas. Deixou para o dia seguinte a continuidade das ligações sem solução.

Por quantos zero oitocentos deveria passar até ver o seu constrangimento sanado?

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