Arquivos Diários: 12 maio, 2008

OS PASSAGEIROS por zuleika dos reis

                                                                                                                  Para Jorge Lescano

 

 

Não, não se parecem com amantes em pleno ato de amor, nem com amigos no momento do reencontro, ainda que a epiderme de cada um toque fundo a epiderme de cada outro. Talvez se pareçam com passageiros de um ônibus, às seis da tarde, em direção à periferia, ou às cinco da manhã, em direção ao centro.

                        Aqueles que não se assemelham a amigos nem a amantes e que sugerem certa analogia com passageiros, têm com estes apenas alguma proximidade no que se refere à aderência dos corpos, e isto levando-se em conta somente os passageiros em pé que, com os sentados, dois cotovelos colados aqui, duas coxas coladas ali, toda e qualquer comparação perde consistência, porque os corpos que não se assemelham a amantes nem a  amigos  não aderem dois cotovelos aqui, duas coxas ali.

                        Observando-se o interior do ônibus de modo desatento, poderíamos interpretar o conjunto de passageiros apenas como bloco imóvel de múltiplas peças imperfeitamente articuladas, espécie de máquina inoperante, interpretação que se desfaz quando o ônibus pára no ponto para a entrada de novos passageiros visto que estes, ao se inserirem no referido veículo, geram desestruturação na tal máquina pois, na medida em que dois corpos, não podendo ocupar simultaneamente o mesmo lugar no espaço, novos corpos, ao se inserirem, desloquem os mais antigos da posição em que se encontram.Processo análogo, em sentido inverso, ocorre antes de algum corpo sair do veículo, porque também se depara com a necessidade de separar muitos e muitos outros para atingir a porta traseira e, em seguida, descer cada um dos degraus até retornar, na calçada, à condição de peça individual. Às vezes, há entradas e saídas não concomitantes que, ainda quando sincrônicas, nos permitem rápidos vislumbres das reestruturações e desestruturações sucessivas no bloco imóvel ao olhar distraído, as quais instituem no âmago do ônibus, aquilo a que chamamos movimento.

                        Algo distinto ocorre aos que não se parecem com amantes nem com amigos. Se se assemelham aos passageiros em pé dentro do veículo, pelo fato de não precisarem entrar nem sair de veículo nenhum, conservam-se o mesmo bloco, aderidos e imóveis sempre, situação alterada apenas por uma Força de natureza diversa, que aparece e retira este ou aquele do local que ocupam, causando – como no ônibus – desequilíbrio nos imediatamente próximos. Não cabendo a tal Força a palavra passageiro e cumprindo a nós a tarefa de imaginar que nome lhe dariam, se fossem aptos para fazê-lo, os que não se parecem com amigos nem com amantes,  surge-nos a expressão “deus ex machina”, aparição súbita e exterior ao enredo, em certas peças gregas, vinda a fim de solucionar situações de total impasse para seus personagens.

                        Deus Ex Machina caminha pela calçada, seguido pela silhueta dos veículos, dos arranha-céus, das luzes de néon e da lua cheia. Caminha devagar, com um pacote contra o peito, como se estreitasse o amigo ou a amante, sabendo-se cronópio, degenerado e em extinção (1). Ei-lo que chega a casa, abre a porta e, mesmo antes de ir ao banheiro, desfaz o referido pacote, retira-lhe do interior objetos já pretéritos – ainda que seus fabricantes continuem a convencê-lo da contemporaneidade dos mesmos (2) – e os vai colocando horizontalmente sobre seus pares em pé, estes companheiros de segredos (como os amigos certos, os amantes verdadeiros) cujos corpos, porque não possuem a flexibilidade dos que continuam seguindo no ônibus, já não admitem a inclusão, na vertical, de qualquer novo exemplar de sua espécie, por mais delgado que seja, isto conferindo aos objetos recém-chegados grande vantagem sobre os passageiros do veículo anteriormente referido visto que, se estes possuem a autonomia de entrar, de permanecer, de sair do tal veículo, só lhes é possível nele estar verticalmente ou, alguns poucos, nos assentos. Nenhum pode deitar-se no teto, ressalvando-se que acomodações deste tipo já vêm sendo utilizadas em trens da Central do Brasil, mas apenas por passageiros clandestinos e sobre o teto pelo lado de fora; no que se refere ao seu usufruto, em ambas as variantes (por fora e por dentro), em ônibus e trens do metrô, ainda não dispomos de estatísticas confiáveis. Voltando aos recém-ingressos à casa que será, doravante, o seu verdadeiro lar, são deitados de modo confortável, ou nem tanto, sobre seus pares, como a Pátria no esplêndido berço… enquanto o escriba salva, no disquete, uma das crônicas de costumes da cidade de São Paulo, no final dos anos oitenta do século XX (3).

(1)   – Os gêneros, por tradição, pertencem aos famas. Ambos, famas e cronópios, existem desde sempre, sendo que estes últimos devem seu nome ao escritor argentino Julio Cortázar. Os primeiros constituem a grande maioria; dos segundos, perpetuamente ameaçados de extinção, restam bem poucos e esparsos, fato do qual os ecologistas, espécie benéfica em florescimento no Planeta, ainda não se deram conta. (Nota do Autor)

(2)    Provavelmente, tal leitura apocalíptica seja equivocada, à semelhança do ocorrido quando da invenção da       Imprensa. (Nota do Autor)

(3)    Esta crônica foi encontrada em agosto de 1999, por funcionário doutorando em História Natural, no Setor       de Achados e Perdidos do Metrô; por mero acaso, chegou às mãos de um dos organizadores desta Coletânea. (Nota do Editor)

                                                                                                   

 

LATINIDADE? por jorge lescano

A  raça é um conceito  zoológico:  refere-se ao tipo  físico.

Otto Klineberg As diferenças raciais

 

Periodicamente entram em circulação termos que, analisados de perto, revelam-se dúbios, quando não desprovidos de significado. Latino, latinidade, estão neste caso.  

Segundo a antropologia, nunca houve uma raça latina, apenas língua latina. O espírito de síntese, ou a preguiça mental, acabaram identificando o nome da língua com o tipo racial do povo que a falava. Assim, os romanos passaram a ser latinos.

Costuma-se afirmar a existência de línguas neolatinas, contudo, não é inadmissível a teoria de que tais línguas seriam anteriores à conquista romana. As línguas neolatinas, então, seriam apenas línguas latinizadas. Isto é, teriam sido formalizadas pela gramática do império. Na época da conquista da América, a normalização daquelas línguas pela gramática latina é um fato irreversível. Contudo, na opinião de Ricardo Rojas: quando a civilização espanhola começou a ser transferida para o Novo Mundo, não estava constituída nem a unidade racial nem a consciência idiomática da metrópole.

A história da América Latina teve início no dia do desembarque dos navegantes europeus nas ilhas Bahamas, mais precisamente na rebatizada de San Salvador, atual Watling Island, à qual os nativos chamavam de Guanahani. A  ocupação inicia-se pela palavra. “Assimilar” a cultura dos povos conquistados sempre foi uma prática sutil de dominação. Alterando-se os significados dos símbolos originais, torna-se possível implantar uma nova ideologia. Consumada esta primeira usurpação, foi fácil para os novos senhores impor outra escala de valores e assumir pelas armas os destinos das populações autóctones.

         Os ibéricos chegam ao continente com a aura de Cultura Superior (hierarquia atribuída por eles mesmos) pois têm a herança da civilização romana acrescida da verdade “incontestável” de possuir o Deus verdadeiro. A identificação com Roma, duas vezes sacramentada, produz o “esquecimento” das diferenças raciais. Lusos, galegos, catalães, vascos, italianos em geral, são agrupados sob o rótulo latinos, ad majorem dei gloriam, presumivelmente. O curioso, se não cômico, é que o insigne genovês, que segundo a lenda perambulou pela Europa tentando o patrocínio sem ser levado a sério, somente foi reconhecido como Gênio da Raça, arquétipo de uma era, ao se perceber que chegara ao continente errado. Nessa altura, os aborígines já haviam sido denominados índios, pela única “razão” de que o Grande Almirante acreditou até a morte haver aportado na Índia.

A política colonial torna necessária a “purificação” do continente. As mais de duas mil línguas faladas na América antes da chegada dos europeus, são silenciadas pelo cristianismo. Por algum tempo circulará a expressão Ibero-América, mais tarde quase desaparece. Consagrado pelo uso nada casual, o latino impõe sua prosápia à terra mestiçada; e seus habitantes são meio brancos, pelo menos lingüisticamente. Os grandes manipuladores da história (políticos, militares, cronistas) operam o milagre da transformação racial segundo a etnia dos dominadores. O tempo, ajudado por estes taumaturgos, apaga aos poucos o termo americano que ainda identificava as populações falantes das línguas ibéricas nestas plagas. Hoje, o conceito latino, apesar de difuso, define etnia(s), comportamento e características psicológicas.

Também o nome do continente foi deturpado. Paul Herrmann, depois de noticiar a descoberta de Vespuccio (Temos seguido estas costas por um trecho de 600 milhas, e se estendem tão longe que ninguém pode prever seu término; sou do parecer que não se trata de uma ilha, mas de uma vastíssima terra firme(1)), detém-se a considerar a origem do seu prenome. Com suspeitosa naturalidade comenta: a extravagância dos Vespucci manifestou-se de modo ingênuo, por exemplo nos nomes de batismo dado aos descendentes varões. O pai de Amerigo se chamou Anastásio(2), nome extinto ou pelo menos raríssimo desde há séculos na Europa Central. O filho recebe o de Almerigo, italianização do germânico Almerico, também fora de uso desde tempo imemorial. O tom casual da referência sugere aquiescência unânime quanto ao nome, ou pelo menos à divulgação do fato, que torna desnecessário outros testemunhos. O pressuposto permite que encerre o assunto no parágrafo seguinte afirmando: E nada tem de ilógico que o geógrafo alemão Waldseemüller proponha aos cientistas de sua época se dê à nova terra do Ocidente o nome de batismo de Vespucci: América, isto é, a terra de Amerigo.

Uslar-Pietri, por sua vez, comenta o fato da seguinte forma: Martin Waldseemüller  necessitava um nome para acompanhar o da Europa, da Ásia, da África, e como quem o havia revelado a Europa era Amérigo, pensou que podia chamar a esse continente com o nome desse personagem. Considerou denominá-lo Amérigen, mas achou que os nomes dos continentes eram femininos e se decidiu por América. […] Assim, Amérigo veio a ter, sem sabê-lo, o dom supremo dos deuses, o de dar vida e destino através da palavra que nomeia. 

Inútil citar outros textos que divulguem tal versão, esta é a verdade oficial. Há, entretanto, autores que a põem em dúvida, se não a refutam categoricamente.     

Ricardo Palma cita as Cartas de Índias, documento publicado em Madri em 1877. Diz ele:

Trata-se de provar que a voz América é exclusivamente americana e não um derivado do prenome do piloto maior de Índias Albérico Vespuccio. […] América, ou Americ é nome de lugar na Nicarágua e designa uma cadeia de montanhas na província de Chontales. A terminação ic (ica, ique, ico, quando castelhanizada) encontra-se freqüentemente nos nomes de lugares nas línguas e dialetos indígenas da América Central e das Antilhas. Parece que significa grande, elevado, proeminente,  e se aplica aos cimos montanhosos não vulcânicos.

[…] Quando em 1522 publicou-se na Basiléia a primeira carta marítima com o nome de América província, Colombo e os seus principais companheiros já haviam morrido.

[…] Também é possível presumir que este nome de América tenha ido se espalhando pouco a pouco até se generalizar na Europa, e que não se conhecendo outra relação impressa descritiva dessas regiões, que a de Albericus Vespuccius, publicada em latim em 1505 e em alemão em 1506 e 1508, acreditassem ver no prenome Albericus a origem, um tanto alterada, do nome da América.

Na Europa, América não era nome de batismo de homem ou mulher, e chamando-se Vespuccio Albérico, fica claro que se fosse ele a dar nome ao Novo Mundo, este deveria ter-se chamado Alberícia, por exemplo, e não América.

         Segundo o historiador visconde de Santarém, o florentino Vespuccio veio pela primeira vez ao Novo Mundo em 1499, na expedição de Cabral, e a descrição que escreveu destas regiões foi publicada por Waldseemuller, em Lorena em 1508. Foi Waldseemuller então que teve a injustificável idéia de sobrepor o nome do descritor ao do descobridor.

         Quem era, afinal, este Vepuccio? Albérico ou Albérigo – não Amérigo nem Almerigo –  Vespuccio nasceu em Florença em 18 de março de 1452;  até 1496 foi diretor do escritório bancário dos Medici em Sevilha. Faleceu nesta cidade em 1512. 

O historiador Francisco de Arce diz: Foi simples desenhista a serviço de Juan de la Cosa, piloto de Santonha e, aproveitando-se da exagerada modéstia – muito própria da raça – do piloto de la Cosa, assinou as cópias que fazia dos seus mapas, acabando por se apropriar delas, assim como das observações e narrações de viagens do seu patrão, e talvez das de outros navegantes hoje esquecidos.

         […] A idéia de dar o nome de América ao então chamado Novo Mundo, deve-se à proposta do cosmógrafo Martin Waltzemüller, em sua obra Cosmographie Introductio (Saint-Dié, 25 de abril de 1507), e aceita tacitamente por geógrafos e historiadores contemporâneos.

         O tempo fez esquecer estes detalhes, e os partidários e discípulos do florentino Albérigo Vespuccio batizam-no Américo, pela assinatura de alguns dos seus mapas, apócrifos, como temos dito, trouxeram o erro muito divulgado de que América deve seu nome ao cartógrafo Vespuccio.   

E o continente, mais uma vez, teve o seu nome espoliado.

Inversamente, porém com as mesmas intenções dos antigos romanos, o habitante das ex-colônias britânicas na América se apropria, em pleno século XIX (1845-48), de territórios do México como já havia feito com o nome do continente para se identificar como nação. Para compensar, um século mais tarde Hollywood, localizada em ex-território mexicano (Los Angeles, Califórnia) criará o latin lover, encarnado, segundo acreditamos, primeiro pelo italiano Rodolfo Valentino e depois pelo mexicano César Romero (3),  entre outros.

O latino hoje ainda fala castelhano e português, o americano,  inglês, por assim dizer.  No Brasil, a língua portuguesa está sendo substituída paulatinamente por um dialeto composto de inglês ignorado com português esquecido, devidamente complementado por uma gestualidade simiótica (sic). Dia chegará em que falaremos uma mixórdia incompreensível, a julgar pela contaminação das culturas praticada pelos meios de comunicação de massa. A tal de globalização. O latino agora tem  o tipo físico do  maputche, do tcharrua, do quéchua, do aimará, do maia… E às vezes é congo, mandinga, carabali. O americano é loiro. Operou-se a substituição de identidade sem prejuízos para o dominador de turno, pois é ele o administrador da língua.

Concluindo: aceitar nossa latinidade é admitir a necessidade, no século XXI, do xerife convocar os cruzados para defender nossa (!) ideologia, nosso (!) mercado e nossos (!) hábitos de consumo do fanatismo da raça portadora de turbante, alfanje de plástico e bactérias.

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1 – Provavelmente o autor alemão se refere ao seguinte trecho da Mundus Novus, pretensa carta de Vespuccio a Lorenzo de Medici em 1503 (?): Lá aquela terra soubemos não ser ilha mas continente, porque em longuíssimas praias se estende não circundantes a ela e de infinitos habitantes está repleta. Cumpre salientar que não se tem notícia do original deste documento.

 

2- Por respeito às fontes, mantemos as divergências de datas e grafias dos nomes próprios.

 

3- O nome  espelha o texto: césar, este cargo sintetiza Roma; Romero (romeiro) é quem vai a Roma.

 

Bibliografia:

Rojas, Ricardo; Eurindia, Editorial  Losada, Buenos Aires, 1951

Herrmann, Paul, Historia de los descubrimientos geográficos, vol. 2; Editorial Labor, Barcelona, 1967.

Vespuccio, Américo (sic) Novo Mundo, Cartas de viagens e descobertas; L&PM, Porto Alegre, 1984

Uslar-Pietri, Arturo, Valores Humanos, Vol. 2; Editorial Mediterraneo, Madrid, 1976.

Palma, Ricardo, Tradiciones Peruanas, Ediciones Troquel, Buenos Aires, 1959.

Arce, Francisco de, El nombre de América, in América y el viejo mundo; Librería El Ateneo, Buenos Aires, 1942.

Esta rua não devia se chamar Mário Quintana – poema de solivan brugnara

Esta rua não devia se chamar Mario Quintana

 

Não gosto do sabor insosso

das linhas retas.

Um poeta não devia nomear

uma rua reta.

A rua Mario Quintana não devia ser reta,

devia ter joelhos,

dobrar esquinas,

passar por um barbeiro e livrarias,

por uma árvore centenária,

por um bar,

cruzar uma praça,

 desorganizar o retilíneo das homenagens.

                       Uma rota de pássaros migratórios, sim

                         poderia se chamar Mario Quintana.

 

1968: PARTIDÃO versus FOQUISMO por manoel de andrade

                          

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo

 

                                                    O ano de 1968 tinha ainda pela frente um longo percurso assinalado pela importância dos fatos políticos que marcavam sua excepcionalidade  na recente história do Brasil e do Mundo. Entre nós, brasileiros, o que estava por trás desses dos fatos foi, em grande parte, a decisão das esquerdas de se armarem e saírem para o confronto direto com a Ditadura. Cada vez mais afastadas do Partido Comunista (PC) e ideologicamente divididas entre Moscou e Pequim, elas perceberam que todos os caminhos das lutas de liberação nacional começavam e terminavam no próprio território latino-americano. As trincheiras dessa luta foram escavadas pelo continente inteiro. Começaram no extremo sul, em 63, com os Tupamaros uruguaios, e com o peruano Hugo Blanco, que em maio daquele ano caiu no vale do Cuzco. Em 65,  Héctor Béjar rompe com o PC e retoma a guerrilha peruana. Essa imensa trincheira abre, ainda em 65, novos sulcos  pelas mãos dadas dos socialistas e comunistas chilenos em torno do MIR. Na mesma época o venezuelano Douglas Bravo, expulso do Partido Comunista, definia o conceito de Revolução Bolivariana dentro da estratégia guerrilheira com o apoio de Fidel Castro. Em 15 de fevereiro de 65 o padre Camilo Torres morre em combate à frente do Exército de Libertação Nacional na Colômbia. Em 66 o Comandante Turcios Lima comandava a luta feroz contra o Exército e os grandes latifúndios na Guatemala. Em 67, a Frente Sandinista de Libertação Nacional decide declarar a guerra revolucionária contra a somozismo, na Nicarágua e naquele ano a bandeira cravada em Ñancahuazú por Che Guevara e a simbologia gloriosa de sua morte em combate são os traços indeléveis de uma paisagem revolucionária que, iluminada pelas luzes ofuscantes do Caribe, iriam agora abrir suas trincheiras na esquerda urbana do Brasil. 

          A luta armada:
          No começo de 68 se discutia muito por aqui o livro “Revolução na Revolução” de Regis Debray.  Publicado em inícios de 67, em Cuba, numa edição de 200 mil cópias, a obra se espalhou pela América Latina e os primeiros exemplares que chegaram ao Brasil foram enviados pelos nossos exilados de 64, do Chile. Debray, que em meados da década de 60 estivera observando a guerrilha venezuelana comandada por Douglas Bravo, — onde conheceu sua mulher, a então guerrilheira  e hoje  antropóloga Elisabeth Burgos, tristemente célebre pela falsa biografia que escreveu sobre a gualtemateca Rigoberta Manchú, Nobel da paz de 1998 — foi colher os  subsídios para o seu livro, na experiência cubana em Sierra Maestra. O disputado livro “Revolução na Revolução”,escrito pelo intelectual francês aos 26 anos, propunha a Teoria do “foco guerrilheiro” , baseado num “foco militar rural” como a melhor  estratégia para se iniciar a vanguarda da luta revolucionária e a tomada posterior do poder pelas massas.
          Neste sentido, e pela sua importância nessa cronologia, é sintomático dizer que em janeiro daquele ano, — apesar da malograda aventura armada de Jefferson Cardin, no noroeste do Rio Grande do Sul, em 65 e do fiasco da guerrilha brizolista de Caparaó, abortada em abril de 67 —,  o Partido Comunista do Brasil (PC do B) , começava a montar sua base guerrilheira na margem esquerda do Rio Araguaia, e por aquelas matas  já transitavam  meia dúzia de seus quadros disfarçados. Entre eles, o “Osvaldão”, o Maurício Grabois e o grande João Amazonas. Por outro lado a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, —  que após participar da reunião da OLAS em meados de 67 , em Cuba, rompera com o Partidão— buscou seus próprios caminhos e tomou a dianteira, “na ação e na vanguarda” fazendo sua primeira “expropriação” a um carro pagador em novembro de 67 e em março de 68 explodindo uma bomba no consulado americano em São Paulo. Em junho a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), formada de uma dissidência radical da Política Operária (POLOP) e dos remanescentes brizolistas do MNR,   explode uma bomba no Quartel General do II Exército. Em julho, o Comando de Libertação Nacional (COLINA), também uma dissidência da POLOC (?), faz uma equivocada execução política no Rio de Janeiro confundindo o major alemão Edward von Westernhagen,  com o major boliviano Gary Prado, tido como o matador de Che Guevara.  Em agosto a ALN faz uma nova “expropriação” ao vagão pagador do trem Santos-Jundiaí. Entre muitas outras ações realizadas em 68 por comandos revolucionários, destaca-se o julgamento e a execução pela VPR do capitão americano  Charles Chandler, no mês de outubro em São Paulo, tido, pela organização, como agente da CIA e torturador de vietcongues, no Vietnã. Assim as organizações de esquerda tomaram a ofensiva na luta revolucionária tanto nas ações com objetivos logísticos para a compra de arma e de apoio aos seus quadros  clandestinos, como nessas discutíveis execuções, ações de caráter político retaliatórias que não tiveram os efeitos publicitários que buscavam. Os seqüestros, contudo, que tiveram início em setembro de 69 com o embaixador Elbrick, eram ações políticas inteligentes e justificáveis para libertar prisioneiros barbaramente torturados. Neste sentido a conotação que o Regime  dava para o termo terrorismo ao referir-se às ações políticas de sobrevivência da esquerda revolucionária era um eufemismo se comparada com os planos diabólicos da Ditadura. O caso Para-Sar, em 68, já prenunciava o que seria a dimensão da tortura e das execuções, com requintes de crueldade,  perpetradas  pelos  órgãos de segurança em todo o país.

.         Outras bandeiras de luta:
          No amplo contexto deste enfrentamento com a Ditadura muitas outras bandeiras foram levantadas. No plano sindical a mobilização popular começa a mostrar a sua cara em abril de 68 com a greve de Contagem, em Minas Gerais e em maio em São Bernardo do Campo. O grande destaque, contudo, foi dado pela greve de 1º de maio em Osasco, que mobilizou operários, camponeses, estudantes e intelectuais. Os metalúrgicos tomaram a fabrica que depois foi invadida pelo exército e os trabalhadores presos.
          No plano cultural, a partir de julho o alvo da Ditadura passa a ser a atividade teatral, ainda traumatizada com o desmantelamento, em 64, do Centro Popular de Cultura (CPC). O questionamento político, através da dramaturgia se recuperava gradativamente.  Lembro-me que, em meados de 65,  assisti aqui em Curitiba a peça “Liberdade, Liberdade”. Escrita por Millôr Fernandes e montada pelo grupo Opinião, sob a direção de Flávio Rangel, o espetáculo era protagonizado por Paulo Autrán e Tereza Raquel. Com ela se inaugura o teatro de resistência, dramatizando um apanhado de textos retirados da Literatura universal sobre o tema Liberdade onde os atores representavam uma postura explícita de enfrentamento com a Ditadura.
          Assim, nessa linha  de questionamentos o cinema empunha também sua bandeira ideológica e o filme “Terra em Transe” de Glauber Rocha, propõe, hipoteticamente, as duas saídas para a tomada do poder: ou pela lenta organização política das massas, proposta pelo Partidão ou através da luta armada, segundo a Teoria do Foco. Já o propósito do teatro era despertar, a qualquer preço, a consciência política da platéia, como fizera, com irreverente dramaticidade, na apresentação de Roda Viva, em São Paulo. No ritmo dessa saudável disputa, a musica popular deixou um rastro de luminosa  beleza nas composições de Chico Buarque e sobretudo de Geraldo Vandré, com quem a nação inteira cantou  “Caminhando” e “Pra não dizer que não falei de flores”. A nota dissonante nesse engajamento foi dada pelos efeitos anarquistas, e da nascente alti-cultura que os versos de Allen Ginsberg e a prosa rebelde  de Jack Kerouac, — os pais intelectuais da Beat Generation — por certo deixaram em parte daquela geração musical, levando a consciência política da juventude de 68, a proibir, com suas vaias, no festival da canção, a música  “É proibido proibir”, de Caetano Veloso.

A reação do regime a todo este desafiante fenômeno cultural começa em julho com a participação do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) depredando o teatro e espancando os atores da peça Roda-viva  em São Paulo. Posteriormente houve o atentado à peça O burguês fidalgo e a explosão do Teatro Opinião, no Rio. Em outubro, um comando de oficiais do Centro de Informações do Exército lançam uma bomba na Editora Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, e que naquele ano publicava  um livro por dia, com ênfase para grandes escritores de esquerda como Nelson Werneck Sodré, Hélio Jaguaribe, Isaac Deutscher, George Lukács,  Antônio Gramsci, e outros, cujas obras  — para ficarmos apenas nas editadas pela Civilização  — estiveram na formação da cultura política de toda uma geração.

          O Ato Institucional nº 5:
          Naqueles 2 de setembro, logo após a pancadaria, invasão e prisão de estudantes na Universidade de Brasília pela P.M. e pelo DOPS, o deputado carioca Marcio Moreira Alves, fazendo coro com outros parlamentares, denunciou com veemência, no Congresso, a verdadeira operação de guerra usada contra os universitários. Convocou, com seu discurso, os brasileiros a não participar dos festejos de 7 de setembro como um “boicote ao militarismo” e, num rasgo extravagante de eloqüência perguntou:  Até quando o Exército será o valhacouto de torturadores?.  A frase que passou quase despercebida pelos seus pares e não teve nenhum destaque da imprensa nacional, provocou, posteriormente, profundos ressentimentos entre os militares. A partir daí começou a fermentar aquele prato cheio que os radicais do Regime estavam esperando como pretexto para oficializar a repressão. Enfim, a despeito da sua boa intenção, o seu discurso gerou o mais grave fato político de 68 e a maior crise institucional na história da Ditadura.  Mas quem era afinal o pivô  da crise que levou ao AI-5? Marcio Moreira Alves, descendente dos Mello Franco, fizera brilhante carreira como jornalista do Correio da Manhã, trincheira ideológica de onde se esgrimiam contra o Regime Militar os afiados artigos de Paulo Francis,  Otto Maria Carpeaux, Antônio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano Alves e dele próprio. Em 66 publicou o livro Torturas e Torturados, denunciando, com farta documentação, as torturas e as inomináveis injustiças que se cometeram nos primeiros meses após o golpe de 64.
Com base na ofensa que o discurso de Marcio causara nas Formas Armadas, forças estranhas e inconfessáveis passaram a atuar para precipitar a radicalização do Regime. À medida que o ano terminava se fechava o cerco sobre o próprio Congresso, e por trás desse impasse estava o Ministro da Justiça, Gama e Silva – que, embora não atuasse à sombra do poder, pelos seus insidiosos conselhos ao Presidente Costa e Silva, era a  eminência parda do Regime, na época.
E assim, em fins de novembro, o pedido para condenar Marcio, já passara pelo Supremo, mas encontrava a resistência dos próprios parlamentares governistas na Comissão de Constituição e Justiça. No dia 10 de dezembro o insuspeitável deputado governista Djalma Marinho, presidente daquela Comissão e amigo leal de Costa e Silva, vai à tribuna, renuncia à presidência e, em seu discurso, citando Calderón de la Barca, diz com todas as letras: “Ao rei, tudo; menos a honra”. Este foi um dos raros gestos de honra política na nossa história  parlamentar  —  numa época ainda sem fisiologismo, pró-labore mensal e varejo do voto — e o aval que muitos deputados da Arena precisavam para  derrotar o próprio governo. Na tarde de 12 de dezembro o pedido foi negado por ampla maioria e, no dia seguinte, uma sexta-feira 13 de um ano bisexto, foi promulgado o Ato Institucional nº 5.

           A Repressão:
          O AI-5 levou à prisão centenas de pessoas no país inteiro. Políticos como JK e Carlos Lacerda; juristas como Heleno Fragoso e Sobral Pinto, preso em Goiânia, aos 75 anos de idade; intelectuais como Antônio Callado, Ênio Silveira,  Paulo Francis, Carlos Heitor Cony, Glauber Rocha, Millôr Fernandes,  e muitos outros.
Aqui no Paraná, e particularmente em Curitiba, não foi diferente. O Coronel Bianco  pôs todo o seu pessoal na rua em busca dos subversivos. O golpe, no golpe, quatro dias depois, atingiu em cheio uma reunião regional da UNE, realizada na chamada Chácara do Alemão, no bairro Boqueirão, em 17 de dezembro. Foram presos 42 estudantes e entre eles o cearense João de Paula, um sobrevivente da UNE que não foi a Ibiúna. Caíram também Berto Luiz Curvo, presidente da União Paranaense de Estudantes (UPE), Vitório Sorotiuk, presidente do  Diretório Central dos Estudantes(DCE), João Bonifácio Cabral Junior, do Diretório de Direito da PUC, e outros dirigentes.  Todos foram condenados pela Auditoria da 5ª Região Militar, a 2 e 4 anos de prisão.
Entre os militantes um dos primeiros a cair foi Aluísio Palmar, do MR-8, que em 2005 publicou o livro “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos” , relatando o trágico destino que teve o grupo guerrilheiro de Onofre Pinto, traído e executado ao entrar em Foz do Iguaçu, em 1974. Oriundo do primeiro MR-8, de Niterói, Aluizio desmobilizava as bases da organização no Oeste do Paraná, quando foi preso em abril de 69. Depois dele caíram mais quatro na região e os demais em Curitiba e no Rio.
 Enfim, por aqui  foi um corre-corre geral. O autor destas linhas deixou o país em março de 69. Seu poema “Saudação a Che Guevara”, pregando a luta armada e panfletado antes do AI-5, foi parar no DOPS, nas mãos do Coronel Bianco. Ninguém mais sabia de ninguém. Os que não foram presos, se esconderam ou fugiram. Daquela turma de Curitiba  muitos nos reencontraríamos anos depois e longe daqui. Só fui rever o Vitório Sorotiuk e o Luiz Felipe Ribeiro, companheiros de Direito da Federal, no Chile socialista de Salvador Allende, em abril de 72,  naquela bela Santiago, florida de revolucionários.

          O AI-5 sufocou os últimos suspiros da democracia. Fechou o Congresso, rasgou a Constituição, amordaçou a imprensa, suspendeu o hábeas corpus, cassou políticos, demitiu funcionários, transferiu e reformou militares, foi enchendo as prisões e abrindo os caminhos do anonimato, os becos da cladestinidade e a via crucis da perseguição, da incomunicabilidade, da tortura, do desaparecimento e da morte. Fora deste contexto a vida do povo corria normalmente. Sem uma visão crítica do processo histórico tudo fluía sem maiores questionamentos. “A massa não pensa” como dizia Gustave Le Bon. Estávamos às vésperas do carnaval de 69,  a Copa de 70 estava a caminho e a televisão se instalando no país. Cada cidadão tinha o seu dia-a-dia: alienado ou engajado. Era, por outro lado, também tudo aquilo que Jamil Snege retratou no seu grande livro “Tempo Sujo” publicado naquele ano. Quarenta anos depois, muitos de nós que testemunhamos tantos fatos, podemos afirmar que 1968 foi o ano que tatuou nossas almas com as tintas luminosas da paixão revolucionária e com as cicatrizes indeléveis da perplexidade, do pânico e do sofrimento. Hoje aqui viemos, alegres por podermos partilhar nossas lembranças, por ainda preservarmos nossos sonhos e estender, com estas palavras, nossas mãos solidárias aos sobreviventes de tantas trincheiras. Mas estamos aqui, também e sobretudo, para rogar a um poder maior que leve para além das fronteiras do encanto o nosso imperecível reconhecimento àqueles que nunca hesitaram em comprometer seus passos, àqueles que nos ensinaram a dizer sim-sim e não-não. Aqueles que rumaram para as estrelas para semear o amanhã. Aqueles cuja bandeira tremula nos punhos da pátria agradecida e a quem o próprio Che nos ensinou a dizer: hasta siempre.

 

LUIS CARLOS PRESTES secretário geral do PARTIDÃO (PCB), e o livro foquista de régis debray. fotos sem crédito. ilustração do site.

 

 

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/04/29/1968-a-sexta-feira-sangrenta-por-manoel-de-andrade/

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil – publicada aqui:  

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/05/1968-a-passeata-dos-cem-mil-por-manoel-de-andrade/

 

4ª/4ª parte:  As barricadas que abalaram o Mundo – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/29/as-barricadas-que-abalaram-o-mundo-por-manoel-de-andrade/

DIREITOS EM CONTRASTES poema de marcelo santos costa

Fique triste é um direito seu
falte ao trabalho
perca o controle e xingue a mãe alheia
grite da janela do carro em movimento
ignore o que não acrescentar nada
escute o que for destrutivo
seja bom , seja mau
dê lugar aos idosos
e negue à mulheres grávidas
admire os marginais
desgoste os militares
quem te deixou? ame-o
quem amou? deixe-o
faça cagadas na vida
tente, bata a cabeça, seja desobediente
teimoso, imprevisível e eclético
diferencie-se é um direito seu
Seja quadrado e circule no lugar-comum
compreenda para discordar
imcompreenda para concordar
arrote seu nome,
cuspa no chão
e reclame com quem joga papel de bala
proteja os animais e vá a churrascaria
seja contraditório e
não ouça conselhos (nem estes)
é um direito seu.