Arquivos Diários: 18 maio, 2008

CASA no LÍBANO poema de fátima tardelli

 

Minhas cartas foram escritas, mas não postadas,
Temo a resposta do destinatário,

Meus verões tornaram-se invernos,
Tão triste é minha solidão,

Está meu coração para sempre marcado,
Marcas não comerciais, marcas estranhas, ininteligíveis e indeléveis.

Não há mais púlpito,

Não há mais público,
Não há mais a quem converter!

Meus armários….vazios!
Estou nua, desnudastes minh’alma…

Equinócios se seguiram sem teu retorno,
não vejo flores, não vejo folhas, não vejo sol, só invernos!

Gastei minha fortuna, meu soldo,
à tua procura….
Milhares de guinéus se foram em recompensas,
nenhuma resposta que me indicasse o caminho!

Orei à Deus,
Aos santos, às virgens,
pedi à dinvidades, deidades.
Nenhuma resposta….chorei, desisti!

II
Longe da bainha.
Abandonastes a peleja.
Foi ela sussurrada, ficou agora sem sentido.
Está ela arada, à espera do semeador

Roma tem vários caminhos,
A estante só tem dois livros.
Doces grilhões as prenderam,
à distância, contemplando…

III
Presos na garganta.
Fechadas neste inverno.

que louca ciranda!

IV
Vide supra: eis tuas respostas.
Enviei cartas (2)
sem obter respostas!

V
Venha a mim que te curo,
Chegue aqui que te amo,
Volte a mim que te ressuscito,
Pouse em mim que te cuido!

O navegante encontrou a ilha,
seduziu a índia,
tomou a terra,
fez nela sua morada,

depois foi ele seduzido por nova estrada,
abandonou o que tinha, apostou o que não podia,
perdeu tudo numa jogatina, numa mão do carteado!

VI
flutuando ao vento, à procura de teu olfato,
vislumbrando o horizonte, em busca de certa embarcação,
chagas abertas no peito, a dilacerar um pobre coração atormentado!
Onde estão os hilários ciúmes?
A terra não navega, desconhece os mares!

VII
Palavras emprestadas:
Estar junto não é estar ao lado,
É estar do lado de dentro.

 

 

 

INSULANTE poema de walmor marcellino

Terra não sou, mínimo pedaço

sesmo em degrandeza ou desfastio:

sou imodesto húmus, levedura

da natureza.

Esse humílimo fermento

aguardando formatação,

de serial avalanche

em minha translação.


 

CINCO HAICAIs de edu hoffman

 

alguma festa

 

onde leva essa fila

 

    de formigas

 

 

 

    beira do lago

 

  bicicleta espera

 

o passeio da tarde

 

 

 

 

    velha tartaruga

 

  apesar da couraça

 

   desliza na água

 

 

 

 

 

        água límpida

 

mancha roxa na coxa

 

       quatro trutas !

 

 

 

 

        

          vem de longe

 

       d  e  v  a  g  a  r

 

       se vai ao monge

 

A LINGUAGEM ESQUECIDA DOS SINTOMAS por flávia albuquerque

A quantidade de diagnósticos e remédios nunca foi tão numerosa quanto na atualidade. Desde transtornos, que encerram o sujeito numa verdade que se estabelece como indiscutível entre médico e paciente, até medicamentos que bloqueiam uma possibilidade de manter sintomas necessários para o questionamento fundamental: ‘a que servem na vida do sujeito queixoso?’.

            Sintomas comuns como apresentar atitudes que se repetem, rituais que se tornam sagrados a ponto do sujeito não conseguir deles se libertar, o uso de substâncias químicas que funcionam como um apoio indispensável, ou mesmo cuidados com o corpo que beiram o excesso são vistos como uma emergência de cura sem antes serem questionados.

            A psicanálise vem recolocar em cena a condição humana: estar submetido à linguagem. Esta linguagem na qual o sujeito se insere é transmitida por aqueles que o antecedem. O bebê é falado pela mãe e pelo pai ainda no momento anterior à sua concepção e permanece ‘sendo falado’ ao longo da gestação, nascimento e vida. Esta fala é impregnada de desejos e possibilita inaugurar no infans um sujeito de desejo. Certas falas terão peso de verdade para o sujeito em constituição com a ressalva de que não virão atreladas apenas a sentidos dados pelos locutores em questão, mas serão adicionadas de sentidos que o próprio sujeito poderá construir. Com isso, é preciso lembrar do que Freud insistia em dizer a seus leitores: é preciso tomar cada caso como único.

Não há exame clínico que possa dar conta do diagnóstico dos males da alma ou da dor de existir, como preferirem. O psicanalista lança mão da fala por saber que o diagnóstico é, sobretudo, um efeito da linguagem. Até os nomes dados aos medicamentos podem somar a uma afirmação como esta. Estão a venda remédios para controlar a hiperatividade ou o aumento de peso com nomes bastante sugestivos. O paciente consome além da substância uma mesma ou maior dosagem do significante que a pílula carrega. Fato este confirmado com a eficiência dos placebos que atingem o efeito esperado a partir de sugestão através… da linguagem.

Para as ‘mazelas’ modernas que se apresentam cada vez mais numerosas, demandam-se soluções rápidas. Afinal, daqui a alguns dias haverá outras e as anteriores precisam ser curadas. Na carona desta urgência, revistas e jornais – dos mais lidos – convocam profissionais com a tarefa de informar com a máxima clareza a respeito das patologias atuais. Tudo o que se consegue com matérias de títulos bombásticos, tabelas que listam fenômenos muitas vezes corriqueiros na vida da maioria das pessoas, é encerrar o sujeito na constatação de que ele É uma doença – na melhor das hipóteses, apenas 1.

Lidar com o sujeito de uma forma padronizada e fenomenológica é ficar engessado em um saber que não se constrói além do constatado. É acreditar que o humano possui instinto como algo padronizado e comum aos semelhantes exatamente como ocorre com os animais, sem considerar que toda necessidade humana, seja ela qual for, vem carregada de desejo. Afinal, temos fome, mas como bem questionaram os Titãs: ‘você tem fome de quê?’ Há uma escuta que precisa ser privilegiada para dar lugar à importância das leis da linguagem as quais o humano está submetido. Os sintomas podem ser semelhantes assim como os significantes ofertados, mas o uso que se faz deles são como os significados: incontáveis.

Buscar um saber para além do corpo é se reconhecer único. É trazer à tona a diferença fundamental normalmente escamoteada pela cobrança de uma igualdade burra dentro de uma sociedade que privilegia a imagem em diversos sentidos. É preciso lembrar que a imagem é enganosa. O que parece ser uma solução rápida pode estar, muitas vezes, servindo de alimento a um mal maior.

 

 

 

Flávia Albuquerque é psicanalista.

Pós-graduada em Clínica Psicanalítica

fmaa@uol.com.br (21) 9792-8326