A LINGUAGEM ESQUECIDA DOS SINTOMAS por flávia albuquerque

A quantidade de diagnósticos e remédios nunca foi tão numerosa quanto na atualidade. Desde transtornos, que encerram o sujeito numa verdade que se estabelece como indiscutível entre médico e paciente, até medicamentos que bloqueiam uma possibilidade de manter sintomas necessários para o questionamento fundamental: ‘a que servem na vida do sujeito queixoso?’.

            Sintomas comuns como apresentar atitudes que se repetem, rituais que se tornam sagrados a ponto do sujeito não conseguir deles se libertar, o uso de substâncias químicas que funcionam como um apoio indispensável, ou mesmo cuidados com o corpo que beiram o excesso são vistos como uma emergência de cura sem antes serem questionados.

            A psicanálise vem recolocar em cena a condição humana: estar submetido à linguagem. Esta linguagem na qual o sujeito se insere é transmitida por aqueles que o antecedem. O bebê é falado pela mãe e pelo pai ainda no momento anterior à sua concepção e permanece ‘sendo falado’ ao longo da gestação, nascimento e vida. Esta fala é impregnada de desejos e possibilita inaugurar no infans um sujeito de desejo. Certas falas terão peso de verdade para o sujeito em constituição com a ressalva de que não virão atreladas apenas a sentidos dados pelos locutores em questão, mas serão adicionadas de sentidos que o próprio sujeito poderá construir. Com isso, é preciso lembrar do que Freud insistia em dizer a seus leitores: é preciso tomar cada caso como único.

Não há exame clínico que possa dar conta do diagnóstico dos males da alma ou da dor de existir, como preferirem. O psicanalista lança mão da fala por saber que o diagnóstico é, sobretudo, um efeito da linguagem. Até os nomes dados aos medicamentos podem somar a uma afirmação como esta. Estão a venda remédios para controlar a hiperatividade ou o aumento de peso com nomes bastante sugestivos. O paciente consome além da substância uma mesma ou maior dosagem do significante que a pílula carrega. Fato este confirmado com a eficiência dos placebos que atingem o efeito esperado a partir de sugestão através… da linguagem.

Para as ‘mazelas’ modernas que se apresentam cada vez mais numerosas, demandam-se soluções rápidas. Afinal, daqui a alguns dias haverá outras e as anteriores precisam ser curadas. Na carona desta urgência, revistas e jornais – dos mais lidos – convocam profissionais com a tarefa de informar com a máxima clareza a respeito das patologias atuais. Tudo o que se consegue com matérias de títulos bombásticos, tabelas que listam fenômenos muitas vezes corriqueiros na vida da maioria das pessoas, é encerrar o sujeito na constatação de que ele É uma doença – na melhor das hipóteses, apenas 1.

Lidar com o sujeito de uma forma padronizada e fenomenológica é ficar engessado em um saber que não se constrói além do constatado. É acreditar que o humano possui instinto como algo padronizado e comum aos semelhantes exatamente como ocorre com os animais, sem considerar que toda necessidade humana, seja ela qual for, vem carregada de desejo. Afinal, temos fome, mas como bem questionaram os Titãs: ‘você tem fome de quê?’ Há uma escuta que precisa ser privilegiada para dar lugar à importância das leis da linguagem as quais o humano está submetido. Os sintomas podem ser semelhantes assim como os significantes ofertados, mas o uso que se faz deles são como os significados: incontáveis.

Buscar um saber para além do corpo é se reconhecer único. É trazer à tona a diferença fundamental normalmente escamoteada pela cobrança de uma igualdade burra dentro de uma sociedade que privilegia a imagem em diversos sentidos. É preciso lembrar que a imagem é enganosa. O que parece ser uma solução rápida pode estar, muitas vezes, servindo de alimento a um mal maior.

 

 

 

Flávia Albuquerque é psicanalista.

Pós-graduada em Clínica Psicanalítica

fmaa@uol.com.br (21) 9792-8326

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: