ONDE FOI PARAR NOSSA TRIBO? por janos biro

Os seres humanos passaram muito mais tempo vivendo em tribos que em cidades. O modo de vida tribal é inseparável da espécie humana. Não é de estranhar que se adaptar à vida urbana é tão difícil e exija tanta dedicação e sacrifício. Não chegamos a esse modo de vida da mesma forma com que chegamos ao modo de vida tribal ou da mesma forma com que as aranhas chegaram a criar suas teias. Não foi um trabalho da criatividade improvisada e adaptação. Fizemos tudo com planejamento racional baseado em supostas leis imutáveis, lutando contra nossa herança “animalesca”. E nesse caso todos os problemas ambientais resultantes são meras reações colaterais necessárias. São resultados de nossa evidente superioridade, não de um desequilíbrio crescente. Um preço que o planeta deve pagar pelo nosso exclusivo bem estar. Talvez seja isso que faça nossos pensadores imaginarem que a evolução siga algum tipo de plano, ou então que o ser humano de alguma forma superou a evolução, se tornou “livre” da natureza. Como se tivéssemos atingido um novo estágio, um estágio superior a todas as formas de vida até agora. Para que uma mudança tão drástica com a mudança da tribo para a cidade como forma de organização tipicamente humana tenha sido resultado da evolução, teríamos que estar diante de um fato realmente extraordinário. Acreditar que a civilização é o destino inevitável da humanidade é acreditar numa exceção inexplicável como se fosse um fato banal. Nós insistimos nessa idéia apesar de todos os sinais negativos, pois temos um monte de desculpas convincentes e convenientes. Preferimos uma existência desesperada e destrutiva que uma vida “primitiva”.

Mas como vivemos a maior parte do tempo em tribos, ainda estamos mais bem adaptados para a vida tribal que para a civilização. Por isso investimos tanto em doutrinação: para que nossa natureza permaneça sobre controle. Aqueles que não se entregam facilmente à doutrinação se sentem deslocados. E realmente estão, pois o lugar do homem em sua forma selvagem não é a cidade. Aqui é o lugar do homem domesticado. No fundo ainda somos tribais tentando nos adaptar, com variados graus de sucesso. Ainda temos as mesmas necessidades instintivas que foram importantes na vida tribal. Essas necessidades são preenchidas com substitutos insatisfatórios ou inadequados para a relação original entre homem e meio, criando todo tipo de vícios. Ainda temos a necessidade, por exemplo, de pertencer a um grupo e obter reconhecimento. Ainda temos a necessidade de compartilhar experiências e recursos, nos envolver emocionalmente ou fisicamente com a comunidade, testar nossas habilidades, imaginar, criar, cuidar. Temos necessidade de apoio mútuo, de amizade, de afeto, e de muitas outras coisas que são decisivas na organização social de qualquer primata, especialmente de humanos. Essas qualidades não necessitam de recompensas ou reforços morais, foram selecionados pela evolução. Estes “valores” não fazem parte de um direcionamento moral coercitivo. Uma vez que o modo de vida tribal não dá vantagem alguma para atitudes negativas ou prejudiciais, não há motivos para coagir alguém a não agir de tal forma. Só a sobrevivência pode julgar o que é benéfico e o que maléfico. Conviver bem é recompensa por si só. Mas nosso modo de vida civilizado foi construído sem a menor consideração por essas relações. É realmente vantajoso para um membro de nossa sociedade que ele seja mesquinho, por mais que isso traga desvantagens para outros, é preferível a sofrer as desvantagens que ele sozinho terá se insistir em ser desapegado. Somos fortemente influenciados a ser ambiciosos e individualistas, para nosso próprio bem. A maioria da população nem sequer participa dos “benefícios” que esse modo de vida traz. Digo “benefícios” porque não são realmente ganhos que preenchem necessidades, mas sim contingências criadas pelo próprio modo de vida. Nem os mais ricos podem ficar plenamente satisfeitos. Estamos diminuindo nossas chances de sobrevivência em longo prazo e insistindo com todas as forças em algo que não será completamente aproveitado.

Não precisamos ser introduzidos novamente à vida em tribo, não há regras a seguir e passos necessários para se voltar à tribo. Tribo é simplesmente o único nome que temos para se referir a uma organização social não civilizada. Uma vez que superemos este “desvio de comportamento” e voltemos ao nosso modo de vida natural, ele provavelmente se parecerá estruturalmente com uma tribo, porque é isso que nossos genes estão preparados. Não significa que vamos morar em ocas ou vestir tangas. Significa sim que nossa construção civil e nosso vestuário, por exemplo, precisam ser simples, baratos e fruto de trabalho local. Não é possível ser sustentável se ainda existirem corporações produzindo tudo em larga escala, visando lucro. O futuro sustentável é feito à mão, não por empresas “ecologicamente corretas”. Atualmente temos o acúmulo e a expansão como fundamentos econômicos. Criar tal ciclo vicioso não foi difícil, só é incrivelmente difícil sobreviver por muito tempo com ele. Os fundamentos da vida tribal ainda estão em nós, e não são mantidos por coerção. Eles permeiam nosso inconsciente. Não é preciso sair das cidades fisicamente, mas é preciso “desarmá-las”. Esse processo não é linear. Inclui como atividades importantes: sonhar, brincar, dançar, amar, transar, conversar, rir, subverter e eventualmente transgredir. Podemos começar rejeitando todo tipo de doutrinação, questionando a civilização e instigando o questionamento. Todos nós queremos muito mais do o máximo que ela tem a nos oferecer. Podemos nos recusar a pôr mais lenha na fogueira da civilização e ao mesmo tempo nos dedicar mais a nós mesmos. Isso me parece sensato por enquanto, mas não podemos arriscar colocar todos os ovos na mesma cesta. Devemos diversificar as soluções possíveis, mantendo ao mesmo tempo a mente aberta e a autocrítica.

Finalmente, não precisamos converter as pessoas. É bom falar sobre o que aprendemos porque isso ajuda a entender melhor nossas próprias idéias, desenvolvê-las e descobrir novas. Eu leio e escrevo sobre crítica cultural faz mais ou menos oito anos, a aprendo coisas novas o tempo todo. É aprender novas coisas que me impulsiona a continuar. Nossa tribo não saiu do lugar. Temos agora que enfrentar o desafio de voltar a viver naturalmente, não como invasores ou dominadores, mas como seres humanos.

Uma resposta

  1. Se você tem interesse em saber mais sobre a crítica à civilização, participe do grupo:

    http://groups.google.com.br/group/civilizacao

    Abraços

    Janos

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