Arquivos Diários: 22 maio, 2008

APRESENTAÇÃO poema de solivan brugnara

                                          Nasci

                                           no útero da Via Láctea,

                                             neste óvulo fecundado pelo sol

                                                  chamado terra

                                                                   como todos.

                                          Era fraco,

                                      mantive-me vivo graças às vitaminas, proteínas

                                                                   e sais minerais

                                               contidos nas orações de minha avó.

                                       Meu corpo é feito de folhas, carne

                                                                              ar, sol e água.

                                         Meu primeiro medo foi que das sementes

                                                                              engolidas nascesse

                                         pela minha boca um galho carregado de laranjas.

                                            Das etapas

                                        já mastiguei a doce infância, a amarga adolescência

                                              estou roendo o osso da vida adulta

                                                      e roer osso é saboroso.

                                       Amanhã morrerei

                                           aliás absolvo a morte,

                                      é a morte que renova a vida.

                                            Por fim

                                       sou poeta

                                                 porque gosto de lamber

                                                      folhas em branco,

                                           lembra-me leite materno.

QUERO VOCÊ poema de regina lyra

Quero você
Como quem deseja,
ar que respira
mão que afaga
beijo que inspira…

Quero você…
Como quem deseja
último dos homens,
sendo o primeiro
– companheiro.

Carinho na boca
deixa louca…
Anoitecer na língua
sofre a míngua,
paixão longínqua.
Natureza intensa.

Quero você…
passando a mão
no seio,
fazendo loucuras
no sexo…

Quero você…
Para entrelaçar-se
às minhas pernas,
sentir o pulsar do amor,
consolar a dor…

Deixar-me sentindo
– por dias
penetração infinda
coisa mais linda,
delícias do amor.

Sentir o orgasmo
desejo espasmo,
mundo por um beijo,
lábios partilhados.
Sabor dos meus
untados aos seus…

Quero você,
para me ter
inteira,
saber da companheira,
íntimas emoções
profundidade e sabor…

Conhecer meus segredos
sem medos
parceiros dos seus…

Quero você
por que não sei se existe
algo assim,
que entenda por fim,
o que há entre nós.

Quero você só para mim,
sem saber a causa,
confunde,
desnorteia
ou ilude…
Apenas acalma.

Sei apenas que lhe quero,
neste querer dos amantes
sem fazer da vida errante,
quero para sempre.
Momentos de felicidade
– constante!

 

                                                

Do livro Tempo de Encanto. João Pessoa: Ed. Universitária (UFPB), 2004.

Diogo Mainardi encampa discurso neo-racista brasileiro – por ismar c. de souza

Com ataques cuidadosamente dosados contra a política de cotas universitárias implantadas no Brasil – que está sob julgamento no Supremo Tribunal Federal –, e, na verdade, querendo atingir todas as lutas do negro brasileiro, o colunista da revista Veja, Diogo Mainardi, encampou de vez o discurso neo-racista brasileiro. “É uma chance para acabar de vez com o quilombolismo retardatário que se entrincheirou no matagal ideológico das universidades brasileiras”, afirma ele em “O quilombo do mundo” (edição 2057, 23/04/2008).

Mainardi se soma a outros jornalistas da Veja (impressa e on line) e a demais pessoas que recebem espaço na revista de maior circulação nacional para mover um combate sem tréguas à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, à política de cotas universitárias, à figura de Zumbi dos Palmares, ao Dia da Consciência Negra e, enfim, à causa da reparação das injustiças cometidas contra a comunidade negra ao longo da História brasileira.

Entremeando afirmações tendenciosas e citações do livro “Não Somos Racistas” (acredite quem quiser…) do guru do combate ao movimento negro brasileiro, o diretor de Jornalismo da Rede Globo Ali Kamel,  Mainardi se mostra ainda mais parcial quando tenta apoiar sua tortuosa racionália numa frase do senador de ascendência africana Barak Obama:

– Se olharem minhas filhas, Malia e Sasha, e disserem que elas estão numa situação bastante confortável, então (raça) não deveria ser um fator. Por outro lado, se houver um jovem branco que trabalhe, que se esforce, e que tenha superado grandes dificuldades, isso é algo que deveria ser levado em consideração.

Tratou-se de um comentário superficial e meio confuso, proferido durante um debate eleitoral. A conclusão de que Obama “quebrou um tabu e defendeu abertamente o fim das cotas raciais” é uma óbvia forçação de barra.  Mainardi subestima a inteligência dos seus leitores.

Agora vejamos o que a Veja, preconceituosamente, em sua página de internet, via outro jornalista da turma do Mainardi (Reinaldo Azevedo, postado em http://www.veja.com.br/reinaldo, no dia 07/01/2008, 15h51), opinou sobre o mesmo senador e candidato a candidato do Partido Democrata:

– Que diabo se passa com o Partido Democrata americano, que tem como favoritos uma mulher e um negro com sobrenome islâmico e nenhum homem branco para enfrentá-los? (…) Para bom entendedor: tomo o par “homem branco” como apelo simbólico à tradição e à conservação de um modelo que, inegavelmente, deu certo e fez a maior, mais importante e mais rica democracia do mundo, que venceu, por exemplo, o embate civilizatório com o comunismo.

Como esse preconceito mal dissimulado ofende a qualquer ser humano digno desse nome, só restou à  tropa de elite  da Veja buscar o apoio da trupe dos conservadores raivosos, dos reacionários empedernidos e de alguns parlamentares influenciáveis que estão tentando barrar a implantação do Estatuto da Igualdade Racial.

Políticas de incentivo à integração do negro
Foi apenas em junho de 1998 que o Brasil empossou seu primeiro ministro de Estado negro, o mineiro Carlos Alberto Reis de Paula. Num país de aproximadamente 183 milhões de habitantes, com 11,5 milhões (6,3%) de negros, isto comprova que o Brasil é sim, um país racista, ainda que de uma forma dissimulada.

O certo é que só recentemente o problema da integração e participação digna do negro na sociedade passou a ter visibilidade nacional como política de Estado. E já produziu efeitos, pois agora são cinco os negros que participam como ministros do Governo Federal. Antes, só entravam como empregados subalternos.

Os interesses e idiossincrasias de nossa elite conservadora produziram convicções escravocratas que se tornaram estereótipos, ultrapassando os limites do simbólico e incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão dos negros na escala social, por menor que seja, sempre deu lugar a manifestações veladas ou ostensivas de ressentimentos.

Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por muito tempo, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar a inconformidade, vista como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolheu a discriminação ou preconceito.

Cotas raciais nos EUA e no Brasil
A campanha pelos direitos civis nos Estados Unidos, que ganhou notoriedade internacional com a marcha de quase meio milhão de pessoas até Washington em 1963, foi o embrião da política oficial de cotas raciais, implementada a partir de 1970.

Em 1965, quando foi assinada a lei permitindo o voto e a eleição de negros nos EUA, a esmagadora maioria era pobre; assim, na primeira eleição, pouco mais de uma centena deles conquistou mandatos públicos. Hoje são mais de 8 mil.

Primeiro país a implantar o sistema de cotas, os EUA contam com uma candidata negra, Cynthia Mckinney, candidata pelo Green Party (Partido Verde estadunidense) à presidência da república e com Obama tendo grande chance de se tornar o postulante do Partido Democrata. 

Se lá, como aqui, o sistema de cotas possui falhas e não resolveu todos os problemas raciais da nação, com certeza motivou um grande debate nacional e alavancou uma melhor participação dos negros em sua sociedade, tanto que estes já têm presença marcante na classe média, ao contrário do Brasil.

O reacionário Mainardi, contra tudo e contra todos
 Na contramão dos grandes pesquisadores e educadores brasileiros, o colunista da Veja chegou ao cúmulo de propor que o Brasil siga o exemplo dos EUA, extinguindo totalmente a gratuidade no ensino superior:

– Se é para macaquear os Estados Unidos, temos de macaqueá-los por inteiro. A universidade pública americana cobra mensalidade dos alunos. Quem pode pagar, paga. Os outros se arranjam com bolsas, empréstimos ou bicos.

Como se fosse possível equiparar dois países em estágios de desenvolvimento econômico tão diferentes! E como se os estudantes daqui tivessem a mesma facilidade em levantar recursos por meio de “bolsas, empréstimos ou bicos”!

Bem se vê que Mainardi, habitando ou não no Brasil, estará sempre a anos-luz de distância de nossa sofrida realidade… o que não o impede de tentar, arrogantemente, ensinar a nós, nativos, como devemos viver, segundo o figurino da metrópole.

A violência policial e o silêncio cúmplice dos neo-racistas
Negros de qualquer classe social, no Brasil, são tratados da forma mais preconceituosa e arbitrária pelas autoridades policiais – vide o caso do dentista Flávio Ferreira Sant’Ana, assassinado em 2004 na zona norte paulistana apenas por suspeitarem que tivesse roubado o luxuoso carro que dirigia. 

É nas estatísticas da violência policial contra os negros que as contradições da sociedade brasileira se mostram mais agudas, como se depreende, por exemplo, de uma pesquisa que o Datafolha realizou em 1997 na cidade de São Paulo:

§                             a escolaridade e condição financeira têm pouca influência sobre a freqüência e incidência das revistas policiais e da violência praticada pela polícia;

§                             entre os da raça negra, quase metade (48%) já foi revistada alguma vez. Desses, 21% já foram ofendidos verbalmente e 14%, agredidos fisicamente por policiais;

§                             os pardos superam os negros em ofensas: 27% deles foram ofendidos verbalmente e 12% agredidos fisicamente. Ao todo, 46% já foram revistados alguma vez;

§                             a população branca é menos visada pela polícia. Entre estes, 34% já passaram por uma revista, 17% ouviram ofensas e 6% já foram agredidos, menos da metade da incidência entre negros.

Sobre a violência seletiva aplicada em muito maior escala e intensidade contra a população negra pelas polícias estaduais, os neo-racistas se calam, não escrevendo uma palavra sequer. Tais fatos não entram nas elocubrações deles, as vidas ou direitos destas pessoas não lhes interessam, pois na verdade não têm o que dizer sobre este assunto. Nem mesmo o guru Ali Kamel, que parece ter fixação por estatísticas, encontrou justificativa para estas.

Final rancoroso e melancólico
Como já fizera no título, Mainardi termina seu artigo dando uma conotação pejorativa à palavra quilombo:

– O Brasil se refugiou no passado. O Brasil é o quilombo do mundo.

Quilombo, segundo o dicionário Aurélio, é “estado de tipo africano formado, nos sertões brasileiros, por escravos fugidos”. Para nós, quilombo simboliza toda uma luta por liberdade e justiça. Ademais, como em alguns quilombos também viviam índios e brancos simpatizantes, pode ter sido o primeiro lugar no Brasil onde pessoas de raças diferentes conviveram harmoniosamente.

Destruidor de quilombos foi o bandeirante Domingos Jorge Velho, matador de negros do século XVII, até hoje relacionado entre os maiores assassinos de nossa História. Seus seguidores, como Mainardi, Reinaldo de Azevedo e Ali Kamel, atiram-se com o mesmo furor homicida contra a imagem dos quilombos. Só que, em vez de apertar gatilhos, comprimem teclas.

Não percebem, entretanto, que jamais conseguirão deletar as páginas de heroísmo escritas pelos negros, nem sua possibilidade de obterem agora o que lhes foi negado durante séculos.

Mas estão deletando a si próprios da civilização, eles sim refugiados num passado vergonhoso: aquele em que os preconceitos raciais ainda podiam ser expressos impunemente. Hoje, pelo contrário, só despertam perplexidade, indignação e asco.

Ismar C. de Souza é militante do Movimento Negro e articulista.

A DESCOBERTA e SACERDÓCIO – mini contos de raimundo rolim

A descoberta

 

            Jamais alguém tinha ousado tanto. Nem fora possível ousar mais. Não havia quem pudesse deslocar aquela tamanha pedra. O nó górdio. Ficava exatamente bem no meio do caminho. Era imperativo desviar primeiro para a esquerda e depois, chegava-se ao outro extremo para se avaliar como aquilo fora parar ali. Desbravadores, piratas, gente cordial, poetas e pintores por lá já haviam estado com a única intenção de descobrir como naquele ermo, aquela pedra se estabelecera lá. Diziam que um disco voador já havia pousado nas paragens e que criaturinhas de poucos centímetros tiraram retratos. A turba se arrastava nos finais de semana para apreciar. Carrinhos de sorvete barato feitos artesanalmente e às pressas pululavam ao redor da mesma para que muitos matassem sede e curiosidade com o bico doce ao menos. Vendedores ambulantes de quinquilharias se amontoavam e tinham os seus pontos fixos que não trocavam mesmo a peso de ouro. Romarias de confessos adoradores do intangível arranjavam um jeito de circundar a pedra que tinha um lado já meio gasto, de tanto passarem a mão. Diziam que energizava, pois achavam que a coisa tinha vindo como um sinal dos céus. Um dia apareceu um cidadão munido de fios, uma infinidade de ferramentas esquisitas e uma maleta cheia de tranqueiras. Semeou um pozinho escurozinho por debaixo da imensa pedra. O homem terminou o serviço e correu pedindo para que a enorme assistência procedesse de igual modo. Debandada geral. Muitos se atropelaram. Houve pisaduras, luxações, hematomas e arranhões que não eram nada, perto do que estava para acontecer. E a coisa explodiu. A pedra foi fragmentada em milhares de pedacinhos que se espalharam às centenas, talvez a bilhares de metros. Estava descoberta a pólvora. Bem que o homenzinho com seus experimentos tinha os olhinhos meio puxadinhos, assim pro amendoado e tal !

 

              Sacerdócio

 

O padre não havia pecado ainda! Desde menino, dos tempos de seminário. Sua conduta irrepreensível era de há muito sabida. Douto em conhecimento litúrgico, confissões, encomendação de corpo, batizados e o diabo de quatro. O padre era imaculado, manso, finamente educado. Encantava a todos que se acercavam para ouvir-lhe as prédicas. O homem era impecável. Batina e sandálias sempre limpas e rigorosamente conservadas. Mãos finas, firmes e compridas, unhas sempre bem aparadas que casavam com o andar gracioso do corpo magro, esguio e alto; o que fazia dele um ícone sagrado aos compêndios da estética. Ainda que não dissessem, era considerado um semideus. Ah, mas naquele dia não houve jeito. O padre caíra em tentação e o negócio foi estupendo. O que tornava o fato muito mais espetacular era que o santo homem tinha esquecido de rezar como o fazia todas as manhãs e para o bem do seu pecar, fora confessar logo a jovenzinha de olhar de veludo e boca púrpuro-virginal. O que a mesma não sabia, ou não se dava conta, era que carregava nos olhos, todo o poder de sedução possível numa só pessoa. E o padre pecou. Ouviu-se do interior da capela, urros e gemidos, que se espalharam rapidamente para todos os outros ouvidos que não eram poucos nem moucos. E o padre sumiu-se com a mocinha beatazinha. Correu um boato que o mesmo fora feliz e para sempre e que a moça ainda geme e urra sempre que se confessa com o maridozinho, a sós, na capela que fizeram nos fundos do quintal. E é ali que ele sacrifica a vivente para as delícias da carne e do pão e do vinho e da luxúria e do proveito das prédicas ao pé do ouvido delicado, febril, daquela que ruge e implora mais e mais, cada vez mais ad infinitum et peremptorium… Fundum… Mais fundum…

TERCEIRA PEDRA poema de jorge barbosa filho

inscrevo nessa pedra

com saliva e suor sereno

o epitáfio vivo e ingênuo

do meu nome e do meu ser em volta.

 

inscrevo, ainda mais, nela

com sangue e sêmen de astronauta,

a história dos vôos da alma

naquilo que serei, sou e era.

 

essa coisa que no céu levita

e no nosso ser navega,

uiva em tuas mãos aflitas:

as línguas do mar e da terra.

 

uma lua cheia de lua nova,

fúria de imperfeita forma

que no fundo, é um afago que te acalma

onde quer que eu esteja,

 

pois nela não há alguma ciência:

há apenas a terceira pedra,

a distância que nos integra

em nosso olhar de reticências.

O DIA EM QUE O CÉU DO ORIENTE CHOROU FOGO – poema de joão batista do lago

Procurei todas as razões para entender as guerras

Nunca encontrei qualquer motivo que as justificassem

É por isso que não as entendo…

É por isso que não as compreendo.

Jamais aceitei a idéia da guerra como recurso para a paz. Jamais!

Nenhuma guerra é capaz de traduzir a paz. Nenhuma!

Todas são evolução da ignomínia do homem. Todas!

Em todas há a obsessão dada do poder e da ganância. Todas!

Não há razões para o fazer da guerra!

 

Que direitos são esses do Ocidente sobre o Oriente?

 

Oh, noite das noites!

Noites que se fazem meteoritos de estanho

Noites que se matam as crianças

Sem lhas dar as chances de saber da esperança

Oh, noite das noites!

Não posso cantar-te em meus versos

De ti resta-me o odor do sangue escarlate

Que jorra da terra como ouro negro

E que se compraz perseguir a alma dos mortais

 

Noite em que balas dançam pelos céus dos esquecidos!

 

Quem dera fosse essa noite o Apocalipse de João.

Quem dera!

Não teríamos o amanhã para chorar os sete arcanos

O céu não fumegaria o horror das bombas atómicas:

Buuuuuuuuuummmmmmmmmm…

Aqui uma cabeça; ali uma perna; mais adiante um braço…

Diante de mim vejo o corpo do amor no seu último abraço

Viro o rosto para não gravar tamanha desgraça…

Mas cai à minha frente um coração que pulsa: brasa!

 

Noites que rompem o tempo e se fazem espaço de guerras!

 

Pilhas de corpos que se amontoam sobre a relva

Corpos que depois de lavados são plantados em covas rasas

Covas que darão árvores daninhas no alvorecer do amanhã

Árvores que produzirão frutos de carnes humanas

Frutos que serão no teatro da vida o prato de predileção

Teatro onde se há-de encenar o ato seguinte da nova guerra

Guerra que consumará a vitória dos senhores donos do mundo

Vitória que será húmus da miserável guerra que renascerá na terra.

Ó, Senhor de todos os céus, será assim eternamente a sina dos mortais!?

 

Noites de miseráveis guerras! Noites assassinas da Paz!