A DESCOBERTA e SACERDÓCIO – mini contos de raimundo rolim

A descoberta

 

            Jamais alguém tinha ousado tanto. Nem fora possível ousar mais. Não havia quem pudesse deslocar aquela tamanha pedra. O nó górdio. Ficava exatamente bem no meio do caminho. Era imperativo desviar primeiro para a esquerda e depois, chegava-se ao outro extremo para se avaliar como aquilo fora parar ali. Desbravadores, piratas, gente cordial, poetas e pintores por lá já haviam estado com a única intenção de descobrir como naquele ermo, aquela pedra se estabelecera lá. Diziam que um disco voador já havia pousado nas paragens e que criaturinhas de poucos centímetros tiraram retratos. A turba se arrastava nos finais de semana para apreciar. Carrinhos de sorvete barato feitos artesanalmente e às pressas pululavam ao redor da mesma para que muitos matassem sede e curiosidade com o bico doce ao menos. Vendedores ambulantes de quinquilharias se amontoavam e tinham os seus pontos fixos que não trocavam mesmo a peso de ouro. Romarias de confessos adoradores do intangível arranjavam um jeito de circundar a pedra que tinha um lado já meio gasto, de tanto passarem a mão. Diziam que energizava, pois achavam que a coisa tinha vindo como um sinal dos céus. Um dia apareceu um cidadão munido de fios, uma infinidade de ferramentas esquisitas e uma maleta cheia de tranqueiras. Semeou um pozinho escurozinho por debaixo da imensa pedra. O homem terminou o serviço e correu pedindo para que a enorme assistência procedesse de igual modo. Debandada geral. Muitos se atropelaram. Houve pisaduras, luxações, hematomas e arranhões que não eram nada, perto do que estava para acontecer. E a coisa explodiu. A pedra foi fragmentada em milhares de pedacinhos que se espalharam às centenas, talvez a bilhares de metros. Estava descoberta a pólvora. Bem que o homenzinho com seus experimentos tinha os olhinhos meio puxadinhos, assim pro amendoado e tal !

 

              Sacerdócio

 

O padre não havia pecado ainda! Desde menino, dos tempos de seminário. Sua conduta irrepreensível era de há muito sabida. Douto em conhecimento litúrgico, confissões, encomendação de corpo, batizados e o diabo de quatro. O padre era imaculado, manso, finamente educado. Encantava a todos que se acercavam para ouvir-lhe as prédicas. O homem era impecável. Batina e sandálias sempre limpas e rigorosamente conservadas. Mãos finas, firmes e compridas, unhas sempre bem aparadas que casavam com o andar gracioso do corpo magro, esguio e alto; o que fazia dele um ícone sagrado aos compêndios da estética. Ainda que não dissessem, era considerado um semideus. Ah, mas naquele dia não houve jeito. O padre caíra em tentação e o negócio foi estupendo. O que tornava o fato muito mais espetacular era que o santo homem tinha esquecido de rezar como o fazia todas as manhãs e para o bem do seu pecar, fora confessar logo a jovenzinha de olhar de veludo e boca púrpuro-virginal. O que a mesma não sabia, ou não se dava conta, era que carregava nos olhos, todo o poder de sedução possível numa só pessoa. E o padre pecou. Ouviu-se do interior da capela, urros e gemidos, que se espalharam rapidamente para todos os outros ouvidos que não eram poucos nem moucos. E o padre sumiu-se com a mocinha beatazinha. Correu um boato que o mesmo fora feliz e para sempre e que a moça ainda geme e urra sempre que se confessa com o maridozinho, a sós, na capela que fizeram nos fundos do quintal. E é ali que ele sacrifica a vivente para as delícias da carne e do pão e do vinho e da luxúria e do proveito das prédicas ao pé do ouvido delicado, febril, daquela que ruge e implora mais e mais, cada vez mais ad infinitum et peremptorium… Fundum… Mais fundum…

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