Arquivos Diários: 25 maio, 2008

CARTA ao amigo JB VIDAL – de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,                                                                                                                  

 

Você me pediu para inaugurar um novo estilo literário em  “nosso blog”, tão ricamente construído nesses seis meses de atividade ininterrupta. Ontem voltei do “Stuart”, agora transformado em Bar Portenho, pensando cá com meus zíperes – será que devo aceitar tal desafio? Serei eu a pessoa indicada para realizar tal tarefa? Sem elucidar a dúvida, eis-me aqui no Escritório das Penas Eternas a dedilhar palavras missivistas. Entendo estar arriscando apenas a possibilidade da escolha sobre minha pessoa para este tão intrigante compromisso. No entanto, mesmo sendo ela apenas mera hipótese, sigamos à lira, toquemos o barco.

 

Queria, então, meu caro amigo, bordar comentários livres sobre nosso encontro na tarde/noite de ontem. Começo pela visão tida ainda no táxi, ao virar da Visconde de Guarapuava para a Marechal Floriano. Lá no final da Marechal, para os altos da Praça Tiradentes, coroando a passarela de prédios, de carros e pedestres em disputa pelo horizonte baixo, a figura majestosa da Igreja do Rosário. Sem dúvida, uma das belas imagens de Curitiba. Contrastando com a algaravia dos automóveis e do concreto dos edifícios, com suas linhas retas e comuns em direção a um céu sem pombas: a igreja. Ela, com suas linhas ligeiramente curvas, a torre pontiaguda, fincou em definitivo a beleza arquitetônica sobrevivente dos portugueses de outrora. Magnífico!

 

Lembro que comentei com você do livro “Traçando Porto Alegre” do Veríssimo e da oportunidade em repetir aqui, não com desenhos, mas com literatura vinculada à imagem o que o autor gaúcho já fez com um arquiteto em terras mais ao sul. Pois adianto, meu caro Vidal, cantar e mostrar os recantos de cidades em forma de crônica, conto ou outra forma de expressão é sempre tarefa a ser repetida. Ainda mais quando se consegue, minimamente, atingir os bordos da arte. E digo bordo porque a arte é um espaço indefinido, jamais decifrado no seu todo. Às vezes conseguimos ligeiramente tocar sua pele, outras vezes nem sequer a alcançamos.

 

Lembrando ainda da nossa conversa, recordo que tecemos considerações sobre as agruras do trânsito e da sua dificuldade em chegar ao “Stuart” no horário combinado. Devo revelar, e desculpe-me pela indiscrição, mas você se atrasou meia hora. De fato, marcar compromisso às 17h 30m para quem ainda está atrelado às quatro rodas é um pouco cruel. O trânsito maluco de uma sociedade doente e cada vez mais motorizada torna aquele que chega ao compromisso, mesmo que atrasado, um sedento por algo forte, um uísque ou uma cachaça. E nós somente queríamos tomar uns vinhos, como de fato tomamos.

 

Interessante os tempos modernos. Não faz muitos anos atrás, acho que menos de dez, escrevi várias cartas para a Helena Kolody e o fazia do próprio punho, de forma manuscrita. Agora tento escrever no micro e o alto-corretor me ajuda sublinhando de vermelho a todo instante que cometo um erro. Quando fazia manuscritos quase não errava, e se o erro ocorria logo uma pequena rasura se interpunha, ou entrava em cena o “Erro-ex”. Lembra? Agora não. Tudo está diferente. A maravilha da informática para mim, já seu criado há mais de quatorze anos, é o “back-space”, o “delete”. Maravilha! Por isto apanhei um pouco com a palavra “uísque” já aportuguesada. Não precisei consultar o Aurélio de papel, pois meu dicionário de bordo me conduziu a um porto seguro gramatical. Muito bom, mas confesso ainda sou viciado em papel, para horror dos ambientalistas e dos ecologistas.

 

Sobre este último assunto lembro que também comentamos no “Stuart” a nossa renúncia à compra de jornais de papel, sendo ambos adeptos da leitura das notícias pela Internet. Parece claro, se temos um “blog”. Mas se há o “blog” por que não iríamos fazer uso dos outros instrumentos que a Internet nos oferece? Coisas como as notícias frescas, sangue ainda quente espremido das más notícias, além de novidades a todo instante, entre futebol, mulheres peladas e fofocas dos artistas, muito lixo misturado à arte, que por sua vez mistura-se à boa informação e à oportunidade de pesquisa.

 

Meu caro Vidal, esta é apenas uma primeira carta e sinto que devo começar a brecar o carro das palavras. Se tivesse uma máquina de escrever das antigas, teria de “puxar ou travar o carro”, efetivamente. Mas teclando no “notebook” o termo terá de ser outro. Terei de parar com a barra de espaço, colocar ponto final, acessar a Internet e encaminhar como anexo as palavras já salvas num arquivo de nome igual ao título da carta. É isto. Adianto que foi um grande prazer tomar duas garrafas de vinho com você ontem no “Stuart”. Quem sabe para o mês não possamos repetir a dose? Mas certamente em outro horário menos congestionado e até mesmo com outras companhias de gente amiga. Porque gente, como já disse Maiakovski foi feita para brilhar.

 

Um Grande Abraço!

Saudações @palavreirosnobardostuart.comliteratura

Ánton Passaredo

CANNES:brasileira ganha prêmio de melhor atriz

 A diretora de “Linha de Passe”, Daniela Thomas, recebe, do ator francês Jean Reno, o prêmio de melhor atriz, em nome da brasileira Sandra Corveloni.

O prêmio de melhor interpretação feminina do 61 Festival de Cannes (França) foi entregue neste domingo a Sandra Corveloni por seu papel no filme brasileiro “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas. O festival deu o prêmio de melhor filme a “Entre les murs”, dirigido por Lauren Cantet. O prêmio voltou a um cineasta francês depois de 21 anos, quando o prêmio havia sido dado a “Sob o Sol de Satã”, de Maurice Pialat.

Walter Salles e Daniela Thomas olharam-se no palco do Grand Théâtre Lumière com cara de quem se pergunta – “Será que ouvimos direito?” – quando Jean Reno, chamado a apresentar o prêmio para a melhor atriz do 61º Festival de Cannes, anunciou que o troféu ia para Sandra Corvelini, por Linha de Passe. O filme que o diretor tantas vezes chamou carinhosamente de “pequeno” já havia sido muito bem recebido pela crítica internacional, mas faltava o aval do júri presidido por Sean Connery e ele veio sob a forma de um prêmio para a atriz de teatro que faz sua estréia no cinema interpretando a mãe de quatro filhos (grávida do quinto).

Salles e Daniela subiram ao palco, ambos muito emocionados. Salles agradeceu a contribuição de Sandra, dizendo que ela foi realmente uma mãe para os quatro jovens atores. Daniela, falando em português, disse que a atriz vencedora não pôde vir a Cannes por causa de uma gravidez interrompida, mas que seria muito importante, num momento desses, receber reconhecimento por uma entrega que foi tão visceral.

fonte: gazeta on-line.

LUAR poema de marilda confortin e marco guiraud

 

O teu clarão entra pela janela

Invade as profundezas do meu coração

Que bate forte, feito bateria

Num concerto ao vivo, cheio de emoção

Me faz lembrar, o tempo em que a vida

Era curar feridas feitas pelo amor

E que habitavas todas as esquinas

Como lamparina a me fazer cantor

 

Mas que saudades da viola linda

Que te faz infinda como o céu e o mar

Das madrugadas, todas encharcadas

Com beijos de fadas, sempre a me amar

Das caminhadas pela noite adentro

Com tua presença a me acompanhar

Balet mais lindo, vinhas me seguindo

Um passo atrás do outro até quase alcançar

 

Estou sentindo aquela nostalgia

Parece magia, que me faz sair

Viola em punho, o sangue fervendo

Coração batendo, querendo explodir

Vem minha musa, sou teu seresteiro,

Vem, me toma inteiro, me faz recordar

Mais que amantes, éramos errantes

Sempre que o dia vinha nos matar

 

Mas que saudades, da viola linda

Que te faz infinda como o céu e o mar

Das madrugadas todas encharcadas

Com beijos de fadas, sempre a me amar

Minhas lembranças vão me absorvendo

E eu quase cedendo, acho que vou chorar

Não sei se vale, mas tô com vontade

De matar saudades de você, luar.

 

A REVELAÇÃO de MARILYN SEMIÓTICA por jairo pereira

ao poeta Mário Lemanski

(Ensaio sobre poema do mesmo nome)

Estava no repasto

dos meus signos

:mesmos signos de sempre:

quando Marilyn Semiótica

apareceu, aparecida

apareceu e me encaixou

em sua vida…

A semiótica hoje, pobre semiótica, apesar do esforço de inúmeros artistas que muitíssimo bebem da sua água, ainda está aprisionada ao velho e ambíguo conceito de Peirce de teoria (ou) ciência geral dos signos. Conceito a persistir, vagar, dilacerar em teses acadêmicas e discussões inócuas no meio universitário e diletante. A mim, o abduzido e a muitos outros meio-sabidos, que não tem compromisso com ninguém, a não ser com seu pobre pensar e fazer artístico, cabe dizer que a dama semiótica existe de forma menos etérea e sofisticada, pendendo para mais pragmática que teorética, como verdadeira ferramenta/instrumento de solução a toda problemática existente no universo artístico, e por isso habilito-me a tecer não um conceito complexo, definitivo sobre a mesma, mas algumas palavras e fundamentos de como a vejo, eu poeta, na contemporaneidade, revelada, ebúrnea, nua, sob os claros da lua, quando estou a compor poesia, pintura e literatura. Menosprezada no conceito antigo persistido, de uma suposta teoria ou ciência geral dos signos, a dama atuante das linguagens (semiótica) enclausurou-se no esforço doutrinário de entendê-la, explicá-la. Sem vida ativa reconhecida e demonstrada, restou proto ou ficto-ciência de mera curiosidade, quanto muito, tímida disciplina ou objeto de estudos acadêmicos. Comigo não. Comigo na relação com a dita, outros fenômenos ocorreram, dentre os quais destaco a sua aplicação prática no fazer arte, vida pelas linguagens, vida, vida:

de símbolos transternecidos

do dizer, um tal de reduzir o

discurso ao necessário

mezzotelegráfico choque

refratário, onde nada pode

sobrar pra poesia que invento

todo dia:…

Importa distinguir entre uma ficto-ciência que existe meramente nos calhamaços repaginados pelo tempo de entendê-la, e a ferramenta pronta (semiótica) como a conheço, apta a reger e angariar o mundo. Em primeiro lugar é de se ver, que o sujeito que conhece os objetos, faz quase-que-intuitivamente a seleção nathural dos signos mais importantes ao seu dizer. Em segundo lugar, tal seleção relâmpago de signos, irá compor o majoritário dos elementos da obra. Implica portanto, a semiótica em sua práxis, de ferramenta (meio) utilizado a um fim nas artes, a priori numa seletividade sígnica/simbólica. Após tal seletividade, que é a bem da verdade muito intuitiva, prazerosa até, do sujeito que apreende os objetos de acordo com sua psique e postura no social, além das condicionantes subjetivas (infância, hereditariedade, totalidade do empírico, habilidade lingüística e de composição…) é que se pode atingir a realização semiótico-poética. Aí sim, a partir desse ato de seleção imediata dos signos, a semiótica deixa de ser a bandeirola com ilustração ornamental e exótica, estendida na parede, que ninguém sabe porque existe e a que veio, para tornar-se ferramenta/instrumento apto à criação e desenvolvimento do artístico. A semiótica induz ao teleológico, ao finalístico, que na pior das hipóteses é melhorar o nível da criação artística, em vista do arsenal signo/simbólico utilizado pelo artista.

Não há dúvidas quanto a semiótica haver dado um salto quântico, quando Morris, incorporou-a às teorias comportamentais, abrindo o arcabouço fechado das teses ao utilitarismo da semiótica (ciência aparente de todas as linguagens). Um primeiro passo, ali fora lançado, como no caso do behaviorismo (teoria comportamental) aplicada as linguagens, ou melhor, as linguagens tomadas das atitudes de grupos sociais, de sujeitos, condicionamentos psicológicos, na relação do conhecimento, comportamentos díspares, etc.

A seletividade sígnica/simbólica a que me refiro, reduz o discurso a planos de pré-visualização imagética. Ou seja, num exemplo a grosso modo: a poesia longa, literesca, deixa de ser extensa e passa a ocupar espaço de maior significação na página branca. Diminuída no acervo sígnico/simbólico em extensão, mas geometricamente estendida no grau de significação, pela elevada qualidade dos signos escolhidos pelo artífice. Na pintura, os símbolos em quantidades menores, em vista da qualidade hígida da significação dos mesmos, reverberantes no espaço bidimensional da tela.

Entendendo assim como a vejo e sinto, a semiótica, é de se dar o grato adeus aquela poesia:

florida espasmódica

panfletária repartida

esparramada sem

condicionantes visuais ou

metáforas pré-definidas

Marilyn Semiótica puthícida

Peirceana, Morrisiana, ancas a mostra

loura eburnecida

calcinha de filigranas, vírgulas

focos de ver, entretecer, reter

prismas, semas,

semantemas…

Semiota sim, mas não extremista, de maneira a fechar os olhos e o ímpeto criativo ao longo discurso. Na escritura densa, de verve prolífera e na arte de contingência, ou superpopulação sígnica/imagética, caso de certa pintura ou escultura, se verifica também a tridimensionalidade semiótica de significação.

Necessárias as condicionantes visuais ou metáforas pré-definidas? Sim e não. Sim, pela destreza do artista que já selecionou previamente, ou concomitantemente no fazer, meio-que-intuitivamente os signos, elaborou os planos de ação no compor da obra, etc… Não, porque inconscientemente a ação ergonathuralíssima ocorrerá pelo simples comando do querer fazer. Importante acima de tudo a tomada de consciência de que a semiótica já existe como práxis na vida do faber, o criador, que além de deixar-se estar no processo, deve provocar em si a seletividade sígnica/simbólica/sinalística, mais apropriada ao seu existencial de artista e em alguns casos ao que pretende realizar (relação com temas, projeções ficcionais, etc…).

Loura, ebúrnea, calcinha de filigranas, é uma reverência apenas que faço a Marilyn Monroe (americana) e ao próprio Morris, Peirce (americanos), que ganharam noites e dias debruçados sobre a teoria geral dos signos, antevendo sua utiliarteralidade futura, como ciência velada, localizada mais no mundo interior do sujeito que conhece (vê, entrevê, desvê) do que propriamente no mundo exterior, os signos/símbolos em si. A semiótica é o olho que vê, revê, desvê, sob a lógica/ótica da significação do sujeito que conhece. Ouço as vozes de um passado distante, ressonantes em minha vida de símbolos transternecidos do dizer:

Missimbolaravia de vozes

transfinitas, a convergência

universal das línguas

nuclearização icônica dos

símbolos

convergidos na sutileza do ver

apreender

estava no repasto dos meus

pobres signos quando Marilyn

apareceu aparecida, nua de

repente

sob os claros da lua….

De todas as vozes que freqüentam o artista é de se cometer o ato de escolha. Escolher os sígnos aptos a estender o universo do dizer na arte que elegeu e tem a ver consigo. Missimbolaravias de vozes transfinitas, nos tomam dia-a-dia e é de se nuclearizar iconicamente os signos/símbolos/sinais convergindo-os na particularidade do dizer de artista convicto, a caminho do sem caminho ou do caminho que traçou em sua vida. Os signos não podem matar a vida. A semiótica não pode obscurecer a visão, cercear a significação, pelo contrário, abrir canais, seletivamente redimensionar os signos, são funções nathurais afeitas a si, como pastam os bois o verde capim da campina:

Marilyn Semiótica a dama

da superlinguagem futura

bela e nua a minha frente

caída dos céus para o poeta

tropiprolico, trupitorvilhante

que fui e sou, sempre embaixo

das guaviroveiras cheias

Marilyn Semiótica nua,

impura nos truques, sentenças

das palavras corridas na frente

do pensamento

da concreturde dos símbolos

comprimidos…

Por que a dama da superlinguagem futura? Porque os canais estão abertos. Porque a língua, as vistas (olho que vê, desvê, revê) o ímpeto induzem ao dizer sem precedentes, e precisamos da ferramenta superpotente da semiótica, no desafio de adentrar os espaços do indizível. Trazer significações do mundo do incriado para dentro de casa. Esta (semiótica) a ciência que se habilita e veio e já cumpre seu mister de engrandecer o mundo das linguagens. O signo comprime-se, nucleariza-se, iconiza-se e alardeia a significação, como propulsor megasêmico.

Megasêmica, a semiótica faz o signo correr na frente do pensamento e depois justifica o ato do conhecer.

Seletividade nathuralísssima dos signos, primeiro requisito para o ato semiótico se concretizar. Segundo: o juízo de valor do signo na composição. Valoração, categorização, que não traz nada daquela doentia preocupação (mania) Kantiana de divisões e sub-divisões conceituais, categóricas, etc.

A própria seletividade sígnica, impõe os juízos de valores ao sígnos/símbolos escolhidos, já que são os selecionados.

Marilyn esbanjada na feira

das intenções megacósmicas

o poema futuro escrito a luz

no espaço libertino do céu

módulos comunicantes

instantâneos na palma

da mão

:a esquerda de preferência:

a mão que prenuncia

o novo

no repasto de meus mesmos

signos…

Refiro-me as intenções megacósmicas, no sentido de artista que busca o máximo de resultado na criação. A semiótica é hábil na direção, projeção do ímpeto, instinto primário, que ganha espaço transfinito no exercício semiótico, de total (máximo) aproveitamento sígnico.

Os módulos comunicantes, são destino comum a que as linguagens certamente chegarão. Não haverá desperdício vocal, imagético na arte proposta e promovida, graças a dama loura platinada.

Um mínimo de signos, para expressar o muito.

a noite da aparição repentina

a dama loura platinada

transversada na razão

dos símbolos

nua e repetida em minha vida

Marilyn a louca que ataca

depois do milésimo poema

a louca imprevinida

a louca da língua sexínica

do sexo reconvergínio

aberto

ao transe da poesia.

O terceiro requisito, que entendo necessário ao ato semiótico nas artes, é a funcionalidade sígnica/simbólica. No caso do poeta, a seletividade dos signos não deve ser de modo a formar acervo ininteligível, de comunicabilidade quase-nula, deve operar-se, isso sim, de maneira a que propicie a expansão de significação do conjunto sígnico.

Ciência que está em ser, e acredito sempre estará, a semiótica, não deve impor regras parcimoniosas, limites para sua aplicação prática, postulados para sua existência. Está no olho que vê, transvê, desvê, como já disse acima, e repercute mais na ótica da significação do artista do que no mundo exterior, trazendo contributos técnicos e de expandir da significação incalculáveis.

Atacar, ataca a semiótica, depois do milésimo poema. Para o poeta jovem, sem consciência dos recursos de linguagens e do aproveitamento do ato semiótico, não é de se esperar grande alcance de significação, aos signos arrebanhados ao seu dizer. Por isso a ironia, ao expressar que a doida da língua sexínica, a louca imprevenida (semiótica) só comparece após certo esforço mínimo de entendê-la, utilizá-la na composição poética.

Seletividade de signos/símbolos, juízos a priori de valor, ato instantâneo esse de ver e valorar, mais a funcionalidade que se deve buscar dos signos no contexto da obra, são algumas das preocupações que o artista deve ter, cultivar no exercício e realização plena do ato semiótico.

Aviso aos navegantes: alô poetas, pintores, escultores, escritores, músicos e outros artistas, o poema aí decupado é meu mesmo, a exegese e suas falhas também. Vá por mim, a proto ou ficto-ciência chamada semiótica, é tanto minha quanto tua, não tem dono definido, princípio, meio ou fim. Respeitados sempre o ponta pé desenvolvido de Peirce, o toque de bola de Bahktine, Saussure, o já citado Morris e muitos outros. Convoca todos os sentidos, principalmente o olho que vê, desvê, transvê, vive da ótica de tua significação, artista. Teu acrescento mínimo é ver o mundo, contemplá-lo, interpretá-lo, nisso incluídos os virtuais defeitos de significação. Semiota. Deténs o poder de semioticar as relações. Emissor de signos, também és um ser semiótico. Cuidado com o que dizem as professoras, os filólogos bem comportados, os catedráticos, filósofos, antropólogos, os grandes semioticistas e semiologistas que ainda naufragam no conceito fossilizado da “ciência/disciplina”, sem dar-lhe a merecida razão de viver e servir ao homem. Ao homem (artista) compete a ferramenta do fazer. E a semiótica nasceu para andar ativa nos passos de nosso caminhar rumo a futuridade. Que minhas míseras palavras avancem sobre teu céu blue star semiotikamente espiritadas para que as converta, em arte, ante-arte, anti-arte, sobre-arte, destarte.

Fecho este ensaio com meu intuído proto-conceito de semiótica:

Ciência informal decorrente da apreensão dos signos no mundo (realidade, fenômenos) pelos sentidos, convertendo-os em linguagem, (linguagens) constructo humano. Faculdade inata do homem e que se realiza por ato consciente & inconsciente do sujeito no exercício do ver e apreender as coisas e de posse das linguagens que domina, sendo hábil na seletividade signo-simbólica-sinalística para concepção de obra artística, técnica, antropológica, etc… categorizando em importância os signos apreendidos e dando-lhes funcionalidade no contexto do trabalho executado. Dinâmica, evolui conforme o homem, os códigos (linguagens) e as sociedades evoluem. Nucleariza o conjunto sígnico apropriado, potencializando-o, no tempo e no espaço, expandindo significação. Sua execução resulta no máximo aproveitamento dos signos no trabalho realizado.

Observação importante: Se alguém quiser utilizar o conceito acima, citá-lo, colocá-lo no plano cósmico, epigrafar/ilustrar alguma tese, transcrevê-lo na pedra do tempo, que cite com dignidade seu autor e querendo mandar “algum” por todo o sofrimento evitado na faina de encontrá-lo (o conceito), envie para a conta 21.572-4, agência 2507-0, Banco do Brasil S/A, em nome do signatário abaixo:

jAirO pErEiRa

Autor de O abduzido e

outros.

Rumorejando (Um chimarrão e outro encarcando) por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Não se pode confundir calor com colar, muito embora aquela dondoca, quando se deu conta que ninguém havia falado do seu colar de pérolas – verdadeiras, diga-se de passagem – que havia custado uma fortuna, disse no meio do chá filantrópico: “Com este aquecimento global, está tão forte o calor que eu vou ter que tirar o meu novo colar”. A recíproca para esses casos ostentativos-arriscados pode até ser verdadeira. Desde que não ocorra numa praia, no verão, quando todo mundo usa roupas mais despojadas. Alguns afetos ao naturismo, segundo os moralistas, despojadas até demais…

Constatação II (3ª Idade).

O septuagenário, ex-sexagenário, ex-qüinquagenário, etc. esquece de soltar totalmente o freio de mão que meio puxado e, depois, conclui que o motor do carro não tá puxando o suficiente. Coitado!

Constatação III

Mulher lendo jornal: “Praxedes, aqui tá escrito que um médico removeu duas manchas da têmpora esquerda do presidente norte-americano, George W. Bush”.

Marido, assistindo futebol na televisão sem desviar os olhos: “E ele vai colocar elas aonde?”

Constatação IV (De uma dúvida crucial).

Por que será que as mulheres gostam tanto de buzina, já que elas costumam buzinar não só no trânsito como também no ouvido dos seus respectivos maridos?

Constatação V (Ah, esse nosso vernáculo).

O esforço dela para encher o balde furado foi debalde?.

Constatação VI

Deu na mídia: “Países mais felizes têm menos problemas de pressão”. Data vênia, como diriam nossos juristas e, no caso, talvez os médicos também, mas Rumorejando acha, então que, em nosso país, pelo menos no carnaval, a pressão do pessoal deveria baixar e, no entanto, com aquela escassez de roupas, ela sobe a níveis assustadores… Se alguém souber explicar o fenômeno, por favor, cartas ao escriba, via e-mail ou outro meio, (josezokner@rimasprimas.com.br). Obrigado.

Constatação VII

Rico se apaixona; pobre, convive.

Constatação VIII

Rico tem alergia; pobre, ataque de coceira.

Constatação IX

Rico sente a ausência; pobre se acostuma.

Constatação XII

Rico faz conjecturas; pobre, chuta.

Constatação XIII

Rico maneja seja lá o que for com perícia; pobre, com estultícia.*

*Estultícia = “atributo, característica do que é ou se apresenta de modo estúpido; tolice, parvoíce, estupidez”. (Houaiss).

Constatação XIV

Rico é coadjuvante; pobre, é cúmplice.

Constatação XV

Rico adverte; pobre, ameaça.

Constatação XVI

Rico faz profecias; pobre não tem futuro.

Constatação XVII

Rico infere; pobre, inventa.

Constatação XVIII (Quadrinha para ser recitada depois que acabar o foro privilegiado, aposentadoria com poucos anos de exercer um cargo, voto secreto, concessão do governo para os ditos de rádio e televisão, trabalho cinco dias da semana, salário compatível com quem ganha salário mínimo, fim dos privilégios, etc. etc.)

Senador, governante ou deputado

Têm o mesmo comportamento

Deixam o povo inconformado

De tanta falcatrua todo o momento.

Constatação XIX (Quadrinha para ser recitada numa reunião importante com a presença de garotas, preferencialmente, adolescentes).

Se elas não fazem, de casa, a lição.

Tampouco, vão para o colégio

Arriscam casar com um toleirão,*

Inclusive perdendo algum privilégio.

*Toleirão = “que ou aquele que é muito tolo; pateta, palerma” (Houaiss).

Constatação XX

“Desfeito está nosso trato”,

Disse ela pro namorado,

Que o motel já havia pagado,

Deixando ele obstupefato.

Coitado!

*Obstupefato = “tomado de espanto, de surpresa; pasmado, estupefato (Houaiss).

Constatação XXI

Pelo corpo inteiro

Passou um perfume barato,

Querendo a mina impressionar

“Você tem que ir, de fato,

Sem ser retardado,

Sem se atrasar

Correndo, já, agora, ao banheiro.

Pra desse e do seu natural

Como sempre, habitual,

Aliás, tradicional

Mau-cheiro,

Se separar”.

Coitado!

Constatação XXII

Quando viu a mulher

Nos braços dum qualquer.

Ficou atoleimado

Aplacou seus estupores

Com pouco desvelo,

Com remédio contra as dores

De corno e de cotovelo.

Coitado!

Constatação XXIII

E como dizia aquele banqueiro para o filho de 40 anos que só vivia “mordendo” o pai: “Eu juro que te esconjuro se você não me pagar com juro”.

Constatação XXIV

Tinha uma pele esbranquiçada

De tanto tomar purgante

A todo e qualquer instante

A base de limonada.

Coitada!

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

TEORIA DO PALADINO por jorge lescano

Para Zuleika dos Reis

 

– O que é isto? Desejais nos dar morte?

Era isso precisamente o que queriam que lhes acontecesse,

que morressem imediatamente e ali mesmo, no jogo de pelota

 Popol Vuh –  Livro de Origem dos Quichés

Chovia gatos e cachorros nos arredores de Londres. O clássico de futebol havia sido cancelado porque o sistema de drenagem do campo não funcionava a contento. Na sala de fumantes da sede falava-se das quantias bilionárias gastas pelo clube na contratação de jogadores e dos salários pornográficos destes, em detrimento da manutenção do campo, tabuleiro de nossas esperanças semanais. Devo dizer que nem sempre concordo com tal maneira de considerar estes assuntos. De fato, culpar a diretoria de gastos excessivos na equipe, razão de ser do clube é, no mínimo, injusto. Parece que os dramas da natureza predispõem à desforra, modo primário de afastar a sensação de impotência. Falou-se de craques do passado. Naturalmente, neste item houve discordâncias. Como compensação, talvez, surgiram nomes de atacantes e defensores sobre os quais coincidiam as opiniões adversas, porém, também se falou do “Magrão” Domínguez, do “Russo” Goldbaum, do Sublime Amadeo e do Grande Rugilo, cognominado “O Leão de Wembley” pelos próprios inventores do esporte em pauta; todos eles goleiros internacionais que defenderam nosso time. O Doutor Jotas, que em sua juventude foi declarado rei dos artilheiros por ter marcado seus tantos gols, lembrou goleiros de atuações irregulares. Obviamente, o mau tempo azedara seu humor.

Para restabelecer a justiça das opiniões, L., modesto Conselheiro da Comissão de Frente, pediu licença para intervir. Concedida a vênia, inspirado como um repentista antigo, falou:

Nunca fui inconstante nem falso, Excelência, apenas velei pelo rigoroso cumprimento das escrituras. Não me escapa que deve parecer excessivo. A Lei existe para ser violada, reza  célebre aforismo de um prócer nacional. Se Vossa Excelência não leva a mal, deixe-me dizer-lhe que ainda vivemos na idade da obediência, falta-nos muito para chegar à do Respeito, à do Direito. Sobrevive-se da ilegalidade: o tal jeitinho. Porém, eu sempre usufruí a Lei de acordo com a minha consciência e o meu conhecimento estrito do regulamento, o que já diz muito ao meu favor, reconheço. Nunca permiti que a apatia, a preguiça, o cansaço, a conveniência, encampassem a minha fé no estudo da Lei e na sua aplicação rigorosa. Essa é a verdade, Excelência. Palavra de goleiro!

            Vossas Excelências, que apreciam a boa literatura, devem saber que dois grandes romancistas do século vinte, um judeu-russo e o outro franco-argelino, este, filósofo, de lambuja, foram goleiros amadores na sua juventude. O primeiro, do Esporte Clube Russo, em Berlim, o outro em sua África natal. E o filósofo, Prêmio Nobel também, porém não de goleiro, esclarece a resenha, declarou que de suas experiências da vida, a que mais lhe ensinou foi o futebol. Notem Vossas Excelências a importância maiúscula da prática do esporte mais popular do mundo na vida intelectual!

            Hoje sou um reles espectador, não torcedor teleguiado, pois pretendo levar para o túmulo meu senso de eqüidade. Defronte ao vídeo analiso cada jogada sem paixão alguma, como o crítico acadêmico vê um filme sem graça, e a julgo segundo o regulamento. Assim concluí que o cartão amarelo é pouco usado, do vermelho nem falar! Se eu fosse o árbitro, outro galo cantaria, podem crer!

Eu por mim tenho que na primeira jogada brusca deve-se aplicar o cartãozinho amarelo ou o vermelho, se couber. O jogo começa com o primeiro apito do juiz e acaba com o último, o tempo entre esses dois momentos são a partida propriamente dita, nesse tempo se aplicam todas as regras do jogo. Aquele que cometeu a falta conhece, ou deveria conhecer, as leis que regem seu rico ganha pão. Cometeu falta?, seja advertido: da próxima vez será expulso. É a regra, clara, precisa, publicada em letra de forma. A punição faz parte do jogo. Quem entra em campo deve estar ciente disto.

Tenho a honra de informar Vossas Excelências que fui goleiro do União de Floresta, time do meu bairro, e isto não por muito tempo. Conseqüência do meu conceito ético, da minha pirraça, na interpretação dos meus detratores.

Diziam que as minhas atuações eram irregulares porque desconheciam o que ora revelo com exclusividade a Vossas Excelências (e ao nosso respeitável público, de ricochete): minha ética profissional e meu profundo respeito aos direitos do adversário. Opino que se abusa das exceções. Recursos, como direi?, paliativos?, atenuantes? Falo do escanteio, lateral, bola recuada, impedimento forjado, proteção de bola com o corpo, intenção de falta, sic, retenção de bola, assim se chamava à cera na minha terra; a desobediência cívica, especialmente na marcação de faltas graves e as intervenções dos assistentes, o gandula não menos que os técnicos, sempre vistos como autoridades laterais, para não dizer secundárias, porém, autoridades.

(Voltemos ao relato como o goleiro ao tiro de meta)

Os que julgavam minha atuação segundo padrões físicos, táticos, estratégicos, avaliavam meu comportamento por estreitos conceitos esportivos. Outro era o meu ponto de vista. Para aperfeiçoá-lo, habituei-me a ver os jogos de trás do gol, assim ficava mais perto de suas peripécias. Eu era a sombra do goleiro de turno, seu duplo. Aliás, acho que o filósofo supracitado deve ter aprendido muito de dramaturgia e direção teatral por jogar nessa posição privilegiada.

 Houve uma idade em que o esporte era exercício de cidadania, ainda mais, um dever sagrado. O que entendo por isto? O exercício dos direitos, Excelência! Eu vivi essa idade de ouro, como todo mundo. Explico-me, as circunstâncias excepcionais: escanteio, lateral e outros que tais, são subterfúgios do jogo quando provocados propositadamente. Eu nunca cedia escanteio se podia evitar. Devolvia a bola para o campo, com o risco de um atacante colocá-la lá dentro. É o meu jeito de ser: tudo pela justiça! Parecia-me desonesto colocar a bola fora de jogo quando a expectativa era a de continuar. Não apenas o público esperava tal comportamento, também o time adversário. Era questão de honra cumprir este requisito. Sentia que fugia à natureza do jogo apelando para um recurso escuso, se posso dizer assim. A grande defesa que evitava a bola balançar a rede, era a minha alegria íntima, se bem que fogo pálido para minha torcida. Que nem sempre conseguia meu filantrópico objetivo e a bola brilhava lá dentro, é verdade, é da natureza deste esporte viril; mas eu sabia que me havia esforçado tanto quanto possível para que isto não acontecesse, e que mais uma vez tinha contribuído para a beleza do espetáculo, mesmo a custo da derrota momentânea ou definitiva. Agir de outro modo seria deslealdade para com o adversário e o espectador, que havia deixado sua oferenda para ver a gorduchinha rolar na grama. A bola ia bater no travessão? Deixa ela! O deus da esfera, deus minúsculo, porém anárquico e rigoroso como qualquer outro, exigia que eu me expusesse ao perigo. O obstáculo definia o limite físico da legalidade. No altar estava eu, vítima e sacerdote, último guerreiro defensor da pátria exorcizando a conquista da cidadela.

Atrevo-me a dizer que historicamente o goleiro é signo de civilização. Chutar a bola para frente qualquer cachorrinho vira-lata faz, estamos cansados de ver isto no circo. Atacar é o ofício do bárbaro. Defender pressupõe um paradigma da urbe. Exige uma legislação adequada ao mesmo e inclui funções especializadas para os cidadãos, dentre as quais, certamente, a defesa não será de somenos. Vossas Excelências conhecem melhor do que eu as cidades muradas e os condomínios fechados. Mesmo nestes, Ele é necessário. Precursor de Clark Kent, herói de pacotilha, e do messiânico Conselheiro euclidiano! Sempre haverá Tróias e Eróstratos, sitiadores e incendiários internos e externos que tornem imprescindível a existência atribulada do porteiro e seus guardas suíços, ditos zagueiros. Todavia, a injustiça acompanha a existência do goleiro desde o seu nascimento, hoje não menos que outrora. Vede que não é ele quem escolhe o gol de início de partida, oh, não! É a Autoridade, o Capitão do time. E ao catador de frangos, soldado obediente, cabe acatar a imposição sem questionamentos, feito menor de idade! Quão poucas vezes suas funções de goleiro coincidem com as de Capitão nem é preciso mencionar. Houve alguma vez um goleiro com o título de Melhor Jogador do Mundo? Desculpem a minha ignorância magna. Esclareçam-me, Excelências, se isto por acaso já foi cogitado nas instâncias pertinentes e eu ser-lhes-ei grato per saeculo seculorum! Vossas Excelências tenham a fineza de dispensar este parágrafo inflamado e erudito!

Se pela camisa diferente e minhas prerrogativas funcionais lembrava um Mestre-Sala, sabia que era o último arqueiro da linha de defesa. Posto grave e ingrato. Quando o goleiro defende a bola envenenada disparada a queima roupa pelo fuzileiro do outro lado, ainda que a bola pese setenta quilos, nada mais fez do que cumprir seu dever, mas se a danada entra, não há outro Cristo para partilhar a culpa. Nada o libera da crítica, sequer a sua colaboração para a beleza do drama. Vossas Excelências sabem melhor do que eu que está assim de jornalistas querendo fazer a gente de besta! O gol pode ser resultado de uma jogada belamente arquitetada, porém a atitude do goleiro contribui em muito para a realização eficiente do ritual. Veja-se como vibra o estádio quando este soldado se estica para alcançar o dardo certeiramente dirigido sem alcançá-lo. Poucas vezes o aplauso consagra seu feito, essa é que é a verdade. Este comportamento é completamente diverso no caso do gol-acaso, quando nosso protagonista, surpreendido em sua boa fé, seja pela retaguarda, por acreditar na imperícia alheia ou qualquer outra circunstância atenuante, semelha um terceiro poste encravado no vazio de mais de quatorze metros quadrados, alvo de qualquer franco atirador. Ei-lo, estático, de gelo, pétreo, a bem dizer! Neste caso o gol nem tem graça, é ou não é?

Eu estava devotado à pureza do espetáculo. A preservação dos meios legítimos do jogo sempre foi a minha justificativa para atuações julgadas apressadamente de irregulares. Nada havia de irregular se era justa, e se era justa era bela. Tudo fora pensado à luz do regulamento, da regra, da lei, em suma. Como Vossas Excelências podem notar, o jurista habitava em mim tanto quanto o guerreiro, travestidos de árbitro e goleiro, com uma pitada de artista. Minha conduta era a magra compensação pela frustração de não exercer o Direito Internacional. A total ausência de recursos não me permitiu seguir estudos superiores em tempo regulamentar, sempre vivi restringido pelos meus parcos meios financeiros; assim, advoguei em causa própria segundo meu bom senso, dentro de minha jurisdição. Vede quantos impedimentos fazem uma carreira!

Como juiz eu seria excessivamente rigoroso, especulava a crônica oral do meu bairro. Ignorava-se que há muito eu já me julgara no exercício de minha humilde posição.

Desconhecem espírito estóico do goleiro aqueles que o acusam de exibicionista. Nada sabem da  solidão do rei! A torre está exposta a ventos e marés, e não há fosso nem ponte levadiça que a proteja, apenas ele de atalaia.

Não pode imaginar a verdadeira dimensão daquele retângulo vazado quem nunca enfrentou, ou se expôs, melhor dizendo, ao artilheiro na hora crucial do pênalti. Já naquela época era permitido se movimentar em vaivém sobre a linha de cal. Eu não desperdiçava a regra. Dava pulinhos de lá para cá, mor de confundir o verdugo. Porém, para este caso extremo, eu havia adotado três atitudes do meu modesto arsenal técnico, e as colocava em prática de forma alternada. Contrariamente à maioria dos colegas, que decidem mergulhar num dos lados da meta de forma aleatória, a la diable!, digamos assim, apesar da afirmação de Herr Hand que apenas imaginou, sem que se tenha notícia de  jamais ter sentido a angústia do guarda-redes no cadafalso futebolístico (Preclaro Leitor, não vos incomodeis se vez por outra me valho do vernáculo lusitano para variar um pouco meu dizer). Vossas Excelências sem dúvida terão notado que este lado é sempre baixo, pois não? Mergulho ou salto mortal às vezes recompensado por coincidir com a escolha do anti-herói. Eu, ao contrário, pulava para um dos ângulos superiores do gol. Vossas Excelências hão de convir comigo que, do ponto de vista geométrico, tal comportamento é mais lógico, se bem que menos estético, pois ao cair, caindo, cobria toda a altura do gol do lado escolhido Perdido por perdido, tanto dava no porão ou no andar de cima. Isto provocou não poucos risos, muitos mais do que aplausos, em todo caso, pelas poucas vezes que tive êxito. Outro jeito era ficar imóvel no meio do gol. As estatísticas indicavam em números quão poucos marcadores escolhiam aquela direção para dirigir o dardo, apesar de contar com a queda do guardador do túmulo num dos cantos inferiores. Creio que a presença do goleiro naquele local no momento anterior perdurava na visão deles como um espectro de mau agouro. Eu, previdente, não descuidava aquela área tabu. A terceira tática consistia em apontar o ângulo de minha opção, desafiando, tentando induzir, instigar, enfim, o cobrador, a me vencer naquela zona escolhida, segundo fazia, com sucesso variável, um goleiro caolho da segunda divisão. Demais está dizer que no meu caso isto rendeu mínimos frutos: faltava-me a autoridade do caolho. Aplicava estas pequenas astúcias de forma alternada, como já tive a honra de informar Vossas Excelências. Aquele chutador que me conhecesse poderia contar com estes truques, sem, contudo, jamais estar certo à qual deles eu recorreria dessa feita, e isso já era algo que poderia perturbá-lo, facilitando as coisas para mim.   

 Pênalti? Pelotão de fuzilamento a doze passos de distância, Excelência! Pelo menos metade do estádio deseja a crucificação do goleiro. Comemora-se seu sacrifício antes mesmo de apitar o comandante da execução. Se a sorte, ou o acaso, fazem que a bola suba demais ou decida alargar seu percurso beirando o poste ou a trave, pode se sentir feliz, a crítica vai desancar o pobre fuzileiro. Mas se a esfera demoníaca balança a rede pelo lado de dentro, sempre haverá quem culpe o defensor de incompetência. Destino cruel o deste peão avulso.

Bola recuada, diz Vossa Excelência. Sim, algo disso. Esse ficar entre os três paus da canoa furada à beira das águas revoltas sem poder intervir diretamente, a menos que a tal bola recuada ou  El Niño invada a área, e aí é um Deus nos acuda e salve-se quem puder mulheres e crianças primeiro!

Não queiram saber das bolas paradas do outro lado da barreira! Imaginem o invisível artilheiro preparando o movimento do cavalo, ensaiado à exaustão nas escaramuças da tropa para enganar a defesa. E imaginem a este humilde servidor sob a fina linha que demarca o limite superior do baluarte. Homem de carne e osso, não de borracha. O goleiro, para compensar sua falta de elasticidade, voa, literalmente voa, para impedir que o dardo alcance sua meta fatal, e assim, pássaro atingido em pleno vôo, contribui para a beleza do gol adversário. Cruel destino, Excelências, podem crer! É o momento máximo do atirador oculto por trás da muralha de homens ou solto em algum lugar do campo para disparar o seu canhão a cento e vinte quilômetros por hora. Vede o Cabeça-de-bagre que aproveita o tsunami dentro da área para ficar na banheira e criar fama de oportuno, de homem de finalização, de torpedo, enfim, graças ao azar do vigia do reduto, nosso semelhante, abandonado pelos seus anjos da guarda tanto quanto pelos zagueiros Rozencrantz e Guildenstern. Eis a queda! O goooool! Palavra breve que bem ilustra o tempo necessário para a rainha ultrapassar a linha fronteiriça da vitória à derrota. Então o herói corre para a beira do campo de batalha e agita a camisa qual flâmula entre ovações e exibe o torso nu e suado de gladiador romano a comemorar a morte do leão diante da tribuna de Calígula. Para ele todos os confetes e serpentinas. Eis a horda a despregar estandartes e bandeiras e a bombardear os ares com seus tiros de festim, e às vezes, lamentavelmente, verdadeiros. Agora observe nosso homem, desolado, cabisbaixo, recuperando a bola já fora do desenho da alcatifa verde. Enquanto a turba vocifera delirante, para ele sobram os apupos da nação adversária, não poucas vezes acrescidos dos da sua própria torcida, que vê nele a encarnação do Iscariote. Nesse momento, a alma cai aos pés. Deseja-se que a terra se abra e nos trague para sempre. Os poucos passos que separam a linha fronteiriça do fundo da rede são uma peregrinação dolorosa ao Santo Sepulcro, se não vos ofende a sacra comparação, Excelência. Mais de uma vez vi Sísifo derramar lágrimas nessa via crucis. Tal o sofrimento do último defensor da praça. Ninguém está disposto a dividir com ele a responsabilidade, a culpa, a traição, o pecado original (digamos assim para melhor impressionar nosso leitor!) São tais sentimentos os que me fazem ser condescendente com esses companheiros de infortúnio defronte ao vídeo. Sinto que pertencemos à mesma estirpe de heróis vencidos, ou em desgraça momentânea.

Acusam-me de ser um homem revoltado, grande equívoco. Apenas sou alguém que clama por justiça diante daqueles passes curtos, repetidos entre dois ou três jogadores que parecem desfrutar com o desconforto do prisioneiro do estado de sítio, e deixam que a bola role indefinidamente, da esquerda para a direita, ora penetrando de leve na área, ora se afastando para retornar pela lateral direita ou esquerda; os atacantes trocando de lugar enquanto a bola, como a peste, repete seu percurso pendular. Diástole! Sístole! O joguinho desses passistas é a lição do Mestre que à beira do tabuleiro gesticula e grita e pula adoidado feito Diretor de Harmonia. Isso vira as tripas de qualquer um! Segundo me dizem, esse chove e não molha parece conto de certo escritor duplamente anglo-americano de séculos passados. Vossa Excelência, Mr. Albert, apesar de sinólogo certamente ouviu falar dele, pois seu funeral foi realizado na Velha Igreja de Chelsea, e Vossa Excelência, professor Volódia, que aprecia o tênis e as belas letras, deve saber de quem se trata, uma vez que estudou em Cambridge. Seu estilo, dizem, belisca o assunto sem se decidir a concluí-lo. Chutar ao gol, quero dizer, que é a finalidade da vanguarda de todo time competitivo e verdadeira razão de ser do guarda-redes. E a torcida do outro bando a gritar com mofa Olé!, Olé!, como se nossa esquadra de fornidos atletas fosse um bando de ninfetas se deleitando com castanholas e balalaicas nesse balê inconseqüente. É de chorar! Vossas Excelências desculpem os dedos pingando mas esqueci o lenço.

Às vezes acontecem acidentes de trabalho incompreensíveis para o leigo. Como a bola passar quicando ao nosso lado feito frango travesso, oportunidade ou evento que a imprensa não se cansa de mostrar para regozijo das tribos adversárias. Dá-se também o azar de, querendo jogar depressa com nossos companheiros, servimos o inimigo, que aproveita a falha para enfiar a bola no fundo da rede, e isto pode acontecer depois da cobrança de um escanteio, quando na pequena área surgem protuberâncias ósseas por todos os lados, cujo único alvo é o corpo do goleiro. Punhos cabeças ombros joelhos pés cotovelos feito aríetes atacam não a porta, o próprio porteiro do castelo, sem elmo ou armadura que o proteja. Tais os ossos desse ofício. Doeu? Vai-se queixar ao bispo! E se a bola afundou na rede, acusam-no de caçar borboletas! Não quero aborrecer Vossas Excelências contando todos os sofrimentos do goleiro (apenas cito os fatos mor do leitor ficar ciente deles).                    

Vossa Excelência quer saber a origem deste meu azar crônico? Pois bem, digo-lhe de fonte segura, meu amigo O Astrólogo fez meu mapa astral, e o que descobriu? Nada menos que seis planetas conspiram contra mim como um ataque reforçado no tempo suplementar em final de campeonato. Caso raro, disse-me a modo de consolo, original. Não conheço ninguém com este quadro; você é um eleito, cuide-se. E não me refiro apenas aos frangos resfriados ou gripados dentro e fora do galinheiro em que transformaram o campo de batalha, outras são as agruras, Excelência.

Já disse, nunca abusei das exceções: elas sempre me pareceram pobres recursos de quem não tem ética profissional. Naquela época não sabia que estas eram qualidades apreciadas pelos técnicos. Verdadeiras recomendações para conseguir a vaga na equipe titular. Segundo a minha concepção do jogo, estes eram subterfúgios, álibis, atenuantes, qualquer coisa beirando o ilegal. O correto era defender as traves sem deixar a bola sair do tabuleiro. Para mim, a bola só podia sair do campo por um chute sem direção ou, caso extremo, para permitir a atenção de algum jogador machucado. Tal é ainda o meu credo, compartilhado, pelo que me disse o doutor Marcelo Pasquali, por famoso ex-artilheiro alemão, que nunca recuava a bola nem a chutava para fora do campo. Ele e eu pertencemos à legião dos justos!

Vossa Excelência pergunta de onde tirei esta concepção esdrúxula do direito. Pois eu lhe digo: de ver todo dia, a toda hora, em todo lugar, o abuso do mais forte sobre o mais fraco. A prepotência do uso da lei me fez conceber um código de proporção humana, quero dizer: para benefício dos homens, não para o bem do Estado. Vossas Excelências já perceberam que com esta moral, ou poética do jogo, minha carreira não podia ir muito longe. Acertaram em cheio, donde concluo que direito e esporte não se coadunam. A bem dizer, não sei se é o esporte que não combina com o direito, ou se são as marcas nas camisas. Tem gente que confunde a marca com o nome do time. Pelo que sei, os jogadores têm hoje mais obrigações sociais com o patrocinador do que com a torcida. Isto, somado ao pensamento anterior, faz prever para breve a congregação cantarolando o rifão da marca ao invés do hino do time (suspeito seja essa a próxima grande jogada dos marqueteiros dos patrocinadores). Algum país engata seu Deus salve a Rainha! à imagem de herói inimigo para vender o refrigerante nacional. Ai de mim!, há algo de podre no reino do futebol.

Eu, menino pobre em fim, tive as minhas ilusões: jogar na seleção e depois, talvez, naquele time multinacional que revolta os nacionais porque todos os jogadores são estrangeiros. Ainda hoje não me conformo com a mediocridade dos rapazes que se incorporam ao time de várzea sem almejar outra coisa. Jogam lá como uma fatalidade. Eu sonhava, porém, o sonho devia caber no meu senso de justiça. Jamais aceitaria jogar na seleção contra a ética. Depois compreendi que a tal ética tornaria impossível a minha escalação oficial. Deixei o futebol…, fiquei fora de forma… A musa me abandonou, essa é que é a verdade!    

Hoje acompanho na telinha, como numa sessão contínua de cinema, jogo após jogo, o momento supremo do ritual. Comemoro simultaneamente o triunfo do ataque e a derrota da cidade sitiada representada pelo estrangeiro, o estranho, ali alocado para maior glória do artilheiro.

 

O depoimento fora deveras comovente, o doutor Jotas enxugava os olhos. Alguém reclamou da fumaça dos charutos.