Arquivos Diários: 27 maio, 2008

UM NOME A ZELAR conto de deborah o’lins de barros

Mônica tem 22 anos, dinheiro e um diploma recente em Cinema pela PUC. Tem amigos moderninhos, também. Seu ideal de vida era muito parecido com o de outras garotas da sua geração: a arte, o belo e a estética, boa música e drogas lícitas. Um maço de Carlton Red, um chope e um Smirnoff Ice por dia. Ela também tem um objetivo, claro, que é trabalhar fazendo roteiros e edição de filmes. Estamos em São Paulo e o mes é dezembro de 2005.

O dia da apresentação de seu curta-metragem de seu grupo, como trabalho final da faculdade foi um barato. O filme era sobre um grande mal-entendido, que acabou sendo a grande graça da história. Mônica ficou toda prosa por mostrar seu trabalho para a família e amigos. Estava quase que pensando em cancelar sua viagem para fazer uma pós na Inglaterra, só por que não os veria durante tanto tempo. Aconteceu que nesse dia, Alex, seu quase-irmão,  a chamou para uma festa. Mônica, naturalmente, aceitou. É aí que começa:

 

– Vai ser num barzinho “da hora”, você vai, né?

– Claro né, Alex. Perder showzinho do meu melhor amigo, ninguém merece…

– Conto contigo lá. Vai ser uma jam session.

 

Só tem um problema: Mônica não sabia o que era uma jam session. Sendo assim, ao chegar em casa com o canudo na mão, entrou no MSN e não comentou com ninguém sobre seus programas para aquela noite. Só tinha certeza que ouviria uma mistura de jazz e rock, que era o que Alex mais gostava de extrair do contrabaixo que tocava.

 

– Tchau, pai! Já tô indo!

– Tem hora pra voltar?

– Não, mas meu celular tá ligado.

– Você não vai num pagode, vai?

– Claro que não, eu tenho um nome a zelar, né? Vou numa jam-session.

– E o que é isso?

– Sei lá. Tchau.

 

O bar era estreito, comprido e tinha um mezanino. Em baixo ao fundo, um palco e no centro do salão mesinhas redondas com três cadeiras. O bar ficava à direita e ao lado havia a escada. Em cima, mais mesas no centro e poltronas vermelhas confortáveis encostadas na parede. Mônica gostou de primeira, achou o lugar bem agradável. Alex, que já tinha chegado e estava conversando com uma turma, foi recebê-la:

 

– Até que enfim você chegou, Kikinha! Deixa eu te apresentar um pessoal.

 

Mônica se enturmou rápido com os amigos de Alex. Ainda mais com a quantidade de drinks que passavam pela mesa. Lá pelas tantas, já mais extrovertida, ela admitiu que nem era tão espontânea assim, mas queria comemorar a sua formatura e a partida para a Inglaterra em fevereiro.

 

 

***

 

 

A música estava ótima, as pessoas se divertindo, Alex inspiradíssimo e Mônica enchendo a cara. Depois tudo ficou mais calmo, aconchegante, e depois silencioso. Quando acordou, Mônica estava ouvindo apenas sua respiração quando, ainda meio tonta, ouviu som de seu telefone:

 

– Alô, mãe?

– Filha, você vai almoçar em casa?

– Ahn? Vou sim, mãe. Vou almoçar em casa.

 

Desligou o telefone, se ajeitou de novo e só aí percebeu: aquele teto não era da cor do teto de seu quarto. Olhou para o lado, viu um lustre. Não havia lustres no seu quarto. Olhou para o outro lado. Era Alex? Não… não poderia ser. Alex sempre foi meio mulherengo, mas a Mônica era sua quase-irmãzinha. Espere, ele está acordando. Agora, Mônica pode ver quem é.

 

– O que? Junior?

– Ahan… Bom dia, Mônica, o que foi?

 

Ela não poderia acreditar. Ela, justamente ela, Mônica, recém-formada em cinema, leitora de Jack Kerouac e Jean-Paul Sartre… Acordando ao lado de Junior? Podeira ser qualquer outro, mas justo o da dupla Sandy & Junior? Ela não queria acreditar que isso pudesse ser verdade.

 

– Mônica, você quer uma aspirina? Acho que você estrapolou um pouquinho ontem.

 

Junior senta e veste um calção. Depois se levanta e vai até o banheiro. Oh, não! Agora que  Mônica não queria acreditar mesmo. Estava agradecendo a Deus por não ter levado ninguém ao bar e porque sabia que Alex guardaria segredo de que ela havia, digamos, chegado às vias de fato com o Junior.

 

– Oi… aqui está o comprimido. Beba a água toda.

– Obrigada. Olha, eu queria falar uma coisa.

 

Na verdade, Mônica não sabia muito o que falar. Tudo o que ela queria era que aquilo fosse um trote ou coisa parecida. Mas não era. Sendo assim, tudo o que ela poderia dizer era que não tinha ficado com ele por ser um cara famoso. E foi o que fez. Junior, por sua vez, confessou que adorou ter conhecido uma menina como ela. Disse que Mônica era inteligente e simpática, além de linda. Também se comprometeu a não comentar com Alex, que na sua opinião foi o baixista mais original com quem havia tocado naquela noite.

 

 

***

 

 

O almoço foi tranquilo. Os pais de Mônica não perguntaram nada e ela, por sua vez, também não falou sobre o que havia acontecido. Durante a tarde, depois de tomar uma pílula “do dia seguinte”, só por desencargo de consciência, ela ficou pensando, tentando lembrar não só de o que aconteceu, mas como.

O telefone toca. A Bina acusa que é Alex quem chama. E agora, atender ou não? Eis a questão. E se for tudo uma brincadeira que fizeram com essa pobre menina rica? Ai meu Deus, oh dúvida cruel…

 

– Alô, Mônica?

– Oi Alex, tudo bem?

– Tudo… Foi mal por ter te deixado sozinha ontem. Mas eu tive que sair logo depois de tocar por que tinha que fazer um monte de coisas hoje de manhã. Você me perdoa?

 

O Alex, pedindo perdão? É, isso não poderia ser um trote. Para ele falar assim, só poderia ser verdade. Mônica conhece como ninguém seu melhor amigo.

 

– Não, Alex, está tudo bem, eu me diverti bastante. Fiquei batendo papo com uma galera que conheci.

– Ah, que bom. Olha, eu preciso desligar. Depois a gente se encontra para falar como foi o último dia da faculdade, acabou que a gente nem conversou direito ontem, né?

 

Alex não era bom mentiroso. Ele realmente não sabia de nada. Mônica suspirou aliviada e decidiu que, a partir daquela noite, não mais ultrapassaria seu limite clássico de um chope e uma vodka ice, para garantir que isso nunca mais aconteceria. De repente, Mônica tomou um susto. Se pegou pensando em Junior. E agora? O que fazer? Bem, pelo menos ele se mostrou bem mais gente boa que aquele namorado que havia dispensado umas semanas atrás. Mas não! Mônica não poderia gostar de um cara que canta “vamos pular” com a Sandy.

 

 

***

 

 

No dia seguinte Mônica resolveu “se purificar”, visitando o MASP. Museu mais bonito que esse só o de Belas Artes, no Rio de Janeiro, que visitou nas férias de julho. Viajando no tempo e nas telas, Mônica se viu novamente pensando em seu segredo. Tinha que admitir, ao menos para si mesma, que sentia vontade de encontrar Junior de novo. Ao ver um quadro de Di Cavalcanti, “Cinco Moças de Guaratinguetá”, pertencente ao seu movimento arístico favorito, seus pensamentos viajaram de novo; pensava nos estudos que começaria na Europa.

Mesmo assim, seus anseios reprimidos se concretizaram. Com quem ela esbarra, repentinamente, no museu? Exatamente.

 

– Oi, Mônica, tudo bem?

– Oi, Junior… tudo… Ué, achei que você vivesse fazendo shows por aí…

– É, mas não às vésperas do Natal, né?

– É, tá certo, claro…

– Você vem sempre aqui?

 

Os dois riram. Embora extremamente constrangida, com medo de alguém pegá-la de surpresa, batendo papo com o Junior da duplinha cafona que não suportava, Mônica conversou com o rapaz. Mantendo sempre uma distância e fazendo-se de difícil, Mônica debateu sobre a arte clássica e moderna com a pessoa mais “pop” que já conheceu. E novamente agradeceu a Deus por ninguém tê-la visto ali, com ele.

As “coincidências” continuaram a acontecer. Mônica começou a achar estranho que Junior aparecesse na maioria dos lugares que ela freqüetava e que nunca o viu antes. E a forma como ele a tratava, parecia que já eram amigos íntimos… Não isso só poderia significar uma coisa: Junior estava sacaneando Mônica, fazendo com que ela ficasse sem reação na frente das outras pessoas, para que todos percebessem que eles tinham algo mais. Bem, pelo menos era isso que Mônica pensava.

O fim da picada aconteceu no aniversário de Mônica, quando ela foi com os amigos num barzinho que ela nunca tinha ido com sua turma antes. Mesinhas com três cadeiras, palco ao fundo, mezanino…

 

– Oh, não! Eu já tinha vindo aqui antes! Aquele dia, com o Alex… – pensou.

 

Sentados no balcão estavam Alex e Junior, batendo papo. Mônica só viu o primeiro e foi direto falar com ele. Mas Junior foi o primeiro a falar.

 

– Finalmente te encontrei no meu habitat foi aqui que nos conhecemos, lembra?

 

Aquela piscadinha ridícula, depois da frase, foi para acabar. Como esse cara pôde chegar a esse ponto, esse grau de baixesa? E agora, o que Alex ia pensar de Mônica?

 

– Não sabia que eram amigos. Sente conosco, Mônica! E parabéns pelo seu aniversário.

– Obrigada Alex, mas estou com um monte de gente… Depois passa lá na mesa para trocar uma idéia.

 

Mônica não sabia se ignorava Junior, se falava com ele. Acabou que só deu um sorriso rápido e saiu logo. Logo depois chega o garçon na mesa em que ela estava sentada com sua turma.

 

– Boa noite, com licença… a rodada de Ice.

– Boa noite… mas ninguém pediu isso, garçon.

– Foi presente daquele menino ali. – e apontou para Junior – Você que é a aniversariante, não é, moça?

 

O garçon deixou as garrafas e copos, entregou um guardanapo e saiu. Ai meu Deus, pior que piscadinha estilo “olhar 43”, só cantada em guardanapo. Só filho de Chitãozinho ou Xororó pra fazer uma coisa dessas… Ainda bem que estava escrito apenas “feliz aniversário, ass. Junior”, pois todos da mesa queriam saber quem era o patrocinador do gole.

 

– Kikinha, é “aquele” Junior?

– É…

 

Mônica precisava disfarçar, inventar qualquer coisa… Agora!

 

– Ele é amigo do Alex. O conheci quando fui ver uma jam-session, mês passado. A gente trocou uma idéia.

 

Bem, omitir é menos pior que mentir…

 

– E não rolou nada?

– Rolar assim, não rolou nada. Vocês não acham que eu iria namorar com o irmão da Sandy, acham?

– Mas ele é tão gatinho, depois você me apresenta?

– Apresento, sim… Ele é até gente boa, sabiam? Mas deixa eu contar mais da minha viagem mês que vem.

 

Pronto. A melhor coisa a fazer é sempre mudar de assunto.

 

 

***

 

 

Mônica estava em casa, pensando na morte da bezerra, quando o telefone toca. Ih, e agora? É o Junior! Ela decidiu atender.

 

– Oi, Mônica…

– Oi.

– Tá de bobeira?

– Tô, por que?

– Tem como a gente se encontrar agora? Preciso falar com você.

 

Junior foi de carro até a casa de Mônica e os dois conversaram na garagem. Foi um papo sério e, logo depois de entrar no elevador, Mônica lembrou do fim da personagem Scarlet O’Hara, do filme “E o vento levou”.

O que os dois conversaram, ou melhor, o que Junior falou foi quase que esclarecedor. A começar pelo dia em que eles se conheceram: eles apenas se beijaram. Todo mundo sabe que quanto mais se bebe, menos se tem vontade de fazer sexo. Simplesmente não rolou, mas o susto que Mônica teve a levou a pensar que todas as hipóteses que ela criou, realmente tinham acontecido. Outra coisa, todas as vezes em que Junior aparecia, não eram para “humilhá-la”, mas sim para apenas conversar com ela.

Mônica pediu desculpas por ter pensado isso, mas não foi o suficiente para fazer Junior ficar. Ele só queria explicar as coisas para poder começar uma nova turnê musical sem consciência pesada. Já Mônica, com vergonha de ter ouvido tudo o que ouviu de um cara, como ela diz, que canta “vamos pular”, apenas disse que iria para a Inglaterra.

 

– Posso te fazer uma pergunta?

– Pode, Junior.

– Pô, Mônica, eu gosto de você pra caramba. Você vai viajar é pra esquecer de mim?

– Que?

– Você gosta de mim, não gosta?

– Junior, vou para Londres para fazer uma especialização em Cinema. E eu gosto, gosto muito do Junior que eu conheci.

 

Mônicase despediu, deu um tchau com a mão e pegou o elevador. Junior, por sua vez, ligou o carro e foi embora, mas pediu para o zelador do prédio entregar um papel para Mônica. E o cara esqueceu.

 

 

***

 

 

Os dias passaram. Chegou o dia da festa de despedida de Mônica e todas as suas amigas perguntaram pelo famoso que estava ausente. “Ah, sei lá, deve estar em turnê” era a resposta clássica. Alex percebeu que seu falar diziam uma coisa; seus gestos, outra. Mas achou prudente não falar nada, afinal, Mônica estava passando sua última noite em São paulo. No dia seguinte, àquela hora já estaria dentro do avião.

 

 

***

 

 

Aeroporto Internacional de São Paulo. Mônica chegou com duas malas e uma bolsa de mão. Apenas seus pais a acompanhavam e depois ela se despediu deles. Queria ficar sozinha nesses últimos momentos. Droga, a pior coisa que poderia acontecer, aconteceu: o vôo atrasou. Bem, então Mônica decidiu tomar um lanche para fazer hora. Deus salve o dono da lanchonete, a melhor coisa para fazer passar o tempo é assistir televisão.

Começou um programa de entrevistas. Tevê a cabo é outra coisa, não mostra só porcarias, mas também… O que? O Junior na televisão? Tudo bem, não há nada mais natural que isso, mas é muita ironia, não? Na entrevista ele falou que muitas pessoas o vêem apenas como integrante da dupla Sandy e Junior, esquecendo que ele é uma pessoa. Na verdade, isso foi o foco do programa. Mônica ficou tão sem graça que acabou de lanchar o mais rápido possível e saiu dali.

A voz bonita do aeroporto anunciou o novo horário do vôo. Daqui a vinte minutos? Então dava para dar uma olhadinha na lojinha ali em frente. Havia umas prateleiras cheias de cd’s nacionais, próprios para turistas esquecidos e brasileiros saudosos. Mônica, sem intenção de comprar nada, deu uma rápida olhada antes de ir para o portão de embarque. Mas parou alguns instantes e, sem querer, ficou olhando o cd de seu “amigo famoso”. Finalmente, Mônica admite para si mesma que está apaixonada, mas ao olhar o nome das músicas, arqueia a sombrancelha e sai.

Agora Mônica está no avião. Olha aquele céu cinza da cidade em que nasceu, pensando no fim de inverno que iria pegar na também cinza Inglaterra. De repente, ela abre a bolsa e tira, vejam só, o cd que tinha visto na loja. Algumas coisas têm de ser feitas discretamente, como comprar uma coisa desse tipo. Ela abre a caixinha, ignora o cd e folheia o encarte.

 

– É, acho melhor eu ir para a Inglaterra, mesmo. Tudo bem, ele pode até ser legal, mas Sandy e Junior, ninguém merece. E eu tenho um nome a zelar, né?

 

 

AS DUAS PRAGAS de ÉDER EGIPTO por alceu sperança

O aeroporto está encruado desde a década de 50, o que por si só é uma praga

 

É claro que você conhece o Éder Egipto. Ele vive zanzando pelo Calçadão. Para uns, é um gênio. Para outros, meio doido. Sabe aqueles câmeras chatos de TV, que são pautados para ir ao Calçadão fazer filmagens circunstanciais de transeuntes? Certa vez filmaram o Éder e botaram a imagem como “circunstancial” de uma reportagem sobre aids. Daí que no dia seguinte todo mundo começou a evitar até respirar o mesmo ar que o Éder respirava.

Em outra ocasião, a reportagem era sobre o El Niño e lá estava de novo a imagem circunstancial do Éder. Daí que o pessoal só falava com ele em portunhol, achando que fosse paraguaio ou algo assim.

Mas agora você já sabe quem é o Éder Egipto. É esse mesmo. Um sujeito que nasceu em Cascavel, o próprio ovo da serpente, para quem Cascavel não é uma cidade, mas um país. Aeroporto para ajudar Toledo? Nem pensar: Éder Egipto quer que Toledo se dane. Integração regional? BaleIa: coisa que os toledanos investiram para prejudicar Cascavel. Costa Oeste? Só se forem as margens do rio Cascavel. Turismo? Bobagem esses estranjas perderam tempo com as Cataratas, que todo mundo já viu em cartão-postal, e deixar de ver nosso maravilhoso Lago Municipal. Mais bairrista impossível: para ele a Sanepar não existe, só o antigo Departamento Municipal de Água e Esgoto. E a Unioeste é uma farsa montada no deserto do Arizona, como a chegada do homem à Lua. O nome da universidade é Fecivel Forever., E fim de papo.

 

É Esse Mesmo o Sujeito. Vamos à História.

     Você está cansado de saber quem é o Éder Egipto. Vamos então à nossa história da semana.

O Éder certo dia estava ali no Bar dos Irmãos Werlang deitando falação sobre teatro. O tema do dia era Aristófanes, que alguns ouvintes confundiam com o Estefano. Lá pelas tantas, Éder lembrou que Aristófanes viveu ali por volta do final do século V antes de Cristo e alguém surpreso comentou: “Mas como esse Estefano está conservadinho!”

Éder Egipto estava especialmente febril ao discorrer sobre três peças de Aristófanes: As Vespas, As Aves e As Rãs. Seu fanatismo era tão grande que cada irmão o expulsou do bar duas vezes. Seu interesse maior era pela peça As Vespas (escrita em 422 antes de Cristo), pela dicotomia com a Cascavel de hoje: a peça retrata uma Atenas democrática injuriada com seu sistema judiciário. Basta dizer que as vespas que dão título à peça são os juízes. A peça tem também uma briga entre pai e filho parecida com a briga entre Tolentino e Frangão (o pai se chama Filocleão, um juiz). Há também Cleão, o líder político que para Éder Egipto lembraria Salazar.

Diga-se em favor de Éder Egipto que ele destacou o valor da passagem em que Filocleão se disfarça de fumaça para fugir por uma chaminé, o que dá bem testemunho da ginástica com que nossos políticos se viram para sair de situações difíceis.

Eis que uma Tragédia (Não-Grega) Acontece.

Ali pela quinta expulsão, Éder Egipto bateu com a cabeça no meio-fio e começou a delirar. Cascavel, para ele, era uma Atenas que traíra a si mesma e precisava ser castigada. Viu-se no cenário e no figurino da Atenas antiga enquanto percorria o Calçadão.

– Cadê aqueles câmeras circunstanciais que nunca se vê no Calçadão quando se precisa deles?

Ao lado da grande cruz, Éder Egipto esquentou uma chaleira de água debaixo de um liquinho. Meteu dois saquinhos de chá da lndia na         chaleira e gritou:

– Chazão!

Um raio desceu do alto e atravessou Éder Egipto de alto abaixo._E ele se transformou num daqueles heróis de histórias-em-quadrinhos, com a missão específica de “lutar em defesa de Cascavel” contra o inimigo Toledo, que queria roubar nosso aeroporto desde a década de 50.

Espera lá, dirá o leitor: o Billy Batson (e não Willy Barth, diria Éder) se transformava no Capitão Marvel quando pronunciava a palavra mágica Shazam e não Chazão… Acontece, leitor complacente, que aqui é terra do amargo. A palavra mágica só podia ser mesmo Chazão!

Pois o que é o chimarrão, no fim das contas, mais do que um baita dum chá muito do macho? O chá da Índia foi só para disfarçar, mas não colou. Era mate, mesmo, vamos confessar.

Então Sobreveio a Primeira Praga.

Éder Egipto se viu dotado de uma capa e no peito um grande C, que Darci Israel chamaria de Cascavelão. Era, afinal, o defensor de Cascavel, a boazinha, contra os malvados toledanos que pretendiam desviar nosso aeroporto, beijar nossas mulheres e batizar nossos filhos.

Logo começou a perceber a extensão de seus poderes heróicos: ao gritar Chazão! de posse da obrigatória cuia, ele se transformava no Capitão Cascavel. De sua língua emanava um poderoso veneno. Das pontas dos dedos saíam vespas, como na peça do Estefano, quer dizer, de Aristófanes. Percebeu, com o treinamento de seus dotes heróicos, que ao seu comando mental qualquer tipo de inseto podia sair de seus dedos estendidos do mesmo jeito que outros heróis emitiam raios laser.

– Que sobrevenha a primeira praga contra os que não me deram ouvidos e entregaram o aeroporto para Toledo: os besouros vão tomar conta de tudo!

E foi aquela besourada tomando conta de Cascavel exatamente como, Éder Egipto praguejou.

Então Sobreveio a Segunda Praga.

Por um instante Éder tentou imaginar qual seria a segunda praga. Pensou em uma infestação monstruosa do Aedes agypti, mas acreditou que seria uma praga óbvia demais, recorrente ao seu nome e sobrenome. Preferiu que das pontas de seus dedos saíssem bandos de borrachudos.

Era a segunda praga. Como os poderes de Éder derivavam do mate e ele não chegou a tomar a cuia inteira, como reza a tradição, não conseguiu rogar todas as sete pragas regulamentares em histórias desse gênero. Voltando a seu estágio comum de mero Éder Egipto, foi abordado por um repórter, acompanhado de seu câmera circunstancial:

– Conta pra nós essa história das duas pragas, meu caro Éder Egipto.

– Por enquanto é só besouro e borrachudo. Se vocês continuarem a entregar tudo que é nosso pra Toledo e Foz do Iguaçu, as próximas pragas serão um estouro de rinocerontes e uma catingueira de gambá. Por enquanto foram apenas pragas voadoras porque a minha raiva era aérea, por causa do Aeroporto. E vão fazendo a pista, porque senão eu dou mais uma mamada aqui na bomba e grito Chazão! outra vez!

 

EQUILIBRISTA por helena sut

Cinco da tarde. A chuva traz cores sombrias ao céu espelhado nas ruas asfaltadas. Cidade vazia, um vento cortante, uma esperança, um pensamento esquecido… Quase como uma sombra que se multiplica, a trajetória de um louco encontra o destino em um beco sem saída e fica suspensa na tênue linha da razão abandonada ao meio-fio.

 

Um ranger de porta, talvez uma fresta escondida na lembrança do personagem. O homem equilibra um verso no limiar do horizonte tardio. Uma solidão reescrita na face nua… Uma marca de expressão se sobressai no rosto talhado de tempo. Sorri um riso adormecido, uma recordação reanima o corpo e o poeta lança um grito cerzido de palavras mudas espelhadas no chão.

 

Um pingo de chuva cai no escrito imaginário, uma lágrima reencontrada no caminho. Uma trovoada interrompe o silêncio suspenso. Mais um pensamento está fadado ao esquecimento. Descompasso, o coração dispara em dissonância com os pausados passos.

Uma encruzilhada e mais um beco sem saída. Perdido de suas representações, o louco abandona sua sombra. Liberto de si, percebe que o porvir está além da limitada reprodução e ousa trilhar outros espelhos já anoitecidos.

 

No portão, um ancião cuida das horas. Deixa o olhar vagar nas ruas desertas e reencontra, no corpo cambaleante, um movimento juvenil. O desejo de uma antiga ruga abre uma janela iluminada no dia cinza. Um sorriso embriagado de sonhos rasga o desamparo.

 

Um carro com faróis apagados surpreende os personagens. Passa como passam todos os movimentos. Lança a água do asfalto e lava o instante com um susto anônimo. As janelas escuras aprisionam algumas faces, talvez um solidão, talvez uma loucura… O carro desaparece na esquina de um horizonte anoitecido.

 

O poeta atravessa o poema de sua existência na calçada e o ancião compreende, numa leitura silenciosa, que a tarde desvirginada os condenou ao único reflexo.