UM NOME A ZELAR conto de deborah o’lins de barros

Mônica tem 22 anos, dinheiro e um diploma recente em Cinema pela PUC. Tem amigos moderninhos, também. Seu ideal de vida era muito parecido com o de outras garotas da sua geração: a arte, o belo e a estética, boa música e drogas lícitas. Um maço de Carlton Red, um chope e um Smirnoff Ice por dia. Ela também tem um objetivo, claro, que é trabalhar fazendo roteiros e edição de filmes. Estamos em São Paulo e o mes é dezembro de 2005.

O dia da apresentação de seu curta-metragem de seu grupo, como trabalho final da faculdade foi um barato. O filme era sobre um grande mal-entendido, que acabou sendo a grande graça da história. Mônica ficou toda prosa por mostrar seu trabalho para a família e amigos. Estava quase que pensando em cancelar sua viagem para fazer uma pós na Inglaterra, só por que não os veria durante tanto tempo. Aconteceu que nesse dia, Alex, seu quase-irmão,  a chamou para uma festa. Mônica, naturalmente, aceitou. É aí que começa:

 

– Vai ser num barzinho “da hora”, você vai, né?

– Claro né, Alex. Perder showzinho do meu melhor amigo, ninguém merece…

– Conto contigo lá. Vai ser uma jam session.

 

Só tem um problema: Mônica não sabia o que era uma jam session. Sendo assim, ao chegar em casa com o canudo na mão, entrou no MSN e não comentou com ninguém sobre seus programas para aquela noite. Só tinha certeza que ouviria uma mistura de jazz e rock, que era o que Alex mais gostava de extrair do contrabaixo que tocava.

 

– Tchau, pai! Já tô indo!

– Tem hora pra voltar?

– Não, mas meu celular tá ligado.

– Você não vai num pagode, vai?

– Claro que não, eu tenho um nome a zelar, né? Vou numa jam-session.

– E o que é isso?

– Sei lá. Tchau.

 

O bar era estreito, comprido e tinha um mezanino. Em baixo ao fundo, um palco e no centro do salão mesinhas redondas com três cadeiras. O bar ficava à direita e ao lado havia a escada. Em cima, mais mesas no centro e poltronas vermelhas confortáveis encostadas na parede. Mônica gostou de primeira, achou o lugar bem agradável. Alex, que já tinha chegado e estava conversando com uma turma, foi recebê-la:

 

– Até que enfim você chegou, Kikinha! Deixa eu te apresentar um pessoal.

 

Mônica se enturmou rápido com os amigos de Alex. Ainda mais com a quantidade de drinks que passavam pela mesa. Lá pelas tantas, já mais extrovertida, ela admitiu que nem era tão espontânea assim, mas queria comemorar a sua formatura e a partida para a Inglaterra em fevereiro.

 

 

***

 

 

A música estava ótima, as pessoas se divertindo, Alex inspiradíssimo e Mônica enchendo a cara. Depois tudo ficou mais calmo, aconchegante, e depois silencioso. Quando acordou, Mônica estava ouvindo apenas sua respiração quando, ainda meio tonta, ouviu som de seu telefone:

 

– Alô, mãe?

– Filha, você vai almoçar em casa?

– Ahn? Vou sim, mãe. Vou almoçar em casa.

 

Desligou o telefone, se ajeitou de novo e só aí percebeu: aquele teto não era da cor do teto de seu quarto. Olhou para o lado, viu um lustre. Não havia lustres no seu quarto. Olhou para o outro lado. Era Alex? Não… não poderia ser. Alex sempre foi meio mulherengo, mas a Mônica era sua quase-irmãzinha. Espere, ele está acordando. Agora, Mônica pode ver quem é.

 

– O que? Junior?

– Ahan… Bom dia, Mônica, o que foi?

 

Ela não poderia acreditar. Ela, justamente ela, Mônica, recém-formada em cinema, leitora de Jack Kerouac e Jean-Paul Sartre… Acordando ao lado de Junior? Podeira ser qualquer outro, mas justo o da dupla Sandy & Junior? Ela não queria acreditar que isso pudesse ser verdade.

 

– Mônica, você quer uma aspirina? Acho que você estrapolou um pouquinho ontem.

 

Junior senta e veste um calção. Depois se levanta e vai até o banheiro. Oh, não! Agora que  Mônica não queria acreditar mesmo. Estava agradecendo a Deus por não ter levado ninguém ao bar e porque sabia que Alex guardaria segredo de que ela havia, digamos, chegado às vias de fato com o Junior.

 

– Oi… aqui está o comprimido. Beba a água toda.

– Obrigada. Olha, eu queria falar uma coisa.

 

Na verdade, Mônica não sabia muito o que falar. Tudo o que ela queria era que aquilo fosse um trote ou coisa parecida. Mas não era. Sendo assim, tudo o que ela poderia dizer era que não tinha ficado com ele por ser um cara famoso. E foi o que fez. Junior, por sua vez, confessou que adorou ter conhecido uma menina como ela. Disse que Mônica era inteligente e simpática, além de linda. Também se comprometeu a não comentar com Alex, que na sua opinião foi o baixista mais original com quem havia tocado naquela noite.

 

 

***

 

 

O almoço foi tranquilo. Os pais de Mônica não perguntaram nada e ela, por sua vez, também não falou sobre o que havia acontecido. Durante a tarde, depois de tomar uma pílula “do dia seguinte”, só por desencargo de consciência, ela ficou pensando, tentando lembrar não só de o que aconteceu, mas como.

O telefone toca. A Bina acusa que é Alex quem chama. E agora, atender ou não? Eis a questão. E se for tudo uma brincadeira que fizeram com essa pobre menina rica? Ai meu Deus, oh dúvida cruel…

 

– Alô, Mônica?

– Oi Alex, tudo bem?

– Tudo… Foi mal por ter te deixado sozinha ontem. Mas eu tive que sair logo depois de tocar por que tinha que fazer um monte de coisas hoje de manhã. Você me perdoa?

 

O Alex, pedindo perdão? É, isso não poderia ser um trote. Para ele falar assim, só poderia ser verdade. Mônica conhece como ninguém seu melhor amigo.

 

– Não, Alex, está tudo bem, eu me diverti bastante. Fiquei batendo papo com uma galera que conheci.

– Ah, que bom. Olha, eu preciso desligar. Depois a gente se encontra para falar como foi o último dia da faculdade, acabou que a gente nem conversou direito ontem, né?

 

Alex não era bom mentiroso. Ele realmente não sabia de nada. Mônica suspirou aliviada e decidiu que, a partir daquela noite, não mais ultrapassaria seu limite clássico de um chope e uma vodka ice, para garantir que isso nunca mais aconteceria. De repente, Mônica tomou um susto. Se pegou pensando em Junior. E agora? O que fazer? Bem, pelo menos ele se mostrou bem mais gente boa que aquele namorado que havia dispensado umas semanas atrás. Mas não! Mônica não poderia gostar de um cara que canta “vamos pular” com a Sandy.

 

 

***

 

 

No dia seguinte Mônica resolveu “se purificar”, visitando o MASP. Museu mais bonito que esse só o de Belas Artes, no Rio de Janeiro, que visitou nas férias de julho. Viajando no tempo e nas telas, Mônica se viu novamente pensando em seu segredo. Tinha que admitir, ao menos para si mesma, que sentia vontade de encontrar Junior de novo. Ao ver um quadro de Di Cavalcanti, “Cinco Moças de Guaratinguetá”, pertencente ao seu movimento arístico favorito, seus pensamentos viajaram de novo; pensava nos estudos que começaria na Europa.

Mesmo assim, seus anseios reprimidos se concretizaram. Com quem ela esbarra, repentinamente, no museu? Exatamente.

 

– Oi, Mônica, tudo bem?

– Oi, Junior… tudo… Ué, achei que você vivesse fazendo shows por aí…

– É, mas não às vésperas do Natal, né?

– É, tá certo, claro…

– Você vem sempre aqui?

 

Os dois riram. Embora extremamente constrangida, com medo de alguém pegá-la de surpresa, batendo papo com o Junior da duplinha cafona que não suportava, Mônica conversou com o rapaz. Mantendo sempre uma distância e fazendo-se de difícil, Mônica debateu sobre a arte clássica e moderna com a pessoa mais “pop” que já conheceu. E novamente agradeceu a Deus por ninguém tê-la visto ali, com ele.

As “coincidências” continuaram a acontecer. Mônica começou a achar estranho que Junior aparecesse na maioria dos lugares que ela freqüetava e que nunca o viu antes. E a forma como ele a tratava, parecia que já eram amigos íntimos… Não isso só poderia significar uma coisa: Junior estava sacaneando Mônica, fazendo com que ela ficasse sem reação na frente das outras pessoas, para que todos percebessem que eles tinham algo mais. Bem, pelo menos era isso que Mônica pensava.

O fim da picada aconteceu no aniversário de Mônica, quando ela foi com os amigos num barzinho que ela nunca tinha ido com sua turma antes. Mesinhas com três cadeiras, palco ao fundo, mezanino…

 

– Oh, não! Eu já tinha vindo aqui antes! Aquele dia, com o Alex… – pensou.

 

Sentados no balcão estavam Alex e Junior, batendo papo. Mônica só viu o primeiro e foi direto falar com ele. Mas Junior foi o primeiro a falar.

 

– Finalmente te encontrei no meu habitat foi aqui que nos conhecemos, lembra?

 

Aquela piscadinha ridícula, depois da frase, foi para acabar. Como esse cara pôde chegar a esse ponto, esse grau de baixesa? E agora, o que Alex ia pensar de Mônica?

 

– Não sabia que eram amigos. Sente conosco, Mônica! E parabéns pelo seu aniversário.

– Obrigada Alex, mas estou com um monte de gente… Depois passa lá na mesa para trocar uma idéia.

 

Mônica não sabia se ignorava Junior, se falava com ele. Acabou que só deu um sorriso rápido e saiu logo. Logo depois chega o garçon na mesa em que ela estava sentada com sua turma.

 

– Boa noite, com licença… a rodada de Ice.

– Boa noite… mas ninguém pediu isso, garçon.

– Foi presente daquele menino ali. – e apontou para Junior – Você que é a aniversariante, não é, moça?

 

O garçon deixou as garrafas e copos, entregou um guardanapo e saiu. Ai meu Deus, pior que piscadinha estilo “olhar 43”, só cantada em guardanapo. Só filho de Chitãozinho ou Xororó pra fazer uma coisa dessas… Ainda bem que estava escrito apenas “feliz aniversário, ass. Junior”, pois todos da mesa queriam saber quem era o patrocinador do gole.

 

– Kikinha, é “aquele” Junior?

– É…

 

Mônica precisava disfarçar, inventar qualquer coisa… Agora!

 

– Ele é amigo do Alex. O conheci quando fui ver uma jam-session, mês passado. A gente trocou uma idéia.

 

Bem, omitir é menos pior que mentir…

 

– E não rolou nada?

– Rolar assim, não rolou nada. Vocês não acham que eu iria namorar com o irmão da Sandy, acham?

– Mas ele é tão gatinho, depois você me apresenta?

– Apresento, sim… Ele é até gente boa, sabiam? Mas deixa eu contar mais da minha viagem mês que vem.

 

Pronto. A melhor coisa a fazer é sempre mudar de assunto.

 

 

***

 

 

Mônica estava em casa, pensando na morte da bezerra, quando o telefone toca. Ih, e agora? É o Junior! Ela decidiu atender.

 

– Oi, Mônica…

– Oi.

– Tá de bobeira?

– Tô, por que?

– Tem como a gente se encontrar agora? Preciso falar com você.

 

Junior foi de carro até a casa de Mônica e os dois conversaram na garagem. Foi um papo sério e, logo depois de entrar no elevador, Mônica lembrou do fim da personagem Scarlet O’Hara, do filme “E o vento levou”.

O que os dois conversaram, ou melhor, o que Junior falou foi quase que esclarecedor. A começar pelo dia em que eles se conheceram: eles apenas se beijaram. Todo mundo sabe que quanto mais se bebe, menos se tem vontade de fazer sexo. Simplesmente não rolou, mas o susto que Mônica teve a levou a pensar que todas as hipóteses que ela criou, realmente tinham acontecido. Outra coisa, todas as vezes em que Junior aparecia, não eram para “humilhá-la”, mas sim para apenas conversar com ela.

Mônica pediu desculpas por ter pensado isso, mas não foi o suficiente para fazer Junior ficar. Ele só queria explicar as coisas para poder começar uma nova turnê musical sem consciência pesada. Já Mônica, com vergonha de ter ouvido tudo o que ouviu de um cara, como ela diz, que canta “vamos pular”, apenas disse que iria para a Inglaterra.

 

– Posso te fazer uma pergunta?

– Pode, Junior.

– Pô, Mônica, eu gosto de você pra caramba. Você vai viajar é pra esquecer de mim?

– Que?

– Você gosta de mim, não gosta?

– Junior, vou para Londres para fazer uma especialização em Cinema. E eu gosto, gosto muito do Junior que eu conheci.

 

Mônicase despediu, deu um tchau com a mão e pegou o elevador. Junior, por sua vez, ligou o carro e foi embora, mas pediu para o zelador do prédio entregar um papel para Mônica. E o cara esqueceu.

 

 

***

 

 

Os dias passaram. Chegou o dia da festa de despedida de Mônica e todas as suas amigas perguntaram pelo famoso que estava ausente. “Ah, sei lá, deve estar em turnê” era a resposta clássica. Alex percebeu que seu falar diziam uma coisa; seus gestos, outra. Mas achou prudente não falar nada, afinal, Mônica estava passando sua última noite em São paulo. No dia seguinte, àquela hora já estaria dentro do avião.

 

 

***

 

 

Aeroporto Internacional de São Paulo. Mônica chegou com duas malas e uma bolsa de mão. Apenas seus pais a acompanhavam e depois ela se despediu deles. Queria ficar sozinha nesses últimos momentos. Droga, a pior coisa que poderia acontecer, aconteceu: o vôo atrasou. Bem, então Mônica decidiu tomar um lanche para fazer hora. Deus salve o dono da lanchonete, a melhor coisa para fazer passar o tempo é assistir televisão.

Começou um programa de entrevistas. Tevê a cabo é outra coisa, não mostra só porcarias, mas também… O que? O Junior na televisão? Tudo bem, não há nada mais natural que isso, mas é muita ironia, não? Na entrevista ele falou que muitas pessoas o vêem apenas como integrante da dupla Sandy e Junior, esquecendo que ele é uma pessoa. Na verdade, isso foi o foco do programa. Mônica ficou tão sem graça que acabou de lanchar o mais rápido possível e saiu dali.

A voz bonita do aeroporto anunciou o novo horário do vôo. Daqui a vinte minutos? Então dava para dar uma olhadinha na lojinha ali em frente. Havia umas prateleiras cheias de cd’s nacionais, próprios para turistas esquecidos e brasileiros saudosos. Mônica, sem intenção de comprar nada, deu uma rápida olhada antes de ir para o portão de embarque. Mas parou alguns instantes e, sem querer, ficou olhando o cd de seu “amigo famoso”. Finalmente, Mônica admite para si mesma que está apaixonada, mas ao olhar o nome das músicas, arqueia a sombrancelha e sai.

Agora Mônica está no avião. Olha aquele céu cinza da cidade em que nasceu, pensando no fim de inverno que iria pegar na também cinza Inglaterra. De repente, ela abre a bolsa e tira, vejam só, o cd que tinha visto na loja. Algumas coisas têm de ser feitas discretamente, como comprar uma coisa desse tipo. Ela abre a caixinha, ignora o cd e folheia o encarte.

 

– É, acho melhor eu ir para a Inglaterra, mesmo. Tudo bem, ele pode até ser legal, mas Sandy e Junior, ninguém merece. E eu tenho um nome a zelar, né?

 

 

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