Arquivos Diários: 29 maio, 2008

PALAVREIROS da HORA atendem ao chamado e vão às escolas- pela editoria

PALAVREIROS da HORA PARTICIPAM DE SARAU LITERÁRIO NO COLÉGIO RIO BRANCO, DE CURITIBA.

 

              parcial da sala.

 

 

Os poetas Manoel de Andrade, JB Vidal e João Batista do Lago, integrantes do site PALAVRAS, TODAS PALAVRAS participaram na tarde da última quarta-feira, 28/05/08, no Colégio Rio Branco, da rede estadual de ensino, de um sarau literário, organizado pelas bibliotecárias Deisi Mara Weis Belém e Lauzina Bomfin Lopes. O sarau literário foi coordenado pela professora de literatura, Neiva Terezinha Piacentini, que contou com o total apoio da diretora do Rio Branco, professora Ana Cláudia Michelin.

O sarau literário foi uma experiência inédita e a primeira de uma série que será desenvolvida pelo colégio com o objetivo de levar até os estudantes os escritores da atualidade e com eles promover debates sobre o papel e função da literatura. Neste primeiro encontro o tema foi “O que é Poesia?” que, segundo a professora Neiva, foi proposto pela comunidade dos alunos do Rio Branco.

Além de falarem sobre a temática proposta, Manoel de Andrade, JB Vidal e João Batista do Lago fizeram declamações de poemas de suas autorias. Ao final do encontro tanto os alunos quanto os professores e bibliotecárias, assim como os poetas convidados foram unânimes em admitir que o encontro alcançou seus objetivos e mostrou-se como uma experiência impar para o desenvolvimento intelectual dos alunos.

 

parcial da sala com a professora neiva terezinha no primeiro plano.

os poetas manoel, joão batista e vidal em atividade com os alunos. na parede o tema do dia.

*na página “sala de visitas/fotos” você vê mais fotos do evento.

PRELÚDIO DE NATAL PARA SEXTETO DE CORDAS – por zuleika dos reis

Ana solta nas noites, gazela. Lagarta no casulo das manhãs. Diante da janela, crisálida.

                        São Paulo, um dia a mais, estrela Vésper. Das metamorfoses, quem sabe o exato instante?

                        Ana lembrando-se de Daniel na evocação de Márcia, Márcia na fúria do ensandecido ciúme a escurecer-lhe os olhos castanho-dourados, olhar de Márcia sempre atento qual cão de caça diante de qualquer ser – mulher, homem, criança, bicho, coisa – que se aproxime de Daniel. Márcia, a que enlouqueceu de paixão, um pouco mais cada dia e todos em volta, principalmente Daniel, em quem tudo lhe começa e termina. Daniel, retendo ainda entre os dedos os derradeiros grãos de seu amor.

                        Versos de espanto, abandono, névoa, quando o ar falta, quando o rosto desaparece no espelho. Hotéis, taças de sombras púrpuras, bocas ávidas a refazerem o triângulo inaugurado pela primeira serpente. Daniel, o de olhos sombrios, rosto de musgo e neve, resgatando palavras à morte. Ana, a de olhos acesos, floresta de cabelos, canto buscando o futuro.

                        Daniel em fuga dos tempos perdidos, os tempos de Márcia, Ana, Rubem.  Daniel se ocultando de todos, longe, algures, cercado de lapsos, verbos, entrelinhas.

                        Rubem, o estrangeiro, com seu violino, as mãos longas colhendo silêncios e melodias sempre-vivas, plantando outras nas partituras. Ana se fazendo violino. Dos vários quadrantes, imagens musicais que os dois espalham pelas ruas, becos, bares, esquinas, países.

                        Ana vagueando por um sonho. Primeiro, a paisagem indistinta, aos poucos ruas, pessoas, ouro nos cabelos, azuis de muitos naipes nos olhos, nas bocas arranjos insólitos de consoantes e vogais.

                        Uma casa um vestíbulo uma sala uma janela um vulto uma mulher um nome: Elisa, a dos pés ciganos, a do corpo perfeito, a do riso aberto, a mesma que partiu há tempos do país do Sol, seguindo o outro estrangeiro. Recostada na janela, olha a neve caindo sobre o bosque onde na primavera os esquilos brincam – agora hibernam e hibernarão por todo o inverno, como no país vizinho, pátria do Papai Noel que as crianças remanescentes esperam, onde as noites vão se alongando…alongando…até durarem, em cada dia, duas vezes completas o círculo do relógio.

                        Rubem de repente, de um dos quartos. Acerca-se de Elisa, circunda-lhe a cintura, olha também os esquilos invisíveis. Então se voltam, diante de Ana. Elisa ri seu riso branco, estende as mãos, Ana se aproxima, os três, um único abraço. Por que Daniel não chega? De imediato compreende: o sonho é de Rubem.

                        Cheiro do pulôver de Daniel, dos versos no esconderijo da noite, dos cabelos, da pele, na pele de Rubem dormindo.

                        No sonho de Elisa, Ana chega à janela de Rubem e olha o Sol prédios letreiros antenas cruzamentos minúsculos passantes com pacotes de Natal. Da janela de Daniel e de Márcia, à deriva, as imagens são campos de neve no sonho de Ana. Por seu lado, Siegfried vê viagens de antepassados nos mares do Norte, sem aviso da incursão noturna de Elisa ao país do Sul.

                        Letreiros se acendem, o violino toca. Aos poucos, as notas escapam da pauta, voam, descem à praça, se esgueiram dos automóveis, dos semáforos, dos edifícios, dos mendigos e vão entrando no quarto de Ana, já em outra harmonia que, durante o trajeto, foram se perdendo do roteiro original.

                        Risos em fuga, Márcia. Dança do fogo, Elisa. Violoncelo de Siegfried, grave contraponto. Dialogam os violinos, piano, pianíssimo, vai nascendo a borboleta enquanto o céu tece a Lua, logo mais completa e branca como um haicai de Bashô.

 

PLANALTINA poema de tonicato miranda

de manhã bem cedo, vou

o sol na ponta do nariz

estou no centro do meu País

estou no centro da minha raiz

sou caule de guabirovu

tronco e galhos, nu, nu

e tu não estás aqui

na sombra do pé de pequi

ou atrás da minha orelha

por onde andarás, abelha

escondida em qual telha

em qual casa à frente do olhar

e eu tão longe de casa e do lar

quantos suspiros terei de arfar

quantas velas terei de inflar

neste meu barco interior

seguindo triste, quase a deriva

meu convés sem tu, lady godiva

de manhã bem cedo vou

ao encontro de tu, Planaltina

paixão, cerrado, menina

pele morena, cabocla e ginga

pote de barro, água de cacimba 

beijo de colibri na flor do campo

bois na canga no fundo do brejo

mornamente feliz, o azul eu invejo

saudade do menino com sarampo

dos beijos roubados à enfermeira

do futebol no meio da rua

desde manhãzinha até a bola virar lua

surgindo atrás da goiabeira

mas o sol continua na ponta da raiz

eu bem já sabia que sempre fui feliz

Planaltina é apenas a nave voando

o horizonte distante se elevando

ela está na ponta do meu nariz

OLAVO BILAC, ALBERTO DE OLIVEIRA E RAIMUNDO CORREA o trio parnasianista do Brasil – pela editoria

“Quero que a estrofe cristalina,
Dobrado ao jeito
Do ourives, saia da oficina,
Sem um defeito”
(Olavo Bilac)

 

 

Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia

 

 

 

Valorizando o emprego da palavra rara, do vocabulário precioso, da frase rebuscada, a poesia parnasiana teve, na preocupação com a perfeição da forma, a sua característica básica, ainda que em prejuízo da qualidade de sua expressão poética.

O estilo se define, portanto, pelo culto da forma e foi, sobretudo uma renovação poética. Esta renovação teve sua origem na França. Em l886, foi editada uma antologia, Le Parnasse Contemporáin, que reunia composições de diversas tendências, com uma linha comum: reagir contra o romantismo. Seus principais colaboradores, Leconte de Lisle, Theóphile Gautier, Théodore Banville, José Maria Herédia (de nacionalidade cubana), Baudelaire, Sully Prudhomme (ganhador do prêmio Nobel em 1901), Verlaine, Mallarmé, obedeciam a uma nova estética que pregava o principio da Arte pela Arte. Defendiam em última análise, uma arte que não servisse a nada, nem a difusão qualquer ideologia, nem a ninguém; uma arte voltada para si mesmo em sumo. O objetivo da “arte pela arte” é o Belo, a criação da beleza pelo uso perfeito dos recursos artísticos. Neste sentido, levam ao exagero o culto da rima, do ritmo, do vocabulário, do verso longo. Para o Parnasiano, a poesia deveria ser trabalhada até que resultasse perfeita.

Victor Hugo já conotava a posição de burilador que o poeta devia buscar e com ela se identificar:”Le poête est cizeleur, te cizeieur est poéte.”

 Características do Parnasianismo:

a) Objetividade e descritivismo

Reagindo contra o sentimentalismo e o subjetivismo românticos, a poesia parnasiana era comedida , objetiva: fugiadas manifestações sentimentais. Buscando esta impassibilidade( frieza), empenhava-se em descrever minúcias, na fixação de cenas, personagens históricos e figuras mitológicas.

b) Rigor formal

Opondo-se à simplicidade formal romântica, que de certa forma popularizou a poesia os parnasianos eram rigorosos quanto à métrica em rimas e também quanto à riqueza e raridade do vocabulário. É por isso que são freqüentes, nos textos parnasianos, os hipérbatos( ordem indireta), as palavras eruditas e difíceis, as rimas forçadas.

c)Retorno ao Classicismo

Abordando temas mitológicos e da antigüidade greco-latina, os poetas parnasianos valorizavam as normas e técnicas de composição e, regra geral, exploravam o soneto (poema de forma fixa).

d)Arte pela arte

 

ALTAIR DE OLIVEIRA colaborador deste site é publicado no blog do noblat.

clique em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=herois_dias_amenos_-_altair_de_oliveira&cod_Post=103818&a=111

A ONDA PASSOU – poema de may waddington

a onda passou,

a terra parou de tremer 

e existe um lá fora fresco

onde eu posso ir…

pois é só abrir

a porta…

 

Fiquei presa

no momento que te perdi.

Presa na exclusão, não consigo sair.

Suas palavras dão voltas em minha cabeça,

verdades, açoites, relâmpagos,

temporal em mar noturno.

Como fui tão cega? Tão surda?

Como não vi o abismo em que me atirava?

As palavras ricocheteiam na caverna.

Fatais, definitivas.Tremendas.

O trovão estoura um “NÃO“.

O raio revela e cega.

A onda me lança

para o alto,

contra as rochas,

pesando sobre o corpo

arrastado ao fundo

areia, conchas,

escuro…

faz-se o silêncio.

Descubro a intimidade

de joelhos próprios

próximos,

meus.

Quem sabe

a onda me atira na areia?

existe ainda a ilha, praia minha?

Grécia branca e sagrada que me resgata?

Abro os olhos para a luz, ouço onda a farfalhar

doce como saias meigas na areia da costa.

Olho em volta reconhecendo partes

entre os destroços matinais que

me acompanharam no escuro

 

 

Ali, pedaço da proa atrevida,

busto de fêmea que se sabe amada…

Taboas ao léu, como eu, ao longo da praia…

Uma parte do mastro foi lançada sobre árvores!

Poderá servir de viga para um novo telhado?

Conseguirei uma fogueira, acesa pelo

fogo ancestral que saberei alimentar

com lascas, taboas, galhos?

Encontro, nessa ilha,

a menina que fui,

que conjugou com o mar

o maior de todos os segredos?

O único que realmente valeria à pena?

A lealdade primeira, tecida na entrega

do coração jovem à beleza, poder,

à santa ira das águas?

Menina, fiz a promessa maior

de ser toda sua, mar, no sentimento

triste – sim – mas todo puro e todo seu:

A lágrima me provava ser eu sua

Ser eu água, conter

eu também o sal.

Sentada na areia jurei,

do alto de meus nove anos,

para sempre ser eterna, sua assim:

amar as forças puras e terríveis,

a engenharia do molusco,

pulgas zarolhas na areia,

dança das aves finas e magras

atrás de tatuís na branca espuma…

vigor das asas em mergulhos certeiros,

brilho de escamas de peixes

alçados por bicos hirsutos!

Nunca esquecer a total saciedade

doada no gomo de tangerina,

com suas surpresas, cores e cheiros!

o segredo da florada mágica de copas inteiras,

a amizade do cão, a cumplicidade do amigo

selvagem, como o carangueijo escondido

ovo do lagarto guardado no banheiro!

 

Foi aí que jurei,

escolhi de que lado estava.

Fui dona dos meus próprios joelhos

Cúmplice do céu, da natureza toda, inteira.

Pois é  desse momento que não devia me afastar

não daquele carro, naquele posto de gasolina,

onde seus nãos agitavam tempestades

cujos raios revelavam a distância

que me encontro

das promessas

que fiz ao

mar.

 

POEMA de MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo —
Luto, estrebucho… Em vão! Silvo pra além…

Corro em volta de mim sem me encontrar…
Tudo oscila e se abate como espuma…
Um disco de oiro surge a voltear…
Fecho os meus olhos com pavor da bruma…

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?…
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante.

ESTAR NA MIRA poema de darlan cunha


Onde anda você nesse dia tonto de maio, criatura
sem reforço no coração, nas pálpebras ? É preciso estar
forte e atento, sem tempo para memento
nem alusão ao fictício chegar
de estranhos, pra mim
basta menos que um dia, para que eu te complete o estupor
que é viver comigo, mas saiba
que a incrível história da cândida eugênia ainda está
por vir, por acalantos, troncos e barrancos,
ainda por mim será feita muita desgraça, por ti
uma viagem à idade só luzes não viva fora
de cogitação, que o nosso intramuros, nosso intramares,
nosso patamar é o além-lá da concórdia pura
e simples, da discórdia por etapas sociais, miúdas cerejas
.

QUERO poema de ana maria maruggi

Quero

a tua energia minguada

Teu suspiro

em fragmentos

Meu nome

em sussurros

Teus músculos

cansados

entornando

lampejos de abraços

 

Quero partilhar

cúmplice

de íntimos segredos

engendrar planos

Nosso veneno

Nossa existência

Esxudar sonhos adormecidos

Desfrutar lentamente

do seu corpo exangue

AS BARRICADAS que ABALARAM o MUNDO – por manoel de andrade

1968: Uma Revisão  – 4ª Parte:

O palco da história:

Ante o cenário imenso da Guerra Fria e a disputa pela corrida espacial, o Mundo, em 1968, parecia um grande teatro onde, bem distante das fronteiras de Saigon, se representavam as dramáticas cenas de muitos outros vietnams. Por trás do enredo de tantas tragédias, os atores mais jovens, empunhando suas bandeiras de sonhos, disputavam seu inefável território de esperanças contra os velhos generais que defendiam as milenares trincheiras do poder, da ganância e do preconceito. Das barricadas de Paris às agitações de Berlim, de Varsóvia, de Beirute, do Cairo, de Caracas, de Jacarta…; do outono carioca à primavera de Praga; da oratória inflamada de Rudi Dutschke ao lirismo armado de Evtuchenko; da “Sexta-feira Sangrenta” ao Massacre de Tlatelolco; da filosofia de Marcuse ao teatro de Brecht; da “Marcha sobre o Pentágono”, em fins de 67, à “Passeata dos Cem Mil”, em 68; dos mandamentos da Anti-Cultura aos postulados socialistas; da inconseqüência política da geração hippie ao pragmatismo das barricadas estudantis; das trincheiras abertas na América Latina às guerras contra o colonialismo português na África; do Apartheid às lutas contra a segregação dos negros, chicanos e porto-riquenhos nos EE.UU., por tudo isso e muito mais o ano de 68 marcou historicamente todos os quadrantes do mundo.

Todos sabem que os protagonistas que brilharam na ribalta daquele imenso drama chamado 1968 foram os estudantes do mundo inteiro. Não me estenderei sobre os acontecimentos que antecederam aquele ano, mas acho importante comentar que a revolta dos estudantes em Paris era apenas parte de um longo processo. Tudo isso começou em Roma, em 1960, continuou na agitada Berkeley de 62, seguiu-se 63, em  Pisa e Florença, com as primeiras ocupações da Universidade. Em 64, os estudantes americanos, liderados por Mário Selvo, fazem uma imensa manifestação ultrapassando os limites da famosa Universidade de Berkeley. Em junho de 67, por ocasião da visita do Xá da Pérsia (Irã) a Berlim Ocidental, a morte do estudante Benno Chnesorge incendiou a revolta no país inteiro e em dezembro, em Munique, o estudante Rudi Dutschke pintou, num memorável discurso — que já anunciava a sua grande liderança na Europa  — a Guerra do Vietnam com as cores mais sinistras. Contudo, foi somente no ano seguinte que todo este cenário se incendiou pelas barricadas em luta.

Os primeiros atos:

Já em janeiro, essa imensa bronca começou na Polônia, quando interditaram a apresentação da peça Dziady, do grande poeta romântico polonês Adam Mickiewicz. Na última representação, sob o reiterado grito de “Liberdade Artística”, muitos estudantes foram presos e posteriormente expulsos da Universidade de Varsóvia. Em conseqüência, na primeira semana de março, os escritores e trabalhadores se reúnem aos cinco mil estudantes no pátio da Universidade para exigir “Liberdade de Expressão” e entram em choque com a polícia. Nos dias seguintes a revolta se estende à Gdansk, Cracóvia e outras cidades onde grandes manifestações marcharam sustentando a bandeira da Polônia e ao som da Internacional Socialista.

Em fevereiro, em frente à Ópera de Berlim Ocidental, cerca de dois mil estudantes protestam com veemência contra a Guerra do Vietnam e dois deles sobem ao alto de um guindaste onde agitam a bandeira vietnamita.

Ainda em fevereiro, uma pesquisa na Universidade de Harvard, constatava que 69% dos estudantes procuravam por todas as formas escapar do alistamento para o Vietnam. Como se sabe, os estudantes de Harvard, que fecharam o campus da Universidade em 69 pelo comprometimento da instituição com a guerra, estiveram na vanguarda das grandes “marchas da paz” e das marchas contra a segregação racial nos Estados Unidos.

Em março, além das manifestações em Varsóvia, ocorrem também revoltas estudantis em Roma, Londres, Milão e Nanterre. Na Espanha, antigas reivindicações ecoaram entre os estudantes quando a Ditadura de Francisco Franco impôs o policiamento interno nas universidades. A Universidade de Madrid é fechada mas a panfletagem anti-franquista e as grandes barricadas marcam o enfrentamento brutal entre estudantes e policiais nas cidades de Valência, São Tiago de Compostela, Sevilha e outras.

No Brasil, em fins de março, a morte do estudante Edson Luiz e a sua missa de 7º dia, no Rio, acenderiam um rastilho de revoltas que explodiram em grandes batalhas campais de estudantes contra policiais em São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, quando destruíram o Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. (Os fatos mais relevantes dessas manifestações no Rio de Janeiro foram descritos nos dois primeiros artigos dessa série: a “Sexta-feira Sangrenta” e a “Passeata dos Cem Mil”)

Em abril, o grande fato político que abalou todo o movimento estudantil europeu foi o atentado, no dia 11 daquele mês, contra o jovem orador Rudi Dutschke, líder da União Socialista dos Universitários da Alemanha (SDS). Planejado pela polícia secreta da Alemanha Ocidental e pelo magnata da imprensa Axel Caser Springer, o atentado provocou violentas manifestações estudantis em todo o país impedindo a circulação dos jornais do “grupo Springer”. O fato provocou manifestações em Roma, Paris, Londres, Florença e Rudi morreu onze anos depois em conseqüência dos ferimentos recebidos. Naquele mês de abril estavam também em pé de guerra os estudantes de Caracas, Bagdá e Beirute.

Os grandes atores:

Em maio os atos mais dramáticos da revolta estudantil ocorreram no mais belo palco da cultura do Planeta e quem sabe por isso, e também pelo charme parisiense, teve um destaque tão grande. Em poucos dias as manifestações paralisaram a França. Os operários se uniram ao movimento estudantil entrando em greve e ocupando as fábricas. Os estudantes de Nanterre se tornaram os donos do Quartier Latin. Interrogado sobre os destinos das manifestações pelo filósofo Jean-Paul Sartre, o líder da revolta, Daniel Cohn-Bendit responde: “ O movimento tomou uma extensão que nós não podíamos prever no início. O objetivo é, agora, a derrubada do regime. Se conseguimos isso ou não, independe de nós. Se fosse também esse o objetivo do Partido Comunista, da CGT e de outras centrais sindicais, não haveria problema: o regime cairia em quinze dias, porque ele não tem nada para enfrentar uma prova de força contra todas as forças trabalhadora”.

Cohn-Bendit, aos 23 anos, celebrizado como líder do Movimento 22 de Março, cursava o 2º ano de Sociologia na Faculdade de Letras em Nanterre. Entre outros líderes como Jacques Sauvageot, com 25 anos e dirigente da União Nacional dos Estudantes Franceses e Jean-Pierre Duteuil, com 22 anos e um dos mais importantes líderes do movimento, Cohn-Bendit era o mais radical. Acreditava que a luta estudantil era apenas o primeiro passo para a contestação de toda a sociedade burguesa. Os estudantes seriam apenas o estopim deflagrador da revolução operária.

A revolta estudantil na França teve um curioso desenvolvimento. Suas reivindicações iniciais eram apenas o questionamento das relações opressivas dos professores para com os alunos e as questões relativas à estrutura, gestão e autonomia das Universidades. Mas em face do apoio popular, dos próprios professores e a violência da repressão policial, em duas semanas a situação mudou rapidamente e o que se pôs em cheque foi a política do General De Gaulle e o próprio sistema capitalista promotor da dependência, da alienação e da exploração da classe operária.

Em junho, o grande destaque da luta estudantil no Mundo foi a célebre “Passeata dos Cem Mil” nas ruas centrais do Rio de Janeiro. Foi, por certo, o maior movimento de massa que a cidade já teve em sua história. Celebrizou-se pela adesão dos mais variados segmentos da sociedade carioca integrando intelectuais, artistas, professores, jornalistas, religiosos, profissionais liberais e o povo representado pelas mais variadas organizações de classe que de braços dados com os estudantes desfilaram em sucessivos cordões pelas grandes avenidas. O grande destaque foi o papel que teve Vladimir Palmeira, presidente da UME, por seus vários e inflamados discursos ao longo de todo o percurso e pela sua condição de maior líder estudantil da época.

Em fins de agosto a Universidade de Brasília foi invadida e com o pretexto de prender estudantes procurados por subversão houve espancamento de alunos, professores e até de parlamentares que tentaram intervir.

Em setembro, o exército ocupou o campus da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), a maior da América Latina. Os estudantes foram espancados e presos e o reitor, como protesto, renunciou.

No dia 2 de outubro, os estudantes de esquerda da Universidade de São Paulo entram em conflito com os estudantes de direita da Universidade Mackenzie. Nos violentos confrontos, que se seguiram no dia seguinte, além dos feridos, o estudante Jose Guimarães, de 20 anos, da USP, caiu morto por um tiro na Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo.

Ainda em outubro, no dia 12, realizou-se em Ibiúna, SP, o trigésimo Congresso da UNE. A polícia faz o cerco da região e prende 920 estudantes. Levados para a prisão, muitos deles, mesmo feridos, são torturados e as mulheres violentadas sexualmente. Os parentes dos estudantes presos são ameaçados e fichados pelo SNI ao entrar com habeas-corpus. Foram demitidos do serviço públicos muitos pais de estudantes presos e repórteres que presenciaram cenas de violência tiveram seus equipamentos apreendidos e a proibição de publicar suas matérias.

As cenas da tragédia:

Contudo, foi ainda naquele mês de outubro, enquanto estudantes da esquerda e da direita se enfrentavam na Rua Maria Antônia que aconteceu o mais trágico e sinistro acontecimento na história dos estudantes em todo o mundo.. Em conseqüência da ocupação da UNAM e da longa repressão policial no governo de Díaz Ordaz, 15 mil estudantes de várias universidades mexicanas saíram numa marcha de protesto no dia 2 de outubro, cruzaram o centro da Cidade do México e no fim da tarde, cerca de 5.000 estudantes e trabalhadores chegaram à Praça das Três Culturas no Bairro Tlatelolco. Os estudantes traziam cravos vermelhos e entoavam canções de liberdade. Ao anoitecer, forças militares e policiais cercaram a praça com carros blindados e tanques, posicionaram-se e começaram a abrir fogo contra a multidão onde se encontravam não só estudantes mas também mulheres, crianças e transeuntes que atravessavam o local. Apesar de vários corpos caídos ao longo da praça, o som de fuzis e metralhadoras continuou ante a população tentando fugir, mas encontrando todas as saídas da praça bloqueadas. Os policiais invadiam apartamentos do grande bloco de edifícios populares que rodeava a praça em busca de estudantes. Testemunhas oculares dos fatos relataram que os cadáveres eram tantos que foram recolhidos em caminhões de lixo. Nunca se chegou a um número exato de mortos. Algumas fontes chegaram a calcular em 1000 mortos, mas há um consenso entre 200 e 300 vítimas. Muitos estudantes foram presos e jamais apareceram (vivos ou mortos). O massacre ocorreu sob o governo do presidente Gustavo Díaz Ordaz Bolaños. O escritor Otavio Paz deixa, naquele ano, o serviço diplomático em protesto contra o massacre. O autor destas linhas passou o primeiro semestre de 1971 no México, morou na praça do massacre e teve contato com pessoas que presenciaram os fatos mas infelizmente o espaço limitado deste artigo não permite que se relate considerações particularizadas sobre aquela tragédia. Em 71, o presidente do país era Luis Echeverría Alvarez, que fora Ministro do Interior de Díaz Ordaz, e que transmitiu a ordem para reprimir a manifestação. Durante seu governo se lançou uma forte cortina de silêncio sobre o assunto. Somente em outubro de 1997 foi criada uma comissão parlamentar para investigar o ocorrido. Echeverría reconheceu que os estudantes não portavam armas e deu a entender que tudo havia sido militarmente planejado para destruir o movimento estudantil o qual ameaçava fazer protestos durante os Jogos Olímpicos do México que se realizaram naquele ano de 12 a 27 de outubro. Em junho de 2006 Echeverría foi acusado de genocídio e colocado, sob judice, em prisão familiar. No mês seguinte foi inocentado da acusação com base numa legislaçao mexicana de exceção. Sobre o massacre muito se tem escrito. A escritora mexicana Elena Poniatowska publicou em 75 La noche de Tlatelolco, e o premiado cineasta mexicano Jorge Fons Pérez, em seu filme Rojo Amanecer, conta, através de uma família mexicana, moradora num apartamento da praça, todo o enredo dos fatos com base no depoimentos de vítimas e testemunhas.

Sobre o ano de 1968 há muitas outras barricadas além daquelas levantadas pelos estudantes em todo o mundo, mas o espaço que disponho não permite outra linha de comentários. Quero apenas registrar que em fins de janeiro a guerra do Vietnam foi marcada pela grande ofensiva norte-vietnamita contra os americanos e contra 36 cidades do Vietnam do Sul. Naquele início de ano a Checoslováquia tem a sua bela primavera socialista de reformas e liberdade mas em agosto começa a sua estação de horror com tanques e paraquedisdas invadindo Praga na calada da noite e, posteriormente, a cidade ocupada por seiscentos mil soldados, sete mil e quinhentos tanques e onze mil canhões. Em abril assassinam Luther King e infelizmente a sua bandeira de luta ainda tem muitas barricadas pela frente.

A crítica do espetáculo:

1968 – 2008: São quarenta anos de um processo histórico cada vez mais crítico e acelerado e a mobilidade conjuntural desse processo nos pede uma revisão periódica de valores. Nesse sentido é indispensável dizer que nem todas as sementes lançadas nas décadas de 50 e 60 geraram bons frutos. Muitos daqueles atalhos trilhados em viagens para o “paraíso” levaram quimicamente ao “inferno”. “As portas da percepção” — abertas com o aval da melhor literatura — se fecharam, posteriormente, no embotamento e na morte. Por outro lado, a formosa bandeira da emancipação da mulher — desfraldada com inadiável coragem ante uma cultura machista e de dependência foi, em algumas de suas trincheiras, hasteada somente em nome da mera sensualidade. O que equivale dizer que por trás das intenções inconfessáveis do erotismo, se lutava para dar cidadania a liberalidades que debocharam das razões do coração e jogaram no lixo o significado ontogênico da vida. Desfilando de mãos dadas, na ampla alameda dessas últimas décadas, a anti-cultura e a pós-modernidade exibiram — e ainda exibem — as aberrações conceituais da arte e uma sofisticada linguagem nas letras. Estes falaciosos paradigmas foram paridos pelo puro intelectualismo, pela irreverência e por uma obsessiva concepção de vanguarda. Chegaram afrontando os valores imperecíveis da estesia plástica e do discurso literário, descartando a expressão figurativa da própria arte e, sobretudo, maculando o encanto e o lirismo da poesia…, levando-a ao descrédito no qual se encontra. No campo ideológico nem todas as sementes caíram em terra fértil e muitos daqueles que, há quarenta anos atrás, hipotecaram a própria vida por um estandarte de luta, não resistiram às seduções insinuantes do poder. Poucos foram os que não negociaram suas convicções e se preservaram inteiramente da lama. E eis porque a época que herdamos traz as pegadas de heróis e de vilões. Um tempo em que os que mantiveram seus sonhos são governados pelos “sábios” de coração vazio. E num mundo comandado pela esperteza e pelo hedonismo é indispensável folhear os anais do pretérito para que as valores humanos, seus militantes e suas trincheiras não sejam esquecidos.

O ano de 1968 sobreviveu na memória de uma geração como um legítimo calendário de lutas. Aqueles que alistaram seus gestos e emoções, palavras e pensamentos não limitaram a dimensão de sua entrega. Prisão, tortura, desaparecimento, desterro e morte foi o preço incondicional de um sonho. O movimento estudantil, como um todo, causou um profundo impacto no mundo inteiro e notadamente na política francesa e norte-americana. O que caracteriza o ano de 68 é a sintonia. O misterioso fenômeno de uma revolta partilhada simultaneamente pelos estudantes de todos os quadrantes da Terra. No leste europeu contra o regime soviético e em todo o ocidente contra o capitalismo e seus prepostos militarizados, e contra um inimigo comum identificado pela unanimidade no repudio a Guerra do Vietnam. Quarenta anos depois nos perguntamos: o que ficou de toda aquela paixão pela justiça e pela liberdade? Ficou a mágica paisagem de um inconquistável território, de uma bandeira de luta que contagiou o mundo, mas restou, também, um desnorteado individualismo, um espírito de competição fechando os caminhos da solidariedade humana.

O resgate da história:

O individualismo contaminou nossa consciência da realidade. A noção de tempo está adoecendo. O mundo está presentificado, agorificado pela cultura da aparência e por um sofisticado e decadente consumismo. É contra esses vírus que temos de nos vacinar. Essa patologia está se tornando endêmica e ela é vital para a sobrevivência dos interesses manipuladores e perigosamente alienantes da globalização. Nossos problemas de hoje não podem ser resolvidos somente no hoje, somente pelas suas implicações imediatas, sem pensar nas suas causas e efeitos. Não somos saudosistas e nem somos descartáveis. Somos antes, durante e depois e por isso não podemos perder nosso sentido de historicidade e de transcendência. Nossa noção de tempo não deve ter um significado meramente cronológico de um tempo que passa e se esvai — mas uma consciência de duração. O tempo atemporal. O tempo que permanece. O tempo bergsoniano. Os nossos jovens de hoje já não têm mais sonhos, nem caminhos para o amanhã e eis porque se cansam e se irritam tão facilmente com tudo. Estão aprisionados pelo presente, pelas algemas da transitoriedade e pela agenda do entretenimento. E eis porque a vida de muitos se transforma numa aventura sem destino, numa estrada para o desencanto, na busca da liberdade por caminhos equivocados e impossíveis. Esse é, para eles, um momento difícil. Não só para eles, para todos os homens. Todos estamos vencidos. Vencidos pela insegurança. Vencidos pela corrupção. Vencidos pela impunidade. Essa é a hora da transição e do impasse e é urgente recolocar nas mãos da juventude, uma bandeira. Em alguma parte da pátria, em alguma parte do mundo, alguém deve estar abrindo novos sulcos e, por certo, já existem sementes germinando, mas a mídia não nos traz essas notícias. Cabe a cada um arar sua própria alma. A psicanálise do nosso tempo deve ser feita sobre o divã da filosofia das ciências humanas e, particularmente, pela História que, como já dizia Cícero, “é a mãe de todas as ciências”. Em todo o continente abrem-se as Caixas de Pandora e temos hoje muitos documentos e bons historiadores que lêem, denunciam e nos ensinam a compreender criticamente o passado, não permitindo que ele seja amordaçado mas sim interpretado dialeticamente como uma nova tese. Nesta ótica dos fatos deve-se salientar que apesar de todos os avanços que ultimamente se tem feito na integração geopolítica latino-americana, apesar da confortável presença de governos populistas na América do Sul e apesar dos governos do Uruguai, Argentina e Chile já terem abertos os escabrosos dossiês de suas ditaduras, é lamentável dizer que o Brasil é o único país da região que, inexplicavelmente, ainda não abriu os arquivos do regime militar. São chegados os tempos de reler a história, de rever nossas ações e omissões e dos pecadores buscarem o confessionário. Quanto aos sobreviventes, devem assumir com humildade essa trégua ou, se preferirem, essa retirada estratégica. As velhas ideologias agonizam em todo o mundo.Estamos no limiar da orfandade e, nessa transição, sequer esperamos por um Messias político. Alguém que nos acene com a redenção social, intelectual e moral da humanidade. Numa época em que nossos arquétipos antropogênicos parecem falar mais alto, é imprescindível redigir um novo código de ética que mostre, implicitamente, a todos nós o próprio significado darwiniano da evolução humana e nos ensine a praticar as imperecíveis verdades do Sermão da Montanha, como queria Gandhi.

Somos os sobreviventes da geração de 68, os herdeiros da saudade e da esperança e não sabemos como encontrar a porta de saída desse imenso shopping de ilusões em que se transformou o mundo. Sobrevivemos num tempo de perplexidades, pressentimentos e indagações. Diante desse angustiante impasse, perguntamos: como será o amanhã se já não temos hoje uma utopia? E eis porque é necessário participar com consciência desse torvelinho inquietante que é o tempo em que nos toca viver. É necessário lembrar aos nossos filhos as barricadas levantadas no passado. É também importante dizer a todos que é necessário perseverarem ainda…, porque num mundo sem utopia é imprescindível não esquecer os que sonharam.

1ª/4ª parte: A sexta-feira sangrenta – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/04/29/1968-a-sexta-feira-sangrenta-por-manoel-de-andrade/

2ª/4ª parte: A Passeata dos Cem Mil – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/05/1968-a-passeata-dos-cem-mil-por-manoel-de-andrade/

 

3ª/4ª parte:  Partidão versus Foquismo – publicada aqui:

https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/2008/05/12/1968-partidao-versus-foquismo-por-manoel-de-andrade/

 

 

 

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PARIS, MAIO DE 1968
A irreverência e a rebeldia dos estudantes franceses arrancaram paralelepípedos e deixaram sementes de mudança.

ilustração do site. fotos sem crédito.