Arquivos Mensais: junho \30\UTC 2008

Recém-nascida / poema de manoel de andrade

                                        para Isabela

 
Teus olhos,
abrem o mundo…
inauguram o destino…

Teu ser…
luz que escavou o ventre em busca do amanhecer,
é a véspera de toda  ventura
o talvez de tudo
uma aurora retirada do mistério.

Passo a passo… e encantada…
ressurgiste na semente peregrina
caminhando como seiva palpitante.
Penetraste nos segredos da criatura
decifrando os idiomas do encanto.
Atravessaste as fronteiras do impasse
e de forma em forma, de reino em reino,
pelas fácies primordiais da vida,
gestada pelo código das espécies
pelo tempo imensurável dos enigmas
e por esse umbilical território da beleza… tu chegaste!

Retornas com o véu do esquecimento
desterrando sombras
e anunciando a esperança.
E agora já és promessa e reencontro,
um botão se entreabrindo num parto de louvores
e assim…eis  a rosa…
a rosa amanhecida
a flor… enfim…
a flor imprescindível.
                                                              
                                                      

Teus olhos
corolas cristalinas de ternura
âncoras da luz e do silêncio,
são retratos adormecidos de outras eras
sóis  que acordarão novas primaveras
cantiga antecipada de  lirismo
invadindo a aldeia da minha melancólica poesia.

Dádiva perfeita
viandante de todos os caminhos
filha  milenar do tempo e das estrelas…
o meu amor apenas germinou teus passos
e construirá contigo um caminho para o sol.

 
                                                            Curitiba, esboçado em junho de 1980
                                                                            reescrito em junho de 2004

Este poema consta do livro Cantares  publicado por Escrituras.

 

CLUBE de CRIAÇÃO do PARANÁ, CONVIDA!

DE TEMPOS… – poema de olavo tenório


De tempos em tempos penso no tempo

Tempo atemporal

Sobra diáfana

Augusta suspensão

De corpo ausente

Augusta interlocução

De mente presente

Correndo em direção

Não da discórdia

Não da concórdia

Correndo em direção

Do tempo

No contratempo

A gente se encontra

No compromisso

Dá gente nervosa


Na métrica

Mecânica

Da forma

Tempo desloca

Assumidamente sem compromisso

Daquilo que sei.

IMPÉRIO ROMANO (27 a.C. a 476 d.C.) – pela editoria


Depois de um século de lutas civis, o mundo romano estava desejoso de paz. Octavius Augustus se encontrou na situação daquele que detém o poder absoluto num imenso império com suas províncias pacificadas e em cuja capital a aristocracia se encontrava exausta e debilitada. O Senado não estava em condições de opor-se aos desejos do general, detentor do poder militar. A habilidade de Augustus – nome adotado por Octavius em 27 a.C. – consistiu em conciliar a tradição Republicana de Roma com a de monarquia divinizada dos povos orientais do império. Conhecedor do ódio ancestral dos romanos à instituição monárquica, assumiu o título de imperador, por meio do qual adquiriu o Imperium, poder moral que em Roma se atribuía não ao rei, mas ao general vitorioso. Sob a aparência de um retorno ao passado, Augustus orientou as instituições do estado romano em sentido oposto ao republicano. A burocracia se multiplicou, de forma que os senadores se tornaram insuficientes para garantir o desempenho de todos os cargos de responsabilidade. Isso facilitou o ingresso da classe dos cavaleiros na alta administração do império. Os novos administradores deviam tudo ao imperador e contribuíam para fortalecer seu poder. Pouco a pouco, o Senado – até então domínio exclusivo das antigas grandes famílias romanas – passou a admitir italianos e, mais tarde, representantes de todas as províncias. A cidadania romana ampliou-se lentamente e somente em 212 d.C. o imperador Marcus Aurelius Antoninus, dito Caracalla, reconheceu todos os súditos do império. O longo período durante o qual Augustus foi senhor dos destinos de Roma, entre 27 a.C. e 14 d.C., caracterizou-se pela paz interna (Pax Romana), pela consolidação das instituições imperiais e pelo desenvolvimento econômico. As fronteiras européias foram fixadas no Reno e no Danúbio, completou-se a dominação das regiões montanhosas dos Alpes e da Península Ibérica e empreendeu-se a conquista da Mauritânia.

CAPITOLIO. maquete de Roma antiga.

O maior problema, porém, que permaneceu sem solução definitiva, foi o da sucessão no poder. Nunca existiu uma ordem sucessória bem definida, nem dinástica nem eletiva. Depois de Augustus, revezaram-se no poder diversos membros de sua família. A história salientou as misérias pessoais e a instabilidade da maior parte dos imperadores da Dinastia Julius-Claudius, como Caius Julius Caesar Germanicus, Caligula, imperador de 37 a 41 d.C., e Nero, de 54 a 68 d.C.. É provável que tenha havido exagero, pois as fontes históricas que chegaram aos tempos modernos são de autores que se opuseram frontalmente a tais imperadores. Mas se a corrupção e a desordem reinavam nos palácios romanos, o império, solidamente organizado, parecia em nada ressentir-se. O sistema econômico funcionava com eficácia, registrava-se uma paz relativa em quase todas as províncias e além das fronteiras não existiam inimigos capazes de enfrentar o poderio de Roma. Na Europa, Ásia e África, as cidades, bases administrativas do império, cresciam e se tornavam cada vez mais cultas e prósperas. As diferenças culturais e sociais entre as cidades e as zonas rurais que as cercavam eram enormes, mas nunca houve uma tentativa de diminuí-las. Ao primitivo panteão romano juntaram-se centenas de deuses e, na religião como no vestuário e em outras manifestações culturais, difundiram-se modismos Egípcios e Sírios. A partir de suas origens obscuras na Judéia, o cristianismo foi-se aos poucos propagando por todo o império, principalmente entre as classes baixas dos núcleos urbanos. Em alguns momentos, o rígido Monoteísmo de Judeus e cristãos se chocou com as conveniências políticas, ao opor-se à divinização, mais ritual que efetiva, do imperador. Registraram-se então perseguições, apesar da ampla tolerância religiosa de uma sociedade que não acreditava verdadeiramente em nada. O império romano só começou a ser rígido e intolerante em matéria religiosa depois que adotou o cristianismo como religião oficial, já no século IV. O século II, conhecido como o Século dos Antoninus, foi considerado pela historiografia tradicional como aquele em que o Império Romano chegou a seu apogeu. De fato, a população, o comércio e o poder do império se encontravam em seu ponto máximo, mas começavam a perceber-se sinais de que o sistema estava à beira do esgotamento. A última grande conquista territorial foi a Dácia e na época de Trajanus (98-117 d.C.) teve início um breve domínio sobre a Mesopotâmia e a Armênia. Depois dessa época, o império não teve mais forças para anexar novos territórios.

moeda do Império Romano.

Uma questão que os historiadores nunca conseguiram esclarecer de todo foi a da causa da decadência de Roma. Apesar da paz interna e da criação de um grande mercado comercial, a partir do século II não se registrou nenhum desenvolvimento econômico e provavelmente também nenhum crescimento populacional. A Itália continuava a registrar uma queda em sua densidade demográfica, com a emigração de seus habitantes para Roma ou para as longínquas províncias do Oriente e do Ocidente. A agricultura e a indústria se tornavam mais prósperas quanto mais se afastavam da capital. No fim do século II, começou a registrar-se a decadência. Havia um número cada vez menor de homens para integrar os exércitos, a ausência de guerras de conquista deixou desprovido o mercado de escravos e o sistema econômico, baseado no trabalho da mão-de-obra escrava, começou a experimentar crises em conseqüência de sua falta, já que os agricultores e artesãos livres haviam quase desaparecido da região ocidental do império. Nas fronteiras, os povos bárbaros exerciam uma pressão crescente, na tentativa de penetrar nos territórios do império. Mas se terminaram por consegui-lo, isso não se deveu a sua força e sim à extrema debilidade de Roma. O século III viu acentuar-se o aspecto Militar dos Imperadores, que acabou por eclipsar todos os demais. Registraram-se diversos períodos de anarquia militar, no transcurso dos quais vários imperadores lutaram entre si devido à divisão do poder e dos territórios. As fronteiras orientais, com a Pérsia, e as do norte, com os povos germânicos, tinham sua segurança ameaçada. Bretanha, Dácia e parte da Germânia foram abandonadas ante a impossibilidade das autoridades romanas de garantir sua defesa. Cresceu o banditismo no interior, enquanto as cidades, empobrecidas, começavam a fortificar-se, devido à necessidade de defender-se de uma zona rural que já não lhes pertencia. O intercâmbio de mercadorias decaiu e as rotas terrestres e marítimas ficaram abandonadas. Um acelerado declínio da população ocorreu a partir do ano 252 d.C., em conseqüência da peste que grassou em Roma. Os imperadores Aurelianus, regente de 270 a 275 d.C., e Diocletianus, de 284 a 305 d.C., conseguiram apenas conter a crise. Com grande energia, o último tentou reorganizar o império, dividindo-o em duas partes, cada uma das quais foi governada por um augusto, que associou seu governo a um caesar, destinado a ser o seu sucessor. Mas o sistema da Tetrarquia não deu resultados. Com a abdicação de Diocletianus, teve início uma nova guerra civil. Constantinus I favoreceu o cristianismo, que gradativamente passou a ser adotado como religião oficial. A esclerose do mundo romano era tal que a antiga divisão administrativa se transformou em divisão política a partir de Theodosius I, imperador de 379 a 395 d.C., o último a exercer sua autoridade sobre todo o império. Este adotou a Ortodoxia Católica como religião oficial, obrigatória para todos os súditos, pelo edito de 380 d.C.. Theodosius I conseguiu preservar a integridade imperial tanto ante a ameaça dos bárbaros quanto contra as usurpações. No entanto, sancionou a futura separação entre o Oriente e o Ocidente do império ao entregar o governo de Roma a seu filho Honorius, e o de Constantinopla, no Oriente, ao primogênito, Arcadius. A parte oriental conservou uma maior vitalidade demográfica e econômica, enquanto que o império ocidental, no qual diversos povos bárbaros efetuavam incursões, umas vezes como atacantes outras como aliados, se decompôs com rapidez. O rei godo Alarico saqueou Roma no ano 410 d.C. As forças imperiais, somadas às dos aliados bárbaros, conseguiram entretanto uma última vitória ao derrotar Átila nos Campos Catalaúnicos, em 451 d.C. O último imperador do Ocidente foi Romulus Augustus, deposto por Odoacrus no ano 476d.C., data que mais tarde viria a ser vista como a do fim da antiguidade. O império oriental prolongou sua existência, com diversas vicissitudes, durante um milênio, até a conquista de Constantinopla pelos Turcos, em 1453.

FORUM. Roma antiga. maquete.

 

Os povos indígenas do Xingu e a Hidrelétrica Belo Monte – por Dom Erwim Kräutler, Bispo do Xingu

matéria enviada por MAY WADDINGTON colaboradora deste site no norte do país.

“É teu povo, Senhor, que eles massacram,

é tua herança que eles humilham!”

(Sl 93 (94),5)

 

Uma história que não é de hoje

O Xingu é um rio peculiar e único. Não dá para compará-lo com qualquer outro rio da Amazônia. Só ele faz aliança com o majestoso Amazonas através de um largo delta. Na foz, suas lindas águas verde-esmeralda se mesclam com as águas barrentas do rio-mar no qual se perde finalmente acima do Forte de Santo Antônio de Gurupá. Percorreu 2045 km desde o Mato Grosso, onde nasce a 600 metros acima do nível do mar na junção da Serra do Roncador com a Serra Formosa.

 

O Xingu é misterioso. Seu nome até hoje não tem explicação etimológica. Alguns estudiosos querem traduzi-lo como “casa dos deuses” ou melhor “Casa de Deus”, mas não se tem certeza qual seria a verdadeira raiz subjacente a este nome. Suas águas ora são calmas e pacíficas formando extensos lagos, ora furiosas e indômitas quando se estreitam em perigosas cachoeiras que já ceifaram muitas vidas de viajantes desavisados ou afoitos que teimaram enfrentá-las. Pode ser que não seja a Casa de Deus, mas que é um rio sagrado para os povos que habitam nas suas margens há milhares de anos, quem teria a ousadia de negar!

 

O Xingu narra a história do paraíso de antanho e repete as palavras divinas “E Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn 1,31). Mas conta também a história da rebelião contra Deus, da prepotência e arrogância dos homens que queriam ser como deuses (cfr. Gn 3,5). Relata ainda a violência assassina que ceifou a vida do irmão e brada pelos séculos afora a palavra de Deus: “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar por mim!” (Gn 4,10).

 

Na realidade, as águas do Xingu deveriam ter a cor do sangue por causa das inúmeras chacinas que se perpetraram ao longo dos séculos passados. A fúria antiindígena assassinou com armas de fogo a índios munidos apenas de arco e flecha e bordunas. Os invasores misturaram nas praças das aldeias com o barro vermelho também o sangue de indefesas mães e mulheres grávidas, jovens e crianças recém-nascidas. Milhares tombaram!

 

O mundo que se autodenomina de “civilizado” fechou os olhos, mostrou indiferença diante do sangue indígena bradando por justiça, gritando pelo direito de viver, reclamando a pátria que Deus criou para estes povos, defendendo o chão de seus mitos e ritos, chorando a terra onde sepultaram os antepassados. Até hoje o índio é chamado com desprezo de “silvícola”, um termo que insinua tratar-se apenas de algum bípede a mais, sem inteligência e livre arbítrio. Grande parte da sociedade envolvente vê ainda os povos indígenas como uma horda de malfeitores, de agressores hostis, selvagens, traiçoeiros, bárbaros, cruéis, não-confiáveis.

 

A história dos índios é uma história de rios de sangue derramado. Assim, tudo que hoje acontece de desfavorável, de adverso faz emergir do inconsciente coletivo destes povos todo o sofrimento do passado, toda hostilidade de que foram vítimas desde que os europeus fincaram o pé neste continente e os bandeirantes avançaram em todas as direções abrindo caminho a ferro e fogo.

 

Não faz tanto tempo que o próprio órgão governamental encarregado de proteger os povos indígenas, o Serviço de Proteção ao Índio – SPI, participou de massacres. Foi extinto por causa da repercussão no exterior das escandalosas carnificinas e substituído pela Fundação Nacional do Índio – Funai. Em 1967 veio à tona o assim chamado “Massacre do Paralelo 11” que aconteceu em 1965. Um seringalista do Mato Grosso deu ordem para exterminar uma aldeia. Primeiro sobrevoaram o povoado e jogaram bombas, depois entraram na aldeia e mataram a todos. Eu mesmo vi uma fotografia que mostra uma mulher indígena presa pelos pés, de cabeça para baixo, ladeado por dois homens brancos com facões. Esquartejaram a mulher. A mera lembrança da foto me causa arrepios. Isso não aconteceu no tempo dos bandeirantes, mas há apenas pouco mais de quarenta anos.

 

Naquela mesma década de 60 outra agressão bem planejada aconteceu no Xingu. A ação criminosa nunca foi investigada. Os criminosos não foram identificados e punidos por homicídio qualificado cometido em série. Alguns políticos queriam a todo custo tirar Altamira do ostracismo. A cidade precisava ser ligada através de uma estrada – mesmo que fosse apenas uma picada – com Santarém, o portal a dar acesso ao mundo.

 

O empecilho para concretizar o intento foram os índios Arara que viviam na região que hoje coincide com os municípios de Medicilândia e Uruará. Mas para não frear o progresso “esses selvagens” tinham que ser “eliminados”. Se a expedição avistasse um índio Arara, a ordem era de executá-lo imediatamente! Não se sabe do número exato de índios Arara mortos naquele tempo. Só se sabe que foram muitos. Morreram até eletrocutados quando se aproximaram do barraco da “força expedicionária” circundado por uma cerca de arame conectada com um grupo gerador. Os índios queriam ver os “brancos”, seguraram no arame e levaram choques de 220 volts.

 

A história deste povo que vivia sossegado no meio da mata entre Altamira e Santarém culminou em outra tragédia durante a construção da Transamazônica. A nova rodovia passava a três quilômetros da aldeia dos Arara no igarapé Penetecaua. Os índios foram até perseguidos por cachorros. A forçada convivência com o mundo dos brancos trouxe doenças como gripe, tuberculose, malária. Outros tantos morreram. O mundo lá fora, no Brasil e no exterior, nada soube desta desgraça que desabou sobre um povo. Continuava a aplaudir “a conquista deste gigantesco mundo verde”, palavras que constaram da placa afixada no tronco de uma castanheira derrubada quando o presidente da República deu solenemente início aos trabalhos de construção da Transamazônica. A que preço! Nunca me esqueço do dia em corria a notícia de que, finalmente, os “terríveis índios Arara” haviam sido dominados. Como prova de que o “contato” tinha sido um sucesso total, trouxeram uns representantes daquele povo que até então vivia livre na selva xinguara. Nus, tremendo de medo em cima de uma carroça, foram expostos à curiosidade popular como se pertencessem a alguma rara espécie zoológica.

 

Vivemos em outros tempos. Pelo menos assim pensamos. Celebramos 60 anos de promulgação da Carta Magna dos Direitos Humanos. Qualquer discriminação racial é condenada. É proclamada a igualdade de povos e raças. No Brasil temos desde 1988 uma Constituição Federal em que os direitos indígenas são inscritos no Artigo 231. Foi abolida a tutela de um órgão estatal. Os indígenas, outrora equiparados aos menores de idade e aos deficientes mentais, alcançaram plena cidadania, não precisando mais ser tutelados. Tem todo o direito de ir e vir como qualquer brasileiro. Mesmo assim, enquanto já estamos festejando os 20 anos da Constituição “cidadã”, parte da imprensa ainda não se inteirou desta novidade constitucional e há jornais insistindo que “a Polícia Federal deverá pedir explicações à Funai (…) já que o órgão é o tutor legal dos índios brasileiros[1].

 

O salto qualitativo da letra constitucional para o chão concreto da realidade em que os povos indígenas vivem ainda não aconteceu. Se uma demarcação de área indígena é concluída com a homologação pelo presidente, prevista em lei, um clamor ensurdecedor se levanta pelo Brasil afora, reclamando que “há muita terra para pouco índio”. E o pior aconteceu há algumas semanas em Altamira. Uma rádio local se desdobrou em berrar agressões verbais contra os índios, insultos racistas que fazem inveja ao tratamento destinado aos judeus pelo regime nazista. Pensávamos que tais excessos pertencessem a um passado longínquo e tivessem sido há muito tempo extirpados do vocabulário jornalístico. Infelizmente nos enganamos. A onda antiindígena assume novamente proporções alarmantes.

 

De Kararaô a Belo Monte

Muitos não recordam o tempo a ditadura militar e, já que a memória tem fama de ser curta, poucas pessoas se lembram dos mandos e desmandos dos presidentes plenipotenciários daquela época. Um deles foi o general Emílio Garrastazu Medici. Tornou-se célebre pelo Projeto de Integração Nacional e a construção da rodovia Transamazônica, inaugurada em setembro de 1972. Foi a década do “Integrar para não entregar” e de outro slogan que desencadeou uma migração sem precedência no Brasil. “Terra sem homens para homens sem terra!” exclamava eufórico o general-presidente, o que não deixou de ser um tremendo insulto aos povos indígenas que há milênios habitam a Amazônia. O presidente simplesmente os ignorou, despojou-os da cidadania, negou-lhes a existência, considerou-os definitivamente mortos.

 

Milhares de famílias rumaram do Nordeste, Centro, Sudeste e Sul para a Amazônia. No entanto, o Projeto de Integração Nacional previu também a construção de barragens. A rodovia cortou os grandes rios nas proximidades das principais quedas d’água. Já em 1975 a Eletronorte contratou a firma CNEC (Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores) para pesquisar e indicar o local exato de uma futura hidrelétrica. Em 1979 o CNEC terminou os estudos e declarou a viabilidade de construção de cinco barragens no Xingu e uma no rio Iriri, maior afluente do Xingu. Ao povo do Xingu negou-se qualquer informação mais detalhada. Só se sabia que o governo pretendia tocar a construção o quanto antes possível.

 

Os povos indígenas reagiram pela primeira vez em 1989. Vieram uns 600 índios para Altamira e hospedaram-se no centro Betânia da Prelazia do Xingu. Vieram para protestar contra a decisão do governo de sacrificar o rio Xingu. O encontro que os índios chamaram de “Primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu” realizou-se entre os dias 20 e 25 de fevereiro de 1989 e alcançou uma enorme repercussão nacional e internacional.

 

A foto que retratou a cena em que a índia Kayapó Tuyra encostou a lâmina de seu facão no rosto do então presidente da Eletronorte e hoje presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes, percorreu o mundo inteiro e virou a logomarca da oposição indígena ao projeto de hidrelétrica. Tuyra tornou-se a mulher mais famosa do mundo Kayapó, mãe carinhosa com seus filhos e ao mesmo tempo guerreira intransigente quando se trata da defesa de sua terra e seu rio. Pouco depois daquele memorável encontro, o Banco Mundial negou o suporte financeiro e o projeto foi arquivado. Nunca, porém, foi abandonado. Já na década de 90 foi desengavetado e veio à tona com mais força.

 

No inicio do mês de junho de 2007, reuniram-se outra vez representantes de vários povos indígenas do Xingu no Centro Betânia da Prelazia do Xingu e insistiram que colaborássemos com eles para promover um Encontro dos Povos Indígenas semelhante àquele que aconteceu em 1989. Os índios pretendiam chamar a atenção do Brasil e do mundo, condenando o projeto faraônico que ameaça imolar ao deus-progresso o rio Xingu que para eles é sagrado, símbolo da vida, dádiva de Deus.

 

No dia 3 de junho de 2007, os participantes do encontro foram para a beira do rio, em Altamira, para uma manifestação contra o projeto de hidrelétrica ressuscitado que recebeu o nome “Belo Monte” em substituição à denominação anterior “Kararaô” que equivale a um grito de guerra do povo Kayapó. Mudou apenas o nome! O atual governo o considera prioridade no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O presidente Lula antes de ser eleito manifestou-se contra Belo Monte. Do mesmo jeito vários membros do Congresso Nacional, entre eles o deputado federal Zé Geraldo (PT/PA), eleito pelas comunidades do Xingu, declararam-se visceralmente contrários, quando estavam em campanha eleitoral. Mas que surpresa para todos nós: depois de eleitos mudaram de posição. O que antes condenaram com veemência, de repente, da noite para o dia, passaram a defender com unhas e dentes. O que estaria por trás dessa repentina metamorfose camaleônica?

 

Doravante, o povo do Xingu é informado de que se trata apenas de uma Unidade Hidrelétrica (UHE) e não mais de um Complexo Hidrelétrico. Não deixa de ser uma mentira deslavada que se propaga sem nenhum pudor, um artifício empregado propositadamente para ludibriar o povo. Todo mundo sabe que seria um incalculável desperdício investir bilhões de reais em uma usina que durante o verão tropical não tem condições de funcionar plenamente quando o volume de águas do Xingu diminui. É a estação em que extensas praias de areia branca e dourada emergem das águas cristalinas transformando a região numa paisagem deslumbrante.

 

Mas os barrageiros não se deixam impressionar pela beleza exótica do Xingu. Já baixaram a sentença e fim de papo. O rio tem que ser sacrificado! É o preço a pagar! Outras barragens serão necessárias e estão programadas! Para adiantar o serviço, a Eletrobrás já dispõe de todo o “inventário” do Xingu com o respectivo mapa que prevê os barramentos e as áreas alagadas até acima da cidade de São Félix do Xingu. Parece tratar-se de estudos clandestinos, pois não são acessíveis ou revelados ao público, algo que deve estar levando o carimbo “matéria altamente confidencial” ou “segredo de Estado”. Por que todo esse sigilo?

 

No mesmo dia 3 de junho de 2007 um cacique Kayapó subiu num caminhão estacionado na avenida que margeia o Xingu, pegou o microfone e indagou gritando: “O que será de nossas crianças?” e acrescentou: “Não permitimos que as sepulturas de nossos ancestrais vão para o fundo!”. Enquanto empresários e comerciantes defendem Belo Monte na acalentada esperança de “chuvas de dinheiro” desabando sobre Altamira e não se preocupam com as consequências perniciosas para a vida de milhares de pessoas – mormente a população das baixadas que terá suas casas e propriedades alagadas, enquanto os membros desse consórcio empresarial abertamente demonstram que não lhes causa nenhuma inquietação se áreas indígenas demarcadas e homologadas são alagadas e o povo ribeirinho prejudicado – enquanto essa gente que em sua grande maioria veio de outros estados não tem nenhuma dor de consciência diante de um programado desastre ecológico irreversível, um índio, até hoje considerado um supérfluo resíduo da idade da pedra lascada, esse índio discriminado e tratado com desdém ou desprezo, é quem dá uma lição a toda a sociedade. Esse consórcio “comercial, industrial e agropastoril” só pensa em si. Não mantém laços nem com o passado, nem os estabelece com as futuras gerações, não se relaciona nem com quem vivia antes nem com quem vem depois. É uma associação de gente imediatista, interesseira e egoísta que aposta apenas em lucros fabulosos e declara guerra a quem tiver a petulância de se opor a sua ambição e ganância que não respeita nada e ninguém.

 

De repente, um índio chama a atenção para o direito das futuras gerações que também querem viver e estabelece ainda uma ponte com os antepassados, de quem herdamos este mundo que Deus criou. O índio teve a coragem de alertar para as consequências nefastas de um projeto megalomaníaco. À beira do rio, indígenas e não-indígenas se deram as mãos para selar o pacto de lutar contra a destruição do rio e da vida: Xingu Vivo para Sempre!

 

Em 1989 os índios se manifestaram, em 2007 insistiram de novo num grande encontro e mostramo-nos sensíveis ao pedido de todos os povos indígenas da bacia do Xingu.

 

Por que representantes da Eletrobrás ou Eletronorte nunca passaram por uma única aldeia para ouvir os índios a respeito de Belo Monte? Por que não pediram ajuda de quem realmente entende do mundo Kayapó para manter contatos com esses povos que são os primeiros a habitar esta terra? Por que essa discriminação, exclusão, marginalização dos povos autóctones? Por que?

 

Nas audiências chamadas “públicas” não se fala a verdade nem existe real possibilidade para o povo manifestar as suas dúvidas, fazer indagações e apresentar críticas. Essas audiências são apenas parte de um ritual em que os enviados da Eletrobrás ou do governo recitam o rosário de vantagens e benefícios. Só vantagens! Só benefícios! Parece terminantemente proibido criar no povo a sensação de que possa haver alguma sequela negativa ou algum dano irreparável. Se alguém se atrever em insistir e opor-se ao discurso oficial, a resposta repetida até criar náuseas é e será sempre: “É o preço a ser pago pelo progresso!” “É a exigência do desenvolvimento”.

 

Instados a explicar o que entendem por desenvolvimento e progresso, recusam-se a responder. Dizem que não não vieram para discutir questões “ideológicas”. Fato é que a Eletrobrás sabe o que convém à sociedade, não ao zé-povinho. Causa realmente espécie a repetição de slogans, chavões pré-fabricados não com a intenção de esclarecer, mas de cooptar.

 

Veja-se o caso da índia Xipaia que está sendo aplaudida pelo pessoal do Consórcio e filmada afirmando que está a favor de Belo Monte, porque “o índio está no escuro”. Sei quem é essa senhora. Ela mora há décadas na cidade e há luz na casa dela desde que a energia elétrica chegou a Altamira. “Cimi não dá dinheiro! Dom Erwin não dá dinheiro! Eletronorte dá dinheiro, paga conta! Por isso somos a favor de Belo Monte!” são frases que foram ouvidas na aldeia de determinado grupo que se distanciou dos outros povos indígenas do Xingu e não participou mais de nenhum evento. Que maneira mais esdrúxula de defender a “UHE Belo Monte”, cooptando índios menos avisados e ainda acenando com vantagens financeiras aos que prometem defender o projeto.

 

Obcecado pela idéia de acelerar o crescimento da economia, o próprio presidente Lula identificou como “entraves” a esta medida a questão dos índios, dos quilombolas, dos ambientalistas e até do Ministério Público. Considerou ainda “penduricalhos” os artigos da legislação ambiental pois estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento do país. Por isso a ordem é de desconsiderar ou, pelo menos, não dar tanta importância a impactos sociais e ambientais. Caso contrário, o país estaria condenado à estagnação.

 

Mas, já que são exigidos estudos preliminares no caso de uma hidrelétrica, o governo encarrega os primeiros interessados no projeto, os grandes empreendedores, de providenciar os estudos de viabilidade ou de impacto ambiental e social. Terão a seu dispor cientistas de sua inteira confiança que na mais cega obediência aos ditames superiores corroborarão a tese que já é definida antes do estudo: o impacto ambiental e social será mínimo ou praticamente nulo. Alega-se: “O Brasil não pode esperar!” Ou alguém pensa que uma dessas empresas esteja interessada em apontar impactos ou danos sociais e ambientais? Isso equivaleria a cortar o galho em que estão sentadas.

 

A pergunta chave é: A quem mesmo interessa Belo Monte? Ao Brasil? Vai melhorar o padrão de vida dos paraenses, dos xinguaras, do povo de Altamira, Vitória do Xingu, Souzel, Anapu, da Transamazônica, do Baixo Xingu? A energia, a quem será destinada? Todos sabemos que serão mais uma vez beneficiadas as multinacionais que vivem às custas do Brasil com todas as mordomias fiscais e facilidades energéticas.

 

O preço da energia para a família brasileira é escandaloso, é exorbitante, mas as empresas transnacionais contam com a benevolência magnânima dos sucessivos governos. O Pará, a Amazônia é considerada mera “província” energética, mineral, madeireira, última fronteira agrícola… Nunca saiu dessa categoria de “província”. A metrópole, o centro nevrálgico das decisões e deliberações, sempre se encontra alhures! Pouco interessa à metrópole se os povos da “província” passam bem ou vão de mal a pior. Algumas migalhas sempre caem, mais por descuido do que por amor aos pobres.

 

E os nossos políticos, em vez de questionar esse sistema iníquo, de criticar estruturas prejudiciais aos povos da Amazônia, de exigir direitos e “royalties”, aplaudem de pé e não hesitam em apelar até para a terminologia teológica quando falam em “salvação”, “redenção” da região, do Pará e da Amazônia. Infelizmente nada entendem da máxima do grande Santo Tomás de Aquino: “Gratia supponit naturam” (a graça pressupõe a natureza). No contexto da Amazônia, jamais haverá redenção se a criação for arrasada, destruída, aniquilada. Aí só vai sobrar a desgraça, o caos, o apocalipse.

 

Xingu Vivo para Sempre

No dia 19 de maio de 2008 tive o privilégio de fazer a abertura do encontro Xingu Vivo para Sempre no Ginásio Poliesportivo de Altamira. Mais de 600 indígenas, mulheres, homens e crianças, entraram solenemente no recinto, cantando e dançando, erguendo suas lanças, bordunas e facões. Quem não se emocionou quando os índios Kayapó cantaram o Hino Nacional em sua língua materna! A platéia aplaudiu entusiasmada.

 

Apresentei todos os caciques das 24 etnias presentes e saudamos os outros participantes do evento chamando-os por município. O ar foi festivo, animado, algo excepcional, pois não é todo dia que se vê tantos indígenas, pintados segundo suas tradições, dançando de acordo com os seus ritos milenares e cantando num idioma ancestral enquanto se movimentam num ritmo tão peculiar. Volta e meia, uma ou um Kayapó levanta para fazer sua dança individual erguendo um facão ou mostrando borduna e lança, os homens com seus barítonos volumosos e fortes, as mulheres com vozes elevadas, incisivas, às vezes até estridentes. A beleza exótica das expressões culturais comove e impressiona. A juventude, presente nas arquibancadas, vibra com as danças e aplaude com prolongadas salvas de palmas.

 

Na manhã do segundo dia continuou a apresentação. Faz parte do ritual indígena que cada cacique fale, mesmo que repita argumentos ou opiniões anteriormente já expressos por um parente. Aliás, todos se entendem como parentes. A procedência geográfica não conta, nem sequer a etnia ou o tronco linguístico a que pertencem. Todos se tratam de “õbikwa”, familiares!  Se um sofre ou é agredido, todos se sentem atacados. Quando se apresentam, falam primeiro em sua língua materna e depois traduzem, eles mesmos, a fala para o português. Uns tem mais facilidade de expressar-se em português, outros não conseguem fazê-lo de modo correto.

 

Percebe-se a sua alegria, mas muitas vezes também a angustia ou indignação por causa de alguma decisão do governo contrária a eles ou do avanço de latifundiários, mineradoras, madeireiras, garimpeiros para as terras habitadas por eles desde tempos imemoriais. São muito sensíveis a qualquer falta de consideração da parte da sociedade envolvente. Não ocultam a sua decepção. “Já estamos cansados de ouvir e não ser ouvidos. Já estamos cansados de escutar ameaças de construção de barragens na volta grande do Rio Xingu. Não estamos só defendendo o rio Xingu, mas os rios da Amazônia: moradia dos povos indígenas” reclama um dos caciques.

 

Debates e o incidente

Ao término das apresentações foi composta a mesa de trabalho para os debates. Foram chamados o professor Oswaldo Sevá Filho, da Universidade de Campinas (Unicamp); o engenheiro Paulo Fernando Viana Rezende, da Eletrobrás; Roquivan Alves da Silva, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB); Jean Pierre Leroy, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e Glenn Switkes, diretor do Programa Latino-americano do International Rivers Network (IRD).

 

Oswaldo Sevá é conhecido nosso e dos indígenas. Veio para mais uma vez alertar sobre as consequências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu. Foi ele quem organizou o livro Tenotã-Mo, lançado em 11 de agosto de 2005, uma coletânea de artigos de especialistas de diversas áreas que pretendia provocar um amplo debate sobre as hidrelétricas na Amazônia. Fui convidado a escrever o prefácio para este livro. Para nossa total decepção, a Eletrobrás nunca respondeu às indagações e críticas da parte do mundo científico. Percebe-se nitidamente a arrogância de alguns órgãos do governo. Nós apelamos para argumentos, eles para o “poder”, ostensiva e cinicamente manifestado.

 

Entrei no ginásio já no final da palestra do professor Oswaldo Sevá. Chegou a vez do representante da Eletrobrás, o engenheiro Paulo Rezende. Tive a impressão de que não encontrou tempo para se preparar. Assim optou por uma sessão “Power Point” como a Eletrobrás costuma fazer quando é solicitada por prefeitos, vereadores, comerciantes e empresários. Na tela apareceram números e estatítiscas, dificilmente identificáveis por causa da claridade do ambiente. A platéia começou a ficar inquieta e reagiu quando o engenheiro desqualificou o professor Oswaldo Sevá, chamando-o de “desatualizado”. As vaias se tornaram cada vez mais incisivas. Falei para a professora Mônica sentada ao meu lado: “Por que esse homem não pára, com todas essas vaias?”. Pareciam antes estimular o engenheiro. Alteou a sua voz, elevando-a a um tom provocador.

 

O engenheiro cumpriu seu papel dentro do ritual previsto. Nada de admitir que o projeto possa trazer também consequencias adversas, irreversíveis. Aulas de pedagogia não devem constar da grade curricular de uma faculdade de engenharia. Assim o engenheiro não teve nenhum preparo para lidar com situações diferentes das que ele conhece no âmbito empresarial. Não conseguiu envolver a platéia, de modo especial os indígenas presentes. Perdeu as estribeiras e apelou para a arrogância. Por que não fez uma exposição mais simples para todo mundo entender? Por que não dividiu sua palestra em duas partes? Poderia, se assim o quisesse, falar primeiro das vantagens e dos benefícios que Belo Monte pode trazer. Em seguida abordaria com sinceridade e simplicidade as desvantagens, os prejuízos que, sem dúvida, a hidrelétrica irá causar. Mas nada disso aconteceu. Faltava franqueza e imparcialidade. O engenheiro transmitiu à platéia a sua convicção de que, haja oposição ou não, Belo Monte vai sair de qualquer jeito!

 

Quando após a palestra do engenheiro, o representante do Movimento dos Atingidos por Barragens, iniciou sua fala dizendo que os índios irão defender o Xingu para protegê-lo, ressoou de repente pelo ginásio um terrível grito de guerra. Os índios se levantaram e ergueram bordunas e facões e, em seguida, iniciaram uma dança movimentando-se em direção ao engenheiro. Vi os índios gesticular com facões e bordunas. Simbolizaram um ataque. Do lugar, onde eu estava, não pude observar que um dos fações resvalou no braço do engenheiro, ferindo-o. Quando consegui ficar mais próximo, percebi o corte no braço direito do engenheiro. Vi também como ele derramou toda uma garrafa de água mineral sobre o corte que sofreu. A intenção que teve, foi sem dúvida a de limpar a ferida, mas o resultado foi uma imensa poça d’água misturada com sangue que causou a tétrica impressão de que alguém havia sido esquartejado ou guilhotinado naquele mesmo instante. Inúmeras vezes esta mesma cena foi repetida nas reportagens de televisão. Sangue espalhada por toda parte. O engenheiro foi encaminhado para o hospital. Levou seis pontos e recebeu alta. Padre Renato Trevisan que tem uma larga experiência com o povo Kayapó, além de falar muito bem seu idioma, solicitou a um cacique que apaziguasse na língua Kayapó os espíritos excitados. O cacique pegou prontamente o microfone e falou a seu povo.

 

Nós, da coordenação e responsáveis pelo evento, ficamos espantados, muito aflitos e angustiados ao extremo. Imaginávamos logo a repercussão do acidente nos meios de comunicação. Havia gente nossa chorando convulsivamente. Ninguém se conformara com o acontecido. Tudo estava correndo tão bem, sem sobressaltos. E agora?

 

Afirmo com toda a ênfase e convicção que o corte com o facão que o engenheiro sofreu foi acidental. Muito lamentável, sem dúvida, mas jamais foi tentativa de homicídio, pois se os índios quisessem matar o engenheiro não o teriam atingido apenas no braço. Aliás, o próprio engenheiro em entrevista gravada para o programa “O Fantástico” da TV-Globo admitiu que foi um acidente. Repúdio e rejeito por uma questão de consciência a afirmação de que a agressão foi premeditada ou programada. São as forças antiindígenas que mais uma vez vêm à tona e agora se deleitam no macabro prazer de sustentar essa tese absurda.

 

A coordenação do evento veio imediatamente a público e falou do incidente lastimável. Redigimos uma nota em que lamentamos profundamente o ocorrido. Fui procurado por jornalistas e dei várias entrevistas a diversos canais de televisão. Mesmo assim, parte da mídia optou pela divulgação sensacionalista dos fatos o que engendrou todo tipo de comentário ao longo dos dias e semanas subsequentes. Condenaram sumariamente a Prelazia do Xingu e o seu bispo e as outras entidades coordenadoras do evento.

 

Pensávamos por alguns momentos até em encerrar o encontro, julgando que não houvesse mais clima para a continuação, mas, finalmente, decidimos cancelar apenas a passeata pelas ruas da cidade de Altamira e substitui-la por uma manifestação à beira do rio Xingu.

 

No dia 23 de maio representantes dos povos indígenas e gente que vive ao longo do Xingu e seus afluentes, gente do campo e da cidade e representantes dos movimentos sociais se deram mais uma vez as mãos à beira do rio Xingu. Mais uma vez os índios discursaram e dançaram. As mulheres com as crianças entraram n’água para demonstrar como amam o rio e como dependem dele.

 

Acabou o encontro Xingu Vivo para Sempre mas não acabou a luta em defesa desse rio maravilhoso e dos povos do Xingu. Foi lido o documento final em que os índios fazem questão de manifestar-se como “cidadãos e cidadãs brasileiras”. “Vimos a público comunicar a nossa decisão de fazer valer o nosso direito e o de nossos filhos e netos a viver com dignidade, manter nossos lares e territórios, nossas culturas e formas de vida, honrando também nossos antepassados, que nos entregaram um ambiente equilibrado. Não admitiremos a construção de barragens no Xingu e seus afluentes, grandes ou pequenas, e continuaremos lutando contra o enraizamento de um modelo de desenvolvimento socialmente injusto e ambientalmente degradante, hoje representado pelo avanço da grilagem de terras públicas, pela instalação de madeireiras ilegais, pelo garimpo clandestino que mata nossos rios, pela ampliação das monoculturas e da pecuária extensiva que desmatam nossas florestas”.

 

“Queremos o Xingu vivo para sempre!”

familia indígena do Xingu. foto sem crédito. ilustração do site.

 

Rumorejando (O que pesa não é a indefectível barriguinha. É o peso dos anos, evidenciando). por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico é tolerante; pobre, é obrigado a aturar.

Constatação II (Via pseudo-haicai).

O deputado fuleiro*

Só legisla pra faturar

Mais dinheiro.

*Fuleiro = (Dicionário Houaisss) “Adjetivo e substantivo masculino.

1. que ou aquele que age irresponsavelmente, sem seriedade; que ou quem não se mostra confiável

2. que ou o que não tem valor, que ou o que é medíocre, reles

3. que ou o que denota falta de gosto, falta de refinamento, que ou o que é simplório; cafona”.

Constatação III

Deu na mídia: “Brasil é campeão em horas gastas para pagar impostos. Estudo mostra que empresas brasileiras precisam funcionar 2.600 horas por ano para cumprir obrigação fiscal”. Não só as empresas demandam tempo. O governo também. Basta ver quanto ele demora para devolução do imposto de renda para quem de direito…

Constatação IV

Não se pode confundir zaga com saga, muito embora quem joga na zaga, muitas vezes passa por uma terrível saga, principalmente quando pega um atacante de primeira linha, driblador e chutador como o jogador Pelé, por exemplo, como Zico ou este assim chamado escriba que foi considerado o melhor na sua posição de eterno reserva na ponta esquerda. A recíproca não é necessariamente verdadeira. Há muita saga sem ser na zaga como ver como se locupleteia no nosso país com mensalões da vida, licitações frias, desvios de merenda escolar por prefeituras e assim por diante, ou melhor, por atrás…

Constatação V

Este assim chamado escriba lembra, com saudades, do tempo em que Curitiba tinha as quatro estações bem delineadas e uma eventual tempestade era, digamos, usando uma expressão da moda, bem light (Perdão leitores). Hoje em dia, passamos a ter danos irreparáveis, inclusive com perdas humanas. Aquecimento global, evidentemente, com prejuízos à natureza. A Humanidade é insolúvel; a filhadapu…ce, também. Pena…

Constatação VI

Tá certo que os jovens, hoje em dia, não querem ler, mas não é preciso apregoar isso aos quatro ventos e, ainda, com um ar empertigado, altivo, estufando o peito, cheios de vaidade e orgulho…

Constatação VII

Se a violência continuar nesse diapasão em que hoje se encontra não seria o caso de nos colocar, a todos, por uns tempos, na cadeia, mais protegidos, e deixar que os marginais se digladiassem entre eles até que sobrassem apenas dois líderes que se defrontariam como nos filmes de faroeste para ver quem atira primeiro, quem é mais rápido no gatilho e coisas desse jaez?

Constatação VIII

Depois do Abominável Homem das Neves, do monstro do Lago Ness foi detectado o Abominável Homem das Trevas. Não se trata de alguém que não cuida para se evitar algum novo Apagão, mas se sabe que é um político. E, pelo que consta, tudo leva a crer que se trata de um brasileiro. Aguardem, pois.

Constatação IX

Efetivamente era um marido apaixonado. Até ela de bobes ele não se cansava de olhar amorosamente pra mulher.

Constatação X

Foram para um motel

A cama era com dossel

Ela vestiu um baby-doll.

Ele ficou vendo futebol.

A televisão tava ligada.

Coitada!

O time dele foi rebaixado.

Coitado!

Coitado?

Constatação XI

Não se pode confundir nalga com alga, até porque nunca alguém viu uma alga sentada. Tampouco um jacaré. Até existe uma música que dizia algo parecido com: “Jacaré comprou cadeira e não tem nalga pra sentar”. Será que foi nalga, mesmo?

Constatação XII (“Poesia”, resvalando para mercosulense, com fins de boa vontade).

A gente pode ter muita rivalidade,

No futebol, com “los” hermanos

Mas um tango bem executado

Por uma típica com acuidade

E, se por uma dupla, bem dançado

Deixa o cara bem aproximado

De todos “los” hispano-americanos.

Constatação XIII

Seiúda,

A boazuda,

Claro, ciente disso,

Sem pedir permisso,

E no esquema do atiço

Veste curta bermuda,

Deixando a raia-miúda

Pasma, atônita, muda

Com olhos arregalados,

Precisando de ajuda,

Na base do: Me acuda!

Coitados!

Constatação XIV

Se a violência continuar como está, o sujeito quando sair de casa vai ter que deixar pronto o seu testamento, a fim de evitar mais violência entre os herdeiros…

Constatação XV

Rico, com elogio, incha; pobre, não precisa. (E tampouco recebe elogio. Só reprimenda…)

Constatação XVI

Rico faz proposta; pobre, ameaça.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

 

caricatura de nelson santos / pt. ilustração do site.

A GUERRA dos MÉTODOS na ALFABETIZAÇÃO – por vicente martins

O presente artigo responde a quatro perguntas sobre método de alfabetização em leitura: (1) O método fônico é o mais eficaz para alfabetização?(2) Quais as principais diferenças entre o modelo fônico e o construtivista? (3) Segundo uma pesquisa feita pela revista Veja 60% das escolas adotam o modelo construtivista para alfabetização dos alunos. Por que a grande maioria opta por esse método? (4) Quais as vantagens que o aluno tem ao ser alfabetizado pelo método fônico?

Comecemos pela primeira questão. Há uma guerra dos métodos de alfabetização em leitura, no Brasil e fora do Brasil, especialmente a Europa, que, na verdade, dissimula uma outra guerra, de ordem ideológica e financista, entre especialistas no mundo da lectoescrita. Não é de hoje.

Diríamos que há, pelo menos, um século, discutimos a prevalência de um método sobre o outro. Ontem, hoje e amanhã, certamente, quem ganha, claro, terá seus dividendos editoriais e mais prestígio nacional ou internacional sobre o campo fértil das mídias, que é o da leitura e da escrita.

No Brasil, nos anos 60, século passo, o educador Paulo Freire, por exemplo, com seu método de alfabetização, ganhou notoriedade internacional por defender a aquisição da leitura além do acesso ao código lingüístico e de levar o alfabetizado a uma visão crítica, política e politizada de um mundo do trabalho, do cotidiano, da vida em sociedade, povoado de inquietações, aspirações sociais, violências simbólicas, conflitos de classes sociais e dominado por forças de dominação econômica e cultural. É um modelo inspirador para os alfabetizadores do século XXI.

A peleja dos métodos de alfabetização está bem polarizada: métodos fônicos de um lado, do outro, os construtivistas. Os métodos fônicos também são conhecidos por métodos sintéticos ou fonéticos. Partem das letras (grafemas) e dos sons (fonemas) para formar, com elas, sílabas, palavras e depois frases.

São vários modelos de métodos fônicos. Entre eles, o mais antigo e mais consistente, em termos de pedagogia da alfabetização em leitura, é o alfabético ou soletração, que consiste em primeiro ensinar as letras que representam as consoantes e, em seguida, unir as letras-consoantes às letras-vogais.

Os modelos alfabéticos de alfabetização em leitura, por seu turno, partem das sílabas para chegar às letras e aos seus sons nos contextos fonológicos em que aparecem. As cartilhas de ABC, durante muito tempo encontradas em mercearias ou bodegas ou mesmo mercados, eram o principal material didático e contavam com a presença forte do alfabetizador que acreditava que, pelo caminho da repetição das letras e dos seus sons, o aluno logo chegaria ao mundo da leitura.

Os métodos construtivistas de alfabetização em leitura, também chamados analíticos ou globais partem das frases que se examinam e se comparam para, no processo de dedução, o alfabetizando encontrar palavras idênticas, sílabas parecidas e discriminar os signos gráficos do sistema alfabético.

A aplicação do método construtivista, na prática, quando aplicado, tende a ser mais praxiologia do que mesmo método. Por que praxiologia? Induz à alfabetização, centra-se no alfabetizando e não no alfabetizador, quando, a rigor, nesse momento, a intervenção do educador se faz importante uma vez que há necessidade, na alfabetização, de um ensino sistemático e diretivo para levar o aluno à compreensão do sistema de escrita da língua. É na alfabetização que o aluno deve construir a consciência lingüística da leitura.

A tradição de helênica de alfabetização nos leva a considerá-la uma importante etapa da educação escolar (embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação(LDB), promulgada, em 1986, não faça referência a uma sala específica de alfabetização na educação infantil ou no ensino fundamental) como uma iniciação no uso do sistema ortográfico.

Há uma espécie de consenso entre os alfabetizadores de considerar que a alfabetização é um processo de aquisição dos códigos alfabético e numérico cujo finalidade última é a de levar o alfabetizado ao letramento e ao enumeramento, isto é, a adquirir habilidades cognitivas para desenvolver práticas que denotam a capacidade de uso de diferentes tipos de material escrito.

Mas como garantir a alfabetização em leitura? Através de métodos ou estratégias de aprendizagem. Por isso, quando nos reportamos, historicamnente, aos métodos de alfabetização em leitura, estamos nos referindo, dentro da longa tradição da alfabetização, a um conjunto de regras e princípios normativos que regulam o ensino da leitura. Nos anos 60, a maioria da população brasileira aprendeu a ler pelo método da silabação, que consiste em ensinar a ler por meio do aprendizado de sílabas e a partir delas a formar palavras e frases. A segmentação das sílabas em fonemas e letras é uma etapa posterior.

Todavia, só o método, em si, não garante a aprendizagem. É importante a formação do alfabetizador. Sem formação lingüística, o método pode perder sua eficácia. A alfabetização em leitura é diretamente relacionada com o sistema de escrita da língua.

No caso das chamadas línguas neolatinas, particularmente o Português e o Espanhol, o método fônico se torna um imperativo educacional por conta do próprio sistema lingüístico, isto é, o chamado princípio alfabético, manifesto na correspondência entre grafemas e fonemas e na ortografia sônica, mais regular e digamos, assim, mais biunívoca: uma letra representa um fonema, na maioria dos casos. Como a língua não é perfeita unívoca – exatamente por é social, construída historicamente pala comunidade lingüística – sons como /sê/ ou /gê/ poderão terão várias representações gráficas, transformando esses casos isolados em contextos equívocos e que, no fundo, podemos contar nos dedos e que não perturba o processo de alfabetização.

Com as afirmações acima, já podemos estabelecer algumas diferenças básicas entre os dois métodos. O fônico, como o próprio nome nos sugere, favorece o princípio alfabético, a relação grafema-fonema e seu inverso, isto é, a relação fonema-grafema. Se a escola partir do texto escrito, no método fônico, estará, assim, enfatizando a relação grafema-fonema. Se a escola parte da falta do alfabetizando, focalizará, desde logo, a relação fonema-grafema.

O grande desafio dos docentes ou dos pedagogos da leitura é, tendo conhecimento de Lingüística e Alfabetização, levar os alunos a entenderem, ao longo do processo de alfabetização, as noções de fonema e grafema. Entender, por exemplo, que fonema, som da fala, faz parte do chamado módulo fonológico, uma herança genética do ser humano.

Na fase de balbucio, ainda não os sons da fala ainda não manipulados pela criança, mas, a partir dos três anos de idade, já considerada nativa, a escola pode ensinar ao educando, sistematicamente, o sistema sonoro da língua, levando-o à consciência fonológica ou fonêmica, de modo que entendam que o fonema é uma   unidade mínima das línguas naturais no nível fonêmico, com valor distintivo.

Os investigadores de leitura mostram que o método fônico também é mais eficiente para as comunidades lingüísticas pobres, ou seja, as camadas populares com acesso precário aos bens culturais da civilização letrada. Por que isso ocorre? Graças ao fonema podemos distinguir morfemas ou palavras com significados diferentes, todavia próprio fonema não possui significado. Em português, as palavras faca e vaca distinguem-se apenas pelos primeiros fonemas/f/ e/v/.

Os fonemas não devem ser confundidos, todavia, com as letras dos alfabetos, porque estas frequentemente apresentam imperfeições e não são uma representação exata do inventário de fonemas de uma língua. As letras do alfabeto são signos ou sinais gráficos que representam, na transcrição de uma língua, um fonema ou grupo de fonemas. Como as letras não dão conta de todo o sistema de escrita, os lingüistas falam em grafemas no campo da escrita.

Os grafemas, bastante variados, estão presentes no sistema da escrita da língua portuguesa. Para a compreensão da escrita alfabética ou ortografia da língua portuguesa, a noção de grafema se faz necessária uma vez ser uma unidade de um sistema de escrita que, na escrita alfabética, corresponde às letras e também a outros sinais distintivos, como o hífen, o til, sinais de pontuação e os números.

O método global além de não ter funcionado ou vir tendo uma resposta eficaz no sistema educacional da América Latina, uma vez que não se presta ao nosso sistema lingüístico, ao contrário do método fônico, que requer conhecimentos metalingüísticos da fonologia da língua portuguesa, o global requer dos alunos uma maior carga de memorização lexical.

O método global de alfabetização em leitura peca porque sobrecarrega a memória dos alfabetizandos quando ainda não estão em processo de construção do seu léxico, que depende, como nos ensina o sociointeracionismo, das relações intersubjetivas ou interpessoais e de engajamento pragmático das crianças no uso social da língua. Numa palavra, diríamos que o método global depende muito das formas de letramento da sociedade, dos registros de atos de fala, nos diferentes contextos sociais e culturais da sociedade, em que a palavra é, assim, o grande paradigma em ponto de partida da pedagogia da leitura. Para os países desenvolvidos e com equipamentos sociais à disposição dos alunos, cai como uma luva.

Para os países subdesenvolvimentos, tem se constituído uma lástima e é deplorável a situação por que passa o Brasil, nos exames nacionais e internacionais, anunciando o nosso pais como o pior país do mundo em leitura.Ao contrário do método fônico, o método global não tem um caráter emancipatório, retarda o ingresso da criança no mundo da leitura.

A partir dos anos 80, no século passado, o Brasil, através de seus governos, influenciado com os achados da psicogênese da escrita, realmente uma teoria (e não pedagogia) bastante sedutora em se tratando de postulações pedagógicas, adotou o método construtivista para o sistema educacional, em particular, o público, a adotar o método construtivista ou global. Uma década depois, os resultados pífios do Sistema de Avaliação da Educação Escolar (convertido,agora, em Prova Brasil) revelaram que as crianças, depois de oito anos de escolaridade, estavam ainda com nível crítico de alfabetização, mal sabiam decodificação, isto é, transformar os signos gráficos(letras) em leitura. Sem leitura, como sabemos, o aluno não tem estratégia de desenvolvimento de capacidade de aprender ou de aprendizagem.

Os primeiros seis anos do século XXI já assinalam o principal desafio dos governos, estabelecimentos de ensino e docentes, no meio escolar, é o de levar o aluno ao aprendizado da lectoescrita. O que deveria ser básico se tornou um desafio aparentemente complexo para os docentes da educação básica: assegurar, através da leitura, escrita e cálculo, a aprendizagem escolar.

Por que o domínio básico de lectoescrita se tornou tão desafiador para o sistema de ensino escolar? Por que ensinar a ler não é tão simples? Como desvelar o enigma do acesso ao código escrito? Em geral, quando nos deparamos com as dificuldades de leitura ou de acesso ao código escrito, esperamos dos especialistas métodos compensatórios para sanar a dificuldade.

Nenhuma dificuldade se vence com método mirabolante. O melhor caminho, no caso da leitura, é o entendimento lingüístico, do fenômeno lingüístico que subjaz ao ato de ler. Ler é ato de soletrar, de decodificar fonemas representados nas letras, reconhecer as palavras, atribuir-lhes significados ou sentidos, enfim, ler, realmente, não é tão simples como julgam alguns leigos.

O primeiro passo, nessa direção, o de ensinar o aluno a  aprender a ler antes para praticar estratégias de leitura depois,  em outras palavras, de atuar eficientemente com as dificuldades do acesso ao código escrito, as chamadas dificuldades leitoras ou dislexias pedagógicas, é ensinar o aluno a  aprender mais sobre os sons da língua, ou melhor, como a língua se organiza no âmbito da fala ou da escrita.Quando me refiro à fala, estou me referindo, sobretudo, aos sons da fala, aos fonemas da língua: consoantes, vogais e semivogais.

A leitura, em particular, tem sua problemática agravada por conta de dificuldades de sistematização dos sons da fala por parte da pedagogia ou metodologia de plantão: afinal, qual o melhor método de leitura? O fônico ou o global? Como transformar a leitura em uma habilidade estratégica para o desenvolvimento da capacidade de aprender e de aprendizagem do aluno?

Assim, um ponto inicial a considerar é a perspectiva que temos de leitura no âmbito escolar. Como lingüística, acredito que a perspectiva psicolingüística responde a série de questionamentos sobre o fracasso da leitura na educação básica. Em geral, os docentes não partem, desde o primeiro instante de processo de alfabetização escolar, da fala. A fala recebe um desprezo tremendo da escola e é fácil compreender o porquê: a escrita é marcador de ascensão social ou de emergência de classe social.

A escrita é ideologicamente apontada como sendo superior a fala. A tal ponto podemos considerar essa visão reducionista da linguagem, que quem sabe falar, mas não sabe escrever, na variação culta ou padrão de sua língua, não tem lugar ao sol, não tem reconhecimento de suas potencialidades lingüísticas. Claro, a escrita não é superior a fala nem a fala superior a escrita. Ambas, interdependentes. A alma e o papel, o pensamento e a linguagem, a fala e a memória, todos esses componentes têm um papel extraordinário na formação para o leitor proficiente.

ABUD, Maria José Millarezi. O ensino da leitura e da escrita na fase inicial de escolarização. São Paulo: EPU, 1987. (Coleção temas básicos de educação e ensino)

ALLIEND, G. Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

BETTELHEIM, Bruno, ZELAN, Karen. Psicanálise da alfabetização. Tradução de José Luiz Caon. Porto Alegre: Artmed, 1984.

BOUJON, Christophe, QUAIREAU, Christophe. Atenção e aproveitamento escolar. Tradução de Ana Paula Castellani. São Paulo: Loyola, 2000.

CARDOSO-MARTINS, Cláudia (org.). Consciência fonológica e alfabetização.Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

CARVALHO, Marlene. Guia prático do alfabetizador. 4ª ed. São Paulo: Ática, 1999.

CASTELLO-PEREIRA, Leda Tessari. Leitura de estudo: ler para aprender a estudar e estudar para aprender a ler. Campinas, SP: Alinea, 2003.

CATACH, Nina (org.). Para uma teoria da língua escrita. Tradução de Fulvia M. L Moretto e Guacira Marcondes Machado. São Paulo: Ática, 1996.

CATANIA, A. Charles. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. 4ª ed. Tradução de Deisy das Graças de Souza. Porto Alegre: Artmed, 1999.

CHAPMAN, Robin S. Processos e distúrbios na aquisição da linguagem. Tradução de Emilia de Oliveira Diehl e Sandra Costa. Porto Alegre: Artmed, 1996.

COHEN, Rachel, GILABERT, Hélène. Descoberta e aprendizagem da linguagem escrita antes dos 6 anos. Tradução de Clemence Marie Chantal Jouët-Pastre et ali. São Paulo: Martins Fontes, 1992. (Coleção Psicologia e Pedagogia)

COLL, César, MARCHESI, Álvaro e PALACIOS, Jesús. Desenvolvimento psicológico e educação: volune 3, transtornos do desenvolvimento e necessidades educativas especiais. 2 ed. Tradução Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2004.

COLOMER, Teresa, CAMPS, Anna. Ensinar a ler, ensinar a compreender. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.

CONDEMARÍN, Mabel e MEDINA, Alejandra. A avaliação autêntica: um meio para melhorar as competências em linguagem e comunicação. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2005

CONDEMARÍN, Mabel, GALDAMES, Viviana, MEDINA, Alejandra. Oficina da linguagem: módulos para desenvolver a linguagem oral e escrita. 1ª ed. Tradução de Marylene Pinto Michael. São Paulo: Moderna, 1999.

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

tela de mazé mendes. ilustração do site.

 

O QUE HÁ COM A POESIA? PARA IVO BARROSO FALTA…

Para Ivo Barroso, falta à poesia atual o poder de emocionar

Cada vez a poesia “atinge” menos leitores, seja porque recorre a uma linguagem que em última instância a elitiza ou a marginaliza, seja pela sua atual incapacidade de atingir aquilo que parece o fim precípuo dessa arte: o poder de emocionar, de tocar uma corda sensível do leitor e tirá-lo, ainda que por brevíssimos instantes, do fulcro habitual em que vive e pensa. A maior parte da produção poética de nosso tempo nada tem a ver com a poesia propriamente dita: é prosa ruim ou letra de música ou abjeções destinadas ao vaso sanitário. Além disso há uma persistência inexplicável por métodos que de há muito se revelaram inócuos. Tenho engulhos quando leio poemas com trocadilhos ou jogos de palavra aleatórios tipo pá/lavra e quejandos. Há gente que ainda hoje usa recursos concretistas pensando que está fazendo poesia “avançada”…

BAÍA DE ANTONINA. tela de claudio kambé. ilustração do site.

AS CHUVAS poema de h. dubal

 

Nas mãos do vento as chuvas amorosas
vinham cair nos campos de dezembro,
e de repente a vida rebentava
na força muda que as sementes guardam.

Nas ramas verdes rebentava a luz
e a doçura do tempo transformava
a terra e o gado na pastagem tenra
na alegria dos rios renovados

Cheiro de gado e de currais suspenso
no ar que os dedos do inverno vão tecendo
mais um vez nos campos de dezembro.

E nos trovões a tarde acalentada,
cantiga de viver que a chuva traz
numa clara certeza repetida.

 

 

H. DUBAL – Poeta Crítico, leitor de Sartre, Rilke, T.S.Eliot e Camus… existencialista. Nào falava de si, discreto. falava do mundo, criticava a modernidade…entregou as moedas para o barqueiro há dois meses.

A ENCENAÇÃO poema de altair de oliveira

 

Antes que a dor me arrie,

Emulo um lance de sorte

E empano a extinta alegria

Eu  a empunho como estandarte,

e a porto por toda parte…

(…rio só noites e dias!)

E a emprego de arma de marte

com artes de artilharia

E miro o motor da morte…

 

– Algoz com as minhas algias!!!

 

CRUCIFIXO REAL poema de ademário da silva

Um céu / Um sol

África de urinol

Um chão

Deserto de Saara

Escancara corrupção

Tempestade de emoção

Lágrimas de penitência

Ausências solidárias

Multifárias questões

Humanos borrões

Ações estáticas

Fantásticas são as prisões

A prisão dos ventres

Das mentes e dos corações

Vilões da liberdade



Sentados no trono da falsidade

Administrando destinos de infantilidades

Clitóris em desavisos

Meretrícias condutas

Liturgias pedófilas

O pecado do mundo e o cordeiro do nada

No templo das indulgências milenares

Um esquisito madeiro

Provoca a inflação moral

Por trinta dinares!

VINDICAÇÃO DE VINCENT de jorge lescano

 

Um poeta cego vende mais jornais que um poeta muito míope.

Jorge Luís Borges

 

Na segunda metade do século XX, Vincent van Gogh foi transformado num dos maiores sucessos de vendas da pintura, do mercado livreiro, do jornalismo e da estamparia. Apesar de hoje ninguém ignorar seu nome e os Girassóis decorarem a sala da classe média do mundo globalizado, reluto em situar seus quadros em primeiro lugar. As duas últimas centúrias deram preferência à imagem dos artistas. No final do século XX, a obra ilustra a biografia e o retrato é substituído pela palavra. Grandes escritores vendem milhares de exemplares que ninguém lê. Pequenos escribas têm milhões de leitores.

Com métodos similares aos do Malleus Maleficarum, que no século XV ensinava a identificar bruxas e possuídos por Satã a partir de sinais externos como gagueira, estrabismo, insônia…, o século XX sacramentou a Loucura. Não é de estranhar, então, que se confunda com loucura a mera estupidez. O século registra duas guerras mundiais em favor desta idéia.

É de van Gogh que pretendo falar. No caso, a aura de loucura (confundida com estupidez) que acompanha seu nome, é responsável por grande parte do sucesso. Não tenho a intenção nem creio necessário escrever um artigo sobre a incompreensão do público seu contemporâneo, nem dos médicos que o trataram antes e depois de cortar a orelha, nem de sua pretensa capacidade visionária — qualquer coisa que isto signifique a seu respeito –, nem do seu apostolado artístico (!), sequer do desastrado tiro no peito com que encerrou sua vida. Não desejo insistir no tom laudatório de praxe, deixo tais matérias para os jornalistas.

Creio que Vincent van Gogh pode ser visto à luz da biografia escrita por sua cunhada Jô van Gogh-Bonger, pelas Cartas de Théo a Vincent, pelas Cartas de Vincent a Émile Bernard (P.A, L&PM Pocket, 2005) e sobre tudo pelas Cartas a Théo, apesar de um certo Charles Terrasse, que na apresentação desta obra (L± R S.; 1986) afirma: este grande pintor jamais teve o dom da palavra (p. viii). Considero sua correspondência um testemunho satisfatório, único, sem as pretensões literárias das autobiografias. Diverso também do van Gogh de Antonin Artaud, interpretação melodramática do pintor.

 

[…] Nenhuma descrição tentada por quem quer que seja poderá as equiparar à simples alienação de objetos naturais e de tintas a que se entrega van Gogh, tão grande escritor como pintor e que transmite dentro da obra que descreve, a de (sic) mas desconcertante autenticidade (Van Gogh, o Suicidado pela sociedade; achiamé; R J ; s.d.; p. 18).

 Vincent descreve para Théo um quadro de Thijs Maris:

Uma velha cidade de Holanda, com fileiras de casas num castanho avermelhado com oitões em escadinha e patamares nas portas, telhados cinzas, e portas brancas ou amarelas, vãos e cornijas; canais com barcos e uma grande ponte levadiça branca sob a qual se encontra uma chata com um homem ao leme, a casinha do guarda da ponte que se vê pela janela sentado em sua pequena escrivaninha.

Um pouco mais longe no canal, uma ponte de pedra sobre a qual passam pessoas e uma charrete com cavalos brancos.

E movimento por toda parte: um homem com um carrinho de mão, um outro apoiado ao parapeito, olhando para a água, mulheres de preto com toucas brancas.

No primeiro plano um cais com lajotas e um parapeito branco.

Ao longe uma torre se ergue sobre as casas.

Acima disso tudo, o céu, num branco cinza.

É um pequeno quadro, vertical (op. cit., p. 2, 3).

 Artaud comenta a descrição de um quadro de e pelo próprio van Gogh:

 Parece fácil escrever dessa maneira.

Tente e então me diga se você não fosse o autor de um quadro, de van Gogh, poderia descrevê-lo tão simplesmente, sucintamente, objetivamente, duravelmente, validamente, autenticamente e milagrosamente… (Artaud; op. cit.; p. 19)

 Mais adiante M. Terrasse admite que:

 Mesmo sem escrever bem, van Gogh impregna suas cartas de tamanho vigor e energia que elas terminam por tornarem-se um documento tão admirável como os diários de Kafka ou Dostoievski (ib.)

Procuro nas Cartas o perfil deste artista tão controvertido em vida quanto idolatrado após a morte. Artaud culpa Théo pela morte de Vincent, e acrescenta que o fato daquele morrer seis meses mais tarde não muda nada. Acusa Théo de tentar acalmar as alucinações (sic) de Vincent em vez de acompanhá-lo no delírio, do qual dependia, ao que parece, a qualidade de sua arte, porque não é o homem mas o mundo que se tornou anormal (p. 3). Entendo que Théo era culpado de não ser gênio, e que Artaud confunde um estágio do sistema capitalista com a condição do planeta. Na verdade, Artaud, romântico exacerbado, aproveita o tema van Gogh para a autodramatização.

O caráter “sublime” da vida e obra de van Gogh irá ganhando volume a medida que estas sejam divulgadas, vulgarizadas, pela imprensa, a “literatura”, o teatro, o cinema…

A imprensa, mais preocupada com a propaganda e a venda dos seus produtos do que com a verdade, divulga a imagem do artista incompreendido, estóico, puro, sem mácula comercial; nunca omite que vendeu apenas um quadro em vida.

 Foi Anne Boch, irmã de Eugène Bock (ou Boch), 1855-1941, pintor francês que, em fevereiro de 1890, comprou em Bruxelas A Vinha Vermelha, por quatrocentos francos, provavelmente o único quadro de Vincent que Théo conseguiu vender. (Jo van Gogh-Bonger; op. cit; p. 107)

 Este dado fortuito confirmaria as qualidades supracitadas. Até a assinatura pode ser prova de modéstia ou, em todo caso, ter função ambígua:

Será preciso inserir meu nome no catálogo tal como eu o assino nas telas, ou seja, Vincent, e não van Gogh, pela simples razão que não saberiam pronunciar este último nome aqui. (Cartas; p. 147)

 Eu tinha começado a assinar minhas telas, mas logo parei com isto, pareceu-me demasiada besteira. Numa marina há uma assinatura vermelha muito exorbitante, porque eu queria colocar uma nota vermelha no verde. (id. p. 195)

A reflexão aconselha calma e paciência:

 Se aos quarenta anos eu fizer um quadro de figuras semelhantes às flores de que Gauguin falava, terei uma posição de artista ao lado de qualquer um. Portanto, perseverança. (id., p. 230)

 Van Gogh não chegará aos quarenta anos. E não haverá uma ponta de vaidade nesta afirmação?:

 Ora, eu como pintor nunca significarei nada de importante, sinto-o perfeitamente. (id.; p.264)

 Ou seja, Vincent desejava ser importante! E enganou-se duplamente. Não só é um marco da arte moderna, como um dos personagens mais frequentados pelos escribas.

Ao idealizar-se a figura do artista ao gosto do consumidor médio, começa a deturpação da vida de Vincent van Gogh. Omitem-se os dados que possam macular a imagem pretendida. Assim, raramente se menciona o fato dele beber excessivamente, elude-se a análise em profundidade do seu caráter irascível, que o torna incapaz de controlar suas opiniões sustentadas aos gritos. Estas particularidades serão convenientemente atribuídas a sua pretensa loucura. Nesta disposição de espírito conseguiu se indispor não apenas com os pintores que freqüentava como com seu próprio irmão, se bem que com este por pouco tempo.

Em alguma carta exporá a idéia de que os quadros deveriam ter as assinaturas de ambos. Não sem arbitrariedade podemos ignorar este reconhecimento ao seu único benfeitor. A interpretação de Artaud é tendenciosa, subjetiva, mais uma conseqüência do abuso ou descontrole da linguagem do que uma opinião refletida à luz dos fatos. Aqui, como em outros momentos de sua obra, Artaud é arrastado pela linguagem. Em sua interpretação, cada um dos atos da vida do pintor ganha novos significados. De um modo geral, os acréscimos morais a estas figuras correm por conta e risco da boa vontade dos articulistas, crescem, bifurcam-se

canonizando o artista.

Não endosso a idolatria. Vincent van Gogh, aquele cara de açougueiro ruivo que nos inspeciona e vigia; que nos escava com o olhar turvo (Artaud, op. cit., p. 29), não era um santo, se estes existiram alguma vez. Precisamente por ser “apenas um homem” é que sua obra merece estudo. Fosse ele um mensageiro divino e teríamos direito a exigir mais pureza, mais estoicismo, menos intenções comerciais.

Artaud escreve seu libelo em 1947, depois de visitar a exposição de van Gogh no Museu l’Orangerie.

 Van Gogh está na moda — escreve George d’Espagnat –, moda frenética, ao extremo de que os visitantes se aglomeraram em quatro filas diante dos quadros enquanto uma fila tão comprida como as que vemos nos cinemas se estendia à entrada do museu. Em todos os lugares elegantes, nos chás luxuosos ou sensivelmente burgueses, as pessoas do mundo mais elegante lançam exclamações cheias de admiração por este pintor que cada um se congratula de ter descoberto.(Cartas; p. 298)

Artaud assume o tom d’O Justo, como corresponde à autodramatização. Culpa a sociedade pela morte do pintor, como se a sociedade (?) devesse arcar com os gostos pessoais em pintura. Pressupõe uma função social do artista sem contar com que ela exige a assimilação de valores explicitados na obra, por outras palavras, o produto deve atender o gosto do consumidor. E aqui cabe o termo detestável. Van Gogh, a despeito de ter vendido apenas um quadro em vida, pretendia, achava coerente, em todo caso, viver da venda dos seus quadros. Desejava ser um artista profissional no sentido burguês;o erro foi não renegar de sua profissão de fé:

 (Tersteeg) sempre diz não é vendável, e em primeiríssimo lugar é preciso ser vendável.

Quanto a mim, atribuo a isto o seguinte significado: “O senhor é uma mediocridade e o senhor é pretensioso em não querer submeter-se e fazer coisinhas medíocres; o senhor se torna ridículo com suas supostas pesquisas, e o senhor não trabalha.” (Cartas, p. 68)

 No impasse, decidiu acatar o conselho de Théo: Sigamos nosso caminho tranqüilamente, trabalhando para nós mesmos. (id.; p. 185)

O sistema econômico tornou a profissão de artista uma aberração, tanto quanto a de atleta profissional, inexistente antes do século XX, quer me parecer.

Imaginemos um esportista que inventasse um jogo do qual apenas ele conhecesse as regras, teria direito de reclamar da falta de público? Até o século XVIII, o artista sentia-se amparado pela “sociedade”: a igreja, a nobreza. A mudança de regime deixa o artista a descoberto. O artesão, outrora respeitado porque a serviço de instituições tradicionais, torna-se um paria. Ele mesmo terá que ser um objeto “artístico”: imagem exótica, espécie de urso dançarino, pois se aprecia mais a singularidade do comportamento que a qualidade da obra.

Aquele momento funda a espécie romântica “artista miserável”, a era dos ismos e o culto do sofrimento doméstico, matéria prima da arte dita realista. Logo a psicologia dará fundamentos teóricos para interpretar a obra a partir da vida do artista. O círculo se fecha harmoniosamente, vida e obra se complementam para satisfação generalizada dos ideólogos e dos donos do mercado. O preço da obra flutua embalado pelos ventos da crítica de arte, não raro financiada pelos seus beneficiários: colecionadores, marchands, investidores (sic), artistas inseridos no contexto. A imortalidade já é previsível, inclusive quanto a sua duração.

Não é o caso de justificar a indiferença pela arte nova do “grande público” (instituição parida nas novas condições do mercado), antes, denunciar o sistema que faz a manutenção da ignorância, explorando-a com e para o consumo de produtos de baixa qualidade. Não se censure este vocabulário, é o adequado quando se fala de mercadorias.

Um quadro de van Gogh, O Suicidado pela Sociedade, tem hoje um dos preços mais altos no mercado internacional de arte. Nunca compreendi o mecanismo que determina o valor de um quadro, se é que existe um mecanismo. O caso dos Girassóis de van Gogh exemplificará outros. Tento me localizar fazendo abstração do tipo de produto em pauta. Imagino um objeto industrializado, digamos: um carro. É questionável minha habilitação para depor, visto não ser o feliz possuidor do artefato proposto; suponho que isto justificará a minha candura aos olhos das montadoras, da psicologia e da crítica especializada. Suponho que quando é lançado no mercado um novo modelo de automóvel, todos os exemplares da série têm o mesmo preço. Suponho que este seja determinado pelos custos de fabricação, mais a margem de lucro. Suponho que tudo isto seja calculado matematicamente. Suponho que o resultado da operação seja justo.

Como calcular o preço de um quadro? Van Gogh propõe várias maneiras de cotação, em algumas cartas expõe planos de venda e arrisca avaliações de sua obra:

 

Se nos atrevemos a acreditar, e continuo convencido disto, que os quadros impressionistas subirão, é preciso fazer muitos e valorizá-los. Mais uma razão pela qual é preciso cuidar tranqüilamente da qualidade da coisa e não perder tempo. (Cartas, p. 153)

 

Mauve fez e vendeu uns seis mil francos em aquarelas, pelo que você mesmo me contou na época. Pois bem, existem tais filões dos quais, em meio às dificuldades atuais, eu sinto a possibilidade.

Nesta remessa há o pomar cor-de-rosa em tela grosseira, e o branco horizontal, e a ponte, os quais, se os guardarmos, acho que mais tarde poderiam subir, e uns cinqüenta quadros desta qualidade nos ressarciriam de alguma forma pela pouca sorte que tivemos no passado. Pegue portanto esses três para sua coleção e não os venda, pois mais tarde valerão quinhentos cada um. (id., p. 157)

 Que tal avaliação fosse modesta não altera nada.

 Creio ter mais chances de lograr as coisas e mesmo os negócios um pouco maiores, do que me limitando a fazê-los muito pequenos. E é justamente por isso que eu acho que vou aumentar o formato das telas e descaradamente adotar a tela de 30. (id., p. 165)

 Enfim, estou mais ou menos certo de conseguir fazer uma decoração que valerá dez mil francos daqui a algum tempo. (id. p.204)

 Fazer mil quadros a cem francos durante uma vida de artista é muito, muito difícil, mas quando o quadro vale cem francos e ainda assim […] (id., p. 225)

 É claro que não esqueço o troço (não tão) diabolicamente bom que acabou dando porque não pude me decidir a vendê-lo. (id., p. 120)

O quadro do meu exemplo pertence a uma série na qual todos os exemplares têm dimensões similares, isto faz supor um preço mais ou menos igual da tela em branco e das tintas utilizadas, supondo que tais materiais tenham sido adquiridos na mesma época e no mesmo local. Pelas declarações de Vincent, podemos supor que nelas se tenha investido um tempo de trabalho mais ou menos equivalente. Suponho que sou autorizado a supor um preço aproximado entre estas obras.

Outro modo de avaliá-los poderia ser o sistema de griffe (?) ou marca, como se dizia antes da globalização (a. G.). Suponhamos que a marca Simplesmente Vincent (S.V.) atingiu o valor X. Todos os artefatos desta marca terão o mesmo preço ou, digamos, um preço equivalente, dependendo das dimensões ou da época em que foram fabricados. É obra de transição, tal Os Comedores de Batatas? Trata-se de Sorrow, o único nu pintado por S. V.? Se as cotações alcançadas não respondem estas questões, é de supor que o funcionamento do mercado seja arbitrário, portanto, os valores (monetários, artísticos) das obras não são impostos pela sociedade ou o mundo, mas por setores interessados na especulação financeira, aos quais não seria estranho o jornalismo cultural.

 Mera curiosidade o fato de que o magnata japonês que pagou pelo quadro mais de U$ 70 milhões (Baratinho! Baratinho!, nas suas palavras), tenha determinado em testamento que a obra deve ser incinerada

junto com ele. Não é amor excessivo pela arte. Acontece que no Japão os impostos sobre heranças são tão exorbitantes que é preferível destruir os bens. Um quadro de Renoir, adquirido na mesma época, pela mesma pessoa e com valor aproximado, corre o risco de sofrer as conseqüências da mesma determinação. Poderá se questionar se este… colecionador, por assim dizer, tem o direito de destruir tais

obras. Desde que se admita a propriedade privada dos objetos culturais, sua intenção é totalmente legal. Paradoxos da valorização da arte! Sabemos que o exótico comprador faleceu há algum tempo, ignoramos se enquanto cumpria pena por corrupção, sendo ele o corruptor. Paradoxos da jurisprudência do dito Primeiro Mundo!

Não menosprezo a obra de Vincent van Gogh. Desejo compreender o método que a impõe a um consumidor tão despreparado em matéria de pintura quanto os gigolôs e (os) pivetes que achavam especialmente interessante ver as cores saindo dos tubos. (id., p. 207) Este público — a maioria da espécie — é a verdadeira vítima do engodo. O artista inovador sempre terá lucidez para perceber as falhas do sistema e a loucura de apontá-las. Esperar reconhecimento em vida por isto é não compreender o funcionamento do mercado ou excesso de ingenuidade.

Van gogh se aproxima de uma teoria e uma crítica de sua obra:

Tenho a intenção de aprender seriamente a teoria; não considero isto de forma alguma inútil, e acredito que freqüentemente o que sentimos ou o que pressentimos instintivamente torna-se claro e certo quando somos guiados por alguns textos que tenham um real sentido prático. (id.,p.87)

 Isto nega tanto a “loucura” quanto a “inspiração”, conceitos vizinhos, se não sinônimos, em certas poéticas.

Caso van Gogh fosse um louco (!?), o seria nas horas vagas. Ao pintar, é de supor que seguisse os planos traçados que apresenta a Théo:

Não creia pois que eu manteria artificialmente um estado arrebatado, mas saiba que em pleno cálculo muito complicado, do qual resultam rapidamente, uma atrás da outra, telas feitas bem depressa, mas muito calculadas previamente. E aí está, quando lhe disserem que isso foi feito depressa demais, você poderá responder que eles também viram depressa demais. (ib., p.176)

 

Em meu quadro do Café Noturno, busquei exprimir que o café é um lugar onde podemos nos arruinar, ficar louco, cometer crimes. Enfim, procurei, através dos contrastes de rosa tênue e de vermelho-sangue e borra de vinho, de suaves verdes Luís XV e Veronese, contrastando com verdes-amarelos e verdes-azuis duros, exprimir algo como o poder das trevas de uma espelunca. (id., p. 255)

Meus estudos não têm para mim nenhuma razão de ser além de uma espécie de ginástica para subir e descer nos tons; assim, não se esqueça que pintei meu musgo branco ou cinza com uma cor de barro e que apesar de tudo, no estudo, ele fica claro. (id., p. 114)

 Na sua opinião, nem sempre está à altura do plano ou consegue realizá-lo plenamente:

 Infelizmente tenho uma profissão que não conheço o suficiente para me exprimir como desejaria. (id., p. 255)

 Não é arbitrário considerar sua obra um conjunto de estudos:

 […] Por enquanto só O Semeador e o Café Noturno são ensaios de quadros compostos. (id., p. 203)

Como se vê, a imagem do louco inspirado perde consistência quando confrontada com o dia-a-dia das suas cartas. Esta documentação original, insuspeita, traz a tona as preocupações de um artista consciente do seu trabalho, debilitado fisicamente pelas privações materiais que acabaram provocando perturbações nervosas identificadas com a loucura (?), para maior satisfação do público em geral, embrutecido pelo jornalismo sensacionalista, que fingindo corrigir, insiste em confirmar os fatos sórdidos de sua vida.

Gauguin teria cortado a orelha de van Gogh, segundo especialista

Londres, 22 jul (AFP) – A orelha esquerda de Vincent van Gogh pode ter sido cortada por Paul Gauguin durante uma briga sob efeito do álcool, afirma uma especialista alemã que contradiz, com sua tese, a versão oficial de uma automutilação, indicou este domingo o jornal Sunday Times.

Em um livro que será publicado em breve, a crítica de arte Rita Wildegans afirma ter descoberto muitos buracos na popular versão do incidente…

[…] “Não afirmo ter cem por cento de certeza de que minha teoria esteja correta. Nenhum historiador o faria”, explica Wildegans.

[…] Para a crítica alemã, também é muito suspeito que Gauguin tenha partido de Arles com grande precipitação no mesmo dia…

[…] Há também o fato de que Gauguin pediu por correio que suas coisas fossem enviadas a Paris e, entre os objetos pessoais, seu equipamento de esgrima, por era (sic) apaixonado. No entanto, não pedia que lhe enviassem a espada. Dessa forma, a crítica alemã deduz que, para dissimular, a havia levado consigo.

 

UOL DIVERSÃO & ARTE — Índice de notícias — 22/07/2001 — 09H18

 

 

 

É de supor que o jornal não ironiza ao chamar a “pesquisadora” de crítica de arte. Isto me remete às freqüentes investidas sobre, ou contra, a Mona Lisa. Lembro de três: Em meados da década de 1970 um médico japonês, utilizando sofisticada tecnologia eletrônica, descobriu que na esclerótica dos olhos da personagem (não há certeza de que tenha existido historicamente) aparecem manchas verdes, o que o levou a diagnosticar afecção hepática, e concluía com gravidade científica: algo muito sério para uma mulher de sua idade . A segunda também vem do Japão e é mais recente, já no presente século. Um pesquisador acaba de descobrir a voz de Mona Lisa! A terceira aconteceu no fim da década de 1980 na terra natal da matrona: dois estudiosos, após exaustivas pesquisas, conseguiram identificar a paisagem que aparece ao fundo do quadro. Trata-se de uma localidade perdida no interior da Itália e cujo nome não consegui guardar.

 

 O fato é que um van Gogh louco vende mais revistas, jornais, livros, filmes…, que um pintor com os nervos à flor da pele por uma alimentação deficiente e falta de materiais e de companhia:

Estive tão duro desde quinta, que de quinta a segunda só fiz duas refeições, quanto ao resto eu só tomei pão e café que mais de uma vez eu fui obrigado a beber fiado e que tive que pagar hoje. (Cartas, p. 219)

Que pena que a pintura custe tão caro! Esta semana eu tive o suficiente para me incomodar menos que as outras, portanto eu me soltei; eu teria gasto a nota de cem numa única semana, mas ao fim teria meus quatro quadros, e mesmo se acrescentasse o preço de toda a cor que usei, a semana não teria sido um fracasso. (id., p. 197)

[…] passam-se muitos dias sem que eu diga uma palavra a alguém, a não ser para pedir o almoço ou um café. E assim foi desde o começo.

[…] Até o momento, no entanto, a solidão não me incomodou muito, de tão interessante que eu achei o sol mais forte e seu efeito sobre a natureza. (id., p. 177)

Eu não teria medo de nada se não fosse esta maldita saúde. […] E o caso é que, quase não comendo, e quase não bebendo, estou muito fraco, mas meu sangue se refaz ao invés de se estragar. (id., p. 153)

Meu caro irmão, talvez o melhor seja zombar de nossas pequenas misérias e também um pouco as (sic) grandes misérias da vida humana. (id., p. 253)

Em 6 de junho de 1888, escreve:

Sei também que pretendo manter minhas opiniões deste inverno, quando conversamos sobre a associação de artistas.

Não que eu tenha um grande desejo ou esperança em realizá-la […] (id., p. 171)

 

Seria de lamentar que Artaud confirmasse a imagem elaborada pelo mercantilismo. Tal não acontece, seu Van Gogh… é um depoimento do autor sobre si mesmo, não um estudo da vida e obra do pintor. A leitura das Cartas e a observação atenta dos quadros (não como ilustrações) sempre dirão mais sobre o homem e o artista do que qualquer “interpretação”, por autorizada (?) que seja.Não se trata de denegrir a imagem de van Gogh, apenas de devolver-lhe a estatura humana.Hoje, a “rebeldia”, o “satanismo”, têm carta de cidadania cultural. Com todo fervor, não desejo cair na tentação de, negando a loucura (qualquer coisa que se entenda por isto), afirmar a santidade (qualquer coisa que isto signifique) de quem lucidamente escolheu a pintura como forma de realização pessoal. Numa interpretação descabida e romântica do sistema capitalista, o fracasso comercial pode ser “prova” (?) de autenticidade psicológica (!), de honestidade profissional, de generosidade espiritual. Livre-me Deus (qualquer coisa que isto signifique hoje) desse dês(a)tino!

 


tela de vincent van gogh. ilustração do site.

MARQUES DE MARICÁ, alguns aforismas

 

 

 

Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.

 

 

Desperdiçamos o tempo, queixando-nos sempre de que a vida é breve.

 

 

O louvor fecundo distingue menos que a admiração silenciosa.

 

A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

 

 

O louvor que mais prezamos é justamente aquele que menos merecemos.

 

 

Os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir.

 

 

Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores dos nossos erros, vícios e imperfeições.

 

 

A paciência em muitos casos não é mais senão medo, preguiça ou impotência.

 

 

A beleza é uma letra que se vence à vista, a sabedoria tem o seu vencimento a prazos.

 

 

A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis.

 

 

Custa menos ao nosso amor-próprio caluniar a sorte, do que acusar a nossa má conduta.

arte nas mãos de guido daniele/milão. ilustração do site.

 

 

 

AUSÊNCIA poema de tonicato miranda

(para Jane)

Do que é feito o triste?

não ter a mulher amada por perto

sentir no jazz saudades em forma de trumpete

querer estar errado, quando se está certo

viver sem contrastes, se sentindo um traste

Do que é feito o triste?

dia interior nebuloso, apesar do sol claro lá fora

prostrar-se diante da TV e nada ver ou falar

a lágrima seca, que não brota, não chora

saudade pulsando no coração como um quasar

Do que é feito o triste?

um copo e uma garrafa sobre a mesa

um piano pingando notas de dedos musicais

olhar sua foto na parede, seus tempos de princesa

sua ausência e um tempo que não volta mais…

Do que é feito o triste?

olhar seu brinco sem sua orelha

sua blusa largada na cadeira sem seus braços

suas flores beijadas por uma grande abelha

seu sorriso sempre lindo afastando meus abraços

Do que é feito o triste?

um piano dedilhado ligeiro

uma bateria marcando tempo

retratos na parede

retratos na memória

um cigarro, vinte cigarros

uma bebida forte

chuva miúda na janela

um sapato encharcado

um casaco dependurado

um guarda-chuva solitário

nenhum táxi circulando

ruas vazias na noite escura

não querer tomar um último gole

não querer fumar um último cigarro

sentar a sua espera

o olhar fixo no infinito

ouvir o jazz e se deixar levar

para o seu passado

no presente da minha tristeza

eu aqui, sem jantar

você tão longe, já na sobremesa

555 VALE A PENA PARA SER NÚMERO – poema de sérgio bitencourt

“Minha mulher gosta de jantar às 7:00 hs

 Eu prefiro às 8:00. Jantamos às 7:30 hs

 De modo que nos contrariamos mutuamente.

Isto é que se denomina fazer concessões conjugais”

 

                                            Chateaubriand 

 

 

 

 

Seiscentos pode ser um modelo

Um jeito auspicioso

Gosto de morango

Gosto gostoso de todos os sorvetes da vida

Consistentes nas temperaturas certas

Para que possam continuar rígidos. 

 

Quinhentos pode ser um propósito solto

De não considerar a coerência exata de todos os acertos

De jantar a gosto de viver na boa

Bebendo até a ilusão do tempo

A tempo de continuar passando

Como um sorvete derretendo à toa.

 

Quinhentos e cincoenta fica na média do Chateaubriand

Com seus jantares da vida.

 

Quinhentos e cincoenta e cinco

É coerente por si só

Pela própria mecânica dos seus dígitos

Portanto tão ímpar

Que não é por acaso.

 

O caso é que

Seja em que número for

Amar eu sempre vou te amar.

 

 

 

 

SINA – poema de vanessa lima de carvalho

 

 

Sem a lua,

Onde estariam meus reflexos azuis?

Sem o mar,    

Quais águas seriam minhas?

 

Sei o longínquo som da dor,

Sinto a luz que atravessa a janela.

Ainda não sei,

Mas sinto,

Mais uma vez,

Tudo.

 

Aquela luz

Lá no fundo da porta,

Dos olhos,

Da praça.

 

Tudo foi dito sem sentido,

Intacto termo de vida,

Pois nada justifica

o cansaço,

o desmaio,

a ferida.

 

Nem uma pétala caída

Das palavras antigas

Julgam meu estado,

Minha sina de existir.

 

Qual nome, portanto,

Revela tal melancolia?

Os passos, porém,

São os mesmos…

Tristes.

 

Aquela varanda, afinal,

Parece tão feliz.

Não conheço os cômodos atrás da porta,

Mas sei o cheiro exalante de jasmim.

 

À espreita de uma fresta vazia,

Vivo eu, então, só.

As nuances vem-me ao corpo

Anestesiado ao tato.

 

Talvez, ainda que fugaz,

Minha pele perca-se em um sopro de vida

Minhas mãos toquem a areia fina…

O caos, as vozes calem,

E eu…

Inesquecível.

BILL GATES se despede da MICROSOFT

Conheça melhor o fundador da Microsoft, que está se despedindo do dia-a-dia da empresa.

Praticamente todas as pessoas sabem quem é Bill Gates, mas poucos conhecem mais sobre ele, além do fato de ter fundado a Microsoft e ser um dos homens mais ricos do mundo.Bill Gates chama-se William Henry Gates III e nasceu em Seattle no dia 28/Out/1955. Ele tem uma irmã mais velha (Kristianne) e uma irmã mais nova (Libby).

Aos 13 anos Gates entrou na Lakeside School. Ali ele conheceu Paul Allen e teve o primeiro contato com algo parecido com um computador: um terminal de teletipo da GE. Gates ficou fascinado por aquela “máquina” e dali em diante ele começou a estudar BASIC. Em seguida Gates teve contato com um minicomputador da DEC, e com isso ele também estudou FORTRAN, LISP, Assembler e COBOL.

Com apenas 17 anos, Gates e Allen fundaram a Traf-O-Data, e criaram um sistema desenvolvido por eles para ajudar na análise do trânsito com uso de cartões perfurados. A empresa faturou US$ 20 mil, mas depois que os clientes souberam da idade de Gates, o negócio desandou.

Gates fez o SAT (teste de admissão nas universidades americanas) e obteve 1590 pontos dentre 1600 possíveis. Com isso, ele entrou em Harvard aos 18 anos, mas abandonou os estudos dois anos depois para se dedicar a uma pequena empresa que ele abrira com Paul Allen: a Micro-Soft. Em Harvard ele também conheceu Steve Ballmer, que faria parte da empresa alguns anos mais tarde.

Apenas um ano após a sua fundação, Gates decidiu tirar o hífen do nome da empresa e registrou a Micro-Soft como Microsoft, no dia 26/Nov/76. Gates e Allen desenvolveram uma versão do BASIC que fez muito sucesso, mas Gates ficou irritado ao notar que o produto era copiado livremente. Com isso, ele escreveu uma “carta aberta” a todos os programadores para que não pirateassem o software da Microsoft.

Em seguida a IBM contratou a Microsoft para desenvolver uma versão do BASIC para um produto que eles iriam lançar: o IBM Personal Computer, ou IBM-PC, que depois foi chamado somente de PC, e o resto todos sabem o que houve.

Gates se casou em 01/Jan/1994 com Melinda French (ex-funcionária da Microsoft e responsável pelo desenvolvimento do Microsoft BOB) e tiveram três filhas. Em 2000 ele criou a Bill & Melinda Gates Foundation (B&MGF), que se transformou na maior Fundação dedicada à caridade do mundo. Gates anunciara que doaria 99% da sua fortuna quando em vida e atualmente a Fundação tem quase US$ 39 bi, pois Warren Buffett (uma das pessoas mais ricas do mundo) anunciou em 2006 que doaria 85% da sua fortuna para a Fundação de Gates. A Bill & Melinda Gates Foundation é tida como uma das Fundações mais transparentes do mercado, uma vez que todos os seus gastos são públicos.

Bill Gates anunciou em Junho de 2006  que dois anos depois ele deixaria o comando da Microsoft para se dedicar à filantropia, e desde então todos perguntaram: quem iria substitui-lo? A resposta foi simples: Steve Ballmer, Ray Ozzie e Craig Mundie. Steve Ballmer está no comando da Microsoft desde 2000, e Ozzie e Mundi são profissionais tarimbados:

Ozzie começou a trabalhar na Microsoft em 2005 como Chief Technical Officer, logo após Microsoft comprar Groove Networks, empresa fundada por ele em 1997. O executivo também fundou e presidiu a Iris Associates, onde criou e liderou o desenvolvimento do Lotus Notes e posteriormente colaborou no desenvolvimento do Lotus Symphony. Atualmente está a frente do Live Mesh, projeto cujo anúncio em beta foi feito recentemente e que tem a proposta de interconexão entre todos os devices: PC, mobile, videogame etc.

Mundie está na Microsoft desde 1992 e foi o criador da área de produtos de consumo da empresa. Ele desenvolveu softwares para plataformas não ligadas a PCS, como Windows CE, software para o handheld Pocket e Auto PCs e games para console. Mundie também iniciou as atividades da Microsoft na área de TV Digital. Desde 2000 o executivo faz parte do Comitê Nacional de Aconselhamento de Segurança em Telecomunicações dos Estados Unidos. Ele aconselhou a Casa Branca em problemas de segurança que podem afetar a infra-estrutura de telecomunicação das nações.

Mesmo tendo anunciado a sua aposentadoria da Microsoft, na prática Bill Gates continuará dedicando 20% do seu tempo (um dia por semana) para assuntos relativos à Microsoft. Ele continua a atuar como chairman da Microsoft e conselheiro no desenvolvimento de projetos-chave. Ele somente não estará nas decisões do dia-a-dia e dedicará mais tempo e energia ao seu trabalho relacionado à saúde e educação na Fundação Bill & Melinda Gates.

fonte: msn.com

CARLOS BORGES de LIMA, LANÇA HOJE NO PALACETE DOS LEÕES do BRDE

Poeta paranaense lança livro no Espaço Cultural BRDE

 

Uma ode ao povo

 

 O lançamento do livro de poesias “Po Voa”, de Carlos Borges Lima, na próxima quinta-feira, no Espaço Cultural BRDE- Palacete dos Leões  será marcado pela manifestação popular e a homenagem ao “povo”.

Segundo o escritor essa é a sua proposta mais corajosa. “Retratar um arquétipo do qual faço parte”. O autor diz que o objetivo é homenagear a “grande massa”, sem subestimá-la.  O desafio vem no “sacrifício” do poeta, para apontar os “erros chaves que o povo comete”. Erros, que o poeta diz que só quem ler o livro vai saber quais são.

Borges Lima escreve desde os 11 anos de idade, mas seu trabalho criativo começou com a música, escrevendo letras para melodias. Aos poucos foi desenvolvendo versos, e com 19 anos publicou seu primeiro livro de poesias. Desde então, não parou mais, “Po Voa” é a décima primeira publicação do poeta paranaense, natural  da cidade de Uraí. Mas, ele não abandonou a música e também dirige peças de teatro e musicais.

Na tentativa de abordar o que se entende por povo, Borges Lima brinca com o sentimento de patriotismo e o espírito de nação que são ideais de um país ou estado. Para o lançamento do livro, o artista, que diz serem as criações mais prazerosas aquelas que declama e cria espontaneamente nos espaços para declamação, preparou também uma estrutura para quem deseja recitar versos. “Além de amigos que convidei, qualquer pessoa que deseje declamar aquele verso guardando no fundo da gaveta pode participar. Isso é povo”, fala o poeta. Além disso, está marcada também para o lançamento a apresentação de músicos da Banda Circo Solar.

 

 

 

capa de claudio kambé.

 

 

 

Marina Gallucci

Ascom – BRDE

(Fone: (41) 3219.8035   Fax: (41) 3219.8020

*:  marina.gallucci@brde.com.br <mailto:marina.gallucci@brde.com.br> <<mailto:marina.gallucci@brde.com.br>>

Site: <www.brde.com.br> <<http://www.brde.com.br>&gt;

“ALBERTO MASSUDA” – INAUGURADO O NOVO ESPAÇO CULTURAL E GASTRONÔMICO DE CURITIBA

Na noite de 24 de junho de 2008, houve a entrega ao público do Centro Cultural Gastronômico “ALBERTO MASSUDA”.

 

Sem dúvida alguma um espaço destinado ao sucesso em razão da sua proposta aliando arte, cultura e gastronomia. Os  três pavimentos com ambientes adaptados para o que se destinam, formam entre si uma harmonia dinâmica e agradável.  O térreo concentra parte da área do restaurante e espaço para lançamento de obras literárias. No sub-piso fica outra área de restaurante, espaço para música ao vivo e um deck, onde haverá a projeção e lançamento de filmes e apresentações teatrais. A casa tem capacidade para 180 pessoas sentadas.

 

Comandando a casa está o médico Cadri Massuda, filho do artista plástico Alberto Massuda falecido no ano de 2000.

 “A proposta foi criar um ambiente agradável, onde se possa desfrutar de bons momentos convivendo com a arte”, define Massuda.

 

O ARTISTA ALBERTO MASSUDA.

 

Nascido no Cairo, Egito, em 1925, Alberto Massuda veio com 33 anos para o Brasil e fixou residência em Curitiba. Em 1958 naturalizou-se brasileiro. Antes de sua chegada, cursou Belas Artes no Egito e Cenografia de Cinema na Itália.

Considerado o precursor do Jovem Surrealismo Paranaense, esteve à frente de importantes movimentos artísticos do Estado, como a Associação Paranaense de Artistas Plásticos. Premiado em diversos salões, as obras de Alberto Massuda hoje fazem parte do acervo de diversos museus como o de Arte do Cairo, Arte Moderna de Alexandria, Arte do Paraná, Arte de Joinville, entre outros, bem como fazem parte de coleções particulares em Roma, Paris Tel-Aviv, Varsóvia e Buenos Aires.

 

A ENTREGA DO ESPAÇO.

 

Ontem o anfitrião recebeu, no novo endereço cultural de Curitiba, quase três centenas de convidados aos quais foram oferecidos degustação dos pratos da casa e vinhos finos.

Na área destinada às exposições de artes visuais encontrava-se uma parcela das obras do artista homenageado Alberto Massuda. No sub-piso, um belíssimo ambiente, os convidados se deixavam envolver pela excelente música do conjunto comandado por Fernando Montanari e Saul do Trumpete. O evento iniciado as 19:30 prolongou-se até a 01:30 com muitos convidados resistindo a deixar o local tal a beleza e o serviço da casa.

 

 

ALGUMAS FOTOS:

 

 

parcial do sub-piso.

 

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parcial do sub-piso.

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cine e teatro no sub-piso.

 

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acesso para a área de exposições visuais.

 

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parcial do restaurante (terreo).

 

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estavam lá o poeta manoel de andrade, o jornalista hélio de freitas, a antropóloga, historiadora e escritora philomena gebran, a artista visual mazé mendes e o editor e poeta cleto de assis. mesa de peso.

 

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o poeta jb vidal, manoel de andrade, o casal anfitrião cadri e wilma massuda e o prefeiturável ricardo gomide.

 

outras fotos na página “sala de visitas/fotos” . todas as fotos são do site.

 

SEM PROBLEMAS e ESTÁ LÁ? ou NÃO? – mini contos de raimundo rolim

                                                  

Sem problemas

 

A cirurgia estava marcada para os próximos quinze minutos. O paciente já devidamente tricotomizado, assepsiado e ferrado no sono, induzido pela anestesia e claro, não tinha pressa, oras! A equipe preparara-se valentemente. O cirurgião chefe consultou o tipo de incisão que seria feita, deu algumas ordens com a cabeça e movimentos de mãos. Luzes acesas, câmera e muita ação. Rolando o take um: Bisturi em posição de ataque, ali, a milímetros, lambendo a porção de pele do campo operatório. Take dois: Chega alguém esbaforido, na carreira, sem fôlego, também vestido com jaleco branco. Antes de conseguir falar, comunica-se rápido por gestos e idiossincrasias. Perfeito! Param tudo de imediato! O cirurgião chefe, braço suspenso no ar, acabara de ouvir que o paciente era um outro e que este já se encontrava em processo de adiantada e completa irritação, apresentando um quadro de impaciência generalizada pela demora com os serviços de implante. Pois tinha, este outro paciente, o grande e profundo desejo de estrear logo o novo cérebro, que seria trocado pelo velho cansado e antigo de simples homo sapiens. Este tipo de cirurgia era uma nova e diferenciada opção dos serviços médicos gerais, oferecido por uma companhia de seguros recém criada e que apostava no ramo de revolucionárias concepções contemporâneas, seguindo tendências modernas de mercado e moda, para que cada um fosse segundo à sua vontade e experimentasse ser outra coisa totalmente diferente, ainda em gozo de saúde e vida. O volume inquietante e inesperado de adeptos fazia acumular ganhos das ações nas Bolsas desta companhia e nisso tão alto apostara todas as suas fichas. A lista de espera era grande, o que causava tamanha impaciência do segurado na outra sala, que não via a hora de estrear o seu novíssimo cérebro de galinha D’Angola. É que ele apreciava aquele canto onomatopaico intermitente “Tô fraco, Tô fraco” que esse tipo de galinha emite. Aquel’outro ali, sobre a mesa, morgadão, era tão somente check up de rotina para conferência do número de penas vermelhas e a detecção se, por acaso, realmente haviam crescido as novíssimas penugens brancas prometidas em recentíssimo processo de um outro implante do pato do Alaska. Incrível ! – pensou o cirurgião. Incrível… respondeu o paciente pato do Alaska, com voz de pato mesmo e já captando pensamentos !!!

 

 

    

Está lá? Ou não?

 

Sim… Não… Ah… Mas por favor, entreguem e que desta vez não haja engano. E por favor, sejam prestos. Rápidos. Obrigado.

– Entendido?

– Sim e imediatamente!

– Sim, no endereço já mencionado.

– Sim!

– Agradecemos e aguardamos a entrega da remessa com urgência.

– Obrigado!

Desligou o telefone e ficou a pasmaceira no ar. Mas será que o bom homem havia entendido direito desta vez? Já era a quarta ou quinta sessão de ligar e dizer a mesma coisa. Passou-se mais de hora para uma coisinha tão simples, que não demoraria mais que uns dez ou quinze minutinhos. Na dúvida, levantou novamente o fone do gancho e chamou. Na outra ponta da linha, a mesma voz que atendera das vezes anteriores, com jovialidade e calma e muita presteza, dizia então, não se lembrar dos mesmos quatro pedidos feitos anteriormente e há apenas algum tempinho atrás. Desta vez, a voz sugeriu ao cliente, que não saísse de perto do telefone, para que, se eventualmente houvesse qualquer mal entendido, era só chamar no mesmo número que a pizza não demoraria nada. E desligou. 

 

 

 

 

 

                     painel de poty lazzarotto no largo da ordem. Curitiba. ilustração do site. foto sem crédito.

A ORIGEM da @ – env. por mari frança

Na idade média os livros eram escritos pelos copistas à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um’m’ ou um ‘n’) que nasalizava a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a letra, pode olhar.

O nome espanhol Francisco, que também era grafado ‘Phrancisco’, ficou com a abreviatura ‘Phco.’ e ‘Pco’. Daí foi fácil o nome Francisco ganhar em espanhol o apelido Paco. 

Os santos, ao serem citados pelos copistas, eram identificados por um feito significativo em suas vidas. Assim, o nome de São José aparecia seguido de ‘Jesus Christi Pater Putativus’, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adotar a abreviatura ‘JHS PP’ e depois ‘PP’. A pronúncia dessas letras em seqüência explica porque José em espanhol tem o apelido de Pepe. 

Já para substituir a palavra latina et (e), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras: &. Esse sinal é popularmente conhecido como ‘e comercial’ e em inglês, tem o nome de ampersand, que vem do and (e em inglês) + per se (do latim porsi) + and.

Com o mesmo recurso do entrelaçamento de suas letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de ‘casa de’. 

Veio a imprensa, foram-se os copistas, mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço – por exemplo: o registro contábil ’10@£3′ significava ’10 unidades ao preço de 3 libras cada uma’. Naquela época o símbolo @ já ficou conhecido como, em inglês, ‘at’ (a ou em).

No século XIX, nos portos da Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contábeis dos ingleses.  Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo seria uma unidade de peso – por engano. Para o entendimento contribuíram duas coincidências;

 

 

 

1- a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo ‘a’ inicial lembra a forma do símbolo; 

2- os carregamentos desembarcados vinham freqüentemente em fardos de uma arroba. Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de ’10@£3′ assim: ‘ dez arrobas custando 3 libras cada uma’.

Então o símbolo @ passou a ser usado pelos espanhóis para significar arroba. Arroba veio do árabe ar-ruba, que significa ‘a quarta parte’, arroba (15 kg  em números redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe (quintar), o quintal (58,75 kg). 

 

 

As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados). O teclado tinha o símbolo ‘@’, que sobreviveu nos teclados dos computadores. 

Em 1972, ao desenvolver o primeiro programa de correio eletrônico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido ‘@’ (at -em Inglês), disponível no teclado, e utilizou-o entre o nome do usuário e o nome doprovedor. Assim Fulano@ProvedorX ficou significando: ‘Fulano no provedor (ou na casa) X’.

Em diversos idiomas, o símbolo ‘@’ ficou com o nome de alguma coisa parecida com sua forma.
Em italiano chiocciola (caracol), em sueco snabel (tromba de elefante), em holandês, apestaart (rabo de macaco). 
Em outros idiomas, tem o nome de um doce em forma circular: shtrudel, em Israel; strudel, na Áustria; pretzel, em vários países europeus.

 

                                                                   foto e ilustração do site.

FERNANDO PESSOA, E-MAIL, CELULAR, BATE-PAPO, CARTAS, VIVER NÃO É “PRECISO,” CLEÓPATRA E JULIO – carta (resposta) de jb vidal para tonicato miranda

 

caro tonicato,

como você também cheguei a pensar que as cartas haviam sido superadas, uma vez pelo telefone, depois recados pelo fax, mais tarde pelo e-mail, celular e ultimamente pelos sites de bate-papo em tempo real e tudo isso “sem selo.” mas não, o que e como você pode se expressar em uma carta creio que nunca o faria através dos meios a que me referi. não, não faria. estou convencido que por algum (muito) tempo a escrita impressa se fará necessária senão pela cultura, pelo hábito, pela questão econômica, porquanto os investimentos necessários para que se acesse o mundo virtual ainda são muito altos para quem quer um PC em casa, considerando-se os níveis salariais do mercado de trabalho. eu observo pelo site, os dias de maior acesso são de segunda a sexta, sábado, domingo e feriados a quantidade cai, por quê? os usuários não tem computador em casa. acessam do local de trabalho. creio que ficará assim, até quando não sei; os correios continuarão a entregar além das drogas e das encomendas, as cartas, milhares de cartas diariamente.

devo desculpar-me com você com respeito ao convite de comermos algumas ostras, não sabia que não te apeteciam, que não fazem parte da tua cultura gastronômica; mas, acho que com a continuidade de se preencher o sábado, no final da manhã, acabarás por identificar algo “familiar” naquelas preciosidades que, por essa razão, terminarão por te conquistar o paladar. o BOSCATO/merlot estava excelente. degustar ostras com vinho na praça do “homem nu”, realmente, pensando bem, não é para os fracos de caráter.

devo te dizer que aquela referência, na primeira carta, à igreja no final da rua, que a vistes desde onde te encontravas, fez-me lembrar das “buscas” em que o homem vive o tempo inteiro de sua vida. engraçado, não é? eu costumo dizer que existindo Deus ou não somos seus “prisioneiros.” coisas do livre pensar.

não posso me alongar, já que o tempo corre e eu só caminho, em razão de compromissos assumidos e intransferíveis, mesmo assim queria fazer um rápido comentário sobre a célebre frase “navegar é preciso, viver não é preciso”, a que te referistes, na última carta, após um comentário sobre o poema “Todas as Cartas de Amor são Ridículas” do nosso grande Fernando Pessoa. da maneira como falastes sobre aquela frase, é óbvio que a lestes pelo menos no poema de Pessoa; ele realmente utilizou tal frase e, por isso, uma grande maioria de pessoas que o leram acreditam ser dele a autoria quando não é. o autor da frase chama-se Julio César, o Romano, que ao dirigir-se Mar Mediterrâneo à dentro para conquistar o Egito viu-se diante de terrível tempestade que obrigava a todos seus generais e soldados pedirem para retornar, no limite do amotinamento, quando então, ele mal seguro a um mastro grita: “navigare necesse, vivere non est necesse!” recuperando a confiança de seus homens a ponto de invadir e conquistar a pátria de Cleópatra. há ou houve, não sei, uma discussão, moderna, de que Julio César teria afirmado no sentido de “precisão” e não de “necessidade.” mas se ocorre ou ocorreu tal discussão, para mim, são filigranas inúteis ou coisa de pensador desocupado. o grande Pessoa não é responsável por isso.

era só.

JB VIDAL

23/06/08

o homem nu na praça 19 de dezembro. foto sem crédito. ilustração do site.

FELIPE MASSA pelo cartunista gustavo duarte

de gustavo duarte.

 

Dos 28 brasileiros que já correram na F1, só quatro chegaram à liderança do campeonato.
Emo (o nosso grande Rato), Piquet, Senna e agora o Massa.
As caricaturas foram publicadas na Folha de São Paulo de hoje.

Desta vez, resolvi ao invés de usar o nanquim como sempre faço, usar o lápis como arte final.
Depois, já no photoshop, coloquei as cores.
É um método diferente da habitual linha que costumo usar, mas que faço algumas vezes.
Na época de Diário de Bauru (há 11 anos atrás) eu utilizava bastante.

Outra curiosidade é que estes desenhos poderiam nunca terem sido publicados.
Desenhei faz mais de uma semana para uma possível chegada do Massa a liderança.
Porém, enquanto ele não conseguisse, o desenho continuaria na gaveta.
Portanto, se fosse o Rubinho, não sei se teria a mesma sorte.

o editor abriu uma excessão, ao publicar matéria esportiva, para atender ao pedido de um leitor do site de 13 anos. para não perdermos a sua presença está aí leandro “a sua matéria” do excelente gustavo duarte.

DEUS e o DIABO na barca de CRISTO – por viegas fernandes da costa

“Conheci um Cristo
santo e crucificado
nas palavras dos evangelhos.
Perderam-mo
dentre as paredes daquele templo
em que rezei ateu.

Reencontrado, mais tarde
nas telas, com Scorsese,
ou nas páginas do Saramago,
humano e carnado,
este Cristo tão igual a mim
quase me convenceu.

A me provar do contrário
sempre houve esta cruz
e toda esta dor
estas carnes expostas
estes corpos exangues
e este arbítrio de morte”

Em 1991 o escritor português José Saramago apresentou ao público este que ainda é o seu livro mais polêmico: O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1). Um pouco antes, em 1988, em uma adaptação do livro A Última Tentação de Cristo, do grego Nikos Kazantizakis, o diretor Martin Scorsese produz o filme homônimo que, da mesma forma, põe em polvorosa a Igreja Católica. Afinal, tanto Scorsese, quanto Kazantizakis e Saramago, ousaram reler os evangelhos e reconhecer em Cristo “o humano e carnado” do nosso poema em epígrafe acima. Um Cristo sexuado, temeroso, que afronta Deus e que “quase me convenceu”. Ainda que diferentes, estes Cristos de Saramago e Scorsese dialogam entre si. Dialogam quando insistem na concepção carnal de Jesus, de uma Maria não virgem, de um Cristo a quem se é dado ver o mundo sem seu sacrifício, sem seu martírio na cruz (em Scorsese, no delírio de um Cristo crucificado que se imagina casado com Madalena e pai de família, em Saramago, no debate com Deus e o Diabo na barca estacionada em meio ao nevoeiro). Mas Saramago avança em sua transgressão quando intima o leitor a reconhecer um Deus egocêntrico, maquiavélico e cruel (“é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue”) (p. 327), em detrimento de um diabo humanizado e imprescindível à obra divina; e quando estrutura seu texto ficcional com argumentos teológicos e filosóficos, escancarando inclusive a relação do cristianismo com a antiga religiosidade grega: “… eu tinha misturado a minha semente na semente de teu pai antes de seres concebido…”(p. 306) – disse Deus a Jesus. Nos Evangelhos, Deus fecunda a virgem Maria por meio do Espírito Santo. Em ambos os casos o divino fecunda a carne humana, como na antiga Grécia, onde os deuses desciam do Olimpo para se relacionar com os humanos, fazendo nascer os “heróis”, estes semi-deuses que nada mais eram que humanos virtuosos sob determinados aspectos. O Jesus que encontramos nos Evangelhos obedece a esta herança grega, tal qual o Jesus de Saramago, nascido do encontro do mortal e do imortal.

Rico em intertextualidades, queremos aqui recortar o capítulo em que Saramago promove o encontro de Jesus com Deus e o Diabo (também chamado de Pastor), e com o qual já vimos interagindo.
Na cena da Barca, Jesus passa quarenta dias dialogando com Deus e Pastor no meio do mar. Estão envoltos por um espesso nevoeiro que impede os pescadores de pescar, bem como a aproximação de qualquer outro que não estes três personagens. A cena inicia com o ato heróico de Jesus, que “com uma incrível segurança, pois o nevoeiro não deixava ver nem os próprios pés, desceu o declive que levava à água, entrou numa das barcas que ali se encontravam amarradas e começou a remar para o invisível que era o centro do mar” (p. 303). Quando a barca chega ao centro do mar e do nevoeiro, surge Deus sentado no banco da popa, vestido como um judeu rico e de aparência dura e idosa. Logo Saramago nos dá a saber o objetivo do encontro: Jesus busca respostas, as mesmas respostas que buscamos todos nós desde que em humanos nos transformamos, a saber, quem somos e para que viemos. É sobre estas duas questões que há de se travar o debate: “Vim saber quem sou e o que terei de fazer daqui em diante para cumprir, perante ti, a minha parte do contrato” (p. 304). É na releitura dos Evangelhos que Saramago nos devolve ao clássico debate filosófico sobre nossa essência e condição humanas.

O texto é intenso e denso, como tantos outros deste autor português, sua marca registrada. Os diálogos se colam uns aos outros, como que se falas ansiosas e nervosas representassem. No primeiro momento, falam apenas Jesus e Deus. O Diabo chega mais tarde, a nado, e seu corpo não pesa na barca. O Diabo é leve e se parece com Deus, porém mais jovem, e a posição que ocupa na barca é intermediária: senta-se entre o Pai e o Filho. No entanto, Cristo chega a confundi-lo com um porco enquanto ainda está na água, o animal impuro para os judeus e para o qual os demônios foram expulsos quando do exorcismo dos Evangelhos.

A tensão inicial da conversa se dá sobre a essência da natureza de Jesus. Se é ou não homem: “Se és filho de Deus, não és um homem” (p. 305) – afirma Deus, porém, mais adiante, quando Cristo se reconhece enganado por Deus e pelo Diabo, o primeiro quase se contradiz ao afirmar “Como sempre sucede aos homens”, mas completa “…podemos dizer que encarnaste” (p. 307). Ou seja, não é fácil sabermos quem é exatamente este filho de Deus, se homem, se divindade, tal qual o homem que somos também nos Evangelhos, filhos também de Deus. Cristo representa na obra de Saramago a humanidade e sua angústia primitiva, e como todo ser humano, desafia Deus. E mais, a cena da barca alcança o político na medida em que expõe os estratagemas de um governo autoritário e total. Não seria exagero dizer que a releitura saramaguiana invade também “O Príncipe” de Maquiavel. É maquiavélico este Deus insatisfeito com a condição de rei de um povo tão diminuto como o é o povo hebreu e que deseja ampliar seus domínios. Para tanto martiriza seu próprio filho, como assim o faria Abraão (ou como fez na decisão de fazê-lo, ainda que o cutelo não tenha cortado a carne do filho), e aceita inclusive que se subvertam as leis que ele mesmo criou: “…Permites que te subvertam as leis, é um mau sinal, Permito-o quando me serve, e chego a querê-lo quando me é útil…” (p. 315) Para que se atinjam os fins, qualquer meio é lícito, ainda que estes meios signifiquem fazer uso das artimanhas do Diabo e manipular as pessoas, como quando Deus explica seus métodos de persuasão a Jesus: “…há que deixar as pessoas inquietas, duvidosas, levá-las a pensar que se não compreender, a culpa é só delas” (p. 314). Esta mesma “psicologia de massas” é usada por Deus quando este apresenta ao seu filho o papel que lhe destinou: “O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé” (p. 309). É este papel de mártir, também, o cerne de toda a moral judaico-cristão, conforme argumentou Friedrich Nietzsche e seu livro “A Genealogia da Moral” (2); ou seja, a compreensão de Deus sobre o papel do mártir na construção de uma identidade é o discurso que estabelece as relações identitárias do povo judeu e, por extensão, do cristianismo que se estabelecerá a partir de Roma, deste “Davi” que no discurso da humildade encontrará a força da sua coesão. Deus profetiza este futuro: “edificar-se-á a assembléia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas” (p. 318). Aqui Saramago pode estar falando do cristianismo, como pode também estar anunciando a história dos Estados modernos que exigem dos seus súditos, primeiro, e dos seus cidadãos, depois, a renúncia em defesa da Nação. E o Deus amoroso dos Evangelhos dá lugar ao deus cruel e sanguinário. Serão quase seis páginas de um inventário de mártires e martírios que Deus apresenta a Jesus, necessários para a edificação do seu reino. Há um momento crítico em que Deus, cansado da longa exposição, pergunta ao Filho se este já não está farto de saber de tantos mortos, ao que Jesus responde: “Essa pergunta devias fazê-la a ti próprio” (p. 322) . É o ateísmo de Saramago levado ao extremo da ironia, afinal, qual a necessidade de tantas mortes, tanta dor? Que glória é esta, senão a glória de um Deus psicopata que lembra as cena finais do filme “Saló”, de Pasolini? (3).A todo este arbítrio divino o Diabo responde ironicamente que ninguém poderá culpá-lo de todo este morticínio.

Saramago derruba também o princípio do livre arbítrio na medida em que apresenta um Deus senhor dos tempos, conhecedor de toda a história e inalterável em suas decisões, como quando Jesus afirma, depois de conhecer o futuro, que não deseja mais a glória, que não quer mais participar dos planos divinos. Revolta esta a que Deus responde “… mas eu quero este poder” (p. 327).

É possível conjeturarmos ainda a relativização do bem e do mal nesta cena da barca que aqui estamos ensaiando analisar, quando o Diabo (Pastor) propõe e tenta Deus aceitando que este governe o mundo desde que seja perdoado e recebido junto aos seus anjos mais fiéis. Em nome da salvação da humanidade, Pastor abre mão de ser Diabo, abre mão inclusive de ser Lúcifer, o Archote, já que admite estar na última e humilde fila dos anjos a servirem Deus, além de se reconhecer arrependido. O Diabo quer evitar todo o sofrimento futuro da humanidade. Se na Bíblia Satanás tenta Adão e o Diabo tenta Jesus no deserto, nesta obra de Saramago o Diabo tenta diretamente Deus. Sabem ambos, porém, que tal proposta é inaceitável já que põe por terra a razão mesma da existência de Deus: “Não me aceitas, não me perdoas” – indaga o Diabo; “Não te aceito, não te perdoo,quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Por quê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és (…) Se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal” (p. 328). Não existe, assim, um bem em si mesmo, da mesma forma como não existe um mal em sim mesmo. Ambos só são possíveis na alteridade, não relação com um outro.

O que procuramos mostrar com esta breve análise da cena da barca, n’O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, é de como este, muito além de ironizar ou ficcionalizar o cristianismo, discute as bases teológicas cristãs e de como consegue externar para o campo da política e das relações de poder o que aparentemente pertenceria apenas ao domínio da religião. Não é apenas porque Jesus amou Madalena que este livro se tornou importante e perigoso para o cristianismo, mas principalmente porque relativizou os fundamentos judaico-cristãos nos quais se assenta o Ocidente.

Notas
1 – Para este ensaio utilizamos a versão brasileira do livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, publicado pela editora Companhia das Letras em 2005.
2 – Nietzsche, Friedrich Wilhelm. A Genealogia da Moral. São Paulo: Moraes, s/d.
3 – Trata-se do filme Saló – ou os 120 dias de Sodoma, 1975, do diretor Píer Paolo Pasolini, baseado no livro “Os 120 dias de Sodoma”, de Sade.

ilustração do site. foto sem crédito.

O ARTISTA e a ARTE poema de bárbara lia

 

 

Século XIX

Vincent,

O vento mistral derruba tuas telas.

Não tens dinheiro para as aquarelas.

Théo vendeu um único quadro teu.

Todas as amadas te dizem adeus.

 

As estrelas não são como as pintas…

Arlens não te suporta, louco artista!

Há em ti um fulgor que ninguém alcança.

Nem sabem que és louco de tanta esperança.

 

 

Século XX

Van Gogh,

Teus quadros valem milhões.

Teus girassóis estão em toda parte.

Nos museus do mundo.

Na sétima arte.

 

Orgulho da Holanda.

Tua ruiva fisionomia, o triste olhar.
A mensagem implícita na vida, nas telas, nas cartas.

A todos que perseguem a arte.
NÃO DESISTA!

COMO ESCREVO poema de marilda confortin

 

Escrevo o que dá na telha

sem ser semeado

seja musgo, mofo

ou alecrim dourado.

Escrevo sem compromisso,

por capricho e por relaxo

por influencia do Leminski

ou por puro desabafo.

Se o que faço

é poesia ou heresia

ninguém tem nada com isso.

Sou feliz assim, acho.

A MILÉSIMA SEGUNDA NOITE por walmor marcellino

 

Fausto Wolff dispôs sua vivência social: profissional, política e cultural, num livro de 742 páginas, a que chamou “A Milésima Segunda Noite” e não “As Mil e Uma Noites”, com o qual guarda analogias substanciais de muitos relatos a-venturosos. Por ventura e aventura consideremos aqui a experiência pessoal na vivência social; uma com proveito virtuoso outra com a busca de satisfações, mas em que ambas podem nos constituir pessoas por trás da máscara de personas.

Em qualquer país os intelectuais mais destacados e os artistas mais festejados nem sempre conseguem representar os valores sociais e nacionais que se lhes atribuiriam como extensão de prestígio social alcançado pela mente e sua criatividade. Aqui, Fausto Wolff, entretanto, teve que expor-se nesse fabulário-romanceiro para dizer e comunicar o que fizeram limitadamente seus outros livros; desde aí os relatos, a exposição, a ambiência, os significados e os compromissos nos envolvem com aquela força com que nasceram as artes. E poucas vezes se leu e viu um ator sem roteiro em cena mas também sem improvisação estética, apenas confiante no que liga o trabalho, a arte, o “destino do homem” e sua convivência, em que a ansiada parusia é substituída por paralipses desafiantes.

Livro desafio para o autor e muito mais para o leitor: a grandeza do criador decorre da ética e compromisso social e cultural do destinatário, ou ao reverso?; quem sabe uma anagogia disfarçada de literaturas em que, por paradoxo, a narração crítica, cultural e ideológica, transfixia a emocionalidade superficial dos alienados que somos à espera de maravilhas e epinícios do sistema que nos esmaga.

Grande livro de um homem alto. E é importante registrar isso quando a literatura nacional não tem – e o que é pior, não aspira ter – Lobos Antunes, Josés Saramagos, Mias Coutos e tantos outros artistas e sua narração da humanidade em sua aldeia.

foto sem crédito. ilustração do site.



PERGUNTAS de um OPERÁRIO que LÊ – poema de bertold brecht

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

ZIMBROS poema de manoel de andrade

Canto os cantos e os recantos deste mar
praias, prainhas e costões
ilhas e promontórios
escarpas, alcantis, rochedos perfilados.
Canto o sul soberano destas águas
a paisagem imensa que o alto do penhasco descortina
o repouso do oceano e das águas interiores
a carícia da brisa, esse imaculado oxigênio
as distâncias estendendo a magnitude do horizonte
abrindo nos meus olhos todos os graus das longitudes
os balneários próximos e distantes
a miragem dos brancos casarios vistos nas lonjuras litorâneas
as antigas cidades pontilhadas ao longo do cenário imenso.

Tudo aqui tem seu fascínio…
as proas e os mastros ancorados
as velhas quilhas vencidas pelo tempo
a travessia lenta e solitária das embarcações.
Ao longe, quase inaudível, o ronco de motores…
é a incessante rotina dos barqueiros cruzando a baía de Zimbros.
Canto à beira destas águas de janeiro
misturado com essa boa gente dos verões
sob o sol ardente abençoando a vida.

Canto os pescadores que chegam ao longo das manhãs
os nativos negociando os seus pescados
canto a fauna exuberante destas águas
os seus frutos palpitantes
falo da pescada, do robalo e da garoupa
das pedras semeadas de moluscos
dos rosários flutuantes de ostras e mariscos cultivados
das tarrafas se abrindo na foz do ribeirão
falo das águas cristalinas onde o arpão desliza impiedoso.

Falo das ilhas na distância
territórios preservados da ambição
recanto indevassável das aves marinhas
canto os ninhos com suas criaturas
os filhotes ensaiando o primeiro vôo sobre o mar
canto a esse mágico ritual da vida.

Falo das praias desertas
dos seus íngremes caminhos
suas escavadas trilhas
do aroma da mata amanhecida
do grito da aracuã ecoando nas encostas
falo do estranho gemido dos bambuzais colhidos pelo vento
dos rastros deixados nas areias solitárias
da mística solenidade dos silêncios
de um intrigante mistério pairando na paisagem
do grato cansaço das longas caminhadas

Eis-me outra vez postado no topo rochoso da paisagem
e meu espírito mergulha na memória arquétipa das águas
e pergunto quando foi desenhado este cenário
e penso o mar com sua idade planetária
sua marítima “eternidade”
e a minha finitude estremece ante esse tempo inumerável
e penso nesse mar sem testemunhas
nos milênios e nas eras em que o tempo boiava indiferente sobre os oceanos
e penso ouvir contra os rochedos o idioma milenar das ondas
transformando-se desde sempre nessa brancura tão fugaz da espuma
e penso, ó mar, na tua infância cambriana
nesse território indecifrável de sílabas submersas
onde o verbo se fez sal, se fez escamas
e transitou desde o protozoário até o cetáceo
das conchas aos recifes coralíneos
e penso na caldeira primordial que forjou tua cálida temperatura
no teu materno regaço de algas, esponjas e medusas
nos teus primogênitos se espalhando pelos sete mares
teus partos, tuas dores agudas
nos vulcões acesos no teu ventre
nas tuas contrações submersas
tuas cordilheiras parindo teus filhos escarpados
tuas ninhadas de arquipélagos
essa nudez de granito que tu banhas e beijas sem cessar
e por isso eu canto o mistério deste tempo imperscrutável
teus vastos e velados segredos
escondidos por trás da tua presença intemporal
que me entrega agora tua beleza nestas águas de janeiro
e pergunto quem desenhou este cenário
a quem devo agradecer pelo encanto
pelo plácido remanso dessas águas
pelo itinerário das velas
por teus brancos cinturões de areia
pela amplidão das praias na vazante.
A quem, meu Deus, eu devo agradecer…?
que arquiteto sideral traçou as linhas caprichosas desta costa…?
agradecer pelo sabor dos teus frutos
pelas paisagens submersas
por essa multidão de vidas que preservas
a quem agradecer pela incorruptível salinidade
que tuas águas nos ofertam nessa taça imaculada
a quem, além de ti Baía de Zimbros,
a quem,
além da tua própria beleza…

Baia de Zimbros, janeiro de 2005

Do livro “CANTARES” editado por Escrituras

OS ESTATUTOS do HOMEM poema de thiago de mello

 

Os Estatutos do Homem
(Acto Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Thiago de Mello, Santiago do Chile, Abril de 1964

MARIA REGINA conto de maria belmoral

Quando se deu conta já passava das seis e a noite chegava com certa pressa.

Primeiro abotoou a blusa porque julgava ser a peça mais difícil de vestir. Depois as meias, a saia, os sapatos. Passou os dedos entre os cabelos e retocou o batom para não deixar tão nítida a impressão de que acabara de sair de uma tarde inteira dedicada aos desejos de um homem.

Respirou fundo, olhou para ele ainda deitado nu na cama, chamou o elevador e foi embora sem acordá-lo.

Os insistentes faróis vermelhos não colaboraram, entrou em casa aflita com noite feita e os filhos se queixando de fome.

Macarrão é o que há de mais rápido, porém o mais novo é alérgico, lamentou. Queria ser ágil, pensar rápido, mas o corpo ainda estava deliciosamente bambo. Enquanto cozinho o macarrão, frito o frango, vai dar tempo, calculou ao mesmo tempo em que se lembrou de que estava sem calcinha. Gostava de chegar assim aos encontros, mas sempre levava uma na bolsa para não entrar em casa desprevenida. Tal cuidado falhou naquela noite.

Mesa posta e o corpo ainda bambo, cheirando a sexo, viu o marido abrir a porta e beijar as crianças.

– Boa noite, meu anjo, como foi seu dia? – beijou-lhe os
lábios e jogou a pasta no sofá.
– Tranqüilo, o de sempre, você sabe…
– Você está bonita!
– Você acha?
– Acho sim, seu cabelo, talvez… Fez alguma coisa diferente?
– Aparei as pontas. – Mentiu desconcertada.
– Vou tomar uma chuveirada, vem comigo?
– As crianças estão famintas, vai você enquanto sirvo o jantar
a elas, depois poderemos comer sossegados.

O marido concordou e lhe beijou outra vez passando a mão pelo seu quadril indiscreto.

Com medo que ele notasse a ausência da calcinha ela puxou-lhe bruscamente a mão e emendou:
– Vai para o banho, querido, não demora que também eu
tenho fome.

Correu para a lavanderia e vestiu a calcinha que secava no
varal.

Os filhos comeram e foram dormir não sem antes reclamarem que a mãe faltara na reunião de pais naquela tarde.

Mais calma encheu um copo de vodka e gelo, sentou no sofá e observou o marido que voltava do banho vestindo bermuda. Já era tarde, iam jantar, mas o telefone estranhamente tocou.

foto sem crédito. ilustração do site.

BEHAVIORISMO, LINGÜÍSTICA E DISLEXIA por vicente martins

 

 

Os modelos behavioristas de intervenções em crianças disléxicas, disgráficas e disortográficas teriam uma base em teoria e método em duas abordagens: (1) psicológica, cuja intervenção psicopedagógica procura examinar do modo mais objetivo o comportamento humano e dos animais, com ênfase nos fatos objetivos (estímulos e reações), sem fazer recurso à introspecção e (2) lingüística, cuja intervenção psicopedagógica é apoiada na psicologia behaviorista e proposta inicialmente por L. Bloomfield (1887-1949) e depois por B.F. Skinner (1904-), que busca explicar os fenômenos de erros da comunicação lingüística e da significação na língua em termos de estímulos observáveis e respostas produzidas pelos falantes em situações específicas de uso da linguagem escrita.

 

Esta visão tem caráter empirista, isto é, os profissionais trabalham na perspectiva filosófica de aliar suas atividades, no programa de treinamento, à doutrina segundo a qual todo conhecimento provém unicamente da experiência, limitando-se ao que pode ser captado do mundo externo, pelos sentidos, ou do mundo subjetivo, pela introspecção, sendo geralmente descartadas as verdades reveladas e transcendentes do misticismo, ou apriorísticas e inatas do racionalismo. É, na verdade, o empirismo uma atitude de quem se atém a conhecimentos práticos. No campo da psicopedagogia, especialmente clínica, a abordagem empirista ocorre quando a intervenção se orienta pela experiência, com desprezo por qualquer metodologia científica.

 

Os modelos inatistas de intervenções em crianças disléxicas, disgráficas e disortográficas teriam uma base a concepção de inato e inatismo. Aqui, as atividades ou programas de treinamento reconheceriam que os disléxicos não são uma tabula rasa, isto é, teriam condições de dar respostas compensatórias, com seu esforço próprio, de suas dificuldades na linguagem escrita.

 

Os modelos inatistas de intervenção se afirmam na idéia de um caráter inato das idéias no homem, sustentando que independem daquilo que ele experimentou e percebeu após o seu nascimento . Os modelos de intervenção se apóiam na lingüística gerativa, hipótese segundo a qual a estrutura da linguagem estaria inscrita no código genético da natureza humana e seria ativada pelo meio após o nascimento do homem.

 

Numa perspectiva psicolingüística, os modelos de intervenção fazem à teoria de que a criança nasce com uma predisposição biológica para aprender uma língua.Segundo a hipótese do inatismo, o rápido e complexo desenvolvimento da competência gramatical da criança só pode ser explicado pela hipótese de que ela nasceu com uma conhecimento inato de pelo menos alguns dos princípios estruturais universais da linguagem humana. O inatismo se baseia na doutrina que privilegia a razão como meio de conhecimento e explicação da realidade.

 

O racionalismo é o  conjunto de teorias filosóficas (eleatismo, platonismo, cartesianismo etc.) fundamentadas na suposição de que a investigação da verdade, conduzida pelo pensamento puro, ultrapassa em grande medida os dados imediatos oferecidos pelos sentidos e pela experiência.

 

 

 

Exemplo de modelos behavioristas bem sucedidos durante a intervenção dislexiológica podemos extrair entre as sugesões presentes no livro Dislexia: manual de leitura corretiva (Artes Médicas, 1989), de Mabel Condemarín e Marlys Blomquist.

 

Os profissionais devem ter, preferencialmente, um olha r racionalista sobre as atividades abaixo, apostando que os disléxicos têm competência para responderem, com seus esforços, às propostas de atividades do programa de treinamento.

 

Segundo Mabel Condemarín e Marlys Blomquist, os elementos fonéticos nos quais os disléxicos tendem a apresentar maior número de problemas referem-se à discriminação de vogais, de letras de grafia similar e de letras de sons próximos.

 

Com base nas autoras, vamos propor a seguir exercícios para discriminar vogais. A lista de palavras que expomos pode ser utilizada pelo reeducador para grafar as vogais orais iniciais e para ampliar os exemplos de outros exercícios.

 

Os timbres das vogais indicadas para leitura poderão ser abertos (´) ou fechados (^), conforme a variação regional. Uma observação importante é que elegemos palavras cognatas, isto é, palavras que vêm de uma mesma raiz que outra(s).

 

Uma vez que os disléxicos apresentam déficit de memória de trabalho as palavras cognatas favorecem a memorização dos itens lexicais. Também os itens lexicais são organizados na forma alfabética exatamente para facilitar a memorização dos mesmos, recursos disponível em programa de word (em tabela, classificar as palavras).

 

Batizamos aqui esta atividade de atividade de discriminação dos elementos fonéticos das palavras, uma vez que trabalhamos duas habilidades: a consciência fonológica e a memória de trabalho. Podendo, assim, ser aplicada tanto para exercício de leitura em voz (decodificação leitora) como treinamento ortográfico (codificação escritora)

 

Lista de palavras para serem lidas em voz e levaram os educandos a terem a percepção do sistema vocálico da língua portuguesa: anedota, eletricista, Imortalizar, Ouvidor, Último, Amoroso, Eletricidade, Imortalidade, Ouvido, Úmido, Amor, Eletivo, Imortal, Ouvinte, Universal, Ameixeira, Elenco, Imobilizar, Ouvir, Universalismo, Amável, Elementar, Imobiliária, Ovelha, Universalista, Ameixa, Elemento, Imobilismo, Overdose, Universalizar, Arrastão, Eletrocutar, Imigração, Ovo, Universidade,Anedotário, Elétrico, Imitação, Oxigenar, Universitário, Arrastar, Eletrocussão, Imigrante,Oxigênio, Universo, arrastamento, Eletrizante, Imitar, Oxítono, Urna

 


No campo da expressão oral, em geral, os disléxicos, disgráficos e disortográficos tendem a confundir auditivamente aqueles fonemas, representados em letras ou grupos de letras (dígrafos), que possuem um ponto de articulação comum. Três conceitos são fundamentais para esta tarefa:

(1) Letra, entendida como cada um dos sinais gráficos que representam, na transcrição de uma língua, um fonema ou grupo de fonemas;

 

(2) dígrafo, definido como grupo de duas letras us. para representar um único fonema; digrama, monotongo [No português são dígrafos: ch, lh, nh, rr, ss, sc,, xc;incluem-se tb. am, an, em, en, im, in, on, om, um, un (querepresentam vogais nasais), gu e qu antes de e de , e tb. ha, he, hi, ho, hu e, em palavras estrangeiras, th, ph, nn, dd, ck, oo etc.] e

(3) Grafema, definido como unidade de um sistema de escrita que, na escrita alfabética, corresponde às letras (e tb. a outros sinais distintivos, como o hífen, o til, sinais de pontuação, os números etc.), e, na escrita ideográfica, corresponde aos ideogramas.

 

As letras com sons acusticamente próximos que são mais susceptíveis de ser confundisos são as seguintes: b-p; x-j; d-t; c-j; em menor grau confunde-se m-p-b. As listas de palavras figurativas que apresentamos a seguir podem ser empregadas para ilustrar exercícios.

 

Lista de signos alfabéticos: d,b, p,t, v,f,c, g,m

Lista de palavras: Dado, Bata, Pau, Taco, Vela, Farol,Cara, Gato, Mapa, Dedo,Bote, Puma,Táxi, Vaso, Foca, Casa, Gola, Macaco, Dois, Boca, Pipa, Touro, Vaca

Fila, Copa, Gota, Mesa, Disco, Baú, Peru, Tubo, Vale, Folha

Calha, Galo, Marco, Ducha, Bala, Parede, teto, Vila, Fogo

Carta, Gordo, Muleta,

 

As crianças com dislexia, disgrafia e disortografia, geralmente, apresentam dificuldades para o reconhecimento rápido da sílaba com ditongo. Por ditongo, o reeducador deve entender, foneticamente, emissão de dois fonemas vocálicos (vogal e semivogal ou vice-versa) numa mesma sílaba, caracterizada pela vogal, que nela representa o pico de sonoridade, enquanto a semivogal é enfraquecida. Além do ditongo intraverbal – no interior da palavra, como pai, muito -, ocorre em português tb. o ditongo interverbal, entre duas palavras, como p.ex.: Ana e Maria, que exerce papel importante na versificação portuguesa.

 

Dentro da tradição do ensino gramatical do português, existem dois tipos de ditongo: (1) ditongo crescente, o que tem a semivogal como primeiro som (p.ex., quadro) e (2) ditongo decrescente, aquele que tem a semivogal como segundo som (p.ex., mau).

 

A lista de palavras com ditongos que apresentamos abaixo pode ser utilizada em diferentes exercícios: leitura em voz alta e treinamento ortográfico.

 

Lista dos ditongos: ÃE,ÃO,ÕI,OU,EI,EA,IO,IA,ÕE

Lista de palavras a serem trabalhadas em voz alta: Mãe, Pão, Dói,Dou,Hem, Área, Lírio, Várias, Põe, Pães, Mãos, Herói, Louco,Vivem, Áurea, Curioso, Sábia, Limões, capitães, Falam, Constrói, Estoura, Têm, Orquídea, ópio, Constância, Ações.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

sala de aula. foto sem crédito. ilustração do site.

O CHEQUE A DESCONTAR conto de lázaro parellada

Corria 1955… A terrível geada havia empobrecido todo o Norte do Paraná.

 

 

 

Cumprindo as determinações de meu pai, que havia viajado uns dias antes, fui buscar naquele sábado de manhã o cheque prometido. Era o correspondente à segunda das parcelas estabelecidas para o pagamento dos serviços topográficos que ele fora executar.

 

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Tratava-se, como de costume aliás, da demarcação de lotes para derrubada do “mato” dos terrenos compromissados pelos “jacus”. Pois que assim se apelidava aos colonos simples que os adquiriam. Estes eram em larga maioria interioranos paulistas e mineiros. Ou seja, os animados compradores daquelas paragens que lhes tinham sido mostradas pelos falazes “picaretas” que pululavam pelo centro de Londrina. Estes “lotes” se representavam em planta riscada sobre um papel insistentemente propalado como documento valioso, no qual esses típicos intermediários esfregavam hábeis seu dedo indicador com determinação, e repetidas vezes, apontando para um certo local ali desenhado. Tal “planta” costumava ser uma desgastada cópia heliográfica, em azul, do original de um loteamento de terras que ainda estavam sendo levantadas. E aonde algumas poucas linhas reproduziam com reduzida fidelidade os cursos d’água lá existentes, assim como a projetada disposição de suas divisas e das futuras estradas para seu acesso. Igualmente, sem maior apuro, dava-se sua situação, em um mapa quase sempre limitado ao norte do Paraná e sul de São Paulo, assim como assinalava-se um Norte. Era oportuno inserir-se uma condição ‘afirmativa’ de comunicação rodoviária através dos novos vilarejos que iam surgindo; com ênfase àqueles já incorporados ao folclore pioneiro como os mais recentes eldorados. Fazia também parte dessa rotina cartográfica o não representar-se o relevo local, fato até meio proposital em muitos casos. Qualquer indicação de “posseiros”, isto é moradores estabelecidos anteriormente, ou das muitas benfeitorias encontradas pelos agrimensores, evidentemente, não se repassavam aos desenhos apesar de anotadas nas cadernetas do levantamento. E muito menos aos pretensos compradores. Ao contrário, se lhes dizia que as terras continuavam virgens, que se encontravam “limpas” (livres de ‘invasores’), que tinham escrituras “quentes”, que não existia nenhum tipo de pendência documental… Enfim, aquelas coisas todas que eles, compradores, mais queriam ouvir.

 

Creio na verdade, que aos olhos deles a planta se lhes mostrava como que amontoados de traços parecendo pencas de retalhos. Era este desenho composto de superfícies anexas e mormente trapezoidais, que preenchiam completamente o perímetro d’uma “Gleba Tal” ou de outra “Colônia Qual”. Os lotes se projetavam compridos, geralmente mais largos em cima, lá onde se abriria o carreador que escoaria a copiosa produção futura. Para tanto, acompanhando os espigões, traçava-se a linha dupla significativa de uma estradinha de acesso. Já na parte mais baixa indicava-se uma tortuosa corrente de água. Estes lotes de terras assim formatados se numeravam em seqüência e suas áreas, calculadas planimetricamente, anotavam-se dentro deles. Raras vezes em hectares, mas sempre, sempre em alqueires. Alqueires dos de 24.200 m2, dos mais conhecidos como ‘paulistas’. Quanto à qualidade das terras: se dava garantia total, se repetia insistentemente sua fertilidade, se afirmava ser um contínuo palmital, as mais apropriadas para plantar-se café, onde nunca se ouvira falar de geadas, e outros etcéteras de coisas e loisas entre ingênuas e maliciosas.

 

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O ‘desbravador’, representante do proprietário morador no interior de São Paulo, era o ‘seu’ Afrânio. Este senhor, já com certa idade, quem sabe alcançando os sessenta e tantos anos, tinha aquela maneira de vida que a partir de então passei a caracterizar como “bandeirante”. Isto consistia na prática de um tipo de domínio sistemático, digamos ‘páter-familiar’, bem à velha moda colonial; imperante sobre a mulher e os filhos – mesmo que alguns já fossem casados e pais. E que fazia questão de constantemente reiterar, indiferente à presença dos outros, inclusive de nós (meu pai e eu). Incluía este formato de vivência: o passar o tempo papeando na varanda, que à frente da ampla casa de madeira lhe servia durante o dia de balcão de negócios, e à tardinha para desfrutar da leve brisa que a entrada da noite trazia. Assim, entremeando a mansa conversa em que a família e os lá chegados punham seus assuntos em ordem, se evitava um pouco daquele calor abafado que o intenso sol tropical acumulava ao longo da sua jornada pelos cômodos lá dentro.

 

O alpendre, abalaustrado, ficava recuado de uns quatro metros do avermelhado muro baixo de tijolos que fazia a divisa fronteira da propriedade, e como estava posicionado em torno de um metro acima do nível da calçada, lhe permitia verificar sobranceiro quem se aproximava, e o que se passava pela rua. As raras vezes que não se encontrava lá, o era por suas precisões fisiológicas, inclusive as de comer e dormir, ou nas ocasionais viagens necessárias ao trato dos negócios. E, é claro, nas escapadas que duas vezes por dia, uma durante a manhã e a outra pelo meio da tarde dava até o Café Líder, famoso ponto londrinense de encontro dos “colonizadores” e congêneres, e distante dali menos de quatrocentos metros.

 

– “Ó pai! É o Lázaro, o filho do seu Luis.”

 

Em me vendo chegar, alertado pelos familiares que constantemente lhe faziam guarda e companhia, e que, reitero, o tratavam com verdadeiro afeto patriarcal – desvelo este tão nítido que me impressionava toda vez que lá comparecia – me convidou a entrar:

 

– “Chega! Chega, Lázaro! Entra aqui…”

 

Várias outras vozes se agregaram e também me mandaram passar com as palavras de boas vindas costumeiras. Saudando subi os poucos degraus. Ato contínuo, após alguns comentários que pretendiam ser gentis, levantou-se e, convidando-me, nos dirigimos para a sala contígua, local da casa também utilizado como escritório. Lá ele guardava seus documentos, e nas paredes, pregadas ou emolduradas em quadros, as plantas dos diversos loteamentos por ele representados. Também se viam aderidas com fita colante diversas fotografias referentes à ‘conquista épica da floresta’. Ou seja as conhecidas variantes sobre o tema fundamental: pessoas versus selva. Umas calçadas de botas e de facões nos cintos, pequenas em baixo de árvores colossais. Outras portando minúsculas ferramentas nas mãos, e que se postavam encarando, enfrentando como que desafiando a mata imensa ao fundo. Enfim, algumas em cima de gigantescos troncos caídos. Duas ou três mostravam um grande trator derrubando árvores enormes, e com homens nele empoleirados brandindo facões, foices ou machados. Em outra, dois peões pareciam desafiar-se agarrados aos extremos do traçador enquanto olhavam para a câmera. E, em quase todas elas, o destaque recorrente para uma figura central, a dele mesmo.

 

Procurou entre seus muitos talões de cheque aquele do banco que lhe pareceu como o mais conveniente, e sentando-se à mesa pegou uma daquelas douradas canetas-tinteiro de marca famosa – tão renomada que me obrigou a dissimular um suspiro de admiração invejosa – e o preencheu cuidadosamente no valor estipulado com meu pai, e que antes confirmara comigo. E cuidando de mantê-lo ao portador, escreveu a data da segunda-feira seguinte àquele fim de semana, e o assinou. Em seguida, abanando-o para que a tinta secasse, me o repassou sem pedir recibo, mas anotando num caderno a quantia e o interessado. Eu o peguei e, a seu pedido, o conferi. Em seguida, enquanto agradecia respeitosamente, o dobrei e o guardei no bolso da camisa. Cuidadosamente dissimulado atrás da minha carteirinha vermelha de estudante!

 

Ao entregá-lo e notar minha mal contida satisfação, creio que fez questão de esboçar um sorriso condescendente, pois ele bem que sabia da triste situação financeira por que passávamos. Sem aquele dinheiro não teríamos, talvez, como agüentar decentemente mais uma semana. Devíamos de três para quatro meses de aluguel, se comíamos era por que o compreensivo japonês da mercearia da esquina nos fiava há mais de dois meses, desde os sólidos até os líquidos. Eu mesmo, que estudava no único colégio particular de Londrina que me aceitara sob condições, visto que o estabelecimento público se negara a matricular-me alegando como razão, a de ser minha documentação didática estrangeira, já havia sido chamado à Secretaria por diversas vezes para acertar os pagamentos atrasados em vários meses. Coisa que assim constrangido prometera, mas que não tivera como atender.

 

Voltei realizado ao nosso ‘escritório’, um par de salas que meu pai acertara dividir com um engenheiro civil, e onde meu trabalho no atender ao seu expediente fazia as vezes de nossa parte nas despesas. E logo depois, quando deram as doze no relógio da Matriz, fui para casa, encerrando meus trabalhos daquele dia. Meu caminho ziguezagueava pelo centro de Londrina. Começava quase na Avenida Paraná, descia a Rua São Paulo, dobrando à esquerda, seguia pela Sergipe para virar na Pernambuco (atualmente Guaporé), lugar mais apropriado para atravessar a linha férrea, e mais à frente alcançava a Belém, onde morávamos. Caminhando rápido, a todo instante apalpava o bolso para certificar-me mais uma vez da solidez do tesouro que carregava. Ia já prevendo a satisfação da minha mãe. Até antecipava a alegria dela quando visse o cheque. Ela o pegaria, o desdobraria, o conferiria, o leria uma e outra vez… E com certeza reafirmaria que finalmente nosso pai havia conseguido um cliente sério. Que cumpria o prometido! Um que não apenas nos pagava, mas que até o fazia em dia. Certamente um “homem de compromisso”. Uma pessoa admirável na Londrina daqueles tempos pós-geada de 1.955.

 

Na manhã seguinte, um domingo ensolarado, ao sair da missa do meio-dia, ouvimos a notícia incrível e assustadora. Seu Afrânio havia falecido naquela madrugada! Sem mais, assim de repente! E agora? No desespero das nossas precárias condições começamos a imaginar as hipóteses mais absurdas. Valeria o cheque? Ainda restaria valor a um documento emitido por uma pessoa morta? Toda a cidade o conhecia! A comunidade imobiliária o tinha como um dos seus homens mais representativos… E até lá, amanhã, todo mundo o saberia defunto!

 

“Meu Deus… – suspirava minha mãe – Como faremos se não recebermos este dinheiro?”

 

E intranqüilos, passamos o restante do dia conjeturando os piores presságios. E assim entre as ondas insistentes e crescentes das nossas dúvidas em alta, e as marolas das certezas em baixa pronunciada, decidimos que eu, como de costume, sairia para trabalhar, aguardaria a hora do banco abrir e na primeira ocasião possível lá compareceria. E calado, de boca fechada, apresentaria o cheque para desconto. Enquanto isso minha mãe, devidamente acompanhada da minha irmã, compareceria ao velório levando nossos sentidos pêsames à convalida família. E de qualquer modo que as coisas corressem nos reuniríamos, conforme o horário, ou no velório na casa do finado, ou no séquito do féretro do falecido, ou no seu enterro lá no cemitério. E foi o que eu fiz. E o que de ansiedade até o caixa finalmente gritar o meu número. Aí, me adiantei, ele olhou indiferente para mim, pegou a ficha de metal prateado que lhe apresentei, a recolheu, a conferiu, leu o valor do cheque… E sem qualquer comentário foi cuidadosamente catando e ajuntando as notas, as arrumou e contou novamente. Encarando-me as dobrou e reuniu com um elástico. Repassou-me o dinheiro por baixo da emoldurada grade de latão, empurrando-o e colocando-o ao alcance da minha mão. E eu tão nervoso quanto satisfeito, sem afastar-me do guichê, retirei o cordão de borracha a fim de conferir a quantia entregue, e como estava em ordem, exata, enquanto o recolocava, agradeci. Depois me afastei deixando-lhe um alegre cumprimento de despedida.

 

E me dirigi lépido para o cemitério, local mais que certo do encontro a estas alturas. Radiante pelo sucesso, mas um tanto receoso pela ‘dinheirama’, que firmemente segura em minha mão, avultava o bolso direito de minha calça.

dança flamenca. foto de ricardo silva.

A RELATIVIDADE do ERRADO por isaac asimov

Outro dia eu recebi uma carta. Estava escrita à mão em uma letra ruim, tornando a leitura muito difícil. Não obstante, eu tentei devido à possibilidade de que fosse alguma coisa importante. Na primeira frase, o escritor me disse que estava se formando em literatura Inglesa, mas que sentia que precisava me ensinar ciência. (Eu suspirei levemente, pois conhecia muito poucos bacharéis em literatura inglesa equipados para me ensinar ciência, mas sou perfeitamente ciente do meu estado de vasta ignorância e estou preparado para aprender tanto quanto possa de qualquer um, então continuei lendo.)

Parece que em um de meus inúmeros ensaios, eu expressei certa felicidade em viver em um século em que finalmente entendemos o básico sobre o universo.

Eu não entrei em detalhes, mas o que eu queria dizer era que agora nós sabemos as regras básicas que governam o universo, assim como as inter-relações gravitacionais de seus grandes componentes, como mostrado na teoria da relatividade elaborada entre 1905 e 1916. Também conhecemos as regras básicas que governam as partículas subatômicas e suas inter-relações, pois elas foram descritas muito ordenadamente pela teoria quântica elaborada entre 1900 e 1930. E mais, nós descobrimos que as galáxias e os aglomerados de galáxias são as unidades básicas do universo físico, como descoberto entre 1920 e 1930.

Veja, essas são todas descobertas do século vinte.

O jovem especialista em literatura inglesa, depois de me citar, continuou me dando uma severa bronca a respeito do fato de que em todos os séculos as pessoas pensaram que finalmente haviam compreendido o universo, e em todos os séculos se provou que elas estavam erradas. Segue que a única coisa que nós podemos dizer sobre nosso “conhecimento” moderno é que está errado. O jovem citou então com aprovação o que Sócrates disse ao saber que o oráculo de Delfos o tinha proclamado o homem o mais sábio da Grécia: “se eu sou o homem o mais sábio”, disse Sócrates, “é porque só eu sei que nada sei”. A conseqüência era que eu era muito tolo porque tinha a impressão de saber bastante.

Minha resposta a ele foi esta: “John, quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando pensaram que a Terra era esférica, elas estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana, então sua visão é mais errada do que as duas juntas”.

O problema básico é que as pessoas pensam que “certo” e “errado” são absolutos; que tudo que não é perfeitamente e completamente certo é totalmente e igualmente errado.

Entretanto, eu penso que não é assim. Parece-me que certo e errado são conceitos nebulosos, e eu devotarei este ensaio a explicar por que eu penso assim.

… Quando meu amigo, o perito em literatura inglesa, me disse que em todos os séculos os cientistas pensaram ter entendido o universo e estavam sempre errados, o que eu quero saber é quão errados estavam eles? Todos estão errados no mesmo grau? Vamos dar um exemplo.

Nos primeiros dias da civilização, a sensação geral era que a Terra era plana. Não porque as pessoas eram estúpidas, ou porque queriam acreditar em coisas estúpidas. Achavam que era plana por evidências sólidas. Não era só uma questão de “parece que é”, porque a Terra não parece plana. Ela é caoticamente irregular, com montes, vales, ravinas, penhascos, e assim por diante.

Naturalmente há planícies onde, em áreas limitadas, a superfície da Terra parece relativamente plana. Uma dessas planícies está na área do Tigre/Eufrates, onde a primeira civilização histórica (com escrita) se desenvolveu, a dos Sumérios.

Talvez tenha sido a aparência da planície que convenceu os Sumérios inteligentes a aceitar a generalização de que a Terra era plana; que se você nivelasse de algum modo todas as elevações e depressões, sobraria uma superfície plana. Talvez tenha contribuído com essa noção o fato que as superfícies d’água (reservatórios e lagos) parecem bem planas em dias calmos.

Uma outra maneira de olhar é perguntar qual é a “curvatura” da superfície da terra ao longo de uma distância considerável, quanto a superfície se desvia (em média) do plano perfeito. A teoria da Terra plana diria que a superfície não se desvia em nada de uma forma chata, ou seja, que a curvatura é 0 (zero) por milha.

É claro que hoje em dia aprendemos que a teoria da Terra plana está errada; que está tudo errado, enormemente errado, certamente. Mas não está. A curvatura da terra é quase 0 (zero) por milha, de modo que embora a teoria da Terra plana esteja errada, está quase certa. É por isso que a teoria durou tanto tempo.

Havia razões, com certeza, para julgar insatisfatória a teoria da Terra plana e, por volta de 350 A.C., o filósofo grego Aristóteles as resumiu. Primeiro, algumas estrelas desapareciam para o hemisfério do sul quando se viajava para o norte, e desapareciam para o hemisfério norte quando se viajava para o sul. Segundo, a sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar era sempre o arco de um círculo. Em terceiro lugar, aqui na própria Terra, é sempre o casco dos navios que desaparece primeiro no horizonte, em quaisquer direções que viajem.

Todas as três observações não poderiam ser razoavelmente explicadas se a superfície da Terra fosse plana, mas poderiam ser explicadas supondo que a Terra fosse uma esfera.

E mais, Aristóteles acreditava que toda matéria sólida tendia a se mover para o centro comum, e se a matéria sólida fizesse isso, acabaria como uma esfera. Qualquer volume dado de matéria está, em média, mais perto de um centro comum se for uma esfera do que se for qualquer outra forma.

Cerca de um século após Aristóteles, o filósofo grego Eratóstenes notou que o Sol lançava sombras de comprimentos diferentes em latitudes diferentes (todas as sombras teriam o mesmo comprimento se a superfície da Terra fosse plana). Pela diferença no comprimento da sombra, calculou o tamanho da esfera terrestre, que teria 25.000 milhas (cerca de 40.000 km) de circunferência.

Tal esfera se encurva aproximadamente 0,000126 milhas por milha, uma quantidade muito perto de 0, como você pode ver, e que não seria facilmente mensurável pelas técnicas à disposição dos antigos. A minúscula diferença entre 0 e 0,000126 responde pelo fato de que passou tanto tempo para passar da Terra plana à Terra esférica.

Note que mesmo uma diferença minúscula, como aquela entre 0 e 0,000126, pode ser extremamente importante. Essa diferença vai se acumulando. A Terra não pode ser mapeada em grandes extensões com nenhuma exatidão se a diferença não for levada em conta e se a Terra não for considerada uma esfera e não uma superfície plana. Viagens longas pelo mar não podem ser empreendidas com alguma maneira razoável de encontrar sua própria posição no oceano a menos que a Terra seja considerada esférica e não plana.

Além disso, a Terra plana pressupõe a possibilidade de uma terra infinita, ou da existência de um “fim” da superfície. A Terra esférica, entretanto, postula que a Terra seja tanto sem fim como no entanto finita, e é este postulado que é consistente com todas as últimas descobertas.

Assim, embora a teoria da Terra plana esteja somente ligeiramente errada e seja um crédito a seus inventores, uma vez que se considere o quadro todo, é errada o suficiente para ser rejeitada em favor da teoria da Terra esférica.

Mas a Terra é uma esfera?

Não, ela não é uma esfera; não no sentido matemático estrito. Uma esfera tem determinadas propriedades matemáticas – por exemplo, todos os diâmetros (isto é, todas as linhas retas que passam de um ponto em sua superfície, através do centro, a um outro ponto em sua superfície) têm o mesmo comprimento.

Entretanto, isso não é verdadeiro na Terra. Diferentes diâmetros da Terra possuem comprimentos diferentes.

O que forneceu a idéia de que a Terra não era uma esfera verdadeira? Para começar, o Sol e a Lua têm formas que são círculos perfeitos dentro dos limites de medida nos primeiros dias do telescópio. Isso é consistente com a suposição de que o Sol e a Lua são perfeitamente esféricos.

Entretanto, quando Júpiter e Saturno foram observados por telescópio pela primeira vez, logo ficou claro que as formas daqueles planetas não eram círculos, mas claras elipses. Isso significava que Júpiter e Saturno não eram esferas de fato.

Isaac Newton, no fim do século dezessete, mostrou que um corpo de grande massa formaria uma esfera sob atração de forças gravitacionais (exatamente como Aristóteles tinha proposto), mas somente se não estivesse girando. Se girasse, aconteceria um efeito centrífugo que ergueria a massa do corpo contra a gravidade, e esse efeito seria tão maior quanto mais perto do equador. O efeito seria tão maior quanto mais rapidamente o objeto esférico girasse, e Júpiter e Saturno certamente giravam bem rapidamente.

A Terra gira muito mais lentamente do que Júpiter ou Saturno, portanto o efeito deveria ser menor, mas deveria estar lá. Medidas de fato da curvatura da Terra foram realizadas no século dezoito e provaram que Newton estava correto.

Em outras palavras, a Terra tem uma protuberância equatorial. É achatada nos pólos. É um “esferóide oblato” e não uma esfera. Isto significa que os vários diâmetros da terra diferem em comprimento. Os diâmetros mais longos são os que vão de um ponto no equador a outro ponto oposto no equador. Esse “diâmetro equatorial” é de 12.755 quilômetros (7.927 milhas). O diâmetro mais curto é do pólo norte ao pólo sul e este “diâmetro polar” é de 12.711 quilômetros (7.900 milhas).

A diferença entre o maior e o menor diâmetro é de 44 quilômetros (27 milhas), e isso significa que a “oblacidade” da Terra (sua diferença em relação à esfericidade verdadeira) é 44/12755, ou 0,0034. Isto dá 1/3 de 1%.

Em outras palavras, em uma superfície plana, a curvatura é 0 em todos os lugares. Na superfície esférica da Terra, a curvatura é de 0,000126 milhas por milha todos os lugares [ou 8 polegadas por milha (12,63cm/km)]. Na superfície esferóide oblata da Terra, a curvatura varia de 7,973 polegadas por milha (12,59cm/km) a 8,027 polegadas por milha (12,67cm/km).

A correção de esférico a esferóide oblato é muito menor do que de plano a esférico. Conseqüentemente, embora a noção da Terra como uma esfera seja errada, estritamente falando, não é tão errada quanto a noção da Terra plana.

Mesmo a noção esferóide oblata da Terra é errada, estritamente falando. Em 1958, quando o satélite Vanguard I foi posto em órbita sobre a Terra, ele mediu a força gravitacional local da Terra – e conseqüentemente sua forma – com precisão sem precedentes. No fim das contas, descobriu-se que a protuberância equatorial ao sul do equador era ligeiramente mais protuberante do que a protuberância ao norte do equador, e que o nível do mar do pólo sul estava ligeiramente mais próximo o centro da terra do que o nível do mar do pólo norte.

Não parecia haver nenhuma outra maneira de descrever isso senão que dizendo a Terra tinha o formato de uma pêra, e muitas pessoas decidiram que a Terra não se parecia em nada com uma esfera mas tinha a forma de uma pêra Bartlett dançando no espaço. Na verdade, o desvio do formato de pêra em relação ao esferóide oblato perfeito era uma questão de jardas e não de milhas, e o ajuste da curvatura estava na casa dos milionésimos de polegada por milha.

Em suma, meu amigo literado em inglês, viver em um mundo mental de certos e errados absolutos pode significar imaginar que uma vez que todas as teorias são erradas, podemos pensar que a Terra seja esférica hoje, cúbica no século seguinte, um icosaedro oco no seguinte e com formato de rosquinha no seguinte.

O que acontece na verdade é que uma vez os cientistas tomam um bom conceito, eles o refinam gradualmente e o estendem com sutileza crescente à medida que seus instrumentos de medida melhoram. As teorias não são tão erradas quanto incompletas.

Isto pode ser dito em muitos casos além da forma da Terra. Mesmo quando uma nova teoria parece representar uma revolução, ela geralmente surge de pequenos refinamentos. Se algo mais do que um pequeno refinamento fosse necessário, então a teoria anterior não teria resistido.

Copérnico mudou de um sistema planetário centrado na Terra para um centrado no Sol. Ao fazer isso, mudou de algo que era óbvio para algo que era aparentemente ridículo. Entretanto, era uma questão de encontrar melhores maneiras de calcular o movimento dos planetas no céu, e a teoria geocêntrica acabou sendo deixada para trás. Foi exatamente porque a teoria antiga dava resultados razoavelmente bons pelos padrões de medida da época que ela se manteve por tanto tempo.

Novamente, foi porque as formações geológicas da Terra mudam tão lentamente e as coisas vivas sobre ela evoluem tão lentamente que parecia razoável no início supor que não havia nenhuma mudança e que a Terra e a vida sempre existiram como hoje. Se isso fosse assim, não faria nenhuma diferença se a Terra e a vida tinham bilhões ou milhares de anos. Milhares eram mais fáceis de se entender.

Mas quando cuidadosas observações mostraram que a Terra e a vida estavam mudando a uma taxa que era minúscula mas não nula, a seguir tornou-se claro que a Terra e a vida tinham que ser muito antigas. A geologia moderna surgiu, e também a noção de evolução biológica.

Se a taxa de mudança fosse maior, a geologia e a evolução alcançariam seu estado moderno na Antigüidade. É somente porque a diferença entre as taxas de mudança em um universo estático e em um evolutivo estão entre zero e quase zero que os criacionistas continuam propagando suas loucuras.

Uma vez que os refinamentos na teoria ficam cada vez menores, mesmo teorias bem antigas devem ter estado suficientemente certas para permitir que avanços fossem feitos; avanços que não foram anulados por refinamentos subseqüentes.

Os Gregos introduziram a noção de latitude e longitude, por exemplo, e fizeram mapas razoáveis da bacia mediterrânea mesmo sem levar em conta a esfericidade, e nós usamos ainda hoje latitude e longitude.

Os Sumérios provavelmente foram os primeiros a estabelecer o princípio de que os movimentos planetários no céu são regulares e podem ser previstos, e tentaram achar maneiras de fazê-lo mesmo assumindo a Terra como o centro do universo. Suas medidas foram enormemente refinadas mas o princípio permanece.

Naturalmente, as teorias que temos hoje podem ser consideradas erradas no sentido simplista do meu correspondente bacharel em literatura inglesa, mas em um sentido muito mais verdadeiro e mais sutil, elas precisam somente ser consideradas incompletas.

Original: The Relativity of Wrong.  tradução de daniel sottomaior.

planeta Terra visto da nave apollo 17. foto da nasa.

DE OSTRAS e VINHO carta de ánton passaredo

Caro Vidal,

Cartas são em geral continuadas, por isto escrevo esta terceira carta, ainda que nenhuma resposta tenha recebido do amigo para as duas anteriores. Interessante registrar, recebemos cartas na maioria das vezes de amor ou de parentes distantes, quase nunca de amigos, jamais da amante, quando ela existe.

A carta caiu mesmo em desuso, virou forma decrépita, carregada do estigma de “coisa velha”, “ultrapassada”. Pérfido engano. A causa pode ser atribuída ao agito dos tempos modernos, à rapidez da linguagem onde “não” é “naum”… mas espera, se a linguagem atual é reducionista, por que os jovens substituíram o “não” por uma expressão maior? Vá entender os jovens. Acho ser a razão deles tanto para ser diferente, como para ter língua própria, distante de nós, os antigos, ainda presos a cânones e regras. Pois que seja: ABAIXO ÀS REGRAS!!! Abaixo às normas. Como se fosse fácil para nós, lançarmos o brado e laços fora para tal libertação. Bobagem grossa, senilidade querendo ser rebelde ainda, 40 anos depois de 1968.

A Internet mudou tudo e a todos. Pena que ainda não tenha mudado os políticos, dissimulados como sempre, eternamente oportunistas, que fazem carreirismo, pulando de representatividade para representatividade, desde a liderança estudantil, para o cargo de vereador, numa seqüência até chegar a senador. Mas deixemos os políticos e seus eleitores cativos de lado. Definitivamente sou partidário do voto nulo, até o dia em que houver clima para um levante no rumo da construção de um socialismo, dentro de um governo plural, com representantes populares detentores de único mandato para toda uma vida.

Arghhhhh!!! Meu caro Vidal, cretinice aguda deste seu parceiro de vinhos e ostras. Esqueçamos os políticos por ora, uma vez que logo logo eles irão invadir nossas mídias e nos perturbar por meses seguidos, não nos permitindo olvidá-los.

Escuto Tom Jobim semi-inédito no som do meu Windows Media Player, de agora em diante WMP. Trata-se de uma sinfonia feita para Brasília. Nela existe uma parte que mostra a saga da construção da cidade, desde os primeiros momentos quando o homem descobre a natureza do cerrado e toda a sua variegada compleição. Depois vem outra parte apresentando a chegada dos primeiros candangos. Em seguida, a fase da construção. Para finalizar, a apoteose do realizado. Bonito e pouco divulgado. Desde já está prometida uma cópia do CD. Tom é impressionante mesmo, faz lembrar outros grandes maestros que fizeram a mixagem do clássico com o popular, como Bernstein e George Gershwin. Não saberia dizer dos outros, mas o que Tom Jobim é para nós mostra como é fantástica esta aproximação do clássico ao gosto do popular.

Queria ainda falar de ontem, quando estivemos juntos na última barraca da Feira do Litoral, ali na esquina da Praça do Homem Nu com a antiga zona do Baixo Meretrício de Curitiba, a Rua Riachuelo. Cheguei ali num táxi. Antes tinha ido ao mercado, dele até em casa, depois em direção ao nosso encontro. Neste trajeto um tanto longo pude saber que o taxista era de Caruaru, em Pernambuco, terra que briga com Campina Grande para ser reconhecida como a capital brasileira do forró. Pois o pernambucano, ao estilo dos curitibanos, em certo momento “lascou” a pergunta tão comum entre os nativos daqui.

__ “O Senhor não é daqui, não é mesmo?

Antes de responder, perguntei qual o porquê da pergunta. E ele:

__ É porque nunca vi alguém de Curitiba ir a um encontro levando uma garrafa de vinho aberta e duas taças. Isto não é coisa da gente daqui, só pode ser mesmo de pessoa de fora. O povo aqui é muito fechado e recatado, os gestos deles são mais discretos.

Pois foi assim, com a garrafa de vinho e duas taças na mão que cheguei até você, meu Caro Vidal. Devo dizer, um dia depois do nosso encontro, que não sou muito afeto às ostras, nem por carinho pessoal, nem fazem elas parte dos meus mais recônditos desejos gastronômicos. Mas vou ao próximo encontro pretendendo superar a dificuldade. Acredito que, depois de cinco ou seis sábados, serei capaz de sentir algum prazer na degustação dessa iguaria, ainda que seja difícil incluí-las na minha afetividade pessoal. Isto porque não saberia assobiar como o vento praiano, marulhar como as ondas, agitar-me como as marés. Mas a conversa superou minhas expectativas. Nossos entendimentos sobre este “site” fabuloso dos palavreiros vão além dos prazeres das ostras. Estamos cada vez mais afinados e encantados com as possibilidades das novas e velhas linguagens, elas com suas vísceras expostas na página do nosso “blog”. Estou mais do que entusiasmado, estou me sentindo parceiro e autor da idéia.

Aproximando-me do fim desta carta, queria tecer algumas palavras sobre o poema do Fernando Pessoa “Todas as cartas de amor são ridículas”. Maravilha. Espanta-me sua capacidade de garimpagem, Vidal. Incrível como você consegue arrancar dos alfarrábios mais escondidos essas pérolas que não encontramos em nossas ostras degustáveis nas feiras das ex-ruas das putas curitibanas. Pessoa nos surpreende por seu jogo de caminho à frente e para trás. Ora afirmando, ora negando. Ah, quanto mar e navegos precisos e até imprecisos são eternos neste poeta para o qual somos todos órfãos na linguagem e na paisagem. Navegar é preciso, escrever cartas também é preciso, desde Caminha até Vidal.

E sigamos navegando o barco, degustando ostras, ali na Praça do Homem Nu, que também é da Mulher Nua, mas que o povo somente lembra do primeiro, pelo gigantismo do seu membro mais dileto.

Meu Caro Vidal, até sábado que vem, quando nova garrafa de vinho, ostras e conversas beberemos com as taças que lá deixamos para uma nova jornada.

Ánton Passaredo

Curitiba, 15/Junho/2008.

CHINA. foto sem crédito. ilustração do site.

A MEDIOCRACIA BRASILEIRA por rodrigo constantino

“A virtude é uma tensão real em direção ao que se concebe como perfeição ideal.”
José Ingenieros

O ditado popular diz que cada povo tem o governo que merece. Por trás desta crença, está o fato de que os governados são sempre maioria, e os governantes são minoria. Logo, algum tipo de aprovação das massas se faz necessário, já que dificilmente a coerção sozinha seria suficiente para manter um povo inteiro servil. Em outras palavras, a cultura predominante num determinado povo é fundamental para o tipo de governo que ele terá. As instituições são cruciais, mas os pilares que sustentam um governo estarão sempre na mentalidade dominante dos governados. Os políticos acabam sendo um reflexo do povo. Quando este abraça os valores errados, não adianta sonhar com um messias salvador. Os valores é que devem mudar.

Dito isso, podemos entender melhor o lamentável contexto atual do Brasil, onde a insatisfação com a classe política é total por parte dos que ainda alimentam um ideal moral. De fato, o cerne da questão está enraizado em locais mais profundos. Trata-se de um problema estrutural, de um apodrecimento dos próprios valores da sociedade. Não adianta apenas criticar este ou aquele governo, ainda que seja um dever moral de todos os que buscam melhorias apontar qualquer empecilho para a meta. Há, é verdade, um real agravamento do quadro durante a gestão do presidente Lula, pois ocorreu uma total banalização da imoralidade, com os enormes e infindáveis desvios de conduta sendo justificados com base na desculpa esfarrapada de que sempre foi assim. Estamos completamente inseridos numa mediocracia, onde pululam os medíocres e faltam idealistas com a convicção moral de se revoltar contra o “consenso”.

É praticamente impossível ler O Homem Medíocre, de José Ingenieros, e não pensar na situação caótica do nosso país. No livro, o autor descreve as características presentes numa mediocracia, contrapondo isso à visão de um ideal de perfeição por parte de alguns poucos indivíduos de destaque. Ingenieros sustenta que é fundamental manter acesa esta chama de um ideal, uma meta visionária que não sucumbe às contingências da vida prática imediata. Esses visionários buscam alguma perfeição moral, emancipando-se do rebanho. São espíritos livres, adversários da mediocridade, são entusiastas contra a apatia. Sem ideais o progresso seria impossível. O culto ao “homem prático”, com foco apenas no presente imediato, representa a renúncia à evolução.

O idealista é um rebelde em relação ao sentimento coletivista típico dos rebanhos. Ingenieros diz: “Todo individualismo, como atitude, é uma revolta contra os dogmas e os valores falsos respeitados nas mediocracias; revela energias anelosas de expandir-se, contidas por mil obstáculos opostos pelo espírito gregário”. O caráter digno afirma seu ideal frente à mesmice comum, levanta sua voz quando os povos se domesticam e se calam. Um povo que tenta eliminar estes indivíduos independentes é um povo dominado por medíocres. A originalidade é vista como um defeito imperdoável. “Todos os inimigos da diferenciação vêm a sê-lo do progresso”, afirma Ingenieros. Os igualitários coletivistas não suportam que alguém se sobressaia. O sucesso alheio passa a ser uma agressão ao rebanho. “O sentido comum é coletivo, eminentemente retrógrado e dogmatista; o bom sentido é individual, sempre inovador e libertário”, explica o autor. Os adeptos da rotina medíocre são intolerantes com a heterogeneidade, defendem-se de qualquer centelha original como se fossem crimes as diferenças.

De um lado, temos os poucos que pensam por conta própria, que usam o próprio juízo, que buscam sinceramente a verdade. Do outro, temos os seres passivos, que deixam a “sociedade” pensar por eles. São os medíocres, que não têm voz, mas eco, e vivem como sombras. De um lado, indivíduos com convicções que entram como parafusos, gradualmente, mas com firmeza. Do outro, adeptos fanáticos de crenças que entram como pregos, num golpe só. De um lado, os que vivem a própria vida. Do outro, aquele para quem viver é ser arrastado pelas idéias alheias. O que Ayn Rand chamou de “segunda mão”, figuras inexpressivas que vivem pelos outros, ao contrário de John Galt, adepto da seguinte máxima: “Juro – por minha vida e por meu amor a ela – que jamais viverei por outro homem, nem pedirei a outro homem que viva por mim”. São poucos os que carregam dentro de si integridade e personalidade para tanto. A maioria é composta por homens sem personalidade, moldados pelo meio, seguindo um curso determinado por outros, como bóias à deriva. Os medíocres inventaram “o inconcebível plural da honra e da dignidade, por definição singulares e inflexíveis”, como lembra Ingenieros.

O homem medíocre vive em função da opinião dos outros. Enquanto poucos desfrutam de uma mente inovadora, uma imaginação criadora, o medíocre “aspira a confundir-se naqueles que o rodeiam”. O homem que resolve pensar pela própria cabeça representa uma ameaça aos medíocres, um perigo que deve ser afastado. Os medíocres são animais domesticados, adaptados para viver em rebanho, sombras da sociedade. Unidos, são perigosos. A força da quantidade supre a debilidade individual. Quando esta força consegue ofuscar os idealistas, o resultado pode ser catastrófico. A mediocracia é inimiga do progresso. E quando os medíocres tomam conhecimento de seu poder, corremos o risco da vulgaridade.

“A vulgaridade é uma acentuação dos estigmas comuns a todo ser gregário; apenas floresce quando as sociedades se desequilibram em desfavor do idealismo”, diz Ingenieros. Para ele, a vulgaridade é “a renúncia ao pudor daquele que carece de nobreza”. Os seres vulgares se unem através de uma complacência servil ou uma bajulação proveitosa. São dissimulados, falsos, hipócritas e vaidosos. “A vaidade empurra o homem vulgar a perseguir um emprego respeitável na administração do Estado, indignamente, se é necessário”. O hipócrita declara as crenças mais proveitosas, ignorando qualquer aspecto moral. “O hipócrita transforma sua vida inteira em uma mentira metodicamente organizada”. Vive um culto às aparências, sem ligar para a verdade. Tudo que lhe importa é parecer virtuoso, sem nutrir qualquer admiração real pela virtude em si. São oportunistas, e entre os homens vulgares, existe cumplicidade do vício ou da intriga, mas nunca amizades verdadeiras.

Quando estes dominam, temos uma mediocracia. “Nos povos domesticados chega um momento no qual a virtude parece um ultraje aos costumes”. Quem consegue ler isso e não refletir sobre a realidade brasileira? “Quando a dignidade parece absurda e é coberta de ridículo, a domesticação dos medíocres alcançou seus extremos”. No Brasil, não é visto como patética a defesa intransigente por ideais morais? O “jeitinho” não faz parte da cultura nacional? A corrupção política não passou a ser vista com naturalidade? Aquele que ousa desafiar a “opinião pública” não é execrado por todos? A população não parece acovardada, escrava da opinião alheia? O mérito individual não cedeu lugar ao conceito de “igualdade dos resultados”? As trocas de favores políticos não substituíram a responsabilidade individual de sustento próprio? “Esse afã de viver às expensas do Estado rebaixa a dignidade”. O parasitismo – viver à custa dos outros na marra – não passou a ser encarado como uma espécie de “direito civil”? O culto à inveja, tentando rebaixar aqueles que conquistam vôos mais elevados, não se transformou em bandeira política?

Na mediocracia, “todos se apinham em torno do manto oficial para alcançar alguma migalha da merenda”. E no Brasil das esmolas estatais, dos vastos subsídios para grandes empresas, das anistias milionárias para intelectuais, do financiamento estatal bilionário para ONGs, o clima predominante não é exatamente este? Não estão todos se vendendo em troca de “migalhas”? “As artes tornam-se indústrias patrocinadas pelo Estado”. E esse não é o país dos filmes bancados por verbas estatais, fazendo proselitismo para agradar a mão que os alimenta? “Tudo mente com a anuência de todos; cada homem põe preço à sua cumplicidade, um preço razoável que oscila entre um emprego e uma condecoração”. E não é este o país dos cabides de emprego nas estatais, dos milhares de cargos públicos apontados pelo governo para aparelhar a máquina com os aliados partidários? “O nível dos governantes baixa até o ponto zero; a mediocracia é uma confabulação dos zeros contra as unidades”. E não seria este o país que tem Lula como presidente, enaltecendo sua ignorância como se esta fosse motivo de orgulho? Não é este o país onde o presidente beija a mão de caudilhos e ri, enquanto avisa que se trata de uma aula sobre política?

“Os governantes não criam tal estado de coisas e de espírito: representam-nos”. Ingenieros concorda com a premissa do primeiro parágrafo: o problema está na cultura, na mentalidade, na covardia dos que fugiram da luta. “Quando as misérias morais assolam um país, culpa é de todos os que por falta de cultura e de ideal não souberam amá-lo como pátria: de todos os que viveram dela sem trabalhar por ela”. Não é esse o país onde as pessoas se consideram espertas por burlar as regras e passar os outros para trás? “A irresponsabilidade coletiva borra a cota individual do erro: ninguém enrubesce quando todas as faces podem reclamar sua parte na vergonha comum”. E o Brasil não é campeão na arte de apontar a sujeira dos outros como justificativa para a própria?

Podemos entender melhor agora porque o Brasil deve ser caracterizado como uma mediocracia. Aqui, os medíocres roubaram a cena, e foram eficazes em cortar as asas dos que pretendem um vôo solo. O coletivismo matou o individualismo meritocrático. Ingenieros condena abertamente o igualitarismo: “A natureza se opõe a toda nivelação, vendo na igualdade a morte; as sociedades humanas, para seu progresso moral e estrutural, necessitam do gênio mais do que do imbecil e do talento mais do que da mediocridade”. E continua: “Nossa espécie saiu das precedentes como resultado da seleção natural; apenas há evolução onde podem selecionar-se as variações dos indivíduos. Igualar todos os homens seria negar o progresso da espécie humana. Negar a civilização mesma”.

O antídoto contra este mal igualitário é a tolerância pelas diferenças, a admiração em vez da inveja pelo sucesso alheio. “Um regime em que o mérito individual fosse estimado por sobre todas as coisas, seria perfeito”. A sociedade inteira teria a ganhar com essa seleção natural. Este mecanismo se opõe à democracia quantitativa, “que busca a justiça na igualdade, afirmando o privilégio em favor do mérito”. Onde está a justiça quando dois lobos e uma ovelha votam o que ter para jantar? E também se opõe à aristocracia oligárquica, “que assenta o privilégio nos interesses criados”. Para Ingenieros, “a aristocracia do mérito é o regime ideal, frente às duas mediocracias que ensombram a história”. Os seres humanos não são iguais. Logo, a justiça não pode estar na igualdade dos homens, meta inclusive impossível, já que felizmente não somos cupins. A única igualdade válida – aquela sob as leis – levará inevitavelmente às desigualdades dos resultados. Somente sociedades que souberam respeitar isso prosperaram. Aquelas onde a inveja falou mais alto, onde o igualitarismo dos medíocres prevaleceu, foram apenas mediocracias decadentes.

O Brasil precisa escolher qual rumo pretende seguir. Para optar pelo progresso, será preciso abraçar os valores morais adequados, o ideal de perfeição, o respeito pelo mérito dos indivíduos que possuem luz própria e desafiam a mediocridade, alçando vôos mais elevados enquanto muitos rastejam. Ou isso, ou a tirania dos medíocres: a mediocracia, onde o lodo impede que qualquer um avance mais rápido, matando junto qualquer possibilidade de progresso.

tela de áttila wenserski.

Rumorejando (Com a primeira vitória do Paraná, depois de dois meses de competição, na Segundona, vibrando). – por josé zokner (juca)

Constatação I

É comum acontecer no futebol que um time ataca todo o tempo, mas não conseguir fazer o colimado e tão almejado gol. E, pior ainda, acaba levando um gol do adversário que foi atacado todo o tempo. Os locutores esportivos usam a expressão: “Quem não faz, leva”. Já com relação aos deputados e senadores a expressão absolutamente não é válida. Em certos países – na maioria deles – eles não fazem e levam. Uma nota elevada…

Constatação II (Isso, quando deixam o entrevistado falar).

Duas emissoras no nosso país se caracterizam por informações 24 horas por dia e também de entrevistas. São a CBN, da Rede Globo, e a Band News, do grupo da Rede Bandeirantes. Muitos dos seus entrevistadores misturam as estações, quer dizer o tratamento. O entrevistador se dirige ao entrevistado como o senhor ou a senhora. E lá pelas tantas: “Eu te pergunto”, ao invés de “Eu lhe pergunto”. Péssimos exemplos para os ouvintes e crime contra o pobre, sofrido e indefeso vernáculo.

Constatação III

Rico assoma; pobre, invade.

Constatação IV (Quadrinha endereçada a quem de direito).

Falam mal do meu Paraná

É tudo puro despeito

Melhor que ele não há.

Por favor, mais respeito!

Constatação V

Rico se apaixona; pobre, se acostuma.

Constatação VI

Não se pode confundir requintada com requentada, até porque uma comida requintada se for requentada deixa de ser requintada. A mesma coisa acontece na política: todo governante que realizou uma razoável administração e é reeleito é comparado com uma bebida requentada já que no segundo mandato deixa de fazer uma administração requintada, como alguns julgam e apregoam que ele fez no primeiro. Tanto que tornam a votar no infeliz, digo em quem nos deixa infeliz. A recíproca não é necessariamente verdadeira. Se num relacionamento o cidadão dá uma requentada na mulher, que andava meio fria, através de uma viagem para uma praia deserta, daquela que dá pra ficar pelado sem que ninguém veja, ou onde se pratica o naturismo, fatalmente deverá advir uma reciclagem no envolvimento, tornando a relação, se não requintada, ao menos factível, exeqüível, possível, praticável, realizável. Para quem não tá lá essas coisas nas finanças um motel daqueles que, quer se queira ou não, tudo induz a um final feliz poderá ajudar a se obter o desiderato almejado e a gente poderá cantar o epinício* do dever cumprido…

*Epinício = “hino triunfal; poema ou cântico feito para comemorar uma vitória ou qualquer obra em que se manifesta o regozijo por um acontecimento”. (Houaiss).

Constatação VII

Rico fica inadimplente; pobre vai pro Seproc.

Constatação VIII

Candidato rico pratica a “captação ilícita de sufrágio”, mais conhecido por compra de votos; candidato pobre tá ferrado.

Constatação IX

Deu na mídia após o feriadão de 15 de novembro de 2007: “Estradas paulistas têm menos mortes, diz PM. Durante os quatro dias de feriado prolongado, São Paulo registra 976 acidentes, com 36 mortos e 539 feridos”. Com esse número de mortes e feridos, lamentáveis, fica evidenciado, através da Teoria da Relatividade para principiantes que a irresponsabilidade dos motoristas, principal causa dos acidentes nas estradas, continua vigindo. Tava na hora de tirar a carteira de Habilitação de muita gente, proibindo que voltem a dirigir, como a nova Lei que acabou de ser implantada.

Constatação X (Dúvida não necessariamente crucial, via pseudo-haicai).

Foi a barata

Que disse pro barato:

“Aqui, você é persona non grata”?

Constatação XI

O lucro do banqueiro é diretamente proporcional à tarifa dos bancos e também diretamente proporcional às filas dos usuários porque eles não contratam funcionários. Portanto, inversamente proporcional ao número de atendentes e caixas. E viva “nóis”, quer dizer, eles, os banqueiros…

Constatação XII (De informações úteis).

Aviso aos tomadores de chimarrão: Na feira de produtos orgânicos, que se realiza também aos sábados, no Passeio Público, cá em Curitiba, é possível encontrar erva-mate cultivada em sistema agro florestal. Não vem com mistura, não tem pó que entope a bomba, enfim é farinha, digo, erva de outro saco. Respeitosamente recomendo. E, claro, outros produtos desse jaez também.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

lençol para tímidos. ilustração do site.

RETRATOS por zuleika dos reis

Para Maria Helena Mageste

 

 

 

Olhos negros, amendoados, olhar esvoaçando de um lado a outro no vagão do metrô, observando este e aquele passageiro nos assentos, cada qual a ver imagens invisíveis para todos os demais. Olhar de cinco, seis anos, em certo momento pousa no meu, que lhe abre um sorriso. Não se detém e busca, na extremidade oposta, a figura de outra menina, minúscula, que berra pela palmada da mãe, de quem acabou de puxar o cabelo.

Nariz levemente arrebitado no rosto infantil que se alarga, narinas farejando, talvez, algum castelo de chocolate oculto nas dobras do paletó do pai: – Você vai levar um tombo já já se não parar quieta. Sai de perto da porta. Narinas que, numa das perambulações, novamente se aproximam de mim, com este cheiro adulto impossível de disfarçar, e rápido se afastam, cãozinho cujo faro se enganou.

Ela ri de tudo e de nada, riso ainda cheirando a leite a iluminar-lhe o rosto, a saborear o gosto ainda cheirando a leite das coisas do mundo.

Posso apenas pressupor a delicada tessitura das orelhas. Gostaria de capturá-la de passagem, com a fala inicial de algum conto que a encantasse, mas onde as palavras antigas? “Mãiê, grita o velho papagaio, que jamais esquece o vocábulo da infância. Ninguém responde, o nome virou ruído.”

Cabelos de um castanho profundo espalhados como vento acolhem os passageiros que entram no vagão. “Os olhos iam se fechando enquanto o caçador salvava Chapeuzinho Vermelho e a vovó, e era eu que me aconchegava em teu colo, como se fosses tu a minha mãe.”

O corpo rechonchudo, ágil, rompe ininterrupto a imobilidade e o silêncio necessário aos adultos assentados. O universo se resume ao vagão, mas não há ninguém com quem brincar a não ser a menininha da palmada, que dormiu. “Tinhas seis anos na derradeira fantasia, de cigana, enquanto o retrato vai completar dez daqui a um mês, também em pleno carnaval.”

A criança se aquieta de repente, recolhe-se, fica acariciando a barba cerrada do pai que, enfim, segura sua borboleta nas mãos. “Quando abri a janela daquela manhã e toquei de leve suas asas azuis, molhadas de orvalho, elas não se mexeram. Não voaram. Nunca mais.”

Chego a minha estação. Ergo-me e olho, pela última vez, a menina do metrô. Daqui a uns cinqüenta anos, uma mulher jovem revê imagens antigas. De repente, a garotinha de olhos amendoados, negros, aponta: “– Esta é a vovó, querida, quando tinha a idade que você tem agora.”

escultura de olavo tenório.

MEGERA poema de ana maria maruggi

Tal qual náufrago remeto

trôpegos  versos calados

âncoras lançadas

em águas distantes.

Sem resposta,  arreto.

 

Tal qual pintor desenho

silhueta frágil

profanando o credo

de nudez incauta

Lépida e fria, desdenho.

 

Emaranhado na espera

Ato-me em nós

Fustigo meu coração

Lascivo por teu desdém

Flagelo de amor, megera.

 

PODERES OCULTOS, TALISMÃS E FEITICEIROS – por ademário da silva

A noite e o dia segundo o conceito humano não convivem sob o mesmo teto. Desafeição e afinidade não constituem ambiência agradável por oposição emocional, psicológica e moral, feito água e óleo que se separam, mesmo estando num único vaso.

E segundo a resposta de Albert Einstein a luz é a sombra de Deus. O que poderia parecer uma contradição se compreendida pelos parâmetros humanos, é uma realidade insofismável, partindo da premissa  de que em a Natureza tudo é energia. E Deus enquanto Suprema Inteligência do Universo e Causa Primária de todas as coisas, é realmente a energia que brilha em todas as coisas e seres, em todas as células e genes, constitui  a placenta de Luz, onde está contida toda a vida, suas conseqüências e implicações, tendo como veículo primário de manifestação o fluido cósmico universal, célula diretriz de todo impulso existencial  em a Natureza espiritual que por sua vez contém a natureza material.

Assim compreendemos que a matéria é energia condensada vibrando em lenta velocidade que se nos passa a impressão de que está detida, parada, retida por estranha paraplegia, surda, extática qual espantalho nas fronteiras da dureza e da solidez. Aí raciocinamos por comparação: o diamante é o elemento mais duro que conhecemos e esquecemos que ele tem como berço o carbono que é um gás. Mas vejamos o seguinte: o perispírito é constituído por: eletricidade, magnetismo e matéria quintessenciada. A mediunidade é orgânica, o que quer dizer que o corpo humano é organismo, em caso de mediunidade ostensiva, preparado para  a maior ou menor manifestação do magnetismo que o próprio perispírito veicula. Isso nos demonstra que as forças da natureza se manifestam, se expressam, se permitem manipular segundo diretrizes já estabelecidas em suas origens e finalidades. E condições de dureza e lentidão existem na matéria que não combinam intrinsecamente com a energia do perispírito, por exemplo, até por disposições moleculares.

O necessitado, doente ou desavisado vai ao “centro espírita”, tenda de umbanda ou terreiro da caridade, explica seus achaques e problemas de variada gama de complicações, e o guia espiritual aconselha a que traga peças de sua indumentária cotidiana para ser “benzida”, magnetizada; e o tecido se faz refratário à assimilação da energia aplicada no processo e os resultados são nulos ou quase imperceptíveis. O guia do terreiro risca um ponto no chão e impressiona os sensíveis e incultos, mas sequer se cogita de que  a terra anula e desvia os efeitos da eletricidade comum, até por motivos de proteção, se assim não fosse as descargas elétricas carreadas por raios e trovões já teriam causados maiores danos ao planeta.

Disso podemos depreender que é preciso por exemplo descobrir veículos condutores adequados aos mais variados tipos de energia que conhecemos, para que nos libertemos da esfera viciada da “boa vontade” e realmente nos preparemos enquanto médiuns e espíritas para atuarmos lúcida e conscientemente nos trabalhos de amor ao próximo, sem criarmos desavisadamente expectativas de ilusórias esperanças aos mais necessitados.

A água que é fluidificada nos Centros Espíritas é um exemplo grandioso dessa combinação de elementos interagentes. O espírito desencarnado de um médico combina os fluidos medicamentosos naturais ao fluido animal dos médiuns e alcança por vontade e intenção amorosa a medicação necessária à determinadas doenças, que se lhe pediram pra que ele as curasse. E de acordo com as mesmas de harmonia e integração, permissão pelo viés da misericórdia do Pai, muitos necessitados alcançam resultados importantes. Até por que a água é um excelente condutor de eletricidade.

Em o livro ‘O Espírito e o Tempo’, J, Herculano Pires em sua visão acurada, filosófica e científica demonstra as características: agrícolas, psicológicas e científicas da mediunidade, enfatizando que em sua fase agrícola o homem por desconhecimento e empirismo necessitou dessa relação mitológica com ‘divindades e duendes’, por que não possuía cabedal  intelectual e de experiência para descobrir com serenidade e lógica a outra dimensão da natureza existencial, sem que isso significasse para ele um impacto emocional e espiritual altamente prejudicial.

O mediunismo com certeza teve sua razão de ser nos períodos de infância intelectual e científica da humanidade, mas hoje que até a ciência dita oficial se curva as evidências de que uma energia diretriz, que o corpo bioplásmico e outras denominações que tais, são realidades que já não se tem como negar e é até melhor explicá-las, poderes  ocultos,  talismãs e feiticeiros tomam acento no ônibus da história humana rumo aos vilarejos do folclore e das crendices.

Poderes ocultos, talismãs, bênçãos e maldições só podem ser aceitos pelos que desconhecem as leis da natureza e principalmente por ignorarem o Poder e a Justiça de Deus, Pai Todo Misericordioso.

A lei de causas e efeitos clareia-nos o raciocínio. O pensamento é uma força ainda não totalmente conhecida e admitida por nós. Entre pragas e desarranjos quebram-se as asas do arcanjo desavisado, ou seja, o ser emissor do pensamento malévolo ou invejoso é quem arca com o maior percentual das conseqüências por ele imaginadas em seu desequilíbrio antifraterno, enquanto o receptor só se verá em maus lençóis se afinizar fluídica ou moralmente com as atitudes em questão.

A mediunidade “parece” guardar segredos, o que acontece é que pela própria disposição orgânica, o médium em determinadas circunstâncias, não se restringe ao efeito dos cinco sentidos humanos, ele extrapola e atua com valores e leis que pertencem por assim dizer ao mundo espiritual, causando em quem o vê atuar, significativa impressão que deveria levar ao estudo, a busca e a pesquisa e jamais a se sediar na esfera do miraculoso, até por que isto é comodismo e preguiça mental, que redunda em inércia e estacionamento existencial.

ESPAÇO CULTURAL GASTRONÔMICO “ALBERTO MASSUDA” INAUGURA EM CURITIBA

Alberto Massuda ganha centro cultural e gastronômico em Curitiba

 

Um local que irá unir arte, cultura e gastronomia. Essa é a proposta do Centro Cultural e Gastronômico Alberto Massuda, que será inaugurado em Curitiba no mês de julho. Trata-se de uma casa de 500 m2, construída em 1905 e tombada pelo patrimônio histórico na Rua Trajano Reis, 443, no bairro São Francisco.

Completamente revitalizado, o Centro conta com 3 pavimentos. No primeiro andar fica a galeria, que será destinada a exposição de artes plásticas. O térreo concentra parte da área do restaurante e espaço para lançamento de obras literárias. No subsolo fica outra área de restaurante, espaço para música ao vivo e um deck, onde haverá a projeção e lançamento de filmes e apresentações teatrais. A casa tem capacidade para 180 pessoas sentadas.

À frente do empreendimento está o médico Cadri Massuda, filho do artista plástico Alberto Massuda, falecido em 2000. “Ele deixou um rico acervo, com mais de 400 desenhos e 100 quadros”, comenta Cadri. Inicialmente, o espaço prestigiará as obras de Massuda, no entanto a idéia é futuramente prestigiar os artistas paranaenses. Entre os nomes cotados para a próxima exposição está o de Poty Lazzarotto.

O processo de revitalização do teve início a três anos e recebeu cerca de R$ 1 milhão em investimentos. “A proposta foi criar um ambiente agradável, onde se possa desfrutar de bons momentos convivendo com a arte”, define Massuda. A idéia é que as pessoas visitem as exposições ou participem do lançamento dos livros e filmes, e prolonguem a estadia no restaurante. Cada prato do cardápio -, que terá as massas como carro-chefe -, será identificado pelo nome de um artista.

 

Uma vida dedicada à arte

Nascido no Cairo, Egito, em 1925, Alberto Massuda veio com 33 anos para o Brasil e fixou residência em Curitiba. Em 1958 naturalizou-se brasileiro. Antes de sua chegada, cursou Belas Artes no Egito e Cenografia de Cinema na Itália.

Considerado o precursor do Jovem Surrealismo Paranaense, esteve à frente de importantes movimentos artísticos do Estado, como a Associação Paranaense de Artistas Plásticos. Premiado em diversos salões, as obras de Alberto Massuda hoje fazem parte do acervo de diversos museus como o de Arte do Cairo, Arte Moderna de Alexandria, Arte do Paraná, Arte de Joinville, entre outros, bem como fazem parte de coleções particulares em Roma, Paris Tel-Aviv, Varsóvia e Buenos Aires.

 

Serviço:

Espaço Cultural e Gastronômico Alberto Massuda

Rua Trajano Reis, 443 – São Francisco

Informações: 41 3076-7202

 

 

Maisinformações:
Wikerson Landim (DRT-PR 5229)

Assessoria de Imprensa Centro Cultural e Gastronômico Alberto Massuda

BWP Comunicação

Rua Brigadeiro Franco, 1193 – Centro

Telefone: (41) 3018-5045 * (41) 3015-5146

E-mail: wikerson@bwpcomunicacao.com

 

tela de josé antonio de lima.

FLORESTAS na LÍNGUA poema de jairo pereira

 

 

tenho florestas na língua florestas muitas florestas cipós limos liquens hastes folharéu ditos trançados no espaço da razão e da des-razão

caminho do sem-caminho destino do sem-destino trabalho do sem-trabalho cavalo do sem-cavalo espírito do sem-espírito ruidosos os redemoinhos da memória sonoros os ventos ventados em círculos ciscos crescidos no vendaval ciscos poeira do passado objetos vencidos idéias jogadas fora projetos esquecidos folhas de poemas maldormidos com limo nos títulos óxido nos versos enzimas raros na epiderme

uma noite muitas noites sem meus filhos-poemas libélulas asadas pra longe

meus animais de estima canto & alucinação

florestas na língua tenho florestas na língua e no pensamento florestas florestas pássaros verdes negros vermelhos azuis brancos nos acidentes da fala tenho provisões de palavras recém-nascidas frutos saborosos na aba do chapéu

tenho ócio & aventura na floresta das idéias retorcidas.

 

DIREITOS e DEVERES poema de deborah de o’lins de barros

 

 

Você tem o dever de, caso homem,

servir às forças armadas.

Você tem o dever de pagar impostos.

Você tem o dever de declarar o que ganha.

Você tem o dever de eleger seu representante.

Você tem o dever de respeitar o próximo.

 

– Mas e os meus direitos?

Você tem o direito de permanecer calado

 

STALIN era ESPIÃO do CZAR – por ubirajara passos

 ESCRITO NA NOVA ORTOGRAFIA REVOLUCIONÁRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

O PT, kuando de sua fundasão, já posuía nesesariamente matizes ke antesipavam as karakterístikas atuais do governo Lula. Fundado por padres vermelhos (ke, apezar de vermelhos, não deixaram de ser padres, e, portanto, totalitários) estudantes universitários e intelektuais pekeno-burgeses de eskerda (ke podiam ser de “eskerda”, mas kontinuavam a pertenser a uma pretensa “elite” kultural arrogante, kom ábitos e ideolojia identifikados à klase dominante) e por sindikalistas, posuía nos seus kuadros a perfeita reseita de bolo do fasismo vermelho ke pouzaria seus pés no Palásio do Planalto em 2003 kom uma kara kada vez mais prósima a de seus konjêneres da direita formal. Entretanto, não fose o Inásio dos Nove Dedos, seu líder maior, um sindikalista pelego treinado na eskola yankee do Iadesil (”Instituto Amerikano de Sindikalismo Livre”, patrosinado pela ajênsia sekreta do imperialismo amerikano, a CIA) e não viveríamos, hoje, no Brazil, a perfeita réplika, modernizada e em rejime formalmente demokrátiko, da polítika sosial, ekonômika e internasional da velha ditadura militar fasista e pró-imperialismo.

Pois komo na istória nada é kazual, o fato é ke, apezar do perfil um tanto autoritário da proposta sosialista de Marx e Lênin, o “sosialismo real” ou fasismo vermelho só se transformou na mais burokrátika, kontroladora e butral opresão da umanidade trabalhadora, sob o pretesto paternalista de sua própria defeza, grasas ao karáter, ao pasado e à formasão do sujeito ke konsolidou-o na antiga União Soviétika, o kamarada Josef Stalin, ke sofistikou seus métodos e refinou sua ideolojia komo ajente provokador infiltrado e espião da polísia sekreta polítika do Kzar (o monarka ruso), ke no grande império não atendia pelo nome de DOPS, Doi-Codi ou CCC, mas por Okhrana.

A koiza está esplikada na revista História Viva (de ke os artigos estranjeiros konstituem a edisão brazileira da franseza História) de marso pasado, kuja matéria sita, entre outros itens de bilbliografia, o livro “Rabotchëie dvjenie i sotsial-demokratia na Kavkzie”, de S. T. Arkhomed (Genebra, 1910!) e o artigo “Stalin i tsarkaia okhranka”, publikado no Sovierchenno Sekretno nº 7, de 1990, por Z. Serebriakova. O ke elimina kualker posibilidade de mera espekulasão sensasionalista ou difamasão direitoza deskabelada, a moda das reportajens publikadas pela brazileira Veja, no último ano, sobre Che Guevara e Fidel Castro.

Iossif (Josef) Vissarionovitch Djougachivili, nascido na Jeórjia (então provínsia do Império Ruso) em 21 de dezembro de 1879, era rapazote ainda kuando estreou a série de traisões ke akabariam-no konduzindo ao komando da futura União Soviétika e da lideransa de partidos e governos komunistas mundo a fora até o meio do sékulo XX. O seminarista (koinsidênsia, não?) Zezinho do Aso, lá pelos seus vinte anos, em 1899, andava um tanto entediado, apezar de ter se filiado a um sírkulo revolusionário sosial-demokrata (nome por atendia, na époka, o marxismo em jeral nos países não-latinos – só kom a revolusão de 1917 os sosialistas marxistas da ala eskerda pasarão a se auto-denominar komunistas). E, kansado de dar o ku (não konsta da matéria, mas ele estudava em um seminário, né…), rezolveu fazer koiza mais rentoza: eskondeu os panfletos subversivos ke resebia no partido entre os objetos pesoais de seus kompanheiros internos e depois dedurou todo mundo komo komunista komedor de kriansinhas  pro reitor do seminário. O rezultado foi a espulsão de 45 pobres estudantes (já ke eskola relijiosa era uma rara posibilidade de aprendizado para os mizeráveis proletários rusos).

Daí por diante, até sua prizão na Sibéria em 1913, ensetará a mais fantástika eskalada de sinismo e disimulasão, ke kulminará numa das mais fulminantes karreiras polítikas da istória. Em 1901 vamos enkontrá-lo trabalhando komo kontador no observatório da kapital de sua provínsia natal, Tífilis, e imprimindo e distribuindo tresloukadamente seus panfletos rebeldes, em sosiedade kom um bandido armênio xamado “Kamo”, kom o kual montara uma tipografia klandestina. Já então seus dirijentes sosial-demokratas konstatam sua vokasão de futuro “Kabo Anselmo” da Rúsia: os panfletos dão mais pau nas lideransas do partido operário ke nas autoridades do kzarismo imperial opresor. E Koba, apelido ke adotara e ke bem poderia ser “Kobra”, ajuda a konvokar e organizar uma manifestasão de 1.º de maio arkitetada pelo DOPS ruso, kuja pauleira dezenfreada rezulta na prizão do enviado lokal de Lênin, Victor Kournatovski. A reperkusão foi tamanha ke o Ministro do Interior (ao kual era subordinada a Okhrana) determinou investigasões sobre as orijens da manifestasão e o xefe lokal da polísia sekreta não teve outra saída, para disfasar, ke não fose akusar o Zezinho do Aso. Ke espertamente foi se eskonder na sua sidade natal, Gori, no interior da provínsia. Mas, komo kara de pau konvensido ke era, voltou à Tífilis uns sinko mezes depois e tentou se elejer komo líder dos poukos revolusionários ke aviam eskapado ao masakre. Os sosial-demokratas de lá não eram, entretanto, tão imbesis kuanto Lênin, e o mandaram pastar, espulsando-o do partido, em 11 de novembro de 1901, por unanimidade votos!

Três anos depois, entre prinsípio de 1904 e meados de 1905, Koba e seu amigo Kamo se dedikam à nobre arte do asalto nos arrabaldes tifilienses, além de se distraírem nas reuniões da faksão bolxevike do Partido Sosial-Demokrata lokal, ke não konhesia o epizódio do Zezinho do Aso entre os menxevikes. E não é por akazo ke o xefe jeorjiano dos bolxevikes, Stepan Chaoumian, ouve dos polisiais, kuando de sua prizão em 1905, estatelado, o seu endereso sekreto, ke só era konhesido de um inosente kamarada: o noso amigo Ko(br)a!

Mas o mais sensasional veio a segir: nakele ano, na Finlândia, o Zezinho, ke agora uzava o nome falso de Ivanovitch, konhese a besta Valdimir Ilitch Ulianov (Lênin), ke, impresionado kom sua perísia profisional, o dezigna komo “espropriador ofisial’ do Partido Bolxevike e ainda o leva konsigo em uma viajem sekreta a Berlim, kapital do Império Alemão. Não é presizo mensionar ke a Okhrana fika sabendo de kada paso dado por Lênin, através de um relatório asinado kazualmente por um tal de de “Ivanov”. O Zezinho, então, estava no auje de sua karreira de dedo-duro e komparese ao Kongreso Social-Demokrata de Estokolmo em 1906 e de Londres em 1907, ambos minusiozamente relatados ao Doi-Codi ruso, kom o kodinome sekreto de Ivanov. Entre uma e outra okazião é prezo por seus kolegas da Okhrana, em abril de 1906, kuando tratava de rekrutar espropriadores bolxevikes ausiliares, mas logo é solto, após revelar o endereso da tipografia menxevike klandestina de Avlabar, ke é empastelada pelos kosakos e pela polísia em 15 de abril de 1906.

Em 1908, porém, o seu xefe maior, o Ministro do Interior, rezolve tirá-lo de sirkulasão , determinando sua prizão, por dekreto espesial, em Vologda. Nove meses depois, a própria Okhrana trata de ausiliar a sua fuga a fim de infiltrá-lo entre os nasionalistas e sindikalistas revolusionários armênios de Baku, dando-lhe um pasaporte kom o nome Totomiantz, “armênio de Tífilis”. Lá o noso “erói”, porém, komesaria a se dar mal. Primeiro por ke tem o azar de dar pela frente kom seu es-xefe bolxevike de Tífilis, Chaoumian, ke traíra deskaradamente, e segundo porke seu ímpeto arrogante e direitozo o leva a ser akuzado abertamente de “ajente provokador” pelo prezidente do sindikato dos tipógrafos. Chaoumian konfirma as suspeitas e o Zezinho está pra ser julgado pelo komitê do partido sosial-demokrata de Baku em fins de marso de 1910, kuando a polísia invade a reunião e prende todo mundo. Sem mais nenhuma serventia, o futuro Stalin é enviado pela Okhrana de volta a Vologda para terminar de kumprir sua pena, o ke se dá em 1911.

 

 

 

Nakele ano, no Kongreso Pan-Ruso de Praga (kapital da Boêmia, então provínsia do Império Austro-Úngaro, e oje Repúblika Txeka), em junho, o Zé do Aso pensou ke estava por sima da karne seka e akabou kometendo sua kagada fatal komo ajente sekreto do poder imperial. Tinha sido eskolhido pelo asno Lênin komo ajente do komitê sentral , mas não gostou muito, porke outro kolega seu do DOPS ruso (o infiltrado Roman Malinovski, keridinho do Ulianov, ke, pelo visto, ou era kompletamente imbesil ou gostava de tranzar kom os ajentes kzaristas) foi nomeado pelo xefe Vladimir para membro do dito komitê. Kom a vaidade ferida, e vingativo ke era, o Ivanov/Zé do Aso tratou de dedar o Malinovski, deskrevendo-o, em karta ao Vise-Ministro do Interior do Império, Zolotarev, komo algém ke “de fato era um partidário de Lênin e trabalhava mais asiduamente pela kauza bolxevike ke pela polísia”. O Vise-ministro, nada trouxa, mandou-o kurtir uma grade na Sibéria, na prizão de Tourokhansk, nas prosimidades do sírkulo polar ártiko, para onde o velho Ko(br)a, ke agora uzava o kodinome de Vasili, foi enviado em 23 de fevereiro de 1913, e donde somente sairia às vésperas da glorioza revolusão de outubro de 1917.

Desde então, ao ke parese, o Zezinho se kansou de seus afazeres komo espião do Kzar e resolveu uzar suas abilidades de intrigueiro e puxa-sako no próprio Partido Komunista, onde, apezar de konstar seu kodinome Vasili komo um dos doze prinsipais ajentes da Okhrana infiltrados, em lista publikada logo após a revolusão bolxevike, lambeu tanto as bolas de Lênin ke susedeu-o, após sua morte em 1924, no komando da União Soviétika, kuando adotou seu kodinome defintivo: Stalin (omem de aso).

Instalado no poder ditatorial e supremo, o es-seminarista, e agora metalúrjiko onorário (não era o omem de aso, afinal?) podia realizar a grande obra pela kual sempre lutara. Após ezilar e/ou eliminar fizikamente seus adversários (komo o es-jornalista e komandante do Ezérsito Vermelho, o revolusionário Leon Trotsky) e todos os revolusionários komunistas lejítimos, ke kontrariaram sua tirania dezumana, após matar milhões de kamponezes ke se negaram à koletivizasão forsada, pariria a mais abjeta das kriasões umanas: a transformasão do komunismo marxista em fasismo vermelho e a redusão das masas de trabalhadores a gado asustado, sob um poder diskrisionário ke não lhes regrava a vida sósio-ekonômika apenas, mas lhes vijiava kada paso e kada pensamento em kada eskina.

 

Em 1939 Stalin konsagraria o seu proverbial sinismo, fexando um pakto kom seu arki-rival, e kompanheiro de peste emosional, o ditador fasista Adolfo (Htiler), kom kem invadiria e repartiria a Polônia, dando inísio à Segunda Guerra Mundial. Seis anos depois, atakadas pelo es-aliado, as tropas rusas tomariam Berlim, estingindo a tirania nazista. Pelo kaminho, entre Moskou e a kapital alemã, uma dúzia de nasões konkistadas pelas armas e submetidas à kondisão de kolônia do imperialismo soviétiko.

Kontam as más línguas ke, kuando Stalin morreu, em 1953, vieram à tona os arkivos ke komprovavam sua longa karreira de espião do rejime kzarista. Mas seu susesor, Nikita Krushev, teria ergido as mãos para o alto e bradado: “É impossível! Iso signifikaria ke noso país foi dirijido durante 30 anos por um ajente da polísia sekreta do kzar!”

No Brazil de oje, kazualmente, o governo mais anti-trabalhador e anti-nasionalista já visto, é dirijido, desde 2003, já kom 2 mandatos e aspirando ditatorialmente a um terseiro, por um es-metalúrjiko sindikalista, treinado na eskola da CIA (Sentral de Intelijênsia) norte-amerikana, ke era prezo e solto todo dia, durante a faze de kriasão de seu partido (o PT), pelos jenerais gorilas, para kriar as kondisões de, finjindo-se vermelho, kumprir o papel de suseder os erdeiros da antiga ditadura militar fasista de 1964. E impedir ke revolusionários nasionalistas e sosialistas autêntikos komo Leonel Brizola e Luiz Carlos Prestes xegasem ao poder e derrubasem a elite infekunda ke nos submete, a nós povo brazileiro, à triste e vil kondisão de gado umano, a mourejar na mizéria e na opresão kuotidiana, para propisiar o luxo vadio e fútil de burgezes amerikanos, europeus, japonezes e outros tantos senhores do imperialismo ekonômiko multinasional.

 

A INSTRUÇÃO dos AMANTES e FAZES-ME FALTA de INÊS PEDROSA/PORTUGAL – por helena sut

“Não se consegue amar completamente senão na memória.”
Fazes-me Falta, Inês Pedrosa.

A Instrução dos Amantes, lançado em 1992 em Portugal, é uma obra literária sobre descobertas. O período dos primeiros amores, das decepções, das idealizações. A protagonista Claudia é uma jovem bonita e desejada e namora o líder do grupo de adolescentes, uma relação instituída nas gravidades do poder e que determina os papéis sociais assumidos pelos personagens.

Contudo, Claudia encontra os olhos dourados de Diniz e se apaixona perdidamente no enterro de Mariana, jovem que caiu ou se jogou da varanda. A proximidade das emoções descobertas no auge da vida e na pungência da morte não é uma mera coincidência. Claudia busca o homem de sua vida, Diniz a quer apenas como mais uma amante. Uma relação que irá marcar profundamente todo o grupo e será a primeira e inesquecível cicatriz da mulher.

“Talvez seja ele, ainda, o segredo do riso dela. Não há memória mais terrível do que a da pele; a cabeça pensa que esquece, o coração sente que passou, e a pele arde, invulnerável ao tempo.”

Fazes-me falta, lançado em 2002, é uma narrativa densa em duas perspectivas distintas do mesmo momento. A morte precoce da protagonista descortina a intensa relação entre um homem e uma mulher. No limiar entre a amizade e a paixão, os dois não suportam a separação definitiva e, em paralelos, costuram seus encontros e desencontros, afinidades e divergências, silêncios e desabafos.

Uma história absoluta. Uma jovem professora idealista que se envolve na política em busca da realização do mundo mais justo; um homem maduro que vê o mundo a partir de suas vivências no salazarismo, em Portugal pós-revolução e nas guerras no continente africano. A mulher, marcada por um amor não cicatrizado e por diversas relações interrompidas, morre de repente e condena o homem que passou por alguns casamentos e manteve a sensação de incompletude projetada na ausência de filhos a uma estranha viuvez.

“Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.”

Dois seres dissecam os sentimentos humanos entre a vida e a morte. Iluminam as carências que geram a profusão dos sonhos, focalizam as presenças que salientam as conseqüências da morte real e da sobrevida desprovida de desejo.

“Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?”

A Instrução dos Amantes e Fazes-me falta são obras da escritora portuguesa Inês Pedrosa, publicadas no intervalo de uma década. Dois grandes romances que mostram o amadurecimento dos personagens em trajetórias humanas intensas e envolvem os leitores nas vivências universais do amor, da amizade, do desamor, do ser no mundo, do mundo em si, do ser…

 

tela de mazé mendes.

CERTEZA poema de marcos fontinelli (black)

quando das trevas
que cobrem esta nação
brotarem as flores
resultantes de metamorfoses
de pranto e sangue
de solidão e desespero
os trovões hão de ecoar
os raios hão de reluzir
e as flores hão de crescer
como mutantes e transformadoras
fazendo com que tudo se torne
um imenso jardim

CIDADE em CRISE por walmor marcellino

Num certo sentido, as coisas estão sempre em crise, porque enfrentando contradições em seu desenvolvimento. Porém cidades como Brasília, Belo Horizonte e Curitiba foram sempre “belacaps”, louvadas e enaltecidas. Assim, o que diabos está acontecendo que pegou de surpresa o desatento?
De repente, a planura curitibana, com dois ou três morrinhos serrinhas que a presunção gramatical elevou a cerros, por causa das brenhas do Barão , chegou a termo de ocupação. Isto é, a cidade bucólica de nossos avoengos tinha trilhas que viraram ruas, caminhos que foram feitos avenidas, e circunspectos cidadãos que se tornaram grileiros e ladrões institucionalizados na prefeitura, na câmara, nos cartórios e no judiciário. Então, íamos como vamos indo assim ao Deus dará.
É uma tragicomédia: a Câmara Municipal tem 25 funcionários de ouro que ganham mais do que o prefeito; e os vereadores também, se quiserem, ganham vários guinéus a mais como “despachantes dos próprios interesses em conluio de malandros contra os cidadãos que pagam impostos e taxas”. Manobrando essa bela locomotiva desgovernada, o doutor-vereador Cláudio Derosso mostra para nós por que a democracia não pode funcionar com a ausência de uma imprensa democrática e popular; afinal essa que conhecemos está associada a toda essa bandalheira, tudo isso, com seus tipologistas entre os que ganham antes e depois do piquenique eleitoral.
Segurança, saúde, habitação, emprego, educação e lazer, é o de minimus que pedem o curitibano e o terráqueo aos céus, como recompensa por sua estada neste vale de lágrimas. Só que o canalha lhe reconhece a necessidade e o direito; o patife faz o discurso da necessidade e do merecimento, e o filho-da-puta afirma que é “seu irmão” e que está aí na mesma batalha.
E como todo mundo diz que ele precisa, que é seu direito e que somos uma fraternidade eleitoral, ele vota em quem arrota alho mais grosso. Nem sabe perguntar qual segurança comunitária, qual plano de saúde, qual preparação e estabilidade no emprego, qual tipo de educação e por que “lazer” (que é proposta de espaço público e programas de atendimento sociocultural) e não apenas “cultura” (que é, hoje, sinônimo apenas do reles mercado). E quem, como vai criar e/ou facilitar tudo isso?
Se ele não sabe e os candidatos elegíveis também não conseguem discernir o ponto de vista do poder, da burocracia, da quadrilha da habitação, da saúde, da educação, da segurança e da cultura numa perspectiva democrática, popular e nacional, como se enfrentará essa crise social, política, urbanística sem o “crivo de Eratóstenes”? Muitos me têm procurado, poucos serão os eleitos. De qualquer forma só conto como se faz se me pagarem o cafezinho.

GIZ RENDADO poema de bárbara lia

O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.

TROVINHAS e TROVÕES na terceira idade – de josé zokner (juca)

Curtir a Terceira Idade
Exige sabedoria,
Doses de serenidade
E razoável alegria.

Dessa maneira é possível
Viver com intensidade
Cada momento passível
De rara felicidade.

Mas, nesta Terceira Idade
– E quase sempre há um mas –
Ocorre contrariedade
O que, realmente, não apraz.

Exemplos dá pra citar.
São muitos em profusão.
Pretendo, aqui, relatar
Os que me trazem aflição.

Quando tentei me empregar,
Ouvi desculpa qualquer.
Aquela vaga a ocupar
Não se fazia mister.

Obter emprego, hoje em dia ?
Está escasso pra caramba.
Menos pra quem negocia
No mercado da muamba.

Será a globalização
A mais culpada de tudo,
Que deixa o pobre “povão”
Sofrendo dum mal agudo ?

Retorno a minha desdita,
Vou a história prosseguir,
Não deixando gente aflita
Eu parando de seguir.

Esqueço sempre onde deixei
O meu carro estacionado.
O meu cérebro embotei ?
Me pergunto apavorado.

No banco, a morosa fila
Do meu i, ene, esse, esse
Resulta numa quizila,
Fruto dum enorme estresse.

Lá procuro, com ansiedade,
Como alcançar o banheiro
Naquela eventualidade
Dum imprevisto traiçoeiro.

Meus óculos eu procuro.
Nenhum canto já não resta!
Estou ficando casmurro:
Não é que estavam na testa ?

Troco nomes das pessoas,
Cometendo muitos lapsos.
Não se pode cantar loas
Com tais tipos de colapsos.

Quero mostrar competência
E chegar às conclusivas:
Sobrevém a desistência,
Depois de três tentativas.

Não posso fazer mais isso,
Não posso fazer aquilo.
No cômputo total disso,
Resta saudade daquilo…

Enfermidade tratada,
Por melhor que tenha sido,
Deixa a gente amedrontada
E o médico enriquecido.

Tomo chuveiro sentado,
Difícil ser de outro jeito.
Fica tudo bem lavado,
Incluso costas e peito.

À jovem, chamo guria;
Pra gata, digo brotinho;
Tia, só mesmo pra tia.
Pareço falar sozinho.

Visto só boné de orelha
Pra me proteger do frio
O pessoal me olha de esguelha
Meu gosto, meu alvedrio.

Barriguinha virou charme;
Cabelos brancos, também.
Contudo, soa o alarme:
“Ali vai Matusalém”.

Tomo dois medicamentos,
Sempre depois de comer
Para evitar sofrimentos
E, assim, me fortalecer.

Quase sempre me emociono,
Até por qualquer besteira,
Como se fosse patrono
De famosa carpideira.

Cochilo no noticiário
E desperto assaz ansioso.
É realmente necessário
Aquele caso escabroso ?

Me inteiro de religião,
De que eu nunca quis saber.
Pelo sim, ou pelo não
Preciso me precaver.

Abordo minha vizinha,
Que me dá a contestação,
Após minha ladainha:
“E os seus netos como vão ?”

Quero ter vitalidade:
Caminho desatinado.
Refreio a velocidade:
Fico, de cara, esfalfado.

Falo – só – gesticulando.
E se me chamam a atenção
Digo que estava treinando
A letra duma canção.

Em um astral elegíaco,
Procuro me interessar
Por qualquer afrodisíaco,
Que digo não precisar.

Na escola de natação
A professora é querida.
Mas na piscina um senão:
Parece só ter subida.

Ganhei uma boa dica
Para usar lente de aumento
Já que todo texto fica,
Numa leitura, um tormento.

Quando na provecta idade,
Centenas ficam azedos.
Pensar nessa atrocidade
Me leva a ter muitos medos.

Receio ser apodado
De longevo, de caquético,
“Por fora”, ultrapassado
E, até, de velho patético.

Perda de musculatura
Redunda numa constante
Que molda a minha figura
De modo deselegante.

Lembro uma verde azeitona
Com palitos espetados.
Me refiro à “barrigona”,
Pernas e pés afinados.

Rememoro com amigos,
Em sessão de nostalgia,
De um rol de causos antigos
Que o pessoal já conhecia.

Reitero que o carnaval,
Naqueles tempos bem idos,
Não era tão artificial,
Com bailes mais divertidos.

Defensor dos argumentos,
Com certo calor vetusto,
Na discussão, por momentos,
Sou acusado de injusto.

Depois das contrariedades,
Passamos a outra questão:
Os de elevadas idades
O que possuem de bom ?

Encantos, em quantidade,
É válido não esquecer,
Gente com maturidade
Tem um mundo a oferecer.

Um deles, a tolerância;
A paciência, também é;
Não apelar pra ignorância;
Não se meter em banzé.

Brincar com os netos levados
E clamar com convicção:
“São filhos açucarados
Nessa Idade da Razão”.

Desfrutar samba e chorinho,
Talento tupiniquim.
Num volume bem baixinho;
Jamais um “rock” chinfrim.

Não precisar de conselho,
Nem óculos pras leituras,
Nunca meter o bedelho,
A fim de não ter agruras.

Evitar os desperdícios,
Lembrança dos tempos duros.
Eram tantos os suplícios;
Eram tantos os apuros…

Aqui deixo minha homenagem
Ao idoso – tão benquisto –
Essa grande personagem
Me incluo, pois não resisto.

Também à minha companheira,
Que já passou dos cinqüenta,
Sensível mulher guerreira
Que nesses anos me agüenta.

Cá termino de trovar,
Feliz e bem-humorado.
Quero a todos desejar:
Saúde e Paz. Obrigado!
E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

Entrevista de JACQUES LACAN a emilio granzotto

ENTREVISTA INÉDITA DE JACQUES LACAN A REVISTA ITALIANA PANORAMA
Publicada por Magazine Littéraire, Paris, n.428, fev/2004.

Nesta entrevista concedida em 1974, Jacques Lacan alerta sobre os perigos do retorno da religião e do cientificismo: a psicanálise é para ele o único baluarte aceitável contra as angústias contemporâneas.
EG – Fala-se cada vez mais freqüentemente de crise da psicanálise. Sigmund Freud, dizem, está ultrapassado, a sociedade moderna descobriu que sua obra não seria suficiente para compreender o homem nem para interpretar a fundo sua relação com o mundo.
JL – São histórias. Em primeiro lugar, a crise. Ela não existe, não pode existir. A psicanálise não encontrou exatamente seus próprios limites, ainda não. Ainda há tanto a descobrir na prática e no conhecimento. Em psicanálise, não há solução imediata, mas somente a longa e paciente busca das razões. Em segundo lugar, Freud. Como julgá-lo ultrapassado se nós ainda não o compreendemos inteiramente? O que é certo, é que ele nos fez conhecer coisas extremamente novas, que não poderíamos nem imaginar antes dele. Desde os problemas do inconsciente à importância da sexualidade, do acesso ao simbólico ao assujeitamento às leis da linguagem. Sua doutrina colocou em questão a verdade, é algo que concerne a todos e cada um pessoalmente. Uma crise é outra coisa. Eu o repito: estamos longe de Freud. Seu nome serviu para cobrir muitas coisas, houve desvios, os epígonos nem sempre seguiram fielmente o modelo, confusões foram criadas. Após sua morte em 1939, alguns de seus alunos também pretenderam exercer a psicanálise de maneira diferente, reduzindo seu ensinamento a alguma fórmula banal: a técnica como ritual, a prática como restrita ao tratamento do comportamento, e como meio de readaptação do indivíduo a seu meio social. É a negação de Freud, uma psicanálise de conforto, de salão. Ele próprio o havia previsto. Há três posições insustentáveis, dizia ele, três tarefas impossíveis: governar, educar e exercer a psicanálise. Atualmente, pouco importa quem assume a responsabilidade de governar, e todo o mundo se pretende educador. Quanto aos psicanalistas, graças a Deus, eles prosperam, como os magos e curandeiros. Propor às pessoas ajudá-las significa um sucesso assegurado, e a clientela se acotovelando na porta. A psicanálise é outra coisa.

EG – O que exatamente?

JL – Eu a defino como sintoma – revelador do mal-estar da civilização na qual vivemos. Certo, não é uma filosofia. Detesto a filosofia, há tanto tempo ela não diz nada de interessante. A psicanálise também não é uma fé, e não me agrada chamá-la de ciência. Digamos que é uma prática e que ela se ocupa do que não está funcionando. Terrivelmente difícil porque ela pretende introduzir na vida do dia-a-dia o impossível, o imaginário. Ela obteve alguns resultados até o presente, mas ainda não tem regras e se presta a toda sorte de equívocos. É preciso não esquecer que se trata de algo totalmente novo, seja do ponto de vista da medicina, seja do da psicologia e seus anexos. Ela também é muito jovem. Freud morreu há apenas trinta e cinco anos. Seu primeiro livro, A interpretação dos sonhos, foi publicado em 1900 com muito pouco sucesso. Foram vendidos, creio, trezentos exemplares em alguns anos. Ele tinha poucos alunos, tomados por loucos e nem mesmo de acordo com a maneira de colocar em prática e de interpretar o que tinham aprendido.

EG – O que não funciona hoje no homem?

JL – É essa grande lassidão, a vida como conseqüência da corrida pelo progresso. Através da psicanálise, as pessoas esperam descobrir até onde podemos ir carregando essa lassidão.

EG – O que empurra as pessoas a se fazer analisar?

JL – O medo. Quando lhe acontecem coisas, mesmo desejadas por ele, coisas que ele não compreende, o homem tem medo. Ele sofre por não compreender, e pouco a pouco cai num estado de pânico. É a neurose. Na neurose histérica, o corpo fica doente de medo de estar doente, e sem estar na realidade. Na neurose obsessiva, o medo coloca coisas bizarras na cabeça, pensamentos que não podemos controlar, fobias nas quais as formas e os objetos adquirem significações diversas, e que dão medo.

EG – Por exemplo?

JL – Acontece ao neurótico se sentir pressionado por uma necessidade assustadora de ir dezenas de vezes verificar se uma torneira está realmente fechada, ou se uma coisa está no lugar correto, sabendo entretanto com certeza que a torneira está como deve estar e que a coisa está no lugar onde ela deve se achar. Não há pílulas para curar isso. É preciso descobrir porque isso acontece conosco, e saber o que isso significa.

EG – E o tratamento?

JL – O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro. A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio. Freud explicava que o inconsciente não é tão profundo quanto inacessível ao aprofundamento consciente. E ele dizia que nesse inconsciente, aquele que fala é um sujeito dentro do sujeito, transcendendo o sujeito. A palavra é a grande força da psicanálise.

EG – Palavra de quem? do doente ou psicanalista?

JL – Em psicanálise os termos “doente”, “médico”, “remédio” não são mais justos que as fórmulas no passivo que adotamos comumente. Dizemos: se fazer psicanalisar. É um erro. Aquele que faz o verdadeiro trabalho em psicanálise, é aquele que fala, o sujeito analisante. Mesmo se ele o faz da maneira sugerida pelo analista, que lhe indica como proceder e o ajuda por suas intervenções. Lhe é também fornecida uma interpretação. À primeira vista, ela parece dar um sentido ao que o analisante diz. Na realidade, a interpretação é mais sutil, tendendo a apagar o sentido das coisas pelas quais o sujeito sofre. O objetivo é mostrar-lhe através de sua própria narrativa que o sintoma, a doença digamos, não tem nenhuma relação com nada, que ela é privada de qualquer sentido que seja. Mesmo se na aparência ela é real, ela não existe. As vias pelas quais esse ato da palavra procede, reclamam muita prática e uma infinita paciência. A paciência e a medida são os instrumentos da psicanálise. A técnica consiste em saber medir a ajuda que damos ao sujeito analisante. Em conseqüência, a psicanálise é difícil.

EG – Quando falamos de Jacques Lacan, associamos inevitavelmente esse nome a uma fórmula, o “retorno a Freud”. O que isso significa?

JL – Exatamente o que é dito. A psicanálise é Freud. Se queremos fazer psicanálise, é necessário voltar a Freud, a seus termos e a suas definições, lidos e interpretados no sentido literal. Fundei em Paris uma Escola freudiana precisamente com esse objetivo. Há vinte anos ou mais que exponho meu ponto de vista: retornar a Freud significa simplesmente tirar o terreno dos desvios e dos equívocos da fenomenologia existencial por exemplo, como do formalismo institucional das sociedades psicanalíticas, retornando a leitura do ensinamento de Freud segundo os princípios definidos e enumerados a partir de seu trabalho. Reler Freud quer dizer somente reler Freud. Quem não faz, em psicanálise, utiliza uma fórmula abusiva.

EG – Mas Freud é difícil? E Lacan, dizem, o torna completamente incompreensível. A Lacan repreende-se falar e sobretudo escrever de tal maneira que somente muito poucos adeptos podem esperar compreender.

JL – Eu sei, tornam-me por um obscuro que esconde seu pensamento em cortinas de fumaça. Eu me pergunto por que. A propósito da análise, repito com Freud que é “o jogo intersubjetivo através do qual a verdade entra no real”. Não está claro? Mas a psicanálise não é um negócio para crianças. Meus livros são definidos como incompreensíveis. Mas para quem? Eu não os escrevi para todo o mundo, para que sejam compreendidos por todos. Ao contrário, nunca me ocupei minimamente de qualquer leitor que seja. Eu tinha coisas a dizer e as disse. É me suficiente ter um público que leia. Se ele não compreende, paciência. Quanto ao número de leitores, tive mais sorte que Freud. Meus livros são mesmo muito lidos, fico surpreso com isso. Também estou convencido de que em dez anos no máximo, aquele que me lerá me achará extremamente transparente, como um belo copo de cerveja. Talvez até se diga então: “Esse Lacan, que banalidade!”

EG – Quais são as características do lacanismo?

JL – É um pouco cedo para dizê-lo, no momento em que o lacanismo ainda não existe. Sentimos dele apenas o cheiro, como pressentimento. Lacan, em todos os casos, é um senhor que pratica a psicanálise há pelo menos quarenta anos, e que há tantos anos a estuda. Eu creio no estruturalismo e na ciência da linguagem. Escrevi em meu livro que “aquilo a que nos leva a descoberta de Freud é à enormidade da ordem na qual entramos, na qual nascemos, se podemos nos exprimir assim, uma segunda vez, saindo do estado chamado a justo título infans, sem palavra”. A ordem simbólica sobre a qual Freud fundou sua descoberta é constituída pela linguagem como momento do discurso universal concreto. É o mundo da palavra que cria o mundo das coisas, inicialmente confusas em tudo aquilo que está em devir. Há somente as palavras para dar um sentido completo à essência das coisas. Sem as palavras, nada existiria. O que seria o prazer sem o intermediário da palavra? Minha opinião é que Freud, enunciando em suas primeiras obras – A interpretação dos sonhos, Além do princípio do prazer, Totem e tabu – as leis do inconsciente, formulou, como precursor, as teorias com as quais alguns anos mais tarde Ferdinand de Saussure teria aberto a via à lingüística moderna.

EG – E o pensamento puro?

JL – Ele está submetido como todo o resto às leis da linguagem. Somente as palavras podem engendrá-lo e dar-lhe consistência. Sem a linguagem a humanidade não daria um passo adiante nas pesquisas / buscas do pensamento. É o caso da psicanálise. Qualquer que seja a função que possamos lhe atribuir, agente de cura, formação ou de sondagem, há apenas um meio do qual nos servimos: a palavra do paciente. E toda palavra merece resposta.

EG – A análise como diálogo, portanto. Há pessoas que a interpretam mais como um sucedâneo da confissão.

JL – Mas que confissão? Ao psicanalista confessamos um belo nada. Deixamo-nos ir a lhe dizer simplesmente tudo que se passa pela cabeça. Palavras, precisamente. A descoberta da psicanálise é o homem como animal falante. Cabe ao analista ordenar as palavras que ele ouve e dar-lhes um sentido, uma significação. Para fazer uma boa análise, é necessário o acordo, o entendimento entre o analisante e o analista. Através do discurso de um, o outro procura imaginar do que se trata, e encontrar além do sintoma aparente o nó difícil da verdade. A outra função do analista é explicar o sentido das palavras para fazer compreender ao paciente o que se pode esperar da análise.

EG – É uma relação de extrema confiança.

JL – Mais uma troca, na qual o importante é que um fala e o outro escuta. Também o silêncio. O analista não faz pergunta e não tem idéias. Ele só dá as respostas que ele quer realmente dar às questões que sua vontade suscita. Mas ao final, o analisante vai sempre aonde seu analista o leva.

EG – O senhor acaba de falar do tratamento. Há possibilidade de curar? Sai-se da neurose?

JL – A psicanálise tem sucesso quando ela limpa o terreno, sai do sintoma, sai do real. Quer dizer quando ela chega à verdade.

EG – O senhor pode enunciar o mesmo conceito de uma maneira menos lacaniana?

JL – Eu chamo sintoma tudo aquilo que vem do real. E o real tudo aquilo que não vai bem, que não funciona, que se opõe à vida do homem ao afrontamento de sua personalidade. O real volta sempre ao mesmo lugar. Você sempre encontrará lá, com os mesmos semblantes. Por mais que os cientistas digam que nada é impossível no real. É preciso ter um grande topete para afirmar coisas desse gênero, ou então, como eu suspeito, a total ignorância do que se faz e diz. O real e o impossível são antitéticos, eles não podem caminhar juntos. A análise empurra o sujeito para o impossível, ela lhe sugere considerar o mundo como ele é realmente, isto é, imaginário, sem significação. Enquanto que o real, como um pássaro voraz, só faz se alimentar de coisas sensatas, de ações que têm sentido. Ouve-se repetir que é preciso dar um sentido a isso e a aquilo, a seus próprios pensamentos, a suas próprias aspirações, aos desejos, ao sexo, à vida. Mas da vida não sabemos nada de nada. Os sábios perdem o fôlego a nos explicar. Meu medo é que por seus erros, o real, essa coisa monstruosa que não existe, acabe por conseguir, por levar a melhor. A ciência é substituída pela religião, e ela é de outra maneira mais despótica, obtusa e obscurantista. Há um deus-átomo, um deus-espaço, etc. Se a ciência ganha ou a religião, a psicanálise está acabada.

EG – Atualmente, que relação existe entre a ciência e a psicanálise?

JL – Para mim a única ciência verdadeira, séria, a ser seguida, é a ficção científica. A outra, a oficial, que tem seus altares nos laboratórios, avança às cegas, sem meio correto. E ela até começa a ter medo de sua sombra. Parece que chegou o momento da angústia para os sábios. Em seus laboratórios assépticos, alinhados em seus jalecos engomados, esses velhos bambinos que brincam com coisas desconhecidas, fabricando aparelhos cada vez mais complicados e inventando fórmulas cada vez mais obscuras, começam a se perguntar o que poderá acontecer amanhã, o que essas pesquisas sempre novas acabarão por trazer. Enfim! Digo. E se fosse muito tarde? Os biólogos se perguntam agora, ou os físicos, os químicos. Para mim, eles são loucos. Já que eles já estão mudando a face do universo, vem-lhes ao espírito somente agora se perguntar se por acaso isso pode ser perigoso. E se tudo explodisse? Se as bactérias criadas tão amorosamente nos brancos laboratórios se transformassem em inimigos mortais? Se o mundo fosse varrido por uma horda dessas bactérias com toda a merda que o habita, a começar por esses sábios dos laboratórios? Às três posições impossíveis de Freud, governo, educação, psicanálise, eu acrescentaria uma quarta, a ciência. Ademais, que os sábios não sabem que sua posição é insustentável.

EG – Eis uma versão bastante pessimista do que chamamos progresso.

JL – Não, é algo completa-mente diferente. Eu não sou pessimista. Nada acontecerá. Pela simples razão de que o homem é uma porcaria, nem mesmo capaz de destruir a si próprio. Pessoalmente, acharia maravilhoso um flagelo total produzido pelo homem. Isso seria a prova de que ele conseguiu fazer alguma coisa com suas mãos, sua cabeça, sem intervenções divina, natural ou outros. Todas essas belas bactérias superalimentadas para a diversão, espalhadas através do mundo como os gafanhotos da Bíblia, significariam o triunfo do homem. Mas isso não acontecerá. A ciência atravessa felizmente essa crise de responsabilidade, tudo entrará na ordem das coisas, como se diz. Eu anunciei: o real levará vantagem, como sempre. E nós estaremos como sempre ferrados.

EG – Outro paradoxo de Jacques Lacan. Censuram-lhe, além da dificuldade da língua e a obscuridade dos conceitos, os jogos de palavras, os gracejos de linguagem, os trocadilhos à francesa, e justamente, os paradoxos. Aquele que escuta ou que lê o senhor tem o direito de se sentir desorientado.

JL – De fato eu não brinco, digo coisas muito sérias. Eu apenas me sirvo da palavra como os sábios de que falei de seus almanaques e de suas montagens eletrônicas. Eu procuro me referir sempre à experiência da psicanálise.

EG – O senhor diz: o real não existe. Mas o homem médio sabe que o real é o mundo, tudo que o cerca, que ele vê a olho nu, toca.

JL – Livremo-nos também desse homem médio que, em primeiro lugar, não existe. É apenas uma ficção estatística. Existem indivíduos, é tudo. Quando ouço falar do homem da rua, de pesquisas de opinião, de fenômenos de massa e de coisas desse gênero, penso em todos os pacientes que vi passar pelo divã em quarenta anos de escuta. Nenhum, em qualquer medida, é semelhante ao outro, nenhum tem as mesmas fobias, as mesmas angústias, o mesmo modo de contar, o mesmo medo de não compreender. O homem médio, quem é? Eu, o senhor, meu zelador, o presidente da República?

EG – Nós falávamos de real, do mundo que todos nós vemos.

JL – Justamente. A diferença entre o real, isto é, o que não vai bem, e o simbólico, o imaginário, isto é, a verdade, é que o real é o mundo. Para constatar que o mundo não existe, que ele não está aqui, é suficiente pensar em todas as banalidades que uma infinidade de imbecis acreditam ser o mundo. E convido meus amigos da Panorama, antes de me acusarem de paradoxo, a refletirem bem sobre o que leram apenas.

EG – Dir-se-ia que o senhor está cada vez mais pessimista.

JL – Não é verdade. Não me enquadro nem entre os alarmistas nem entre os angustiados. Infeliz do psicanalista que não tiver ultrapassado o estádio da angústia. É verdade, existem à nossa volta coisas horripilantes e devoradoras, como a televisão pela qual uma grande parte de nós é fagocitada. Mas isto é apenas porque existem pessoas que se deixam fagocitar, que até inventam um interesse para aquilo que elas vêem. E depois há outras coisas monstruosas devoradoras de outra maneira: os foguetes que vão à lua, as pesquisas no fundo dos oceanos, etc. Todas as coisas que devoram. Mas não há porque se fazer um drama disso. Estou certo de que assim que estivermos de saco cheio de foguetes, da televisão e de todas suas malditas pesquisas no vazio, encontraremos outra coisa com a qual nos ocuparmos. É uma revivescência da religião, não é? E que melhor monstro devorador do que a religião? É uma festa contínua com a qual se divertir por séculos, como isso já foi demonstrado. Minha resposta a tudo isso é que o homem sempre soube se adaptar ao mal. O único real que podemos conceber, ao qual temos acesso, é justamente este, será preciso se fazer uma razão: dar um sentido às coisas, como dizíamos. De outra forma, o homem não teria angústia, Freud não teria se tornado célebre, e eu seria professor de segundo grau.

EG – As angústias são toda dessa natureza ou existem angústias ligadas a certas condições sociais, a certa época histórica, a certas latitudes?

JL – A angústia do sábio que tem medo de suas descobertas pode parecer recente. Mas o que sabemos nós do que aconteceu em outros tempos? Dos dramas de outros pesquisadores? A angústia do operário escravo da cadeia de montagem como de um remador de galera, é a angústia de hoje. Ou, mais simplesmente, ela está ligada às definições e palavras de hoje.

EG – Mas o que é a angústia para a psicanálise?

JL – Algo que se situa fora de nosso corpo, um medo, mas de nada, que o corpo, espírito incluído, possa motivar. O medo do medo, em suma. Muitos desses medos, muitas dessas angústias, no nível em que os percebemos têm a ver com o sexo. Freud dizia que a sexualidade é sem remédio e sem esperança. Uma das tarefas do analista é encontrar na palavra do paciente a relação entre a angústia e o sexo, esse grande desconhecido.

EG – Agora que se distribui sexo em todas as curvas, sexo no cinema, sexo no teatro, na televisão, nos jornais, nas canções, nas praias, ouve-se dizer que as pessoas estão menos angustiadas com os problemas ligados à esfera sexual. Os tabus caíram, dizem, o sexo não dá mais medo.

JL – A sexomania invasora é apenas um fenômeno publicitário. A psicanálise é uma coisa séria que diz respeito, repito-o, a uma relação estritamente pessoal entre dois indivíduos: o sujeito e o analista. Não existe psicanálise coletiva assim como não existe angústias ou neuroses de massa. Que o sexo seja colocado na ordem do dia e exposto na esquina das ruas, tratado como um detergente qualquer nos carrosséis televisivos, não comporta nenhuma promessa de algum benefício. Não digo que isso seja ruim. Não é suficiente certamente para tratar as angústias e os problemas particulares. Faz parte da moda, dessa fingida liberalização que nos é fornecida, como um bem dado de cima, pela dita sociedade permissiva. Mas não serve ao nível da psicanálise.”

Tradução: Marcia Gatto

EPIFANIAS poema de joão batista do lago

Meus espelhos são reveladores:
Todos são peças do escárnio
São formas de um fundo vazio
Nascendo a cada dia no silêncio do nada
Gerados no ventre do nunca alvorecer
Em cada qual há uma só revelação:
Maldito e sagrado; azeite e mel
Escorrendo pelos degraus do fel da sagração
Vou-me revelando em cada cais – mortais! –
Velhos repositórios de águas sem sais
Múltiplo da imanência do ser não-ser:
Representação da existência dos meus fins
Ora demônios, ora serafins – deus e diabo! –
Vago a diáspora do sujeito sem casca
Fruto maldito da árvore sem laços
De todos os espelhos um é revelação:
Sou arte da dicotomia na dupla face do ser
Representação final da arte da natureza
Sou corpo… Sou alma!
Além disso, mumificação de nadas

UM EMAIL e UMA REVELAÇÃO – por ricardo boessio dos santos

“Meu nome é Fulano (vou preservar o nome do ‘artista’) e vou estar fazendo Engenharia da Computação neste ano então dicidi perguntá como é. Lhi que é um curso legau i da p/ ganhar uma grana. Cerá que preciza ler muito livros? Agente vamos mexer c/ games?”

Esse foi o e-mail que recebi de um futuro universitário.

Antes de qualquer coisa vamos a alguns esclarecimentos: não sou revisor de texto, não sou Pasquale Cipro Neto, nem tenho a pretensão de ser e, principalmente, sei que meu português não é dos melhores. Cometo erros crassos a torto e a direito. Alguns erros por descuido ao revisar um texto ou por simplesmente esquecimento de fazer a revisão, outros tantos por pura ignorância mesmo.

Em suma, não sou perito na nossa língua, porém não posso deixar passar um e-mail desta magnitude vindo de um futuro universitário.

Eu gostaria muito de entender porque se “está fazendo” um uso do gerúndio desta forma hoje em dia. Claro que é um reflexo da tentativa de se falar (ou escrever) “bonito” que acaba por levar a este tipo de equivoco que está cada vez mais recorrente.

O difícil para eu entender é que esta prática de “gerundiar” foi tão difundida, considerando que temos (todos os seres humanos) o costume de abreviar palavras, diminuí-las para facilitar nossa comunicação no dia-a-dia. E isso não é coisa nova, de gerações atuais.

Veja um simples exemplo que é a palavra “Circo”, que veio de “Circlo”, que por sua vez derivou de “Círculo”. Fomos abreviando até chegar em “Circo”. Outro exemplo é “você”, que derivou de “vossa mercê”. O curioso, pelo menos para mim, é este caso do gerúndio. Simplesmente porque ocorre o inverso, acabamos por aumentar a frase para tentar torná-la “erudita”, “culta” ou mais bela.

“… vou esta fazendo”? “Farei” não seria mais simples, mais fácil, além de ser correto? Você elimina o uso indiscriminado de três verbos por um único verbo. Fora o fato de o universitário ter engolido um erre em “esta”.

Pularei o “dicidi perguntá”. Não “mereci comentá”. Tão pouco comentarei a falta que faz um simples virgula em uma frase.

O segundo parágrafo, confesso, foi uma incógnita por um bom tempo para mim. Ficava me indagando sobre o que ele queria dizer. Comecei a duvidar da minha capacidade de abstração e adivinhação até que a luz se fez e consegui decifrar a afirmação. O universitário, futuro do país, disse que leu em algum lugar que o curso é legal. Ele precisava “lher um polco” mais para “estar se fazendo” entender.

Ignorarei a ortografia (cerá, preciza e muito livros é de doer) da pergunta seguinte. Assim como ignorarei o “agente vamos” que veio a seguir.

… Ok! Não resisto a pelo menos um comentário: vocês não acham fácil perceber a preocupação do rapaz com a possibilidade de ter que ler livros (que coisa mais horrível!)?

Em um primeiro momento eu ri da mensagem, mas logo em seguida o riso deu lugar à preocupação. É preocupante ler algo dessa natureza partindo de um universitário.

Vou repetir, ou melhor, esclarecer bem que não sou um erudito na língua portuguesa (que, aliás, acho que deveria ser chamada de língua brasileira, dadas as diferenças que já existem, mas não é uma discussão que caiba neste momento), não acho que todos devam escrever sob a mais rígida regra, nem que devam escrever palavras “difíceis”, porém um universitário não pode escrever desta forma.

Tem uma coisa que eu aprendi e me ajudou muito a entender algumas coisas. É ser curioso como uma criança. Se você diz algo a uma criança, fatalmente ela devolverá com uma pergunta: por quê?

A criança é um ser em formação que tem curiosidade sobre tudo (reparem que um bebê normalmente arregala os olhos e olha bastante para tudo a sua volta) e não aceita qualquer coisa que tentam empurrar-lhe goela a baixo. Ela quer saber o porquê disso.

É o que eu chamo de “brincadeira do por quê” e me ajuda a não aceitar uma observação somente ou uma resposta simples.

Como diria um conhecido: sim, e daí?

E daí que a observação que fiz sobre o e-mail muitos já devem ter feito, outros tantos já devem ter recebido um e-mail semelhante e alguns partiam de universitários. É neste momento que entra a “brincadeira”. Por que isto tem sido tão comum? Por que alguém que escreve “preciza” conseguiu passar incólume pelos ensinos básico e médio?

Uma resposta: o que importa no ensino público, hoje em dia, são os números, as estatísticas para os políticos usarem ao seu favor nas eleições.

Paga-se uma miséria ao profissional mais importante de qualquer país, o professor, e contrata-se profissionais desqualificados para ensinar os estudantes. Os melhores professores acabam em escolas particulares e acabam restando alguns profissionais completamente despreparados no ensino público. Sim, é lógico que existem exceções, mas elas são, como já disse, exceções.

Para completar enchem-se as salas de crianças para que virem números para uso político e acaba por não haver professor, qualificado ou não, que dê conta de ensinar qualquer coisa em um ambiente destes.

É só isso (como se fosse pouco)?

Não.

Ao mesmo tempo criam-se pessoas que não conseguem se expressar, que têm verdadeiras ojerizas aos livros (tudo o que o ser humano não consegue entender, ele abomina), que aprendem mal e porcamente a montar palavras (“b com a = ba”, “b com e = be”…), mas não conseguem montar frases inteligíveis. Podem ser simples, mas que sejam pelo menos inteligíveis.

Por quê?

Desta forma não vão ler, nem falar, ou seja, não conseguirão se expressar. Cala-se o povo dentro da sua própria ignorância estabelecida.

Por quê?

Para continuar a achar que política não é interessante, que é coisa chata. Como se tudo o que acontece a sua volta não envolvesse política.

Por quê?

Enquanto o povo (quando falo “povo” estou me referindo à maioria, não a todos) se distancia da política por achá-la chata e desinteressante, os políticos corruptos e manipuladores (claro, não são todos) podem fazer o que bem entenderem. Estou falando de políticos de todos os âmbitos, federal, estadual ou municipal.

Por quê?

“Cerá” que eu “precizo” responder esta?

“A mídia deveria denunciar isto e cobrar dos governos melhoras”, poderia bradar o incauto. E a mídia não denuncia.

Por quê?

Para poder continuar a empurrar jornais, revistas e programas de televisão de qualidade duvidosa.

Por quê?

Como diria o imperador (sempre confundo se quem criou a política foi Otávio Augusto ou Tibério, porém foi um imperador romano): Panis et circenses. E para o povo: Pão e Circo. Vamos distraí-los para continuarem a não perceber o que acontece a sua volta.

Agora eu é que pergunto: até quando?

Como diz a letra da música do Gabriel, o Pensador, até quando você vai levando porrada? Até quando vai ficar aí sem fazer nada? Até quando você vai ser saco de dar pancada?

PS1: até hoje quando recebia os e-mails do tipo “Pérolas do ENEM” (o Exame Nacional do Ensino Médio), em alguns eu até acreditava, mas tinha outros que eu cheguei a duvidar que fosse verdade. Imaginava que não poderia haver uma situação tão esdrúxula quanto aquelas descritas nos e-mails. Agora eu acredito em todos!

PS2: um exemplo de como eu não escrevo bem vocês podem encontrar no uso incorreto que faço do “porque”. Nunca sei quando se deve usar por que, porque, porquê ou por quê.

TRAVESSÃO poema de osvaldo wronski

incontidas no contexto
as palavras encontram-se vivas 
entre pontos e vírgulas 
 
a sombra instantânea deste momento
altera o sentido da frase
revertendo o movimento
 
palavras espalhadas no céu da página
buscam a linha do firmamento
sem cessar o parágrafo
 
o sujeito solta o verbo no elemento
substantivo atingido em cheio pelo adjetivo
ninguém escapa do acento  

SER MULHER poema de gilka machado

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor…

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Gilka Machado In: Cristais partidos (1915).

DESAFIO poema de ezequiel andrade batista

 
ainda que eu tenha a sorte
de ir para o norte
antes que me achem perigoso
e me ofertem um caminho
mais rápido para a morte
digo mais algumas palavras
que com certeza
mexem com a moldura dos quadros
 

O blogueiro ZÉ BETO comenta em DARC…aqui no site

ZÉ BETO

 

 

Darci Ribeiro é tanta energia falando e escrevendo que nos deixa sem fala, sem texto. Brasileiro até o talo, sendo brasileiro o fruto dessa misturança, essa bagunça, essa esperança, essa força, estranha, como na letra de música, mas que vai, aos trancos e barrancos, como o título de outro livro do professor, depurando, enxergando o lado falso, o lado podre, o lado mentiroso, que comanda essa imensidão de luz que teve nele, Darci, um intelectual que soube enxergar de dentro. Ele conhecia bem essa gentalha que arrebenta o povo sabendo disso, mas se lixando porque é seduziada pelo poder de roubar sob o manto da impunidade. São mais coitados do que a ninguenzada que não tem nada, mas é honesta, toma cachaça, vibra com o gol do time, samba no pé, faz sexo com o maior tesão do mundo, cria os filhos com nada de dinheiro, mas ensina a ser gente. Saravá, Darci! Que não está apenas nas bibliotecas. É presença nas florestas, nas selvas de pedra, no mar, nos rios, nos lagos, no céu azul, nas montanhas, nas pedreiras, no sorriso deste povo lindo, feio, vivo, que vai dando de leve o pé na bunda dos escrotos.

 

veja AQUI.

Os poetas TONICATO MIRANDA e ZULEIKA dos REIS comentam em MAIÊUT… aqui no site

  1. Zuleika dos Reis Silva

Desdobrável, para ser desdobrado, desventrado, esse poema-viagem alucinógeno, pelos múltiplos concretos-intangíveis gregos parâmetros sem acesso a conceitos gerais para esse eu-poético assim a buscar uma tão impossível contemporaneidade de tais deuses e monstros e bacanais; assim condenado a voltar, a voltar, a voltar sempre ao Agora, ao Agora, ao Agora, com as mãos vazias de deuses e do que os meninos amantes da sabedoria julgavam saber enquanto, astutamente, firmavam, através dos séculos, saberem coisa nenhuma.
Amigo Vidal, mas que viagem! Valha-nos deuses!

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TONICATO MIRANDA

Prezado Vidal,

Nem Baco, nem JB, nem Vidal, de dez palavras do seu poema, na sonoridade umas seis já tinha guardado o sabor nos meus ouvidos, umas três nem pensar, não sei do que se trata, meu latim não vai a tanto, meu grego é menos do que pelego, não me cobre nem o frio dos pés.

Uma única palavra duvidosa, talvez “zeugma”, talvez “divisos”, por sonoridade não tão próxima mas por elipse da estétiva. Mas sobre um poema tão hermético assim, lembro de Leminski dizendo

” um poema que não se entende é assim como um transatlântico perdendo a rota”.

Mesmo com tais dúvidas entendi que você queria ser, ao menos por um momento, um Deus, mesmo que apenas Olimpíco, e menos onipresente, apenas para visitar o Olimpo, conhecer Afrodite e alguns dos convivas de Zeus.

Muito bem, valeram por tantas palavras novas, mesmo que à margem do meu dicionário ou léxico embutido na memória.

Grande Abraço!
Tonicato Miranda

veja AQUI.

O poeta JOÃO BATISTA do LAGO, comenta em A NOSSA IMPRENSA… aqui no site

JOÃO BATISTA DO LAGO

 

Meu caro Vidal.
Bom dia.

Se esta configuração se desse como verdadeira eu me sentiria plenamente realizado.
Por que? Por quê veríamos aí a diversidade do noticiário.

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Aos meus olhos este texto deveria servir como aula para os alunos de jornalismo. Mas não só isso! Deveria ser discutido dentro das redações de jornais, rádios e televisões. Contudo deveria ser lido e discutido não a partir do conjunto humorístico que nele está implícito, mas a partir do conteúdo metafórico que nele há.
A imprensa nacional, meu caro, aos meus olhos, é hoje um grandiosíssimo pastel que é empurrado goela abaixo do brasileiro. Se olharmos com os olhos de ver percebemos, claramente que, simetricamente, todas as redações parecem que obedecem a uma única pauta. Em geral não vemos no noticiário enfoques diferentes e diferenciados. Em muitos casos a composição do noticiário chega a ser o mesmo… Mesmíssimo mesmo! Sem tirar nem por.
Ocorre-me, meu caro, com a devida licença dos “palavreiros” indicar autores que já escreveram sobre essa pasteurização da mídia: a) Alba Zaluar; b) Zuenir Ventura; c) Pierre Bourdieu; d) Giovanni Sartori; e) Dominique Wolton…

Um grande abraço.
João Batista do Lago

 

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