Arquivos Diários: 3 junho, 2008

REGICÍDIO, O PECADO ORIGINAL DA REPÚBLICA por miguel real/portugal

 

Sou republicano, não porque assim tenha nascido, mas porque o estudo da História de Portugal me ensinou a suspeitar das capacidades mentais dos reis portugueses para o exercício do poder, de D. Afonso VI a D. Manuel II, com a sóbria excepção de D. Pedro IV e D. Pedro V. Porém, como republicano, não estou seguro de que a I República tenha valido a pena e estou convicto de que a prática do assassínio político (Sidónio Pais; a matança de Machado dos Santos e seus companheiros) e a permanente situação de bombismo anarco-sindicalista, nela imperante, derivaram em grande parte do eticamente infame e politicamente suicida assassínio de D. Carlos às mãos de extremistas da Carbonária em 1908. É minha profunda convicção de que a evolução da monarquia liberal, caso tivesse sobrevivido, adaptada ao tempo europeu, teria igualmente promulgado as leis mais importantes da República (lei da separação Igreja/Estado; lei da laicidade do ensino; da reforma da universidade; lei do divórcio; lei do registo civil; nacionalização de algumas propriedades da Igreja…). Porém, acompanhando idêntica transição em França e na

Espanha, é minha convicção de que em Portugal, seguindo o ar europeu do tempo, que desde 1789 soprava generosamente da França, a evolução da monarquia para a república era inevitável, menos devido à agitação republicana e mais às divisões entre os monárquicos, evidenciando o lento e histórico esgotamento das famílias nobres nos três últimos séculos. As três purgas na elite nobre subsequentes à consolidação do Império (Alcácer Quibir, séc. XVI; Restauração, séc. XVII; repressão pombalina, séc. XVIII), bem como a divisão da casa real entre liberais e absolutistas no séc. XIX, tinham definitivamente destroçado as qualidades de comando político da aristocracia portuguesa, excessivamente cortesã para que o povo nela se revisse. Nos finais do século XIX, como a crise do Ultimatum o provou, era absolutamente necessário regenerar a elite dirigente de Portugal, transferindo o poder para grupos sociais mais enérgicos, como os advogados, os banqueiros, os comerciantes, os professores universitários. Se Portugal fosse a Inglaterra, D. Carlos poderia ter sido o rei “oportuno”, travando a decadência da monarquia, restaurando-a. Mas D. Carlos foi um rei inglês sentado num trono português, povo constitutivamente mais votado a revoluções que a reformas. Não admira: em 1890, 75% dos portugueses eram analfabetos; a Igreja Católica, assoberbada desde 1820 pelo jacobinismo, sobrevivia fundada menos na devoção e mais na superstição (que desembocará em Fátima, 1917); mais de 80% dos portugueses viviam no campo, sem assistência médica nem escolar e com um mínimo de estradas de macadame; o regime censitário afastava das eleições a maioria da população; a crise nas finanças públicas arrastava- -se desde 1890 e nem a sobrecarga de impostos e taxas de Oliveira Martins a tinham amortecido; o aproveitamento mediático dos empréstimos do Governo à Casa Real tinha abalado o já distante prestígio popular de D. Carlos e de D. Amélia; a subelite monárquica que girava em torno da Ajuda fora igualmente martirizada pelas cisões de José Alpoim e de João Franco nos partidos Progressista e Regenerador; não existia projecto político que não fosse avançar com obras públicas à custa de empréstimos estrangeiros, cujos juros asfixiavam a economia do País.Porém, a instauração da república significava o exílio do rei, não o seu assassínio. O regicídio, se findou a monarquia, condenou ab ovo a república, que subsistirá em estado de expiação durante 16 anos (menos de metade da nossa actual democracia), até igualmente se perder às mãos de uma ditadura militar. Assim vivemos 74 anos do sé. XX – entre Buíças e Salazares, dois radicais, de que Portugal não deve orgulhar-se.
 

 

 

 

 

miguel real é professor universitário e investigador. 

DO PROIBIDO ao OBRIGATÓRIO por pedro bondaczuk

·                                 “Transar ou não transar” é o dilema que se impõe, há já algum tempo, a pessoas com idades cada vez menores, pelo mundo globalizado afora. Em raras ocasiões, os apelos ao sexo foram tão intensos, tão disseminados e tão intermitentes como são agora. São uma constante, quer nos meios de comunicação, quer nas artes (sobretudo na literatura), quer na publicidade ou mesmo nas conversações, mesmo as mais triviais, no dia a dia. E isso é mau? Não, necessariamente! Depende de uma série de fatores. Ponderemos.O sexo tornou-se, subitamente, mais do que necessidade animal, uma obsessão. E isso, a despeito da epidemia de Aids que, embora sob relativo controle, segue afetando enormes contingentes de pessoas em todos os continentes, em especial na África, e matando muita gente, ainda. Tempos atrás, não tão distantes assim, era assunto tabu, principalmente para crianças e adolescentes. Hoje, é tema mais do que corriqueiro e recorrente. É constante, obsessivo, onipresente. Descambou-se, portanto, de um exagero a outro.Não faz muito, quando o menino e/ou a menina chegavam à idade da descoberta do próprio corpo, os pais ficavam cheios de dedos para explicarem, de forma clara, didática e racional, a realidade do sexo, em linguagem que fosse adequada à sua compreensão. Na verdade, os jovens aprendiam, a esse respeito, não no lar, mas com os colegas, em especial, os mais velhos. Hoje… O tema é ensinado, é verdade, nas escolas (com o que concordo plenamente). Mas há algo que está fugindo ao controle dos educadores: a transmissão, às crianças, não apenas das funções, mas dos limites, da ocasião e das condições da sua prática.A iniciação sexual, hoje em dia, é cada vez mais prematura. Até meados do século passado, começava, quase sempre, por volta dos catorze anos, quer para rapazes, quer para moças (estas, porém, não raro, tinham a sua primeira experiência apenas depois de casadas, por volta dos vinte e um anos). Hoje, meninas de dez anos (ou menos) já mantiveram várias relações. Algumas, até mesmo, chegam a engravidar, o que, convenhamos, é enorme aberração. E os garotos começam a fazer sexo por volta dos doze anos, quando não têm, evidentemente, ainda, a mínima maturidade para isso. As conseqüências, claro, não são das melhores, para não dizer desastrosas. Nem poderiam ser, óbvio.

Passou-se, reitero, de um extremo ao outro, do “proibido” ao “obrigatório” (ou quase). Por exemplo, isto se verifica, de forma mais evidente, na questão da virgindade. Até a década de 60 do século passado, a moça tinha que se manter virgem até o dia do casamento. Tratava-se de condição sine qua non para ser considerada “séria”. Era consenso entre os rapazes que a mulher que fazia sexo antes de casar não se prestava a ser mãe de família. Fazia-se clara distinção entre as que se prestavam apenas a transas e as casadoiras.

Hoje, não se distingue mais uma da outra. A virgindade é encarada (por ambos os sexos) como anomalia. É tratada, quase, como se fosse uma doença, uma aberração, um grave defeito ou, no mínimo, uma inaptidão da virgem de despertar desejo sexual no namorado. Como se nota, descambou-se, reitero mais uma vez, de um exagero a outro, talvez pior. Não nego (não seria maluco para tanto) o valor e a importância do sexo, como função básica, instintiva e natural de todo e qualquer ser vivo. Daí condenar sua banalização, não por razões morais ou religiosas, mas, sobretudo, por motivos práticos.

As coisas, nesse sentido, começaram a mudar, de fato, de maneira generalizada, a partir dos anos 50 do século passado, com a popularização da pílula anticoncepcional, que libertou a mulher dos riscos de uma gravidez indesejada. Com isso, ela sentiu-se liberada para buscar a plena satisfação sexual, a exemplo do que o homem sempre buscou, sem nenhum tipo de repressão ou de tabu. Isso é bom? É ruim? Depende.

Cabe, claro, a cada pessoa – afinal somos todos dotados do livre-arbítrio –, independente do sexo, decidir sobre o que fazer com o seu corpo, e com quem. Mas, antes, precisa estar plenamente consciente das conseqüências dessa sua decisão (como, aliás, ocorre em tudo o que se faz na vida). Sexo é bom, é saudável e é imprescindível à sobrevivência da espécie, todos sabem disso. Mas é melhor, muito melhor se for manifestação máxima de amor e não mero ato mecânico e impessoal, simples descarga de tensões, não é mesmo?

·                                 Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor do livro “Por Uma Nova Utopia”