Arquivos Diários: 6 junho, 2008

SEGUNDA CARTA para JB VIDAL – de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

 

Esta é a segunda carta que lhe escrevo em menos de quinze dias.

Bobagem Grossa, diria você, quem quer saber de estatísticas ao pretender navegar na literatura? É verdade, adianto. Perdoe-me, é fraqueza do espírito ou excesso de influência do mundo moderno. Interessante que muitos de nós ainda insistimos em querer ser pós-modernos. Bobagem mais grossa ainda, melhor é ser sempre tempo presente. Falo do tempo Presente da Gramática. Eu estou, eu sou. Somente um dos dois ”to be” de Shakespeare!

Não sei por que, mas hoje estou particularmente triste. Não sei se é por conta da morte do Senador Jéferson Perez, paladino da ética na política; ou porque estou sem amigos com quem conversar; ou ainda porque descobri tardiamente a inutilidade da vida. Coisa Kafniana, parecido com o significado da frase “se era para morrer, porque passamos tanto tempo enganando o corpo e o espírito de que teríamos a eternidade”. Esta história de que o importante é a obra, é outra Bobagem Grossa, cortem-me os “possuídos”, como dizem no Nordeste. Todo ser humano, o genial ou o mais simples dos mortais, quer ser lembrado pelo que é não por sua obra. Até porque a maioria não tem obra nenhuma para ser lembrada que não seja seu sorriso, sua luta pela sobrevivência. E mesmo assim, quer ser lembrado “pelo que é”, muito mais do que “pelo que foi”.

Faço estas observações porque ainda ontem um profissional da câmera esteve comigo tirando fotografias na Praça Espanha da minha triste figura, hoje mais próxima de um Sancho Pança. O objetivo é ligar minha imagem à entrevista que concedi sobre o uso da bicicleta no Brasil e que será publicada num livro sobre mobilidade e trânsito.

Depois do ensaio fotográfico comentei com ele estar muito triste com a cidade e com o fato da atual administração me ter imputado uma multa gigantesca sobre o ISS que não concordo de forma alguma esteja a mim sendo cobrada. Aliás, aqui não presto serviços. Nesta cidade tenho mais atuado como turista de fim de semana. Sou o melhor dos contribuintes, pois ganho dinheiro em outras cidades e Estados brasileiros e trago os recursos para consumir aqui. Estou pensando seriamente em partir desta Curitiba ingrata, governada por políticos que colocam a sua imagem acima de qualquer outra coisa. A maioria possuidora de vaidade exarcebada, muitos deles usam ternos caríssimos, se portam como se estivessem indo receber um Oscar em noite de gala.

Mas deixemos estas considerações deletérias e um tanto babaquaras de lado e falemos ainda do sábado, mas do final da tarde, quando liguei para você e soube que estava em Morretes, provando de uma cachaça artesanal sem comentários. Pois quando liguei para você estava sobre minha bicicleta e estava caçando alguém para tomar uma. Depois de ligar para uns quatro amigos além de você, combinei com um deles me encontrar naquele bar onde tivemos nosso primeiro encontro, quando a Bia havia partido. Pedalei até lá e constatei que o bar fechou. Como estava perto, liguei novamente para o amigo e disse que estava indo para a Mara (Capelle). Fiquei por ali, por cerca de quarenta minutos, puto da cara, vendo o bar iluminado, a porta fechada, encostado à bicicleta, corujando algumas janelas iluminadas do edifício à frente. Nelas, várias mulheres apareceram nessa espera, mas todas cerraram as cortinas antes de fazer qualquer troca de roupa. Todas muito recatadas, nenhuma como sua amiga – a “Intelectual Pelada”. Azar delas, deixaram de servir como munição para a breve literatura de um literato menor.

Continuando a história, depois desses quarenta minutos enchi a paciência e resolvi bater palmas porque a boca e o fígado já estavam sedentos. Depois de vinte palmas eis que apareceu a mãe da Mara para me informar que o bar abre às 19h. De pronto informei que meu relógio, de forma insistente, mostrava: 19h 5min. Ela disse que a moça que abre o bar tinha saído para o mercado, estando atrasada no retorno; informou estar sem a chave da porta; e a Mara… dormindo.

Após mais dez minutos de espera tomei decisão drástica. Pedalei ao mercado, comprei queijos, uma caixa de pistache, um bom vinho argentino, e me dirigi para casa. Que jeito. Na falta de amigos – que se danem os amigos, fui beber solitariamente, em casa.

Desfecho da história. No sábado, o amigo que iria encontrar comigo na sexta-feira me liga e diz que passou no Capelle, mas às 22h. Também que havia acabado a bateria do seu celular. Mesmo assim me deu uma bronca. Como já era tarde também no sábado, resolvi ir dormir. Pensando bem, não era nem 22h, mas solitários dormem sempre cedo para não estender a solidão.

 

Curitiba, 25 de Maio de 2008.

O SOBRINHO de CARLOS MAGNO por jorge lescano

                                                                                                         In Memoriam Rogelio Solís

 

A derrota de Roncesvalles

Em 778, Carlos Magno foi vítima de uma deslealdade que lhe custaria boa parte do exército. O governador de Saragoça – um muçulmano dissidente – chamara-o para ajudar no combate ao emir de Córdoba, prometendo um levante de muçulmanos em apoio aos francos. Ao chegar às portas da cidade, entretanto, o exército de Carlos Magno foi derrotado: o levante não se realizara. Carlos Magno seguiu então para o norte, onde os saxões se revoltavam. No percurso, ao atravessar o desfiladeiro de Roncesvalles, a retaguarda dos francos foi dizimada por uma força basca. Nesta batalha, a 15 de agosto de 778, morreu Rolando.

            As crônicas da época guardam silêncio sobre esse acontecimento pouco glorioso, mais tarde transformado em episódio heróico. Na versão do imaginário popular, Carlos Magno teria conquistado todo o norte da Espanha, com exceção de Saragoça, defendida por um único adversário, o desonesto Marcílio. O traidor Ganelon, personagem fictício, estaria na origem da derrota. Rolando, prefeito da Marca da Bretanha, foi retratado como sobrinho de Carlos Magno, que ainda não era imperador em 778. Os bascos, por sua vez, foram substituídos, na lenda, por cem mil sarracenos sedentos de sangue cristão, obrigados a retroceder até o mar pelo terrível exército de Carlos Magno. Assim, a Canção de Rolando termina com uma glorificação do exército franco.

            A lenda saiu ganhando, mas não a história. No século XIII, o “sobrinho” de Carlos Magno já era famoso, sua estátua ornamenta o pórtico da catedral de Verona.

 

Claude-Catherine Ragache – Francis Phillips: A cavalaria, Mitos e Lendas. São Paulo,  Ática, 1994.  

 

 

 

          Talvez não seja correto afirmar que todo conto narra duas histórias (1) – concluiu Solís (2) -, embora não seja impossível que esta terminologia apenas renove a verdade tradicional de que um conto puxa outro conto. Enfim, conta-se uma história pela analogia que possa ter com outra…

          Ou por simples falta de assunto.

          …creio que isto já sabiam nossos antepassados trogloditas ao se reunirem em círculo ao redor do fogo…

Numa noite de inverno do ano de 1962, apresentei a Rogelio Solís a resenha de O Cavaleiro Inexistente publicada num jornal de Buenos Aires. A nota anunciava a tradução para o castelhano (que até intelectuais oriundos desta língua já chamam de espanhol, em conseqüência da invasão do ianquês), do romance de Ítalo Calvino. O resenhista destacava algumas passagens do texto e, dentre elas, o diálogo do Cavaleiro com Carlos Magno (neto de Carlos Martelo e avô de Carlos, o Calvo Italino; não confundir este Carlos com seu descendente Carlos o Gordo, e nenhum dos Carlos supracitados, se bem que todos reis da França em sua hora, com o Simples Carlos, que não por isto deixou de ser monarca feito os outros. Apesar do epíteto, faríamos mal em ver neste último um antepassado de Carlitos).

Nossas interpretações daquele trecho diferiam. Ainda não tínhamos lido a obra, assim, a questão ficou pendente.

Um ano mais tarde Solís iniciava sua correspondência (inédita) com um brasileiro, através da revista O Cruzeiro Internacional, um tal de Thomas Denis, se não estou enganado. Naquela época me traduziu o trecho que provocara nossa diferença.

          Na resenha da edição em castelhano, edição que a bem da verdade nunca vi, o rei franco se assombrava com o fato de dentro da armadura não se encontrar alguém, e perguntava: ¿Cómo puede ser eso?  Ao que o Cavaleiro respondia serenamente: ¿Y cómo es de otra manera? Não descarto a possibilidade de que as palavras fossem outras, com o que teríamos uma versão distinta, contudo, o sentido era o sugerido por estas palavras. Não me lembro de como o diálogo se resolvia, e não vem ao caso.

Na tradução brasileira, a qual reproduzo para maior exatidão, lê-se:

 

          Falo com o senhor, ei, paladino! — insistiu Carlos Magno — Como é que não mostra o rosto para o seu rei?

A voz saiu límpida da barbela.

          Porque não existo, sire.

          Faltava esta! — exclamou o imperador. — Agora temos na tropa até um cavaleiro que não existe! Deixe-nos ver melhor.

Agilulfo pareceu hesitar um momento, depois com mão firme e lenta ergueu a viseira. Vazio o elmo. Na armadura branca com penacho iridescente não havia ninguém.

          Ora, ora! Cada uma que se vê! — disse Carlos Magno. — E como é que está servindo, se não  existe?

          Com força de vontade — respondeu Agilulfo — e fé em nossa santa causa.

          Certo, muito certo, bem explicado, é assim que se cumpre o próprio dever. Bom, para alguém que não existe está em excelente forma! (3)

 

          Percebe? – Solís ficou didático – Aqui Carlos Magno intui a futura Chanson de Roland (4) Lembra de como funciona o efeito de avanço-retrocesso apontado por Auerbach? (5)

          Sei. Aquele retomar em cada estrofe o primeiro verso da anterior.

          Exato. Parece-me que Calvino aplica à psicologia um recurso do épico-recitativo.

O argumento me tomou de surpresa, porque o trecho era o mesmo, porém sua leitura outra. Solís falava olhando o vazio, sem se importar se eu o acompanhava. Era como alguém que lê um texto pela primeira vez e em voz alta, ou que descobre as idéias à medida que fala. Nesses momentos sua voz estridente ficava mais aguda e desagradável.

          A hipótese não é arbitrária. Consideremos a perspicácia do futuro imperador, ele chora ao compreender que a humilhação é a forma de vingança de Ganelon.

          Perspicácia, aliás, também assinalada por Auerbach.

          E diminuída, de-sa-ce-le-ra-da, eu diria, por Ítalo Calvino.Veja como termina a cena – traduziu para o castelhano (o que agora se reproduz em português – N.T.) :

 

Agilulfo era o último da fila. O imperador terminara a revista; girou o cavalo e afastou-se rumo ao acampamento real. Já velho, tendia a eliminar da mente as questões complicadas. (6)

 

          O resultado desta equação é – Solís revolvia os braços feito moinho de vento -: um velho rei Carlos Magno, que Calvino já sabe imperador, , literalmente vê, no Cavaleiro Inexistente do século oito, o Roland do século onze.

          O que diz o original italiano? – apressei-me a interromper, pois ele ameaçava pular de galho em galho.(7)

          Seja qual for a resposta, temos, no mínimo, duas versões do mesmo fato literário. Eu já posso imaginar uma versão francesa ou austríaca, e nada me custa atribuí-la ao século dezoito ou vinte. Tanto faz! Daqui a duzentos anos ninguém vai se importar com estas datas, no caso de ainda alguém se interessar por literatura, é claro! Afinal, creio que a escrita, e a leitura, especialmente a de ficção, são meios  do pensamento, não sua finalidade – agora gesticulava como Rambaldo na Superintendência para Duelos, Vinganças e Máculas à Honra  8 – Até lá tudo ficará imerso num nebuloso passado que podemos chamar de clássico e que pressupõe, ou ao menos admite, o anacronismo. Se for verdadeira a afirmação de Calvino de que um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer,(9) O Cavaleiro Inexistente é tão clássico quanto a Chanson de Roland. Não seria impossível, tampouco, que uma das versões enriquecesse a obra, ainda que ao preço da traição. Também isto parece inerente à categoria do clássico. Lembre-se do Quixote! A figura satirizada por Cervantes se tornou paradigma moral, quando não moralista. Os séculos foram adquirindo a visão do Quixote. E não tenho certeza de que isto seja uma ironia

          Estava na hora de interrompê-lo. Quando a traição a Cervantes vinha à baila, o universo barroco se derramava numa torrente interminável de associações de idéias e metáforas intrincadas, mistura de citações com imagens do seu repertório já banidas da escrita. Assim, resignei-me a cumprir o papel de escudeiro (que outra pretensão não cabe ao escriba, escreveu J.L.), repetindo uma sentença sua:

          O Fidalgo de la Mancha, gênio e figura, usurpou na história o lugar do Manco de Lepanto! (10)

Solís aprovou minha ironia com um sorriso breve. E acrescentou a modo de revanche um dado intranscendente:

          A derrota de Roncesvalles deu-se em 778, Auerbach aponta o verso 779 como decisivo para a sorte de Roland – para aliviar meu espanto, confessou:- Não sei ainda o que isto significa, mas hei de sabê-lo. Quanto à usurpação de que você fala – o indicador magro, lança em riste,  cutucou-me o peito: o cavaleiro Solís carregava contra cem mil sarracenos -, por que não dizer que quando una obra apaga o autor, ela é clássica  e ele imortal?

A fala era típica de Solís, em cada retomada de um assunto incorporava elementos que o dilatavam até o vértigo.(11)

          No caso de Calvino – fez um gesto largo em direção à prateleira, convocando os livros como testemunhas -, daqui a algumas décadas, não muitas, creio, será possível citá-lo sem mencionar seu nome, e sem tê-lo lido, o que já é um grande passo em direção ao esquecimento da imortalidade. Quando esta hora chegue, será lícito imaginar uma reedição d’O Cavaleiro Inexistente, primeiro em italiano e depois nas outras línguas, que inclua as alterações de todas as traduções anteriores. Uma espécie de Bíblia do Rei James, na qual sua versão seja apenas mais uma. Então teremos a edição atualizada não pelo autor, coisa corrente, nem por especialistas de qualquer área, mas pelo leitor dito comum. Será uma obra em permanente transformação, porque é previsível que cada tradução deste novo Roland sofra as infidelidades próprias da narrativa oral, com o que teremos motivo para outras reedições e assim sucessivamente – contemplava as prateleiras como se estivesse vendo aquilo que profetizava -. Se cada idioma é o som de um espaço geográfico, incluamos o tempo em que cada tradução terá sido realizada, fazendo da obra um motu perpétuo. Creio que tal manipulação não seria estranha nem conflitante com a poética de Calvino. Creio que O Cavaleiro Inexistente nunca terminará de dizer aquilo que tinha para dizer.

          Por que não incluir as erratas ? – ironizei.

          Sim! Sejamos traidores , isto é, criadores, até as últimas conseqüências – afirmou no tom de quem não receia se contradizer para manter a coerência de um argumento – Sim! O erro é um lapso do copista que também deve ser considerado uma leitura, se não dele, do futuro leitor. Tenho a informação de um haikai de Bashô que suporta mais de cento e cinqüenta leituras diferentes em quase todas as línguas chamadas cultas. Creio que a reunião desses dados possibilitaria iniciar uma história da leitura.

 

Em 18 de setembro de 1997, enquanto labutava arduamente nestas mal traçadas linhas, um jovem e seu pai, Maurício Santos e Plínio, o velho (Atenção: não confunda este Plínio com o tio Plínio do epistolário Plínio, o Moço. Aquele Plínio feneceu em 79 d.C., em conseqüência da inalação de emanações do Vesúbio,(12) no dia em que o vulcão decidiu eternizar Pompéia. Este Plínio está muito vivo e bem disposto, Deus o abençoe!), apresentearam-me (sic) um livro de autoria de um patrício argentino (se bem que circuncidado, diria com duvidoso humor outro honesto vizinho do burgo bonaerense), livro este intitulado Uma História da Leitura (13), que inaugura a futura infinita bibliografia sobre o tema prevista por meu amigo portenho. Simultaneamente, Paulo von Zuben, viajante noturno do mesmo círculo de leitores e acessado ao mundo (Ah, os esoterismos da informática!), aditava a poranduba (14) (notícia) de um “livro” nos padrões sugeridos por Solís. O texto não é O Cavaleiro Inexistente, sequer é obra de Ítalo Calvino, contudo, não podemos deixar de notar a precisão das “coincidências” entre ambos.

            O “livro eletrônico” não conta com minha simpatia. Sintetizo o ato de ler nos gestos de molhar a ponta do dedo na língua e virar a página, segundo modelo fornecido por imprudentes frades beneditinos do século XIV. No limiar do terceiro milênio cultivo hábitos do século XIX. O termo livro me remete invariavelmente à imagem de papel impresso, prateleiras de madeira e salas crepusculares, não necessariamente hexagonais. “Livro Virtual” é aquele imaginado pelo autor, que ainda não tomou forma de códice, ainda é fato à espera de se tornar literalmente manuscrito.

            O “livro” em questão e seu autor me são indiferentes. Quais as infidelidades de cada tradução e quantas destas têm origem na língua original? Ignoro a freqüência e a qualidade das erratas, o número de cópias que os usuários da Internet fazem circular e os acréscimos que cada um deles devolve à rede. Quero acreditar que estão enriquecendo a obra. Fico satisfeito por saber que não é um texto de Calvino. Penso que seria injusto, em se tratando de O Cavaleiro Inexistente, que o nome de Rogelio Solís não estivesse vinculado a ele, apesar de reiterar minha repulsa a tal forma de publicação. Não desejo testemunhar o momento em que esta “biblioteca” babilônica inclua aquele romance. Sinto o desaparecimento da biblioteca clássica como um grande cataclismo, digamos: a submersão da Atlântida.

 

 

 

 

(1) Alusão à  Teses Sobre o Conto? Cf. O Laboratório do Escritor, Ricardo Piglia; S.P.,  Iluminuras,  1994, p.37 e ss.., Trad. Josely Vianna Baptista  (Nota de Jotahelle).

(2) Rogelio Solís (1929-1969), escritor argentino inédito. Todos seus manuscritos foram queimados depois de sua morte (N.A).

(3)  Ítalo Calvino: O Cavaleiro Inexistente; S.P., Companhia das Letras, 1993; p. 10. Tradução de Nilson Moulin (N.A).

 (4) Em francês no “original” (N.T).

(5) Erich Auerbach: A Nomeação de Rolando como Chefe de Retaguarda do Exército Franco, em  Mimesis; S.P., Ed. Perspectiva, , 1987; p. 83 e ss. (N.C).

(6) Ítalo Calvino; ibidem.

(7) A edição argentina diz: amenazaba irse por las ramas; expressão castelhana por: digressão, desvario, etc. O editor italiano acredita ver aqui uma alusão ao romance O Barão nas Árvores (Nota de um leitor javanês).

  8 – Ítalo Calvino; op. cit., p. 20 (N.A).

(9)  Ítalo Calvino: Por que Ler os Clássicos; S.P., Companhia das Letras, 1993, p. 11 (N.A).

(10) Como se sabe, Cervantes perdeu um braço na (por isso) célebre batalha de Lepanto (N. T. Espanhol).

(11)  Vértigo: vertigem. Em espanhol na versão francesa (N.T).

(12) Em espanhol na edição italiana (N.E).

(13)  Alberto Manguel: Uma História da Leitura; S.P, Companhia das Letras, 1997 (N.A).

(14) Em tupi-guarani (?)  no original  (N.T.Suíço).

A arte de SIDOINE BIAGUI em CURITIBA

A Aliança Francesa e a Fundação Cultural trazem para Curitiba um espetáculo único e cheio de emoções.  O jovem contador senegalês Sidoine Biagui, apresenta um espetáculo interativo, com contos narrados em francês, intercalado de algumas partes em português. Depois de se apresentar na França, em varios paises africanos e cidades brasileiras, Sidoine passa pela capital paranaense, onde fará duas apresentações gratuitas, inspiradas na tradição da contação de histórias africana.

Sexta feira, dia 6 de Junho, 14h30

na Casa da Leitura, Rua Batista Ganz, 453 – Parque Barigüi

Tél.: (41) 3240-1101 e (41) 3336-2073

 

Sábado, dia 7 de Junho, 14h

no Café Babette da Aliança Francesa, rua Prudente de Morais, 1101, Centro. Reservas: (41) 3223 4457  infos@afcuritiba.com.br

Domingo, dia 8 de Junho, 14h30

na Casa da Leitura, Rua Batista Ganz, 453 – Parque Barigüi

Tél.: (41) 3240-1101 e (41) 3336-2073

 

POÉTICA – poema de manoel bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristasTodas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

 

DESUMANIZAÇÃO do SER por márcio salgues

Cursos, palestras, livros de técnicas de marketing com recheio de auto-ajuda e outros tantos que pretendem ensinar como se tornar um bom vendedor proliferam por toda parte. Não sem razão. A infinidade de quinquilharias à venda requer métodos mais sofisticados e adequados para nos ludibriar, moldando nosso perfil consumista, fazendo-nos comprar produtos muitas vezes inúteis e ainda incorporando esses produtos ao nosso cotidiano, que é o propósito final da venda. Aliás, para aprender as técnicas oferecidas você precisa começar por comprá-las. E hoje requer-se que todos sejam vendedores hábeis. Do Presidente da República ao camelô da esquina. Do cirurgião plástico ao professor dos cursinhos de adestramento pré-vestibular. A coisa é tão séria que, graças a campanha vitoriosa de Lula, Duda Mendonça tornou-se um quase ministro da propaganda do governo.E hoje se vende de tudo. Little Bush, por exemplo, em meio à crise econômica americana, decidiu vender democracia ao mundo árabe por uma módica quantia em petróleo, usando a tática da bala. E, de quebra, ainda criou uma demanda por serviços de construção civil que irá gerar receita para a coalizão de empreiteiras anglo-americanas. Simplificando: Eu quebro e você me paga. Com isso, se seus planos forem executados todos a contento, ficará faltando muito pouco para que o mundo se transforme numa grande feira livre. Mas, talvez, dos males esse seja o menor.

O que me incomoda nisso tudo é que, ao mesmo tempo em que somos instigados a vender de maneira mais eficiente, estamos nos tornando uma raça de consumidores descerebrados e sem nenhum senso crítico. Uma sociedade movida tão somente pelas relações de consumo e regida pelas leis de mercado, entidade que se tornou uma espécie de guia espiritual, ou melhor, material da humanidade. As relações humanas são cada vez mais superficiais, individualistas e baseadas em interesses.

Hoje o mercado é que nos diz quais são as nossas necessidades e ele mesmo nos oferece o produto que as satisfaz. Por exemplo, e só para ficar no campo das trivialidades: o mercado diz que mulher bonita e sedutora é a que tem seios enormes, embora nem todos os homens achem isso. Então o mercado oferece próteses cada vez maiores. A dondoca vai e põe uma prótese de 250 mililitros e se sente uma estrela, uma musa. Vá entender o que se passa nessas cabecinhas saturadas de folhetins! O mercado diz que liberdade é ter um determinado modelo de carro. É sinônimo de sucesso, atrai as garotas, etc. Aí o marmanjão da classe média põe a corda no pescoço, compra o carro e se sente livre, ainda sob o efeito hipnótico do anúncio. Nada contra os chamados “sonhos de consumo”, mas seria interessante questionar as nossas motivações consumistas. A prioridade do ato de consumir em detrimento dos valores humanos é que está nos tornando desumanos. Autômatos feitos para consumir e ser consumidos, até que termine o nosso prazo de validade.

Não adiantam ilusões comerciais. O caso da criança pobre que, aos trancos e barrancos e contra todas as circunstâncias, cresce e se torna um profissional bem sucedido financeiramente é belo, porém é a raríssima exceção. A maioria crescerá e permanecerá pobre. E o estímulo desenfreado que alimenta as falsas esperanças do “você também pode ter”, além de descerebradas, fará dessas crianças pessoas deprimidas, quando não violentas, que jamais entenderão o porquê de suas limitações.

Tomo emprestado os ideais humanistas da revolução francesa. Boas doses de Liberdade, Igualdade e Fraternidade na sociedade moderna, não apenas como um arroubo romântico, mas como um alvo a ser perseguido, minimizariam consideravelmente a nossa mediocridade, bem como nos conservaria humanos.

QUE VENHA GODZILLA ! – por anselmo heidrich

Apesar de o Japão e os EUA terem sofrido um “contratempo” na II Guerra Mundial, as duas nações têm um histórico de boas relações. Dentre outras razões, o Japão serviu como cabeça-de-ponte para Washington bloquear o livre-acesso soviético ao Pacífico. Hoje, no entanto, com a entrada de novos jogadores na disputa estratégica global, esta “tradição” tem esfriado… Em Geopolitical Diary: Japan’s Plans for Godzilla, Mothra and the Russian Bear se evidencia a tomada de dianteira de Tokyo em seu próprio sistema de defesa, já que os EUA não têm feito o suficiente para assegura-la na Ásia Oriental. As restrições impostas com o fim da II GM tornaram o Japão dependente militarmente, mas com ameaças diretas como o sistema de mísseis balísticos da Coréia do Norte, a marinha chinesa e o crescente poderio russo sobre o Pacífico Norte, os japoneses se tornaram um dos principais alvos regionais.Surpreendi-me ao perceber que sua maior preocupação é com a Rússia, pois me acostumei a pensar que Moscou estivesse com os olhos fixos no Ocidente, particularmente na Europa, ou no Oriente Médio. Por meses, o Kremlin voltara-se contra o desenvolvimento de mísseis antibalísticos pelos EUA em sua periferia. Como conseqüência, o Japão requer um sistema próprio na segurança nacional.

Em 1998, os norte-coreanos testaram um míssil balístico sobre o Japão. Guardadas as devidas proporções territoriais, imagine algo como a Bolívia lançar um projétil desses sobre o nosso território detonando-o no Atlântico. É disto que se trata. E em 2006, Pyongyang lançou um novo dispositivo nuclear, de modo similar ao que fez o Paquistão no Deserto de Thar. Mas, diferentemente da pronta resposta indiana em sua fronteira paquistanesa, o Japão não tinha o que mostrar. Agora caminha para isto…

 

 

Muito embora seja de difícil concretização, a hipótese de fusão entre o poder econômico sul-coreano com o poder bélico norte-coreano relegaria o Japão, claramente, a uma condição

periférica no extremo oriente. E isto significa ter que acatar com uma ou outra imposição. E por maior que seja a atual proeminência russa, a China deslancha como superpotência ascendente. Diferente de seu, territorialmente, introspectivo passado militar, Pequim adota hoje uma clara diretriz marítima aliada ao seu natural domínio terrestre.
A lembrança da guerra com Rússia em 1904-05 marcou o Japão como única potência não européia a derrotar, até então, um país daquele continente. De lá para cá, a supremacia ocidental voltou a reinar, sem que a Rússia firme um acordo de paz com a potência asiática.

Mas, por mais que o Kremlin tente assegurar, sobremaneira, uma série de objetivos geopolíticos com a atuação de Putin, seu país figura na tela do radar japonês…

 

PELA REDENÇÃO da PREGUIÇA por fernanda muller

Recentemente uma palavra do vocabulário japonês surgida na década de 80 tornou-se conhecida em outras partes do mundo. Trata-se do termo “karoshi” que designa aqueles indivíduos que morrem em decorrência do excesso de trabalho. Num país onde horas extras são um hábito diário, só no ano passado foram registrados 355 trabalhadores que adoeceram gravemente por esse motivo, dos quais 150 morreram, como revela um levantamento do Ministério da Saúde, do Bem-Estar e do Trabalho do Japão. O caso do gerente da Toyota, Kenichi Uchino, de 30 anos, que desmaiou durante o expediente e morreu no hospital de insuficiência cardíaca, já tendo acumulado mais de 106 horas extras no mês em que faleceu, deu notoriedade a um problema que preocupa as autoridades. O juiz Toshiro Tamiya, responsável por julgar o processo que concedeu indenização à família de Uchino, sintetizou o quadro: o trabalhador “estava tão cansado que não conseguia nem brincar com seus filhos”.

O que fazer diante de tal cenário?

Ocupando uma posição de destaque entre os temíveis pecados capitais, a preguiça costuma ser caracterizada como miscelânea de acomodação, marasmo e letargia. Sua síntese seria a aversão a toda e qualquer forma de trabalho, evitando a atividade seja ela física, psíquica ou intelectual. Há controvérsias, no entanto. As máximas segundo as quais a “preguiça é a mãe de todos os vícios”, em contraposição ao valor edificante do trabalho que “enobrece o homem”, merecem uma observação mais atenta.

Em primeiro lugar é bom saber que preguiça e trabalho já tiveram significados bem diferentes. Nas sociedades escravagistas da antiguidade, como a grega e a romana, poetas e filósofos proclamavam o ócio como valor indispensável para a atividade livre e feliz. Para eles, o trabalho equivalia à desonra, uma vez que só se alcançaria o pleno exercício da política, o cultivo do espírito e o cuidado com a beleza do corpo, dispondo-se de tempo. Trabalhar era uma pena que cabia aos escravos e uma vergonha para os homens livres pobres que não tinham quem trabalhasse por eles. É sintomático que sequer houvesse uma palavra capaz de designar esse ato em grego ou latim, sendo o nosso verbo “trabalhar” proveniente de “tripalium”, não por acaso um instrumento de tortura utilizado para açoitar escravos revoltos.

Na gênese da sociedade judaico-cristã trabalhar também simbolizava rebaixamento. A Bíblia deixa claro que quando Deus expulsou Adão e Eva do paraíso eles perderam o divino direito ao ócio, sendo condenados ao trabalho como pena para a expiação dos pecados. Todavia, com o passar do tempo a própria religião cedeu a uma interpretação inversa, defendendo o trabalho como algo de origem maior, enaltecedor por si só, enquanto a preguiça caiu em desgraça por ser o seu oposto, tormento e vício.

A grande ironia, discutida por Paul Lafargue em “O direito à preguiça”, é que essa inversão “coincide” com a ascensão do capitalismo. Isso porque, a Revolução Industrial ocasionou a necessidade de um contingente crescente de mão-de-obra para atender às demandas das fábricas. E a resposta foi a criação e a difusão de um tipo de “religião do trabalho”. Assim, enquanto mendicância e preguiça tornaram-se crimes que previam até a pena de morte, trabalhar tornou-se um direito institucionalizado. Mas e o direito ao descanso, às artes, ao lazer ou às praticas desportivas?

Se até bem pouco tempo países europeus ostentavam leis trabalhistas modelares, com jornadas de trabalho de 35 horas semanais e pensava-se que esse era o futuro, a ilusão parece desfeita. As modernas superpotências China e Índia mantêm jornadas de mais de 60 horas semanais, férias reduzidas, feriados escassos. Isso para não falarmos no caso do Japão. E são países como a França, conhecida pelo protecionismo ao trabalhador, que começaram a rever sua legislação trabalhista de modo a adequá-la à realidade de um mundo globalizado. Mais trabalho, menos lazer, nada de preguiça.

E quanto mais cada um trabalha, menos empregos são gerados. Essa afirmação paradoxal não é difícil de ser constatada na prática. Das pequenas empresas às multinacionais abundam exemplos em que se opta pela redução máxima do quadro de funcionários, ainda que à custa da sobrecarga e do sacrifício pessoal dos trabalhadores restantes. Nem mesmo a automação, que substituiu pessoas por máquinas, conseguiu garantir um tratamento mais humanitário com mais tempo livre aos remanescentes. Estatísticas revelam que mais de 50% da população existente no mundo hoje já é excedente, desempregada, à margem. E ano a ano essa cifra aumenta. Ao percentual restante que ainda dispõe de trabalho, cabe acotovelar-se para não perder a posição já ocupada, além de acumular novas funções como forma de melhorar a renda que, em geral, cai gradativamente.

Resgatar a preguiça nesse contexto não significa acabar com o trabalho. Lafargue, em 1880, propunha a diminuição das horas de trabalho como forma de abrir mais vagas no mercado, além da elevação da quantidade e da qualidade do tempo livre com o intuito de garantir o desenvolvimento pleno de cada trabalhador. Desenvolvimento que demanda tempo livre, ócio.

Essa idéia do ócio como ferramenta de conhecimento e crescimento pessoal – o que não deixa de ser uma variante da preguiça tal qual postulado por Lafargue – seria repensada mais de um século depois pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, autor de obras como A emoção e a regra, O futuro do trabalho e Ócio criativo. Diante da competitividade cruel, do estresse existencial e da prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional, o autor sugere como alternativa o cultivo do ócio, não do puro ócio, mas do ócio “criativo”, síntese do trabalho, do estudo e da diversão. Elevada à categoria de arte, a desocupação só seria aprendida e aperfeiçoada com tempo e exercício, única forma de retirar o trabalho do centro absoluto de nossas vidas e nos ensinar a valorizar paralelamente o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.

Para quem acredita que é um ideal impossível, De Masi acena dizendo que não, que muitas empresas já aderiram a tal reorganização do trabalho, embora seja imprevisível saber se algum dia ela será a regra. O fato é que há ganhos visíveis, como o aumento da produção de bens e de serviços e a diminuição do esforço físico e do estresse intelectual, para não falar nos ganhos sensíveis, quer seja, a possibilidade de usufruir de uma rede de interlocutores, de amigos e de colaboradores. Educados para privilegiar a satisfazer a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência, o ócio deixaria de ser sinônimo de violência, neurose e vício, para gerar arte, incentivar a criatividade e conceder liberdade.

É mais do que necessário que a cultura do trabalho sem limites pare de fazer com que funcionários dêem literalmente a vida pela empresa, não interessando a nacionalidade, o status da companhia ou seus dividendos. Como apelo final cabe reiterar as palavras de Lafargue e De Masi para que a preguiça produtiva ou o ócio criativo saiam do papel, permitindo que os funcionários tenham tempo livre para desenvolver suas potencialidades e a energia que Kenichi Uchino não teve para brincar com seus filhos.