O SOBRINHO de CARLOS MAGNO por jorge lescano

                                                                                                         In Memoriam Rogelio Solís

 

A derrota de Roncesvalles

Em 778, Carlos Magno foi vítima de uma deslealdade que lhe custaria boa parte do exército. O governador de Saragoça – um muçulmano dissidente – chamara-o para ajudar no combate ao emir de Córdoba, prometendo um levante de muçulmanos em apoio aos francos. Ao chegar às portas da cidade, entretanto, o exército de Carlos Magno foi derrotado: o levante não se realizara. Carlos Magno seguiu então para o norte, onde os saxões se revoltavam. No percurso, ao atravessar o desfiladeiro de Roncesvalles, a retaguarda dos francos foi dizimada por uma força basca. Nesta batalha, a 15 de agosto de 778, morreu Rolando.

            As crônicas da época guardam silêncio sobre esse acontecimento pouco glorioso, mais tarde transformado em episódio heróico. Na versão do imaginário popular, Carlos Magno teria conquistado todo o norte da Espanha, com exceção de Saragoça, defendida por um único adversário, o desonesto Marcílio. O traidor Ganelon, personagem fictício, estaria na origem da derrota. Rolando, prefeito da Marca da Bretanha, foi retratado como sobrinho de Carlos Magno, que ainda não era imperador em 778. Os bascos, por sua vez, foram substituídos, na lenda, por cem mil sarracenos sedentos de sangue cristão, obrigados a retroceder até o mar pelo terrível exército de Carlos Magno. Assim, a Canção de Rolando termina com uma glorificação do exército franco.

            A lenda saiu ganhando, mas não a história. No século XIII, o “sobrinho” de Carlos Magno já era famoso, sua estátua ornamenta o pórtico da catedral de Verona.

 

Claude-Catherine Ragache – Francis Phillips: A cavalaria, Mitos e Lendas. São Paulo,  Ática, 1994.  

 

 

 

          Talvez não seja correto afirmar que todo conto narra duas histórias (1) – concluiu Solís (2) -, embora não seja impossível que esta terminologia apenas renove a verdade tradicional de que um conto puxa outro conto. Enfim, conta-se uma história pela analogia que possa ter com outra…

          Ou por simples falta de assunto.

          …creio que isto já sabiam nossos antepassados trogloditas ao se reunirem em círculo ao redor do fogo…

Numa noite de inverno do ano de 1962, apresentei a Rogelio Solís a resenha de O Cavaleiro Inexistente publicada num jornal de Buenos Aires. A nota anunciava a tradução para o castelhano (que até intelectuais oriundos desta língua já chamam de espanhol, em conseqüência da invasão do ianquês), do romance de Ítalo Calvino. O resenhista destacava algumas passagens do texto e, dentre elas, o diálogo do Cavaleiro com Carlos Magno (neto de Carlos Martelo e avô de Carlos, o Calvo Italino; não confundir este Carlos com seu descendente Carlos o Gordo, e nenhum dos Carlos supracitados, se bem que todos reis da França em sua hora, com o Simples Carlos, que não por isto deixou de ser monarca feito os outros. Apesar do epíteto, faríamos mal em ver neste último um antepassado de Carlitos).

Nossas interpretações daquele trecho diferiam. Ainda não tínhamos lido a obra, assim, a questão ficou pendente.

Um ano mais tarde Solís iniciava sua correspondência (inédita) com um brasileiro, através da revista O Cruzeiro Internacional, um tal de Thomas Denis, se não estou enganado. Naquela época me traduziu o trecho que provocara nossa diferença.

          Na resenha da edição em castelhano, edição que a bem da verdade nunca vi, o rei franco se assombrava com o fato de dentro da armadura não se encontrar alguém, e perguntava: ¿Cómo puede ser eso?  Ao que o Cavaleiro respondia serenamente: ¿Y cómo es de otra manera? Não descarto a possibilidade de que as palavras fossem outras, com o que teríamos uma versão distinta, contudo, o sentido era o sugerido por estas palavras. Não me lembro de como o diálogo se resolvia, e não vem ao caso.

Na tradução brasileira, a qual reproduzo para maior exatidão, lê-se:

 

          Falo com o senhor, ei, paladino! — insistiu Carlos Magno — Como é que não mostra o rosto para o seu rei?

A voz saiu límpida da barbela.

          Porque não existo, sire.

          Faltava esta! — exclamou o imperador. — Agora temos na tropa até um cavaleiro que não existe! Deixe-nos ver melhor.

Agilulfo pareceu hesitar um momento, depois com mão firme e lenta ergueu a viseira. Vazio o elmo. Na armadura branca com penacho iridescente não havia ninguém.

          Ora, ora! Cada uma que se vê! — disse Carlos Magno. — E como é que está servindo, se não  existe?

          Com força de vontade — respondeu Agilulfo — e fé em nossa santa causa.

          Certo, muito certo, bem explicado, é assim que se cumpre o próprio dever. Bom, para alguém que não existe está em excelente forma! (3)

 

          Percebe? – Solís ficou didático – Aqui Carlos Magno intui a futura Chanson de Roland (4) Lembra de como funciona o efeito de avanço-retrocesso apontado por Auerbach? (5)

          Sei. Aquele retomar em cada estrofe o primeiro verso da anterior.

          Exato. Parece-me que Calvino aplica à psicologia um recurso do épico-recitativo.

O argumento me tomou de surpresa, porque o trecho era o mesmo, porém sua leitura outra. Solís falava olhando o vazio, sem se importar se eu o acompanhava. Era como alguém que lê um texto pela primeira vez e em voz alta, ou que descobre as idéias à medida que fala. Nesses momentos sua voz estridente ficava mais aguda e desagradável.

          A hipótese não é arbitrária. Consideremos a perspicácia do futuro imperador, ele chora ao compreender que a humilhação é a forma de vingança de Ganelon.

          Perspicácia, aliás, também assinalada por Auerbach.

          E diminuída, de-sa-ce-le-ra-da, eu diria, por Ítalo Calvino.Veja como termina a cena – traduziu para o castelhano (o que agora se reproduz em português – N.T.) :

 

Agilulfo era o último da fila. O imperador terminara a revista; girou o cavalo e afastou-se rumo ao acampamento real. Já velho, tendia a eliminar da mente as questões complicadas. (6)

 

          O resultado desta equação é – Solís revolvia os braços feito moinho de vento -: um velho rei Carlos Magno, que Calvino já sabe imperador, , literalmente vê, no Cavaleiro Inexistente do século oito, o Roland do século onze.

          O que diz o original italiano? – apressei-me a interromper, pois ele ameaçava pular de galho em galho.(7)

          Seja qual for a resposta, temos, no mínimo, duas versões do mesmo fato literário. Eu já posso imaginar uma versão francesa ou austríaca, e nada me custa atribuí-la ao século dezoito ou vinte. Tanto faz! Daqui a duzentos anos ninguém vai se importar com estas datas, no caso de ainda alguém se interessar por literatura, é claro! Afinal, creio que a escrita, e a leitura, especialmente a de ficção, são meios  do pensamento, não sua finalidade – agora gesticulava como Rambaldo na Superintendência para Duelos, Vinganças e Máculas à Honra  8 – Até lá tudo ficará imerso num nebuloso passado que podemos chamar de clássico e que pressupõe, ou ao menos admite, o anacronismo. Se for verdadeira a afirmação de Calvino de que um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer,(9) O Cavaleiro Inexistente é tão clássico quanto a Chanson de Roland. Não seria impossível, tampouco, que uma das versões enriquecesse a obra, ainda que ao preço da traição. Também isto parece inerente à categoria do clássico. Lembre-se do Quixote! A figura satirizada por Cervantes se tornou paradigma moral, quando não moralista. Os séculos foram adquirindo a visão do Quixote. E não tenho certeza de que isto seja uma ironia

          Estava na hora de interrompê-lo. Quando a traição a Cervantes vinha à baila, o universo barroco se derramava numa torrente interminável de associações de idéias e metáforas intrincadas, mistura de citações com imagens do seu repertório já banidas da escrita. Assim, resignei-me a cumprir o papel de escudeiro (que outra pretensão não cabe ao escriba, escreveu J.L.), repetindo uma sentença sua:

          O Fidalgo de la Mancha, gênio e figura, usurpou na história o lugar do Manco de Lepanto! (10)

Solís aprovou minha ironia com um sorriso breve. E acrescentou a modo de revanche um dado intranscendente:

          A derrota de Roncesvalles deu-se em 778, Auerbach aponta o verso 779 como decisivo para a sorte de Roland – para aliviar meu espanto, confessou:- Não sei ainda o que isto significa, mas hei de sabê-lo. Quanto à usurpação de que você fala – o indicador magro, lança em riste,  cutucou-me o peito: o cavaleiro Solís carregava contra cem mil sarracenos -, por que não dizer que quando una obra apaga o autor, ela é clássica  e ele imortal?

A fala era típica de Solís, em cada retomada de um assunto incorporava elementos que o dilatavam até o vértigo.(11)

          No caso de Calvino – fez um gesto largo em direção à prateleira, convocando os livros como testemunhas -, daqui a algumas décadas, não muitas, creio, será possível citá-lo sem mencionar seu nome, e sem tê-lo lido, o que já é um grande passo em direção ao esquecimento da imortalidade. Quando esta hora chegue, será lícito imaginar uma reedição d’O Cavaleiro Inexistente, primeiro em italiano e depois nas outras línguas, que inclua as alterações de todas as traduções anteriores. Uma espécie de Bíblia do Rei James, na qual sua versão seja apenas mais uma. Então teremos a edição atualizada não pelo autor, coisa corrente, nem por especialistas de qualquer área, mas pelo leitor dito comum. Será uma obra em permanente transformação, porque é previsível que cada tradução deste novo Roland sofra as infidelidades próprias da narrativa oral, com o que teremos motivo para outras reedições e assim sucessivamente – contemplava as prateleiras como se estivesse vendo aquilo que profetizava -. Se cada idioma é o som de um espaço geográfico, incluamos o tempo em que cada tradução terá sido realizada, fazendo da obra um motu perpétuo. Creio que tal manipulação não seria estranha nem conflitante com a poética de Calvino. Creio que O Cavaleiro Inexistente nunca terminará de dizer aquilo que tinha para dizer.

          Por que não incluir as erratas ? – ironizei.

          Sim! Sejamos traidores , isto é, criadores, até as últimas conseqüências – afirmou no tom de quem não receia se contradizer para manter a coerência de um argumento – Sim! O erro é um lapso do copista que também deve ser considerado uma leitura, se não dele, do futuro leitor. Tenho a informação de um haikai de Bashô que suporta mais de cento e cinqüenta leituras diferentes em quase todas as línguas chamadas cultas. Creio que a reunião desses dados possibilitaria iniciar uma história da leitura.

 

Em 18 de setembro de 1997, enquanto labutava arduamente nestas mal traçadas linhas, um jovem e seu pai, Maurício Santos e Plínio, o velho (Atenção: não confunda este Plínio com o tio Plínio do epistolário Plínio, o Moço. Aquele Plínio feneceu em 79 d.C., em conseqüência da inalação de emanações do Vesúbio,(12) no dia em que o vulcão decidiu eternizar Pompéia. Este Plínio está muito vivo e bem disposto, Deus o abençoe!), apresentearam-me (sic) um livro de autoria de um patrício argentino (se bem que circuncidado, diria com duvidoso humor outro honesto vizinho do burgo bonaerense), livro este intitulado Uma História da Leitura (13), que inaugura a futura infinita bibliografia sobre o tema prevista por meu amigo portenho. Simultaneamente, Paulo von Zuben, viajante noturno do mesmo círculo de leitores e acessado ao mundo (Ah, os esoterismos da informática!), aditava a poranduba (14) (notícia) de um “livro” nos padrões sugeridos por Solís. O texto não é O Cavaleiro Inexistente, sequer é obra de Ítalo Calvino, contudo, não podemos deixar de notar a precisão das “coincidências” entre ambos.

            O “livro eletrônico” não conta com minha simpatia. Sintetizo o ato de ler nos gestos de molhar a ponta do dedo na língua e virar a página, segundo modelo fornecido por imprudentes frades beneditinos do século XIV. No limiar do terceiro milênio cultivo hábitos do século XIX. O termo livro me remete invariavelmente à imagem de papel impresso, prateleiras de madeira e salas crepusculares, não necessariamente hexagonais. “Livro Virtual” é aquele imaginado pelo autor, que ainda não tomou forma de códice, ainda é fato à espera de se tornar literalmente manuscrito.

            O “livro” em questão e seu autor me são indiferentes. Quais as infidelidades de cada tradução e quantas destas têm origem na língua original? Ignoro a freqüência e a qualidade das erratas, o número de cópias que os usuários da Internet fazem circular e os acréscimos que cada um deles devolve à rede. Quero acreditar que estão enriquecendo a obra. Fico satisfeito por saber que não é um texto de Calvino. Penso que seria injusto, em se tratando de O Cavaleiro Inexistente, que o nome de Rogelio Solís não estivesse vinculado a ele, apesar de reiterar minha repulsa a tal forma de publicação. Não desejo testemunhar o momento em que esta “biblioteca” babilônica inclua aquele romance. Sinto o desaparecimento da biblioteca clássica como um grande cataclismo, digamos: a submersão da Atlântida.

 

 

 

 

(1) Alusão à  Teses Sobre o Conto? Cf. O Laboratório do Escritor, Ricardo Piglia; S.P.,  Iluminuras,  1994, p.37 e ss.., Trad. Josely Vianna Baptista  (Nota de Jotahelle).

(2) Rogelio Solís (1929-1969), escritor argentino inédito. Todos seus manuscritos foram queimados depois de sua morte (N.A).

(3)  Ítalo Calvino: O Cavaleiro Inexistente; S.P., Companhia das Letras, 1993; p. 10. Tradução de Nilson Moulin (N.A).

 (4) Em francês no “original” (N.T).

(5) Erich Auerbach: A Nomeação de Rolando como Chefe de Retaguarda do Exército Franco, em  Mimesis; S.P., Ed. Perspectiva, , 1987; p. 83 e ss. (N.C).

(6) Ítalo Calvino; ibidem.

(7) A edição argentina diz: amenazaba irse por las ramas; expressão castelhana por: digressão, desvario, etc. O editor italiano acredita ver aqui uma alusão ao romance O Barão nas Árvores (Nota de um leitor javanês).

  8 – Ítalo Calvino; op. cit., p. 20 (N.A).

(9)  Ítalo Calvino: Por que Ler os Clássicos; S.P., Companhia das Letras, 1993, p. 11 (N.A).

(10) Como se sabe, Cervantes perdeu um braço na (por isso) célebre batalha de Lepanto (N. T. Espanhol).

(11)  Vértigo: vertigem. Em espanhol na versão francesa (N.T).

(12) Em espanhol na edição italiana (N.E).

(13)  Alberto Manguel: Uma História da Leitura; S.P, Companhia das Letras, 1997 (N.A).

(14) Em tupi-guarani (?)  no original  (N.T.Suíço).

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