PELA REDENÇÃO da PREGUIÇA por fernanda muller

Recentemente uma palavra do vocabulário japonês surgida na década de 80 tornou-se conhecida em outras partes do mundo. Trata-se do termo “karoshi” que designa aqueles indivíduos que morrem em decorrência do excesso de trabalho. Num país onde horas extras são um hábito diário, só no ano passado foram registrados 355 trabalhadores que adoeceram gravemente por esse motivo, dos quais 150 morreram, como revela um levantamento do Ministério da Saúde, do Bem-Estar e do Trabalho do Japão. O caso do gerente da Toyota, Kenichi Uchino, de 30 anos, que desmaiou durante o expediente e morreu no hospital de insuficiência cardíaca, já tendo acumulado mais de 106 horas extras no mês em que faleceu, deu notoriedade a um problema que preocupa as autoridades. O juiz Toshiro Tamiya, responsável por julgar o processo que concedeu indenização à família de Uchino, sintetizou o quadro: o trabalhador “estava tão cansado que não conseguia nem brincar com seus filhos”.

O que fazer diante de tal cenário?

Ocupando uma posição de destaque entre os temíveis pecados capitais, a preguiça costuma ser caracterizada como miscelânea de acomodação, marasmo e letargia. Sua síntese seria a aversão a toda e qualquer forma de trabalho, evitando a atividade seja ela física, psíquica ou intelectual. Há controvérsias, no entanto. As máximas segundo as quais a “preguiça é a mãe de todos os vícios”, em contraposição ao valor edificante do trabalho que “enobrece o homem”, merecem uma observação mais atenta.

Em primeiro lugar é bom saber que preguiça e trabalho já tiveram significados bem diferentes. Nas sociedades escravagistas da antiguidade, como a grega e a romana, poetas e filósofos proclamavam o ócio como valor indispensável para a atividade livre e feliz. Para eles, o trabalho equivalia à desonra, uma vez que só se alcançaria o pleno exercício da política, o cultivo do espírito e o cuidado com a beleza do corpo, dispondo-se de tempo. Trabalhar era uma pena que cabia aos escravos e uma vergonha para os homens livres pobres que não tinham quem trabalhasse por eles. É sintomático que sequer houvesse uma palavra capaz de designar esse ato em grego ou latim, sendo o nosso verbo “trabalhar” proveniente de “tripalium”, não por acaso um instrumento de tortura utilizado para açoitar escravos revoltos.

Na gênese da sociedade judaico-cristã trabalhar também simbolizava rebaixamento. A Bíblia deixa claro que quando Deus expulsou Adão e Eva do paraíso eles perderam o divino direito ao ócio, sendo condenados ao trabalho como pena para a expiação dos pecados. Todavia, com o passar do tempo a própria religião cedeu a uma interpretação inversa, defendendo o trabalho como algo de origem maior, enaltecedor por si só, enquanto a preguiça caiu em desgraça por ser o seu oposto, tormento e vício.

A grande ironia, discutida por Paul Lafargue em “O direito à preguiça”, é que essa inversão “coincide” com a ascensão do capitalismo. Isso porque, a Revolução Industrial ocasionou a necessidade de um contingente crescente de mão-de-obra para atender às demandas das fábricas. E a resposta foi a criação e a difusão de um tipo de “religião do trabalho”. Assim, enquanto mendicância e preguiça tornaram-se crimes que previam até a pena de morte, trabalhar tornou-se um direito institucionalizado. Mas e o direito ao descanso, às artes, ao lazer ou às praticas desportivas?

Se até bem pouco tempo países europeus ostentavam leis trabalhistas modelares, com jornadas de trabalho de 35 horas semanais e pensava-se que esse era o futuro, a ilusão parece desfeita. As modernas superpotências China e Índia mantêm jornadas de mais de 60 horas semanais, férias reduzidas, feriados escassos. Isso para não falarmos no caso do Japão. E são países como a França, conhecida pelo protecionismo ao trabalhador, que começaram a rever sua legislação trabalhista de modo a adequá-la à realidade de um mundo globalizado. Mais trabalho, menos lazer, nada de preguiça.

E quanto mais cada um trabalha, menos empregos são gerados. Essa afirmação paradoxal não é difícil de ser constatada na prática. Das pequenas empresas às multinacionais abundam exemplos em que se opta pela redução máxima do quadro de funcionários, ainda que à custa da sobrecarga e do sacrifício pessoal dos trabalhadores restantes. Nem mesmo a automação, que substituiu pessoas por máquinas, conseguiu garantir um tratamento mais humanitário com mais tempo livre aos remanescentes. Estatísticas revelam que mais de 50% da população existente no mundo hoje já é excedente, desempregada, à margem. E ano a ano essa cifra aumenta. Ao percentual restante que ainda dispõe de trabalho, cabe acotovelar-se para não perder a posição já ocupada, além de acumular novas funções como forma de melhorar a renda que, em geral, cai gradativamente.

Resgatar a preguiça nesse contexto não significa acabar com o trabalho. Lafargue, em 1880, propunha a diminuição das horas de trabalho como forma de abrir mais vagas no mercado, além da elevação da quantidade e da qualidade do tempo livre com o intuito de garantir o desenvolvimento pleno de cada trabalhador. Desenvolvimento que demanda tempo livre, ócio.

Essa idéia do ócio como ferramenta de conhecimento e crescimento pessoal – o que não deixa de ser uma variante da preguiça tal qual postulado por Lafargue – seria repensada mais de um século depois pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, autor de obras como A emoção e a regra, O futuro do trabalho e Ócio criativo. Diante da competitividade cruel, do estresse existencial e da prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional, o autor sugere como alternativa o cultivo do ócio, não do puro ócio, mas do ócio “criativo”, síntese do trabalho, do estudo e da diversão. Elevada à categoria de arte, a desocupação só seria aprendida e aperfeiçoada com tempo e exercício, única forma de retirar o trabalho do centro absoluto de nossas vidas e nos ensinar a valorizar paralelamente o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.

Para quem acredita que é um ideal impossível, De Masi acena dizendo que não, que muitas empresas já aderiram a tal reorganização do trabalho, embora seja imprevisível saber se algum dia ela será a regra. O fato é que há ganhos visíveis, como o aumento da produção de bens e de serviços e a diminuição do esforço físico e do estresse intelectual, para não falar nos ganhos sensíveis, quer seja, a possibilidade de usufruir de uma rede de interlocutores, de amigos e de colaboradores. Educados para privilegiar a satisfazer a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência, o ócio deixaria de ser sinônimo de violência, neurose e vício, para gerar arte, incentivar a criatividade e conceder liberdade.

É mais do que necessário que a cultura do trabalho sem limites pare de fazer com que funcionários dêem literalmente a vida pela empresa, não interessando a nacionalidade, o status da companhia ou seus dividendos. Como apelo final cabe reiterar as palavras de Lafargue e De Masi para que a preguiça produtiva ou o ócio criativo saiam do papel, permitindo que os funcionários tenham tempo livre para desenvolver suas potencialidades e a energia que Kenichi Uchino não teve para brincar com seus filhos.

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