SEGUNDA CARTA para JB VIDAL – de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

 

Esta é a segunda carta que lhe escrevo em menos de quinze dias.

Bobagem Grossa, diria você, quem quer saber de estatísticas ao pretender navegar na literatura? É verdade, adianto. Perdoe-me, é fraqueza do espírito ou excesso de influência do mundo moderno. Interessante que muitos de nós ainda insistimos em querer ser pós-modernos. Bobagem mais grossa ainda, melhor é ser sempre tempo presente. Falo do tempo Presente da Gramática. Eu estou, eu sou. Somente um dos dois ”to be” de Shakespeare!

Não sei por que, mas hoje estou particularmente triste. Não sei se é por conta da morte do Senador Jéferson Perez, paladino da ética na política; ou porque estou sem amigos com quem conversar; ou ainda porque descobri tardiamente a inutilidade da vida. Coisa Kafniana, parecido com o significado da frase “se era para morrer, porque passamos tanto tempo enganando o corpo e o espírito de que teríamos a eternidade”. Esta história de que o importante é a obra, é outra Bobagem Grossa, cortem-me os “possuídos”, como dizem no Nordeste. Todo ser humano, o genial ou o mais simples dos mortais, quer ser lembrado pelo que é não por sua obra. Até porque a maioria não tem obra nenhuma para ser lembrada que não seja seu sorriso, sua luta pela sobrevivência. E mesmo assim, quer ser lembrado “pelo que é”, muito mais do que “pelo que foi”.

Faço estas observações porque ainda ontem um profissional da câmera esteve comigo tirando fotografias na Praça Espanha da minha triste figura, hoje mais próxima de um Sancho Pança. O objetivo é ligar minha imagem à entrevista que concedi sobre o uso da bicicleta no Brasil e que será publicada num livro sobre mobilidade e trânsito.

Depois do ensaio fotográfico comentei com ele estar muito triste com a cidade e com o fato da atual administração me ter imputado uma multa gigantesca sobre o ISS que não concordo de forma alguma esteja a mim sendo cobrada. Aliás, aqui não presto serviços. Nesta cidade tenho mais atuado como turista de fim de semana. Sou o melhor dos contribuintes, pois ganho dinheiro em outras cidades e Estados brasileiros e trago os recursos para consumir aqui. Estou pensando seriamente em partir desta Curitiba ingrata, governada por políticos que colocam a sua imagem acima de qualquer outra coisa. A maioria possuidora de vaidade exarcebada, muitos deles usam ternos caríssimos, se portam como se estivessem indo receber um Oscar em noite de gala.

Mas deixemos estas considerações deletérias e um tanto babaquaras de lado e falemos ainda do sábado, mas do final da tarde, quando liguei para você e soube que estava em Morretes, provando de uma cachaça artesanal sem comentários. Pois quando liguei para você estava sobre minha bicicleta e estava caçando alguém para tomar uma. Depois de ligar para uns quatro amigos além de você, combinei com um deles me encontrar naquele bar onde tivemos nosso primeiro encontro, quando a Bia havia partido. Pedalei até lá e constatei que o bar fechou. Como estava perto, liguei novamente para o amigo e disse que estava indo para a Mara (Capelle). Fiquei por ali, por cerca de quarenta minutos, puto da cara, vendo o bar iluminado, a porta fechada, encostado à bicicleta, corujando algumas janelas iluminadas do edifício à frente. Nelas, várias mulheres apareceram nessa espera, mas todas cerraram as cortinas antes de fazer qualquer troca de roupa. Todas muito recatadas, nenhuma como sua amiga – a “Intelectual Pelada”. Azar delas, deixaram de servir como munição para a breve literatura de um literato menor.

Continuando a história, depois desses quarenta minutos enchi a paciência e resolvi bater palmas porque a boca e o fígado já estavam sedentos. Depois de vinte palmas eis que apareceu a mãe da Mara para me informar que o bar abre às 19h. De pronto informei que meu relógio, de forma insistente, mostrava: 19h 5min. Ela disse que a moça que abre o bar tinha saído para o mercado, estando atrasada no retorno; informou estar sem a chave da porta; e a Mara… dormindo.

Após mais dez minutos de espera tomei decisão drástica. Pedalei ao mercado, comprei queijos, uma caixa de pistache, um bom vinho argentino, e me dirigi para casa. Que jeito. Na falta de amigos – que se danem os amigos, fui beber solitariamente, em casa.

Desfecho da história. No sábado, o amigo que iria encontrar comigo na sexta-feira me liga e diz que passou no Capelle, mas às 22h. Também que havia acabado a bateria do seu celular. Mesmo assim me deu uma bronca. Como já era tarde também no sábado, resolvi ir dormir. Pensando bem, não era nem 22h, mas solitários dormem sempre cedo para não estender a solidão.

 

Curitiba, 25 de Maio de 2008.

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