Arquivos Diários: 7 junho, 2008

40 ANOS DEPOIS, 68 PERSISTE – por zuenir ventura

 

“Existe uma longevidade de 68 que todo mundo baliza. O jovem naquele momento falava de um jeito, cantava de um jeito e a gente sempre se pergunta o porquê daquele jeito. Não havia internet nem globalização. Acho até que é o primeiro episódio de globalização foi essa força de maio de 68. Foi uma explosão planetária.

Descobri que há um 1968 em cada canto. No governo, na oposição, no Congresso, no Supremo. Todo lugar tem ‘um 68’! Eu fui perseguido buscando estas pistas e vestígios de 68.

Comecei a observar um fenômeno que eram os filhos e netos da geração de 68. Eles vivem o que chamo de ´nostalgia do não vivido´. Há essa geração que não viveu aquele ano e que quer saber sobre 68, que gostaria de ter vivido esse período.

1968 é um ano muito carregado de simbologias, de desejos. É aquela juventude querendo mudar o mundo, cheia de voluntarismo e onipotência. Tinha muito aquela coisa de ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer`, como na música do Geraldo Vandré. Achavam que bastava ter vontade e mudar, mas não era bem assim porque havia a ditadura.

Tenho muito respeito por essa geração, embora hoje eu tenha uma visão não idealizada, mas crítica. Não acho que era tudo maravilhoso. Havia muita coisa errada.

Mas, foi uma geração muito generosa no sentido da entrega que foi, no caso dela, literalmente, de corpo e alma porque era um projeto coletivo e não pessoal. Era uma entrega, uma doação contra a ditadura. Uma parte dessa geração perdeu os melhores anos de suas vidas na prisão, no exílio ou sofrendo torturas”. 

livros sobre 68

“1968 – O ano que não terminou” era um livro que eu não queria escrever. Eu perguntava para o meu editor quem teria interesse em 68 vinte anos depois. Resisti muito e cheguei a apostar com dois colegas do Jornal do Brasil que acabaria logo na primeira edição. Aí, apostaram – ‘cada edição do livro, você paga uma garrafa de vinho,um jantar para a gente’. O livro está na 43ª edição e eu nunca paguei essa aposta que eles cobram até hoje!

A ditadura reprimiu e ficamos muito tempo sem poder falar sobre 1968. É o retorno do recalcado.

O meu primeiro livro sobre aquele ano  tem uma trajetória que surpreende porque, coincidentemente, o Brasil estava fazendo uma Constituição em 1988 (quando a obra foi lançada). Havia uma expectativa por ética e o livro acho que bateu. Nesse momento eu me lembro muito do último show do Cazuza, no Canecão. Eu estava num canto. Um rapaz ficou olhando para mim e chegou dizendo ‘Você não é o Zuenir Ventura?’. Respondi que sim e ele contou: ‘eu li esse seu livro sobre 1968 e, olha, continue assim’. Prometi que sim.

Este segundo livro nasceu por conta própria. A idéia era fazer uma edição revisada do primeiro livro, mais atualizada, e só. Aí eu comecei a revisitar personagens. Por exemplo, três amigas minhas que em 68 estavam com 22, 23 anos e hoje são avós. Essas três avós, que viveram a revolução sexual, falam sobre a geração delas e a dos netos. Achei legal viajar por essa experiência e fui caminhando por aí.

Não pensei em escrever um livro 40 anos depois. 1968 foi um ano muito misterioso e muita gente me perguntava ‘e aí, esse ano vai terminar ou não?’ Escrevi ‘1968 – O que fizemos de nós’ para responder a isso”.

Semelhanças, diferenças e fragmentos encontrados hoje 

“A primeira parte do livro tem o meu olhar e minha busca como repórter atrás de informações. Acompanhei uma batida policial na zona sul do Rio, às 4:00 da manhã. É uma vivência e meu olhar buscando semelhanças e diferenças entre 1968 e 2008.”

A segunda parte do livro se chama ‘De olho na herança’, onde eu pego sete personagens de 68 que, ao longo desses 40 anos, tiveram trajetórias distintas, às vezes antagônicas, mas todos chegaram próximo ao governo ou ao poder ou neles estiveram”.

O livro estava nascendo desse jeito e com grandes surpresas. Algumas coisas eram esperadas e outras completamente inesperadas, como por exemplo, encontrar vestígios de 68 numa rave.

Participei de uma rave e escrevi o capítulo ‘A primeira rave a gente nunca esquece’. Imagine eu, um senhor, de 1,85 m de altura no meio de 25 mil jovens. Minha parceira tinha idade para ser minha neta e foi me guiando. Achei que seria o maior mico aparecer um idoso lá, mas não me deram a menor bola. De vez em quando um passava e dizia ‘Parabéns,coroa!’.

Quando entrei na rave comparei com um Woodstock do século XXI. Há uma coisa hippie porque a moçada toda tem um visual meio psicodélico. Parecia uma festa hippie dos anos 60″.