Arquivos Diários: 8 junho, 2008

CÂNTICO para os sobreviventes – poema de manoel de andrade

 

O sol não nasceu naquele dia

e durante vinte anos ficou proibido amanhecer.

Nossas vidas… algumas em botão

desabrocharam numa paisagem devastada.

Nossas canções e o encanto daqueles festivais

foram sufocados pela sinfonia marcial dos regimentos.

Nosso norte foi retirado do horizonte,

nossas bússolas quebradas

e o destino da pátria ancorado nos quartéis.

 

Durava cinco anos o outono oficial

quando no parlamento disseram basta aos generais

e eis que o ditador apagou as luzes derradeiras

e no palco fugaz e ilusório do poder

abriu-se o quinto ato da tragédia nacional.

Então todas as sanhas foram desatadas

amarrando nossos punhos

acuando nossos sonhos.

As tribunas do povo foram derrubadas

e a todos foi imposto o sabor da abstinência

nosso grito de protesto amordaçado

nossas canções silenciadas

nossa coragem esmagada pela esteira dos blindados

invadiram nossos lares

nossas almas foram devassadas

acorrentaram a liberdade e cuspiram na justiça

maquiaram a verdade, esbofetearam nossos sonhos

e a nação insultada vestiu-se de vergonha.

 

Pelas guaritas do poder mil retinas te observam

mil bocas te delatam

e uma sombra segue teus passos…

Depois teus punhos são algemados

e gargalham sobre teus direitos.

Pela química do suplício tu confessas o inconfessável

e os ideais de todos agonizam quando geme um valente.

Nos porões da “inteligência” se aprimoram os gritos do martírio

e só a morte estanca a dor do interrogatório.

Enfim o pânico desterra a esperança

e uma amargura imensurável se aninha no coração da pátria.

 

Naquele inverno longo e cruel

as sombras tenebrosas da opressão cobriram as terras do Cruzeiro.

As sementes não ousaram renascer

os frutos encruaram

as flores foram encarceradas, desterradas, abatidas.

Aqueles foram nossos anos de infortúnio

nossos “anos dourados” pelo genocídio cotidiano

pela dieta do fel e da impotência

pela assombrosa dimensão do medo

pelo silêncio angustiante dos vencidos.

 

Quando só restou a escuridão no fim do túnel

e nossos olhos mendigavam por uma réstia de luz, uma esperança…

então surgiste tu…

e tu te chamavas Resistência…

Todos sabíamos que virias

porque tu surges na encruzilhada revolucionária dos povos

e a tua história é a história da própria humanidade.

E eis porque tua bandeira tem mil pátrias

a tua face tem mil rostos

e o teu braço tem mil punhos.

E eis por que escrevo teu nome na linha de fogo dos meus versos

para denunciar os que mancharam tua imagem

para dizer que a tua saga será reescrita pela pátria comovida

e por isso te chamo Marighella, o grande camarada

o combatente da primeira hora, na ação e na vanguarda.

E te chamo Carlos Lamarca, o capitão rebelde

que honrou com sangue a farda guerrilheira.

Com respeito te chamo Gregório Bezerra

e saúdo a coragem sexagenária arrastada pelas ruas de Recife.

Minhas lágrimas ainda cantam por ti, Vladimir Herzog

porque sinto que uma parte de todos nós, sobreviventes, foi contigo pendurada.

 

Sim…, tu te chamavas Resistência

e me lembro agora do teu primeiro martir

quando ainda era juvenil tua beleza

e um estampido emudeceu o teu discurso de mil vozes.

Então um corpo tombou no fim da tarde

e por isso te chamo Edson Luiz e canto dezessete primaveras

sangrando sangrando sangrando numa multidão de lágrimas

e relembro um coração de estudante

escorrendo palpitante num peito perfurado.

Sim…, tu te chamavas resistência

e eram muitos e muitos os teus nomes.

E hoje, em memória de tantas vidas silenciadas,

trago, nesse solitário canto de combate,

o testemunho e o tributo da poesia

pra remarcar o nosso inconquistável território

e descrever a tua face com as palavras Ibiúna e Araguaia

e por isso digo dez, digo cem, digo mil

e digo que quisera nominar todos os bravos.

 

E agora que o tempo secou a imensa lama

e os sobreviventes saíram das trincheiras;

agora que exumamos nossas vítimas

e os verdugos a tudo assistem impunemente;

perguntamos se o tempo também secou o rio de lágrimas,

se o coração das mães já despiu o amargo luto

se os órfãos receberam as respostas

se os amantes encontraram outros braços.

Pergutamos se todos os dossiês já foram abertos

se todas as senhas foram decifradas

porque prostituiram a justiça impunemente

e se os pretorianos já cumpriram a penitência.

Perguntamos se todos os nossos mortos já receberam sepultura

se a história já revelou o preço da tragédia

e quem arrancará de nossa carne esse espinho lancinante.

 

Perguntamos…, até quando durará essa cumplicidade e esse silêncio

quando será revogado esse decreto

e em que tribunal responderão enfim os acusados.

 

Eis aí nossa Guernica!!!

mas tu ressurgiste triunfante dos escombros

trazendo em teu corpo as cicatrizes do calvário.

Foste afogada com o sangue dos caídos

mas és agora a redenção e a herança dos vencidos.

Tu és o tribunal na consciência dos tiranos

dos oprimidos és o baluarte e a véspera da vitória

a espada de Espártaco eras tu

fostes as lanças araucanas de Lautaro e de Caupolicán

e a imagem gloriosa da América

estampada na praça do martírio de Tupac Amaru.

O sonho americano de Bolívar foi escrito com teu nome

porque tu és a fonte, o cântaro, a água que embriaga,

sede perene da alma, da vida tu és a dádiva suprema.

Foste a tribuna dos abolicionistas

e assinaste a glória da pátria com a mão de uma princeza

és o hino dos militantes, o cântico triunfal, delírio

bandeira dos inconfidentes, ainda que tardia

Liberdade, Liberdade

meu único amor

meu peito de viola te entoa enamorado.

 

Saúdo os que ousaram preservar seu sonho

e em nome de todas as bandeiras libertárias, vos saúdo…

a história vos saúda

porque nosso destino está tatuado nas estrelas…

a liberdade vos saúda

no significado revolucionário da verdade…

a beleza vos saúda

no lirismo imaculado da poesia.

E lá atrás,

muito antes desse imenso pressentir,

quando meus passos cruzavam o chão fraterno de outras pátrias,

quando a América era uma só trincheira

e a luz fulgurante de uma ilha iluminava, do Caribe, os nossos sonhos,

com minhas canções de bardo itinerante

eu cantei tantas vezes essa aurora ainda por vir

e saudei comovido o reencontro da bravura.

 

Quem dera que essa estrela na lapela dos sobreviventes

seja o sol que estreabre a madrugada

e que essa luz não se apague pelas sombras insinuantes do poder

para que não seja abortado esse parto da esperança.

Quem dera que aqueles que agora hasteiam o estandante da conquista

construam para este povo a morada da justiça

e anunciem ainda um dia a véspera de um perene amanhecer.

Quem dera ver enfim a grande primavera

e o chão da pátria por inteiro semeado

qual útero e celeiro da real fraternidade.

 

Saúdo os que sobreviveram

na amarga história de um tempo aprisionado.

Na lembrança e na saudade de um bando de pássaros que arribaram

e pousaram nos nostágicos territórios da distância.

Saúdo os sobreviventes de tantas lutas abortadas

de tantas trincheiras abertas pela fé de uma bandeira.

Companheiro, meu irmão, meu camarada…

na vida e na morte,

na intenção do bom combate

e no imortal sacrário da poesia,

brindo teu nome com a taça do lirismo

e te ofereço o sabor rebelde dos meus versos

para saudar-te na memória imperecível dos caídos

e com a paz da utopia que buscamos.

 

                           Curitiba, Junho de 2003

 

 Este poema consta do livro CANTARES, editado por Escrituras.

 

CONGESTÃO NO TRÁFEGO por walmor marcellino

 

“Ainda não estamos por essa” – disse uma autoridade ligada ao sistema viário de Curitiba. Enquanto todos vêem, sentem e se irritam com o congestionamento do trânsito de veículos, um “cientista do tráfego” distrai: “Ainda não precisamos impor tráfego alternativo para essa implosão no trânsito de automóveis particulares nas rodovias centrais da cidade”. Um balde de gelo nas propostas de diminuição circulatória dos automóveis. Por que essa esdrúxula fala?

Nós sabemos e ele também sabe que essa medida é necessária e urgente, porém ele sofisma: “Temos é que melhorar o sistema de transporte público”. Surpreendente? Não. Apenas óbvio e, naturalmente, paralelo a outras medidas cujo conjunto nos poderá conduzir para a racional civilidade. Então, por que esse luminar técnico disse isso? Porque ele teria idéia e compromisso com a frota de ônibus, cuja concessão pública é em si um dos atrasos desse sistema de privilégios com que os prefeitos vêm afagando os donos de empresas?

Derivando para o mais sério: Desde o prefeiturismo provisório de Maurício Roslindo Fruet (1983-84), quando se propôs o “trolley-buss” (com a facilidade de uma parceria Curitiba-Copel, a custos baixos), nós fomos politicamente ludibriados, porque nem José Richa quis nem Maurício se empenhou; e quando chegou às mãos de outros prefeitos, o negócio eleitoral tinha outros assentos: nas mãos do IPPUC de Lerner e do prefeito Jaime Lerner os acertos liberais com as empresas que fazem ônibus, fazem tubos, e a população entrou alegremente pelos tubos ‑ tudo engalanado com a propaganda enganosa que até hoje nos “rejubila como cidade de outro mundo”, e não falta continuador para essa impostura. Bem, fomos e somos enganados: até um candidato do PT a prefeito, a quem sugeri aproveitamento da ex-BR-116 (Atuba-Pinheirinho-Mandirituba; olha que leito rodoviário largo pronto para abrigar 10 pistas de veículos!), que entretanto tinha rabo amarrado a tantos marquetólogos e financiadores de campanhas, me olhou com insigne desprezo.

Sabemos que o sonho do metrô é assunto para 20 anos, se houver financiamento à mão; e que o ônibus elétrico custará menos de um terço, com a possível parceria da COPEL, desde que o discurseiro de um milhão de obras em fotos na capital e na TV converse a sério com o retórico de esquerda em epílogo de mandato no governo do Estado. E então, em vez dessa controversa publicitária idiota na COMEC e no IPPUC, podemos ter média solução a curto prazo: porque cerca de 35% dos trabalhadores fazem o trajeto do norte-nordeste de Curitiba (Rio Branco do Sul‑Colombo‑Almirante Tamandaré‑ Piraquara‑Pinhais) até a Cidade Industrial‑Pinheirinho‑Fazenda Rio Grande.

Entretanto, como a Câmara Municipal tem funcionado com vereadores “despachantes da Prefeitura” no tráfico de interesses escusos, como concussionários do erário público, e a imprensa livre e democrática assumiu sociedade nessas negociatas, ficará tudo como está.

RIO SÃO FRANCISCO: “RESPEITO AO VELHO CHICO” – por mauro chaves

Ao se omitir de um debate profundo sobre o projeto de transposição do Rio São Francisco, deixando que a sociedade brasileira e as futuras gerações venham a sofrer os efeitos desastrosos de um “fato consumado”, imposto pelo governo, o que pode resultar numa obra tão faraônica quanto ambientalmente estúpida, o Congresso Nacional está passando um recibo de criminosa irresponsabilidade.O Velho Chico, rio da integração nacional, cuja força das águas já foi tamanha que durante séculos o fez avançar vários quilômetros adentro do Oceano Atlântico, a ponto de embarcações pararem em pleno oceano para se abastecerem de sua água doce, hoje sofre em sua foz um trágico recuo, por insuficiência de vazão. Já se disse que esse projeto de transposição é a transfusão que tem como doador um doente internado na UTI. Se a idéia de levar águas do São Francisco, por gravidade, para o semi-árido do Nordeste setentrional já estava na cabeça generosa de dom João VI, é porque naquele tempo não existiam açudes, nem adutoras, nem estudos hidrogeológicos.

Durante séculos muitos têm defendido a transposição como solução salvadora para a tragédia das secas. Mas a quantidade formidável de açudes já construídos – que já chega a cerca de 70 mil – e a possibilidade de retirada de água do subsolo nordestino (que, embora muitos não saibam, é abundante em água) sugerem soluções muito menos dispendiosas e mais eficazes para distribuir água às populações que dela mais necessitam. E distribuição, no caso, é a palavra-chave, pois em grande parte a malsinada “indústria das secas” nordestina tem sido mantida pelos chefetes políticos para comandar o abastecimento de água de seus currais eleitorais. A transposição não significará a oferta de água a 12 milhões de nordestinos – como têm dito seus defensores -, mas sim a canalização para determinados projetos de irrigação do agronegócio, enquanto falta distribuição de água até para projetos e populações bem mais próximas do rio, nos Estados ribeirinhos.

O engenheiro Manoel Bomfim Ribeiro, especialista em hidrologia e geologia, ex-diretor do Dnocs e autor do livro Potencialidades do Semi-Árido Brasileiro, num texto sobre as obras inconclusas do Nordeste assevera: “A indústria das secas é um fato inerente à vida política da região nordestina tendo como carro chefe o pipa a desfilar pelos nossos sertões sequiosos, onde o chefe político exerce o seu poder sobre a água. Esta indústria vem num crescendo constante com obras de todos os tamanhos, açudes, canais, adutoras, obras inconclusas. Agora é a vez da Transposição, obra inócua e desprovida de significado, pois que o Nordeste setentrional, penhoradamente, agradece e dispensa as águas do rio São Francisco, por total e absoluta falta de necessidade, uma vez que já acumula, somente nos oito grandes açudes, 13 bilhões de metros cúbicos de água (5 vezes e meia a baía da Guanabara), exatamente os 8 açudes plurianuais que irão receber os magros 2 bilhões/m3 anuais (127m3/s) advindos do canal da Transposição. A evaporação anual dos 13 bilhões é da ordem de 4 bilhões, o dobro da água que vai chegar do rio. Uma irrisão. Mais ainda, os 3 Estados mais ávidos por mais água, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, já acumulam nos seus imensos reservatórios 26 bilhões de metros cúbicos, 70% das águas estocadas no semi-árido brasileiro, 11 vezes as águas da baía da Guanabara.”

E em outro texto escreve o especialista: “Dos aqüíferos do Nordeste podem ser extraídos até 20% das reservas existentes, cerca de 27 bilhões de m3/ano sem queda de pressão hidrostática, pois são reabastecidos, anualmente, pelas águas de chuvas e que drenam verticalmente para o seio da terra. Só extraímos até hoje cerca de 4% deste potencial disponível, 800 a 900 milhões de m3 através de 90.000 poços, sendo que 40% destes estão paralisados por razões diversas menos por falta de água. O deserto de Negev, com área de 16.000 km2, fornece para Israel 1 bilhão de m3/ano de água extraído do seu subsolo, mais que a produção da nossa região cuja área é 60 vezes maior que aquele deserto.”

Para o jurista Ives Gandra Martins, há pelo menos cinco argumentos sobre a inconstitucionalidade da transposição: fere o pacto federativo – atinge quatro Estados que não foram consultados (Minas, Bahia, Sergipe, Alagoas); fere o princípio da razoabilidade – já que há formas menos onerosas, sem prejudicar o Rio São Francisco, utilizando-se de reservas de água do subsolo ou da interligação de açudes nos Estados donatários; fere o princípio da proporcionalidade – ao, em vez de revitalizar o rio, enfraquecê-lo ainda mais com a transposição de suas águas; fere o princípio da preservação ambiental – por destruir fauna e flora das margens do Rio São Francisco, além da flora fluvial e das espécies de peixes; fere o princípio da eficiência, pois se gastará mais dinheiro dos contribuintes para um projeto muito mais oneroso do que o da ligação dos açudes ou da retirada de água do subsolo.

Esse projeto faraônico, de pelo menos R$ 15 bilhões, além de poder resultar em desastre ambiental – como o do Rio Colorado (para o México) e o do Rio Amarelo, na China, dentro do “espetáculo de horror dos rios que morreram” a que se refere João Alves Filho -, está criando uma cizânia entre os Estados ribeirinhos e o do Nordeste setentrional, acirrada pelo presidente Lula, quando disse aos cearenses que seus irmãos nordestinos não lhes negarão (com a transposição) “uma cuia de água”. Só não contou que está mandando o Velho Chico pra cucuia.

Se o Congresso mostra vergonhosa frouxidão em não debater esse tema, cabe à sociedade mobilizar-se para fazê-lo.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor.

Rumorejando (Pratica e sintomaticamente só sobre os mesmos assuntos comentando). por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (Quadrinha de seis (Sextinha?) que deixa a gente sorumbático e obnubilado).

Foi com muita presteza

Com prestimosidade

Que ela repudiou

Minha atropelada afoiteza

E, de vez, descartou

A minha enaltecida virilidade.

Constatação II

Quando o obcecado leu na mídia que viagra e congêneres podem causar surdez, do alto de sua sapiência ponderou filosoficamente a sua teoria da relatividade: “É melhor ser surdo do que ser broxa”.

Constatação III

A Rádio Educativa tem divulgado a música brasileira onde, além de autores paranaenses, apresenta os pesos pesados de compositores, intérpretes, músicos, formados, apenas citando alguns poucos, como Ataulfo Alves, Pixinguinha, Cartola, Dorival Caymmi, Adoniram Barbosa, Abel Ferreira, Jacó do Bandolim, Paulinho da Viola, Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, Valdir Azevedo, Noel Rosa, Vadico, Roberto Ribeiro, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Chico Buarque de Holanda, Sergio Bittencourt, Agostinho dos Santos, Toquinho, Martinho da Vila, Gilberto Gil e do lado feminino Maysa, Elizete Cardoso; Dolores Duran, Chiquinha Gonzaga, Aracy de Almeida, Bety Carvalho, Alcyone. Só resta, agora, depois destes poucos exemplos, a Rádio Educativa ressuscitar a programação de música clássica, que foi praticamente cortada pela estatal emissora. Às 22 horas, apenas, não é suficiente. Ainda mais pra quem dorme cedo. Tenho expectantemente dito.

Constatação IV (Profeta do inverso?).

O obcecado

Ficou inicialmente,

Embasbacado,

Encantado

De ser, pela escritora,

Decantado,

Em prosa e verso.

Ela, renomada autora

No final do texto,

Pra ele controverso,

Chamou-o, no contexto,

Sem algum pretexto,

De profeta

Do inverso,

De renomado,

De célebre pateta,

Tão-somente.

Coitado!

Constatação V

Não se pode confundir obcecado com obsessivo, até porque o primeiro só pensa naquilo; já o obsessivo é quem persegue os seus objetivos, podendo, eventualmente, serem os mesmos do obcecado, mas não necessariamente. Elementar, minha gente…

Constatação VI (E já que falamos no personagem…)

Sentiu o obcecado

Delas um descaso

Passou a ser chamado

De água-morna

E entrou no ocaso,

Num baita ostracismo,

Num baixo astral,

Com a baixa da “moral”

E também num pessimismo

Cabal,

Existencial.

Aí ao consumo de ostras apelou

E de ovos de codorna;

Viagra, cialis e levitra tomou;

Chá de catuaba adotou.

Com o tempo melhorou

Mas nunca, jamais

A performance ficou como as demais

Quando tinha 20 ou 30 anos

Sem que houvesse ocorrido desenganos

De ter ficado desapontado.

Coitado!

Constatação VII

Na encruzilhada

Da p. da vida,

Sem melhor saída

Depois de muito pensar,

Ele optou

Com a malvada

Da sogra morar.

Solenemente

Se ferrou..

Acabou

Traumatizado,

Agoniado,

Ulcerado,

Finalmente

Hospitalizado,

Por estar

Esgotado

Tão-somente.

Coitado!

Constatação VIII

Rico amealha bens; pobre, dívidas.

Constatação IX

Rico, com auxilio de uma máquina de calcular financeira, faz as contas do que é mais vantajoso: pagar à vista ou, com juros, à prestação; pobre não tem opção.

Constatação X

Rico é obliterado* de algum lugar (emprego, colaboração com jornal, etc.); pobre, é “ponhado” pra fora.

*Obliterado = 1. fazer desaparecer ou desaparecer pouco a pouco; apagar(-se); 2. fazer sair ou fazer deixar de existir; destruir, eliminar, suprimir (Houaiss).

Constatação XI (Teoria da Relatividade para principiantes, enaltecedora).

É muito melhor torcer pelo Paraná, mesmo que esteja disputando a segundona do que torcer por qualquer outro time esteja onde estiver em qualquer outro lugar do mundo.

Constatação XII

Promessa de político é que nem fantasma. Ninguém jamais acredita. E mais, dúvida que se materialize.

Constatação XIII (Quadrinha dedicada aos interesseiros e interesseiras).

Casar por interesse só

Precisa ter muita bossa

É entrar num forrobodó*

É uma patifaria da grossa.

* Forrobodó = “confusão, tumulto, balbúrdia; briga” (Houaiss).

Constatação XIV

Tomou

Uma garapa

Com gosto esquisito

E pro vendedor,

Velho conhecido, falou

Com certo clamor:

“Parece uma zurrapa*

Mas será, ó Benedito?!”

*Zurrapa = “qualquer bebida de mau sabor; de má qualidade, de baixa categoria; ordinário

Constatação XV (Dúvida não necessariamente crucial).

Tentar um diálogo com um cordato é permanecer num monólogo?

Constatação XVI (E já que mencionamos o assunto).

Rico é eventualmente cordato; pobre é sempre maria-vai-com-as-outras.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

POEMAS de NINA PADILHA – por helena sut

Ela conhece a linguagem dos homens. Compreende suas palavras e seus silêncios e traduz de uma forma particular a narrativa do amor e do abandono – do canto e do grito – enquanto folheia as páginas perfumadas de suas vivências. Reconhece, na indiferença dos dias, a construção da Babel contemporânea que enlouquece e fragmenta, mas, travessa, brinca com os degraus do sorriso e, quando anoitece, recolhe-se na extremidade de sua construção e vela as veredas do destino.

 

Conheci Nina Padilha na primavera parisiense. Suas metáforas lançadas instintivamente como polens de poesia germinaram em meu pensamento como tulipas. As fortes cores podem esmaecer nas estações sucessivas, mas a essência permanecerá com a perenidade de um jardim de vivências.

 

Como forte presença, como suspensa nostalgia…

 

Escrever sobre Nina Padilha, cantora e compositora francesa, apaixonada pelo Brasil, sem compartilhar os seus poemas seria absurdo. Flor Pisada e Folha de Papel…

 

FLOR PISADA

Nina Padilha

Sentada no meio do silêncio escuro,
Quieta, parada, eu respiro o luar
Que pinta você em prata e luz no muro.
Sinto pena de mim: eu não sei mais voar.

Meus pensamentos esfriando no cinzeiro
Onde apaguei tantos gritos calados.
Minha mão afagando o travesseiro,
Procurando sombras de sonhos roubados.

Lembranças lúdicas fazem sorrir a dor,
Mas a tua ausência me impede de crer em Deus.
E a saudade vem pontuar de amor 
A inutilidade desses versos meus.


FOLHA DE PAPEL

Nina Padilha

Minha mão tremendo, quase nada,
Afagando a folha imaculada,
Folha de papel onde, empolgada,
Versifico o amor de madrugada.

Mas quem acredita no amor
Fica sem defesa e sem pudor.
Tem um coração de sonhador
E nem se assusta com a dor.

Essa dor sutil me atordoa
Quando o pensamento vai a toa.
Ouço a tua voz e me magoa
Aquele silêncio onde ela ecoa…

Nossa! que silêncio tão sentido.
O meu verso até ficou detido.
Eu me arrependo de ter ido
Numa contra-mão, rumo perdido.

Minha mão tremendo, quase nada,
Segurando a folha rabiscada.
Folha de papel onde, cansada,
Eu matei o amor na madrugada.

 

 

VERDE-ROSA e AJUSTE DE CONTAS – mini contos de raimundo rolim

Verde-rosa

 

 

O dia amanhecera verde. Nuvens verdes, sol verde, montanha verde. Bichos e flores e rios. Tudo verde. A bem de se restabelecer a verdade, o verde era degrade, porém verde! Pássaros, frutos, crianças; verdes! O cheiro do ar era cheiro de cheiro-verde e a chuva que por incrível que pareça caíra farta no meio da tarde, era verde água verde. O ar cheirava a clorofila verdadeiramente verde. A borboleta de asas verdes pousou na flor de pólen verde e alçou vôo num vento verde. Uma vaca igualmente verde comia alfafa verde, que fora colhida ainda há pouco. O capataz verde carregava um balde verde e fumava um cigarro de palha verde, cuja fumaça verde se misturava às outras cores verdes, que condiziam plenamente com seus dentes e sorriso verdes. O bezerro mamava na teta verde da vaca-mãe, cujo leite verde alimentava o filhote. E o seu cocozinho de bezerro verde era igual a tudo que verde era. O telhado verde da casa grande e verde era de um verde musgo, em cujo cume os ninhos verdes das pombas esverdeadas estavam repletos de ovinhos verdinhos, à espera que alguns biquinhos também verdes, começassem de dentro pra fora a conhecer a vida que ali rolava verde. O carro verde do fazendeiro deu a partida e expeliu monóxido de verde carbono e o motor roncou um ronco verde de muitos cavalos de força de um verde forte e robusto. O homem deu uma marcha à ré esverdeada, e os pneus verdes deslizaram pelo barro de igual teor e cor, arrancando do chão a poeira verdíssima que cobriu a estrada verde que se confundia com o mato verde rente a cerca de madeira nova, de onde floresciam brotos tenros e verdinhos, cujas cabras verdes roíam num vai e vem silencioso de bocas verdes. O dia seguinte amanheceu absolutamente róseo. E alguém fazia um samba!

 

Ajuste de contas

 

O bandoleiro: Apeou-se. Ajeitou o chapéu. Consultou no coldre o colt quarenta e cinco. Cuspiu nas mãos. Esfregou-as pelo rosto para aguçar os sentidos, pois o barulho iria começar. O xerife: Sentado à soleira do seu escritório-prisão, com a lâmina do canivete, limpava as unhas da lama e pólvora frescas que se acumularam nas ranhuras, enquanto sua espora fazia um barulho danado no assoalho semi-estragado de madeira cheia de frestas pelas quais se podiam ver restos de antigos resíduos e cartuchos vazios de balas já utilizadas em muitos confrontos com assaltantes de banco e ladrões de cavalo que por lá eram tidos como parte da rotina. O ajudante do xerife: Uma estrela rude e frouxamente pregada ao colete, fumava um eterno e torto charuto que vivia apagado, enquanto revirava os olhos num silêncio reprovador; pois a mosca que o atormentava há dias era daquelas que quando achava um sossegadão não o largava enquanto não desvendasse toda a paciência que a suposta vítima teria. Do seu canto e à espreita, o bandoleiro consultava cada movimento que antecederia o grande confronto. Seria a sua experiência posta em prática de muitos e muitos anos de duelos espetaculares e ousadas fugas das prisões por roubo de gado (quando por mais de vinte vezes escapara de ser enforcado na árvore mais próxima). Com muito cuidado verificou quantas balas tinha ainda no cinturão. Olhou sem fazer alarde o tambor do velho Drug (como ele chamava a sua máquina mortífera de cuspir fogo) e contou quantos tiros poderia dar antes que o pegassem se é que o pegariam desta vez. Aquele xerife lhe devia o andar coxo e a cicatriz indelével na perna que nunca mais ficara boa depois do assalto desafortunado quando o trem não parou e ainda arrastou vários de seus amigos desta para a outra. Isto se deu do outro lado da fronteira. Sabia das qualidades do homem da lei. O quanto o mesmo era sagaz. Que sua fama ia muito além do território do penúltimo Moicano. Lembrou-se com certa raiva pelos muitos colegas de trabalho que perdera nos últimos dez anos de esforço e dureza. O rosto de cada um, seus nomes, suas gargalhadas gostosas, de quando se saíam bem das refregas que eles próprios armavam e buscavam com extrema freqüência. Como o Jeff, o rapazola que vivia a perseguir mocinhas desamparadas, além das órfãs e viúvas. Mas no fundo, um bom rapaz. Até tímido lhe parecia e de como o encontrara junto à cerca que cortava o riacho do rancho dos Greg. Milhares de formigas dentro de sua boca grande e descarnada. Fez uma cara brava por Tilt, seu outro amigo de pistolagens e que caíra varado de balas, – todas pelas costas -, quando fugiam de uma emboscada onde dois ou três escaparam com vida, dos doze que se propuseram a ir a semelhante empreitada. Enquanto rodava o tambor do velho Drug, lembrou-se de mais um dos amigos de infortúnio, o Frank. Este lhe confiara uma carta mal escrita, com três ou quatro linhas, para que fosse entregue àquela moça ruiva que trabalhava num saloon, pois a mesma lhe prometera que se ele saísse daquela vida alucinada lhe daria três filhotes: um menino e duas meninas; que alegraria o resto de seus dias e que morariam numa cabana nas montanhas que ele, Frank, prometeu de pés juntos, construir com as suas próprias mãos. A este último detalhe, seu sangue, que nunca repousava lá muito tranqüilo, ferveu pelo instante em que a memória guiou-lhe até outro rosto, o do Bastard, a quem devotava grande amizade, por já tê-lo tirado de grandes enrascadas, como no desastrado assalto à diligência, (que ao invés de dinheiro, levava pequeno e eficiente contingente de soldados que enfrentariam os Apaches em memorável e histórica refrega) e não fosse por este amigo, (que este mesmo xerife – agora sob sua mira – arrastara sem piedade pela cidade, amarrado na cela do próprio cavalo que em pleno galope, acertara-lhe coice certeiro na cabeça, causando-lhe morte humilhante…) Bem, então eram horas de acertar todas as velhas contas. Pensou finalmente em Derby, o homem mais rápido que já vira em toda a sua vida… e que também combalira furado qual peneira frente ao mesmo homem com o qual iria se confrontar agora. Encerrou todas essas memórias com decidido passo a frente, colt apontado, olhos fixos, pensamento e ações concentrados e… tombou morto, mortinho da silva o bandoleiro! É que o xerife já o percebera desde a última curva da estrada, quando um fio de poeira se levantou, pois só ele, o bandoleiro coxo, levantava aquele tipo de poeira em fios espirais em seu cavalo muito rápido e preparado, que também tinha um jogo diferente nas articulações e patas. Não seria ele, o xerife, que lhe daria a mínima chance, óbvio, já que também conhecia bem cavalo e bandoleiro. Era o jeito deles lá. O homem da lei levantou-se e fez o centésimo segundo risco na parede do seu escritório. Voltou a sentar-se calmo, a limpar as unhas da lama e pólvora frescas que se acumulavam cada vez mais nas ranhuras, enquanto com um rápido e silencioso olhar, ordenava ao seu ajudante, que se livrasse daquela mosca e daquele corpo estendido no chão do olho da rua.